sábado, 30 de julho de 2011
terça-feira, 5 de maio de 2009
A escolha de um outro amor
A natureza em mim é conservadora: só o espírito é revolucionário. Esta desarmonia fundamental te sirva para explicar todas as minhas fraquezas, contradições, cobardias mesmo. Só o que te posso assegurar é que entro nesta acção violenta contra mim mesmo com uma boa fé que me dá ânimo enquanto de pé e (se tenho de sucumbir), caído, me será a melhor das consolações, poupando-me a este último e verdadeiro inferno: o desprezo do homem por si mesmo.
O "statu quo" tem doçuras! Pelo que me tem custado a combater as visões do passado, que lagrimosas me surgem no meu caminho a enlaçar-me nos braços acalentadores e brandos, a suplicar-me, a arguir-me como duma traição, desta revolta contra metade já de uma vida, por aí meço a força de inércia da minha natureza. De inércia? não: de harmonia, fora melhor dizer. O natural não é quebrar violentamente o fio da vida, para i-la reatar, não sei onde, bem longe, fora de toda a tradição, sem mais antecedentes do que uma ideia tenaz, dominadora, sim, mas afinal uma mera abstracção… Não: é preciso que o ar social esteja feito de um modo bem impróprio para as exigências naturais do pulmão humano, para que, chegando o homem à idade adulta da consciência, se vire e diga “nada disto é a vida: para trás! para o lado! correr vales! a ver se se acha, longe de todo o rastro conhecido, coisa que mais nos dulcifique por dentro este azedume insuportável!”
Mas a vida é um silogismo: o tecto paterno é uma premissa; a outra é a morte na doçura da sua própria consciência e na fraternidade das outras consciências que lhe aprovam a vida. É preciso que a sociedade seja bem ímpia para obrigar o homem à blasfémia social por excelência – a Revolta. O lar é toda uma política; e o "statu quo" uma filosofia.
Quantas vezes as lágrimas me têm corrido no meio destes pensamentos! Afora tudo isto eu tenho preso ao coração um amor que não sei (talvez porque não quero, nem ele o merece) como o tirar de aqui (1). Ele me simboliza toda uma vida segundo a natureza; vulgar... e bela como qualquer árvore da primeira colina que o sol e os ventos visitam; quero dizer, aquilo que todo o homem tem direito de exigir, porque nenhum homem tem direito de exigir mais... Enfim, o instinto, com todas as suas vozes, tem levantado a sua celeuma no meio do silêncio que eu com a minha razão julgara impor a este ser, para como um ditador determinar e fazer caminhar no vazio as minhas abstracções ordenadas em colunas e batalhões! O instinto! a tradição! a espontaneidade! a natureza! [...]
Entretanto, a minha persistência e as boas disposições de continuar te mostram que tenho sabido, com subtileza de sofista umas vezes, outras com as cóleras de revolucionário, responder a este coro desgrenhado das Níobes da minha mitologia íntima e pessoal. É que tudo aquilo, por isso mesmo que é santo e justo e radioso, só na santidade, na justiça e na luz se pode aceitar. É o carácter das coisas verdadeiramente boas não poderem ser somenos. São ou não são, eis tudo. O espírito revolucionário, visto a esta luz, acha-se não ser no fundo senão um imenso espírito de paz e de harmonia, que por isso mesmo que o não deixam ser pacífico à sua vontade se enfurece e reage. É a filosofia dos desesperados, é a coragem dos medrosos.
quinta-feira, 30 de abril de 2009
O CONVERTIDO
quinta-feira, 26 de março de 2009
Para a Cris
Se tiveres tempo, e seguires o conselho do nosso amigo João Coelho, podes dizer este belo soneto do Antero de Quental, quando desceres à mágica Lagoa do Fogo.quinta-feira, 29 de janeiro de 2009
Lágrimas caindo sobre o mundo...
VISÃO
A J. M. Eça de Queiroz
Eu vi o Amor – mas nos seus olhos baços
Nada sorria já: só fixo e lento
Morava agora ali um pensamento
De dor sem trégua e de íntimos cansaços.
*
Pairava, como espectro, nos espaços,
Todo envolto num nimbo pardacento…
Na atitude convulsa do tormento,
Torcia e retorcia os magros braços…
*
E arrancava das asas destroçadas
A uma e uma as penas maculadas,
Soltando a espaços um soluço fundo,
*
Soluço de ódio e raiva impenitentes…
E do fantasma as lágrimas ardentes
Caíam lentamente sobre o mundo!
Antero de Quental
domingo, 11 de janeiro de 2009
Junto ao mar...
Oceano Nox
Junto do mar, que erguia gravemente
A trágica voz rouca, enquanto o vento
Passava como o vôo do pensamento
Que busca e hesita, inquieto e intermitente,
*
Junto do mar sentei-me tristemente,
Olhando o céu pesado e nevoento,
E interroguei, cismando, esse lamento
Que saía das coisas, vagamente...
*
Que inquieto desejo vos tortura,
Seres elementares, força obscura?
Em volta de que ideia gravitais?
*
Mas na imensa extensão, onde se esconde
O Inconsciente imortal, só me responde
Um bramido, um queixume, e nada mais...
Antero de Quental, Sonetos

