Criara seis filhos. Sentavam-se à mesa quase sempre com uma fome já de horas, e raramente se levantavam saciados. O costume, em casa de pobres...
Os cinco mais velhos haviam emigrado, a mais nova fora viver para a grande cidade. Envelhecera mais o seu homem. Sozinhos, como no princípio, diziam-lhe as amigas a confortá-la. Não era nada... Teimou em não deixar a sua casa, quando o marido morreu. Mas a insistência da filha, aliada à doença que lhe enfraquecia os ossos e os fazia doer todos, convenceu-a contra a sua própria vontade. Arrastava as pernas e a vida entre o sofá e a janela. Olhando a loucura buliçosa da rua, era como se ela mesma fosse um daqueles manjericos que imitam a grandeza da planície em meio punhado de terra num vaso de plástico.
No primeiro Natal que passou enclausurada no cimento do progresso apressado, quis oferecer uma prenda à neta. Tinha ainda na ponta dos dedos a recordação da agulha e do dedal, e nas memórias da infância as grandes alegrias das pequenas coisas. Quando a filha percebeu que ela estava a fazer uma boneca de trapos, perguntou-lhe com um desdém agressivo: "Para quem é isso?" Com estranheza, porque a pergunta lhe pareceu desnecessária, respondeu: "É para a nossa menina. Para quem é que havia de ser?..."
<>Ouviu a habitual enxurrada de palavras do mau humor da filha e da sua impaciência. Que estava cada vez pior, que o juízo não tinha conserto, que não havia paciência para sofrer os seus disparates, que não percebia que os tempos tinham mudado... Que era um trabalho inútil, que a neta não ia ligar a um traste daqueles, que mesmo que gostasse da boneca não a deixaria brincar com ela, porque era uma vergonha pois as amigas só iam ter ofertas caras e a sua pequena também, que não era menos do que as outras. O fim da boneca era o lixo, para onde queria levá-la imediatamente.
Nada podia contra o vendaval dos novos tempos que enchia a cabeça da filha. Pediu apenas, numa súplica de submissão: "Deixa-me primeiro acabá-la. Depois, faz o que quiseres". Ouviu uns resmungos de incompreensão mal-humorada, e viu-a sair do quarto batendo a porta.
A filha cumpriu a promessa com que a ameaçara. A bocarra aberta do contentor deixava à vista a boneca sobre aquele excesso de lixo que anunciava o Natal. Uma das diferenças mais evidentes destes outros tempos eram os desperdícios da festa.
Acabara de se pôr à janela, quando viu uma criança recolher a boneca e sacudir algum lixo que se lhe pegara, apertando-a depois ao peito a embalá-la. Ao passar em frente da janela, perguntou-lhe: “Falas com a tua menina?” A pequena olhou-a surpreendida, e respondeu: “Ela não fala!” Com a satisfação de ver que o seu trabalho não fora inútil, disse-lhe: "Não fala, mas ouve." A criança sorriu-lhe, aconchegou a boneca ao peito, e afastou-se falando-lhe ao ouvido, mas de modo que ainda pôde compreender o que ela disse. "Vês...? A senhora não percebeu que te encontrei no lixo. Não vamos dizer a ninguém, para não fazerem pouco de ti. Está bem?..."
Daniel de Sá, in O Deus dos Últimos
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Nota de Daniel de Sá, a que tiro o chapéu.
Não faço parte dos que se entusiasmaram com o Acordo Ortográfico. Por isso, ao rever estes contos, optei por uma espécie de greve de zelo. Retirei todas as palavras abrangidas pelo dito, substituindo-as por sinónimos ou mudando a frase, porque a Língua Portuguesa é maior do que o Acordo e tem soluções para tudo.

3 comentários:
Muito bonito.
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