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quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

A Boneca Muda

Criara seis filhos. Sentavam-se à mesa quase sempre com uma fome já de horas, e raramente se levantavam saciados. O costume, em casa de pobres...
Os cinco mais velhos haviam emigrado, a mais nova fora viver para a grande cidade. Envelhecera mais o seu homem. Sozinhos, como no princípio, diziam-lhe as amigas a confortá-la. Não era nada... Teimou em não deixar a sua casa, quando o marido morreu. Mas a insistência da filha, aliada à doença que lhe enfraquecia os ossos e os fazia doer todos, convenceu-a contra a sua própria vontade. Arrastava as pernas e a vida entre o sofá e a janela. Olhando a loucura buliçosa da rua, era como se ela mesma fosse um daqueles manjericos que imitam a grandeza da planície em meio punhado de terra num vaso de plástico.
No primeiro Natal que passou enclausurada no cimento do progresso apressado, quis oferecer uma prenda à neta. Tinha ainda na ponta dos dedos a recordação da agulha e do dedal, e nas memórias da infância as grandes alegrias das pequenas coisas. Quando a filha percebeu que ela estava a fazer uma boneca de trapos, perguntou-lhe com um desdém agressivo: "Para quem é isso?" Com estranheza, porque a pergunta lhe pareceu desnecessária, respondeu: "É para a nossa menina. Para quem é que havia de ser?..."
Ouviu a habitual enxurrada de palavras do mau humor da filha e da sua impaciência. Que estava cada vez pior, que o juízo não tinha conserto, que não havia paciência para sofrer os seus disparates, que não percebia que os tempos tinham mudado... Que era um trabalho inútil, que a neta não ia ligar a um traste daqueles, que mesmo que gostasse da boneca não a deixaria brincar com ela, porque era uma vergonha pois as amigas só iam ter ofertas caras e a sua pequena também, que não era menos do que as outras. O fim da boneca era o lixo, para onde queria levá-la imediatamente.
Nada podia contra o vendaval dos novos tempos que enchia a cabeça da filha. Pediu apenas, numa súplica de submissão: "Deixa-me primeiro acabá-la. Depois, faz o que quiseres". Ouviu uns resmungos de incompreensão mal-humorada, e viu-a sair do quarto batendo a porta.
A filha cumpriu a promessa com que a ameaçara. A bocarra aberta do contentor deixava à vista a boneca sobre aquele excesso de lixo que anunciava o Natal. Uma das diferenças mais evidentes destes outros tempos eram os desperdícios da festa.
Acabara de se pôr à janela, quando viu uma criança recolher a boneca e sacudir algum lixo que se lhe pegara, apertando-a depois ao peito a embalá-la. Ao passar em frente da janela, perguntou-lhe: “Falas com a tua menina?” A pequena olhou-a surpreendida, e respondeu: “Ela não fala!” Com a satisfação de ver que o seu trabalho não fora inútil, disse-lhe: "Não fala, mas ouve." A criança sorriu-lhe, aconchegou a boneca ao peito, e afastou-se falando-lhe ao ouvido, mas de modo que ainda pôde compreender o que ela disse. "Vês...? A senhora não percebeu que te encontrei no lixo. Não vamos dizer a ninguém, para não fazerem pouco de ti. Está bem?..."
Daniel de Sá, in O Deus dos Últimos
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Nota de Daniel de Sá, a que tiro o chapéu.
Não faço parte dos que se entusiasmaram com o Acordo Ortográfico. Por isso, ao rever estes contos, optei por uma espécie de greve de zelo. Retirei todas as palavras abrangidas pelo dito, substituindo-as por sinónimos ou mudando a frase, porque a Língua Portuguesa é maior do que o Acordo e tem soluções para tudo.
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terça-feira, 2 de março de 2010

PARABÉNS A VOCÊ...

As maiores felicidades e a minha sincera gratidão
por tudo o que a sua escrita me tem dado.

segunda-feira, 2 de março de 2009

65º Aniversário

Parabéns, Daniel de Sá!
Foto: Margarida Madruga
Feliz Aniversário!

terça-feira, 24 de fevereiro de 2009

Sair da ilha...

Sair da ilha é a pior maneira de ficar nela!
Daniel de Sá, Ilha Grande Fechada

quinta-feira, 15 de janeiro de 2009

Quem guarda tem...

Hoje, numa das minhas arrumações periódicas, encontrei um recorte de jornal com um pequeno artigo do nosso amigo Daniel de Sá. Não me lembro do nome do jornal, mas penso ter sido publicado em 2004 ou 2005.
Aqui está um exemplo da possibilidade de em poucas palavras dizer muito.

Justiça Cega

O rapazinho chorava. O agente da PSP que estava de serviço àquela escola de Rabo de Peixe perguntou-lhe a razão do choro, e ele respondeu: "Minha mãe não teve dinheiro para comprar velas".

Uns anos antes, o pai fora acusado de maus tratos à mulher e aos filhos. Entretanto, deixara de beber e arranjara emprego. Mas foi então que, numa certa noite, alguns polícias foram buscá-lo a casa para cumprir a pena de prisão finalmente decidida pelo tribunal. Quando ele já não representava nenhum perigo para a sociedade nem para a família, e se tornara indispensável para garantir o sustento desta.

A mãe não tivera dinheiro para pagar a conta da electricidade, que lhe foi cortada. Nem o teve para comprar velas à luz das quais o filho pudesse fazer os trabalhos de casa. E ele estava com medo de que a professora se zangasse.

A justiça é cega. Mas, às vezes, seria melhor que abrisse os olhos.

Daniel de Sá

terça-feira, 4 de novembro de 2008

A ILHA

De repente, o mar detém-se. E a ilha defende-se de ser água por detrás dos muros das arribas.
Uma ilha grande, fechada, que durante muito tempo só se abriu para deixar sair gente. A única mensagem de libertação que lhe chegava estava gasta por quase dois mil anos de interpretações acomodadas, salvando os pobres numa redenção de mortos, e garantindo aos ricos a felicidade eterna pelos lugares nos primeiros bancos da igreja e pelas varas do pálio nas procissões anuais. Todo o trigo mirrava com a alforra da avareza, fazendo da fome a padroeira-mor da ilha. Por isso se aceitava a servidão, em nome errado de Deus e pela ordem pobre da pátria, como uma bênção maldita.
João nascera dessa gente que só servia para servir, e crescera neste pedaço de terra, onde o mar suspende um meridiano de água para que a ilha se levante sob um céu de nuvens, fechada no seu cilício de espuma.
Daniel de Sá, Ilha Grande Fechada

quarta-feira, 20 de agosto de 2008

A Carta de América

Mestre João Bernardo era sapateiro e ferrador. Calçar apenas criaturas humanas ou irracionais não seria suficiente para garantir o seu sustento e o da família, e por isso aprendeu as duas artes. Mas, para não ofender as pessoas, definia-se como um sapateiro que também calçava animais, porque, se dissesse de si mesmo que era um ferrador que também calçava gente, isto seria decerto tomado como ofensa à sensível dignidade dos bípedes pensantes.
Foi-se embora deixando a oficina dupla sem nada levar dela. A fornalha estava tão pronta a acender como todo o material em condições de ser usado. Qualquer um que o soubesse fazer reanimá-la-ia em momentos.
Foi em sua casa que se jogou o último desafio de sueca na serra. Ainda lá estavam a mesa, as cadeiras e até a garrafa com o resto da aguardente.
Com a partida de mestre João Bernardo, no dia seguinte, não ficariam na aldeia mais do que três homens: o tio Amadeu, o Joaquim Torre Velha e Manuel Cordovão. Por isso aquele serão de sueca e despedida teve honras de mutismo em velório que nem os cálices de aguardente animaram.
Os parceiros haviam sido sorteados dando uma carta a cada um. Manuel e o Joaquim Torre Velha ficaram com as duas mais baixas, e por isso formaram equipa.
Manuel preferia tê-lo como adversário, porque, se ganhasse, isso seria uma pequena vingança, embora insignificante pelo muito que o outro lhe devia de uma vida inteira vivida ao contrário do que tanto desejara. Qualquer último dia é sempre inesquecível, talvez mais do que o primeiro, nem que seja o de um simples jogo de sueca.
Para evitar uma indefinida sucessão de partidas em que os que estivessem em desvantagem invocassem o seu direito à desforra, foi combinado que a disputa terminaria quando uma das equipas alcançasse seis vitórias.
Partida a partida, a sequência de vitórias e derrotas não deu a nenhum dos pares uma vantagem superior a uma até ao quatro igual. Depois, Manuel e o Torre Velha ganharam as últimas duas com facilidade.
Ao jogar a derradeira carta, sabendo que a vitória estava assegurada, Manuel sentiu uma tristeza tão grande como se aquela fosse a maior derrota da sua vida. De cada vez que partia alguém, a tristeza era tanto maior quanto menos gente restava na aldeia. E parecia que os que se despediam, indo, sentiam o mesmo e na mesma proporção que os que diziam adeus, ficando.
Os outros dois passaram a recordar aquele último serão como se tivesse sido uma das noites mais importantes da sua vida. O velho Amadeu garantia que fora sorte apenas, a do Manuel e do Torre Velha, que se apanhasse outra vez mestre João Bernardo à sua frente e com um baralho de cartas no meio dos quatro, eles haveriam de ver como perdiam num ai.
Num fim de dia, em que conversavam à porta da casa do Torre Velha, Manuel tirou um baralho da algibeira, embaralhou bem, disse àquele que partisse e mandou que o tio Amadeu desse cartas como se mestre João Bernardo estivesse ali. “És maluco”, disse o velho, no entanto obedecendo. Manuel pegou num envelope, meteu-lhe dentro as dez cartas restantes e explicou: “Vou mandar estas cartas ao mestre João Bernardo. O senhor Joaquim jogue uma, para eu lhe dizer e ele decidir qual a carta que há-de jogar.”
Perante o pasmo deles, explicou. Cada um guardaria as suas cartas, esperando a resposta do companheiro distante. Quando ela chegasse, juntar-se-iam os três e completariam a vaza. Depois, começariam outra e Manuel Cordovão escreveria novamente a dizer como fora. “Isso nunca mais acaba!” disse o velho Amadeu, mas mais em jeito de satisfação que de censura.
Cada resposta vinda da América demorava pelo menos duas semanas a chegar. Então os três homens juntavam-se em casa do Joaquim Torre Velha, com a mulher do tio Amadeu a fazer companhia a Maria da Graça, e esperavam com ansiedade a revelação da carta devolvida. Às vezes o serão de sueca não passava disso mesmo: Manuel abria o envelope, punha na mesa, em cima das outras três, a carta enviada por mestre João Bernardo, e, se era este que ganhava a vaza, arrumavam as suas e esperavam mais duas semanas. Quando era a vez de ele dar cartas, prevenia com antecedência se queria virar trunfo por baixo ou por cima, e o velho Amadeu dava por ele. Mas ficavam felizes como se não faltasse ninguém.
O velho Amadeu adoeceu quando estavam empatados a duas partidas, mas ele ia ganhando a quinta por três a um. Ainda aguentou o suficiente para viver até à penúltima vaza, que ganharia, e o jogo também, se mestre João mandasse um trunfo para cortar um rei jogado pelo Torre Velha. Não veio o trunfo. Mas Manuel trocou uma carta sua e mostrou-a ao quase moribundo como sendo a do companheiro. “Vocês ganharam, tio Amadeu.” O velho sorriu, feliz. Pela última vez, o velho Amadeu sorriu. Para que ele sorrisse durante mais uma partida, Manuel seria capaz até de roubar ouro.
Daniel de Sá, in "O Pastor das Casas Mortas

sexta-feira, 4 de julho de 2008

A pedido...

O QUEIJO, de Daniel de Sá

Ver: http://luardejaneiro.blogs.sapo.pt

sexta-feira, 13 de junho de 2008

O RECONHECIMENTO MERECIDO

Nesta casa da Maia (Ribeira Grande), vive um Oficial da Ordem do Infante D. Henrique. Claro que já toda a gente sabe quem é.
Para quem andar distraído, pode saber a resposta no Blogue Luar de Janeiro.