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terça-feira, 27 de setembro de 2011

O Salto

Na solidão de um recanto da costa, agachados entre dois rochedos, Francisco Marroco e João Peixe-Rei olhavam o mar, encolhidos, silenciosos – não fossem lobrigá-los os remadores da Armada. Não conseguiam ver a barca baleeira, que pairava ao largo, não muito longe, enrodilhada no escuro, mas – o capitão o dissera – sabiam que seria naquela noite.

Às vezes era diferente – um assobio, um esganiço, o rouquejo do mar. Francisco Marroco e João Peixe-Rei sentiam no peito os corações batendo mais apressados – não fossem os remadores com as suas carabinas, com as suas baionetas...

Nem uma navalha traziam consigo, Francisco Marroco e João Peixe-Rei. Tinham saído de casa, cada um apenas com a sua saquinha de retalhos e, dentro, as vestimentas pobres de lã de ovelha.

Francisco Marroco, na sua saquinha, trazia mais uns traços de bolo seco. A mãe é que fizera o bolo seco, a saquinha de retalhos, a roupa de lã, que também fiara e também tecera. A Mãe! Quando pedira que o deixassem embarcar, ela chorara, o pai mascarara-se em nuvens de fumo do cigarro que fumava: - Custa-nos os olhos da cara, mas não te vamos quitar um futuro que nunca poderás ter aqui. Vai! Vai, e que Deus te abençoe. - Francisco Marroco não conseguira despedir-se de Maria, tanto o velho Roque lhe apertava a clausura. À porta já, a meter-se à noite no primeiro passo para a sua grande caminhada pelo mundo, confidenciara à mãe… E a mãe compreendera. E no frio e na humidade que lhe enregelavam os ossos, enchia-lhe a alma o calor do último beijo da Mãe.

João Peixe-Rei deixara a mulher esfrangalhada em soluços. E o filho, mãozinhas erguidas para ele, olhos a sorrirem, espantados, sem compreenderem. O filho! E só por ele partia.

E Francisco Marroco e João Peixe-Rei arregalavam os olhos para o mar, no escuro da noite negra. Não falavam, receavam até respirar, medrosos dos remadores. Esganiçavam-se as ondas, arrepiava a aragem, as horas passavam lentas.

À volta da meia-noite, julgaram ver uma sombra no mar. Seria o bote da barca baleeira? Seria o bote dos remadores que os vinha capturar? Não mandava o governo os remadores para a Ilha, senão para vigiarem os rapazes, não os deixarem dar o salto e fugirem da Ilha para o mundo.

- Cães danados! – pensava, com azedume, João Peixe-Rei.

E ele e o companheiro mais se agachavam, mais se encolhiam – o sangue a latejar-lhes nas veias, as mãos a engalfinharem-se nas asperezas das rochas.

…E três vezes brilhou no mar um clarão de luz mortiça. Três vezes! Era o sinal combinado! Era o bote da barca baleeira que os vinha arrancar da Ilha!

Atabalhoadamente sacaram da algibeira o fuzil, feriram lume também três vezes e deixaram-se escorregar de penedo em penedo, de calhau em calhau, até ao pesqueiro, mais em baixo.

E viram-se no meio de seis homens de expressão dura, que os recebiam sem uma palavra, sem um gesto, e puxavam os remos no silêncio da noite.

E além do silêncio, era só o chape-chape dos remos e o ciciar da quilha rasgando suavemente as águas negras.

E na alma de Francisco Marroco – o calor daquele beijo da mãe. E, Maria, quando soubesse… E Francisco Marroco sentia um não sei quê, que não sabia definir, a estoirar-lhe com o peito.

E João Peixe-Rei – via Idalina, o corpo muito branco desaurido em saudades, abandonada na cama de casal. E o filho, o seu menino – que o havia de esperar no dia seguinte, e no outro, e nos outros… E se nunca mais voltasse a ver o seu menino!? Se nunca mais!? Nunca Mais!?

E a Ilha a ficar pela popa, sumida no escuro e no silêncio da noite nua de estrelas e de luar.

E o navio, de velas erguidas, a vislumbrar-se adiante…

E a indiferença dos homens… (real?, aparente?)

E o balanço do bote…

E o fantasma do navio – os faróis de navegação suspensos no escuro – perto, perto, cada vez mais perto…

E um estalido de madeira batendo contra madeira… O costado do bote batendo contra o arcaboiço negro do navio…

Dias de Melo, Pedras Negras

sexta-feira, 26 de setembro de 2008

Ainda Dias de Melo

Conheci Dias de Melo estava eu na Escola Industrial e Comercial de Ponta Delgada, acabadinho de me libertar dos calções curtos da Primária. Era, se não erro, professor de Português, sem grande sucesso; homem pausado, no andar e nas falas, pendurado no seu cachimbo - anos depois assinaria crónicas num jornal micaelense, sob o título de "Fumo do meu cachimbo” - e com um sotaque "picaroto" fechado, nada o ajudava enquanto comunicador.
Perdi-o de vista depois desse tempo de escola, para só nos cruzarmos, de novo, logo a seguir ao 25 de Abril, no MDP-CDE, porto de abrigo enquanto não surgiram os Partidos, para os que acreditavam que, com a Liberdade, tudo viria… não imaginando, por um momento sequer, as desilusões (e tropelias)que o futuro nos traria.
Entretanto, li "Pedras Negras", "Mar Rubro" e "Mar pela Proa", a trilogia por onde espalhou o seu amor pela ilha-montanha, pelas suas gentes e pelo mar - mar que ele conhecia bem, porque também lá andou atrás da baleia. São livros essenciais para conhecer a vida dos que são (opinião minha, vale o que vale) os melhores senhores do oceano, no Atlântico Norte: os "picarotos", lavradores do mar que, trabalhando a terra, lutando pela vida em chão nem sempre quieto, tudo largavam quando o som do foguete os chamava para arriar as canoas e irem de abalada, atrás da baleia, até onde fosse preciso.
Guardo do Dias de Melo, em contraste com a sua tranquila forma de estar, a vivacidade e brilho dos seus olhos - era através deles que se expressava e que nos mostrava o que lhe ia na alma. E tenho ideia de que sempre andou pelo lado certo da vida.
Os Açores, depois de Emanuel Félix, perdem outro nome de referência, nas suas Letras.
João Coelho

quarta-feira, 24 de setembro de 2008

Adeus a DIAS DE MELO

Velha Professora
A velha Professora uma vez mais envolveu num olhar magoado o prato de amêndoas sobre o naperon estendido na taça da mesinha oval, em frente ao divã e à poltrona de vimes do canto, deu alguns passos trôpegos, hesitantes, sentindo no corpo franzino o gelo húmido da tarde, e ficou de pé, os cotovelos apoiados no peitoril, por dentro da janela fechada.
O calendário marcava já o começo da Primavera, o tempo, porém, continuava de Inverno rigoroso, áspero, agressivo, frio, muito frio – tão rigoroso, tão áspero, tão agressivo, tão frio que ainda as parreiras se estendiam pelo burgalhau das vinhas, negras como braços de cadáveres velhos de dedos retorcidos e pele encarquilhada, e as flores, que, num dia, apareceram brancas e perfumadas – estrelas pequeninas suspensas entre a folhagem verde do incenseiro de ao pé do muro do quintal – logo na manhã seguinte eram apenas migalhas de sonho que o vendaval nocturno destroçara e derramara pelo chão. Também a figueira plantada rente ao maroiço, uma tarde com folhinhas tenras rebentando nas pontas, logo ficara novamente com os galhos nus, cinzentos, lívidos, como certamente o foram outrora os da figueira em que se enforcou Judas.
A velha Professora aconchegava melhor o xaile de merino castanho ao pescoço magro e aos ombros estreitos, olhava a horta onde as batatas semeadas nem chegaram a abrolhar, as parreiras tristemente ressequidas, a figueira nua, o incenseiro depenado, ao longe, no fundo da paisagem, recortava-se, triangular, no céu esgazeado, a descomunal mancha branca da montanha, com a neve a escorrer-lhe pelos flancos, a alcançar as pastagens, a babujar as casas e as terras lavradias mais do alto. O mar, não o podia ver daquela janela, mas ouvia-lhe os rugidos e os lamentos das vagas, que galgavam, na costa próxima, as penedias bravas.
O sentimento de desolação que desabava sobre a Ilha, assim triste, assim parda, quando devia já revestir-se das galas faustosas das verduras novas, da policromia das flores, da sinfonia festiva dos canários e tentilhões a saltitar pelos ramos das faieiras, pelos cocurutos dos maroiços, pelos festos das paredes, doía-lhe na pele, na carne, no sangue, nos ossos, como na alma lhe doía a tortura da vida.
O Inverno, não havia que duvidar, assentara, naquele ano, arraiais nos penhascos da Ilha e para permanecer muito mais que o desejado, se era que havia alguém que o desejasse – ela, a velha Professora, tinha-lhe horror, ali metida, sem ninguém, solteira como sempre fora, entre as quatro paredes daquela casa que herdara dos antepassados.
Dantes, fizera da escola o seu lar e das alunas a sua família, principalmente depois que lhe morreram, primeiro o pai, a seguir a mãe, e os sobrinhos, que tomara à sua conta e educara pelo desaparecimento do irmão num desastre de baleia no Canal e falecimento prematura da cunhada levada por um cancro, se haviam, feitos homens, ido a tratar da vida nas lonjuras do mundo. Todavia, embora já só, mal dava pelo Inverno, mal sentia o vazio e a solidão à sua volta – lá estava a escola, lá estavam as alunas, faziam-lhe esquecer todo o Inverno, preenchiam-lhe todos os vazios, povoavam-lhe todas as solidões. Tudo, porém, se tornou diferente no dia em que, vencido o limite da idade legal para o exercício de qualquer função pública, a escorraçaram, brutalmente, como quem dá um pontapé num cão inútil, da escola e a apartaram das trinta e tantas crianças a quem ensinava a Instrução Primária, filhas e netas das antigas discípulas que, na extensa caminhada de cinquenta anos bem medidos e bem contados, fora, em cada ano que passara, ensinando, educando e levando, em Julho, à vila, ao acto solene do exame da quarta classe com emoção igual à da mãe que acompanha a sua menina ao altar para a cerimónia do casamento, mesmo depois que uma Lei da Ditadura fascista tornara obrigatório o ensino apenas até à terceira classe, Lei essa que para ela era como se não existisse, não passava de um absurdo consciente e de má fé, “acabaram com a quinta classe, agora tornam a quarta facultativa, mais cedo ou mais tarde com a quarta acabam igualmente, querem mas é fazer deste País o paraíso dos analfabetos para, com a ignorância do povo, melhor e à vontade ao povo os ricos explorarem”, dizia e rematava, “mas, enquanto isso não acontecer, aluna minha só com o seu exame da quarta classe deixarei ir para casa”.
Assim pensava, assim procedia, passava o tempo sem se aperceber de que o tempo passava, mas, obrigada (com a mais rude e grosseira brutalidade) a abandonar a escola, a apartar-se das suas alunas, tudo se tornara diferente, terrivelmente diferente, e ela vira-se como um barco destroçado, sem leme, sem bússola, sem governo, sem rumo, à deriva sobre as incertezas de um mar desconhecido.
Na torre da igreja, à ilharga do pequeno largo do centro da freguesia, aberto para a amplidão dos horizontes do oceano, o sino derramava, sobre a terra e as águas salgadas, as pessoas e as coisas, o bronze austero e amargo das cinco badaladas das trindades, enquanto uma nuvem, negra por cima da brancura da neve, crescia, arredondada, inchava, acabava por cobrir a montanha, alastrava pelo céu.
Mais encolhida, mais arrepiada, mais enregelada, a velha Professora afastou-se da janela, sentou-se na poltrona de vimes no canto, ajeitou o coxim por baixo das nádegas descarnadas, a almofada por trás das costas mirradas, uma vez mais aconchegou melhor o xaile de merino castanho no pescoço magro, engelhado, e nos ombros estreitos descaídos. Na sua frente, sobre o naperon estendido na taça da mesinha oval, o prato com amêndoas… à espera…
O calendário marcara o início da Primavera – e não tardaria a noite a trespassar os vidros da janela fechada, a noite tenebrosa de Inverno, que a amedrontava, que lhe enchia a casa e a alma de terrores… Começavam as primeiras sombras a insinuar-se, silenciosas e escorregadias como fantasmas, no quartinho em que se encontrava, a envolver as fotografias doutros tempos, dos sobrinhos miúdos, da mãe ainda nova, do pai ainda jovem, do irmão, valente baleeiro, que sucumbira levado numa linha [1] e afogado nas ondas, das festas escolares que promovera, de grupos de alunas que tivera… pedaços inertes da vida que passara…
[…]
Dias de Melo, Inverno sem Primavera

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[1] Linha: aqui, cabo com uns 600 metros de comprimento por cerca de 1 centímetro de diâmetro que, arrumado em duas selhas e amarrado ao cabo do arpão, liga, depois de arpoada, a baleia à canoa.

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Dias de Melo nascido na freguesia da Calheta de Nesquim, ilha do Pico, em 8 de Abril de 1925, morreu hoje, 24 de Setembro de 2008, em Ponta Delgada.

Os escritores que amamos viverão dentro de nós. PARA SEMPRE!