“Preciso dela e do seu bem, para que não mais volte a acontecer-me isto de estar como perante a morte e ter o grande medo de morrer sozinho nesta casa. Ou para que o meu amor não envelheça de novo. Porque a gente gasta-se. A gente encosta-se a esta espécie de muros do acaso, apoia neles um ombro, um simples dedo cansado, e pensa:
quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012
Única entre todas, e Mulher
“Preciso dela e do seu bem, para que não mais volte a acontecer-me isto de estar como perante a morte e ter o grande medo de morrer sozinho nesta casa. Ou para que o meu amor não envelheça de novo. Porque a gente gasta-se. A gente encosta-se a esta espécie de muros do acaso, apoia neles um ombro, um simples dedo cansado, e pensa:
quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012
O Homem Suspenso
quinta-feira, 17 de novembro de 2011
Ainda e sempre ANTERO
O certo é que em Fevereiro de 1886, respondendo a João Machado de Faria e Maia que então projectava fixar-se na Califórnia, escrevia-lhe: “Se se realizarem os teus planos californianos, talvez um dia vá lá juntar-me contigo, buscando mais largos horizontes, se não para mim, para aquelas duas crianças que fiz minhas.”
Mas cinco anos mais tarde, os “largos horizontes” tiveram outro nome: Ilha de São Miguel, Ponta Delgada.
“A cada ser o seu destino”, escreveu aos vinte e dois anos em “O Sentimento da Imortalidade”, “a cada destino o seu cumprimento. Aqui, ali, agora ou logo, com esta ou aquela forma, que importa? Se esta hora, chamada vida, nos mentiu, outra virá, por certo, e a mão de luz e bem nos conduzirá no nosso verdadeiro caminho.”
terça-feira, 27 de setembro de 2011
O Salto
E viram-se no meio de seis homens de expressão dura, que os recebiam sem uma palavra, sem um gesto, e puxavam os remos no silêncio da noite.
segunda-feira, 19 de setembro de 2011
O Fernades da perfumaria
Aquela perfumaria não era bem vista por quem vivia por perto. Para além da frequência da loja ser modesta e para além da mercadoria disponível ser precária, o Fernandes pertencia ao grupo das criaturas que jamais se livram das malhas da má fama e da pouca sorte. Era visto com malevolência por muitas pessoas e mordazmente difamado por outras tantas, até mesmo lá para as bandas dos subúrbios onde morava. Conheciam-no como tendo uma incontida aversão ao clero, que nunca perdia oportunidade de denegrir, tanto na pessoa de qualquer prelado, como na generalidade da classe. Apesar disso, o pobre homem gostava de afirmar que acreditava em santos e demonstrava a sua crença, incorporando Wolfgang Amadeus Mozart e Ludwig van Beethoven, entre os altos dignitários da corte celestial.
O objecto mais precioso que o Fernandes possuía era uma velha grafonola His Master Voice, com uma elegante campânula metálica em forma de tulipa. Esse antigo aparelho, assim como alguns livros contendo obras que ele dizia serem da melhor literatura do romantismo, fora herança de antepassados que tinham sido ricos. Porém, o cabedal desses avoengos diluíra-se no tempo até dar lugar à angustiante penúria em que o neto se via obrigado a viver.
Ouvir os concertos e as sinfonias de Mozart e Beethoven equivalia, para o Fernandes, à vivência de momentos de ascese e a um profundo prazer estético, apesar do ruidoso arranhar da agulha nas estrias das antigas gravações.
Nesses momentos, ele encontrava as únicas oportunidades de se evadir da rotina dos dias passados atrás dos quatro coloridos frascos de perfume. Dias de espera, quantas vezes em vão, pela chegada de clientes. Sentado junto à grafonola estava tranquilo, imaginava sonoridades interiores que reflectiam a emoção causada pelas obras dos grandes compositores. Isso fazia-o sentir a vibração da alma que estava viva lá no fundo de si próprio.
Experimentava, então, a leveza de quem vagueia num fluido etéreo como aquele em que o espírito de Deus terá pairado sobre as águas. Daí, dessas alturas do seu interior, via o Belo a querer atrair o Bem, a querer atrair a Justiça e, mais do que tudo, a querer atrair a Paz. Era como a contemplação do sublime, através dos humildes meios de que dispunha. Isso ajudava-o a tolerar a existência.
A forma de pensar e de sentir do dono da perfumaria provinha de ideias absorvidas na leitura dos livros que herdou. Ele concordava com Guerra Junqueiro, quando o escritor afirma na última das suas “Prosas Dispersas”, que: “O génio do Bem e da Beleza teem a mesma essencia de infinito”(1).
Também não lhe terão sido indiferentes outras afirmações do mesmo autor, feitas ao longo dessas “Prosas”, tais como a comparação do perfil do artista com os perfis do herói e do santo: “…um grande artista ou um grande heroe é um taumaturgo. S. Francisco, Joana d’Arc e Beethoven fazem milagres”(2).
De facto, quem compôs sinfonias como as de Mozart e Beethoven, tem de estar no céu. Mais do que isso, entendia o Fernandes, seres como esses dois génios eram o bastante para justificar a existência do paraíso.
Camilo Castelo Branco, com a descrição que fez da perversa personalidade do arcediago, contribuiu bastante para os fundamentos do laicismo do Fernandes. Apesar disso, também ajudou na definição de conceitos que tenham a ver com a vida celestial: “O céo ganha-se com os voos do espírito”(3), afirmava a bela Maria Elisa, companheira da filha do arcediago. Com tal afirmação, essa personagem camiliana mostrava-se irredutível perante a obsessão da beata D. Angélica que lhe recomendava entrar para o Carmelo, por ser “uma ordem muito apertada e ganha-se o céo, com a pobreza e a paciência”(4).
Ideias pouco ortodoxas sobre questões metafísicas, como as que eram oriundas de determinava literatura ou doutrina, uma vez recreadas pelo dono da perfumaria, em nada favoreciam a imagem dele no meio social daquele tempo. Ora era alvo de insultos, ora vítima de manifestações de desprezo, mas isso não o impedia de expressar com desassombro as próprias convicções. Essa postura libertária fez com que sobre ele se fizessem as mais estranhas conjecturas.
Multiplicaram-se desconfianças fundamentadas no facto do Fernandes pensar de forma diferente do vulgo, ou apenas por ele ser dado a pensamentos. A mais perigosa de todas as suspeitas, que então caíram sobre ele, era a de ser simpatizante do bolchevismo, qual agente secreto a soldo de Moscovo…
Não tardou que o dono da perfumaria passasse a ter, confirmada por toda a cidade, a fama de ser bolchevista. Era como se não houvesse qualquer dúvida a esse respeito. Por isso, a polícia política salazarista, de imediato, se convenceu de que o pobre homem era mesmo um militante revolucionário, um perigoso inimigo do Estado. Logo entenderam que se tratava de um energúmeno que convinha ser mantido debaixo d’olho. _________________________________________________________
(1) Guerra Junqueiro, in “Prosas Dispersas”, Ed. Lello & Irmão, L.da, Porto, 1921. (Foi mantida a ortografia original).
(2) Idem.
(3) Camilo Castelo Branco, in “A Filha do Arcediago”, Ed. Parceria António Maria Pereira, Lisboa, 1905. (Foi mantida a ortografia original).
(4) Idem.
Tomaz Borba Vieira, Noites de Moscovo [O Carcereiro da Vila e outras estórias]
Desenhos do autor
domingo, 19 de junho de 2011
O vidrinho de lágrima semi-inventada...
Parto amanhã de manhã para Lisboa. Sábado que será de sol. Voo semidirecto: Pico, Lajes, Lisboa. Sempre que me vou de abalada, sinto uma ponta de tristeza e de saudade do local onde aqueci lugar durante algum tempo. A mala e a pasta do computador já se encontram no chão do alpendre da casa virada ao mar. Contemplo a Ilha de São Jorge: estende-se ao longo do meu olhar numa extensão de cerca de oitenta quilómetros. Hoje, pintou-se de azul arroxeado. Daqui a pouco, já troca de pintura, mas não é troca-tintas! Nunca usa a mesma durante muito tempo. Grande vaidosa, a Ilha em frente de minha casa! O Expresso que liga os portos da Horta, de São Roque e São Jorge, não navega: azula-se de tal maneira que já vai a meio do canal, o de Vitorino Nemésio, rumo à Vila das Velas. Enxergo o casario com nitidez e, à noite, até vislumbro a claridade dos faróis dos automóveis circulando nas estradas. O mar, um espelho. Estanhado. Bom Tempo no Canal! Ainda é muito cedo! Sou ardido no tocante a horários! A boleia só chegará daqui a uma hora, mas gosto de sentir-me em mangas de camisa dentro do tempo que me faço sobejar. Vou ainda percorrer a casa, palmo a palmo. Retiro algum prazer mórbido ao despedir-me das coisas, devagar. Das pessoas, é mais fácil! Entro de novo, subo as escadas que me levam ao sótão, o meu santuário da escrita e dos livros. Acaricio a lombada de um ou outro, endireito algum mais indisciplinado, sem vocação militar para a formatura rígida, deixo cair os olhos nas estantes de criptoméria, aliso a secretária já esvaziada do computador portátil, lanço um lento olhar em redor, na esperança de que ele fique, ali, preenchendo a ausência prestes a desabotoar-se e me dê as boas-vindas quando de novo eu chegar... Como existirão os livros sem mim, neste sótão de silêncio? Desço de novo as escadas, paro uns momentos em cada degrau, capto a sala de cima, e enterneço-me com o vidrinho de lágrima semi-inventada que me embacia os olhos.
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Cristóvão de Aguiar/Francisco de Aguiar, Catarse
sábado, 26 de março de 2011
Revelação
sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011
Almeida Garrett: um portuense que amava os Açores
João Baptista da Silva Leitão de Almeida Garrett nasceu, faz hoje 212 anos, na cidade do Porto, no seio de uma família burguesa.quarta-feira, 12 de janeiro de 2011
Brumolândia
Assim a pobre terra ia ganhando nomeada no assopro da fama, pois se quedara escondida entre os roçagos do Atlântico, fazendo uma vida simples de pegureiros e de manadas. Aventureiros hispânicos do Quinquecénio, por uma manhã de Agosto, haviam posto ferro na primeira enseada da terra, região pulverulenta de barreiras aonde depois se faziam enormes vasos toscos. Mas a gleba anunciava pouco, nem vivalma, por lá, resfolegava ou sofria, e só rapaces muito negros enchiam o ar de crocitos, como matracas vigiando uma triste vinha vindimada. Logo o Capitão se fez de vela à Metrópole, a trazer tão desconsolada nova.
- Ninguém, meu Senhor – dizia para o Almirante da Renascença. – Nem planta humana calcou jamais tão fero chão! E se me é dado vos tornar parecer sobre destino a que voteis o senhorio que vos trago, já vos digo que mais monta deixá-lo a ladrão de braga ao pé, do que a homem bom ou fidalgo de couto e honra em vosso termo.
O Almirante achou bem e cogitou por largos dias; e o Capitão, que tinha assento num castelo transtagano, foi-se a repousar. Tempos, porém, volvidos, o mareante mudou de pensar, tomando para si uma porção da terra, e ruivos colonos de Flandres partiram a haver o resto, em caravelas tão fartas de mantimento e sustância, que eram paródias vivas da Arca do bom borracho Noé…
Desbravados os matagais e escaboucadas as grandes calvas de pedra, onde bacelos e tojais punham a ilusão dum chinó, progrediu a colónia e erigiu capelas que nas tardes bíblicas, de um fumozinho leve, alarmavam a redondeza com repiques, nas primeiras bodas, ao olor das flores brancas… Foram cortados azevinhais milenários, com raízes no coração da terra e francas aos pés do Senhor; a urze tintureira deu cor a todas as véstias; e o pau branco, mais o cedro de bom cheiro, émulo do do Líbano, estenderam sobre os colmos: pernas de asna, tirantes e vergas mestras.
Brumolândia era, enfim, terra cristã e habitada. Mas isolada, só lentamente Brumolândia aforou civilização. Às vezes, dela faziam refúgio os príncipes pretendentes e os reis esbulhados do trono, aportando com vassalos fiéis e chorosos em armadas foragidas, que, tomado o apetecido refresco de almas e de corpos, de novo se faziam ao mar em busca nova de empresas. Não raro, mesmo, o sangue das batalhas escorria em seu dorso. Causas perdidas na nação que a anexara eram lá ganhas e salvadas, pareciam tomar rijeza das próprias lavas já frias, e, com um casulo de meses, rasgavam em borboletas de velas nos periantos das águas – já larvas, comendo a horta política da Metrópole.
De uma vez, até, que castelhanos a tentaram – escalões de infantaria em apresto de desembarque – contava o cronicon de como o indígena resistira, com pontas de chifre à frente de toiros reais, salvo seja…
quinta-feira, 23 de dezembro de 2010
Natal
De sacola e bordão, o velho Garrinchas fazia os possíveis por se aproximar da terra. A necessidade levara-o longe demais. Pedir é um triste ofício, e pedir em Lourosa, pior. Ninguém dá nada. Tenha paciência, Deus o favoreça, hoje não pode – e beba um desgraçado água dos ribeiros e coma pedras! Por isso, que remédio senão alargar os horizontes, e estender a mão à caridade de gente desconhecida, que ao menos se envergonhasse de à caridade de gente desconhecida, que ao menos se envergonhasse de negar uma côdea a um homem a meio do padre-nosso. Sim, rezava quando batia a qualquer porta. Gostavam… Lá se tinha a fé na oração, isso era outra conversa. As boas acções é que nos salvam. Não se entra no céu com ladainhas, tirassem daí o sentido. A coisa fia mais fino! Mas, enfim… Segue-se que só dando ao canelo por muito largo conseguia viver.terça-feira, 7 de dezembro de 2010
Quase como...
Quando saíram, o sol bateu nos cabelos de Helena e ele notou que não eram, propriamente, arruivados, mas mais da cor do âmbar – um brilho quente e raro que, segundo dizem os astrólogos, pertencem, de preferência, às mulheres do signo Balança. Passaram a encontrar-se todos os dias no bar da Faculdade e foram aprendendo que aquela era a hora boa, a hora esperada de todos os dias. E, de repente, num momento enigmático de desafogo da alma, Helena pareceu-lhe a criatura mais sedutora que os seus olhos tinham visto – e então deu por si tão desajeitado, tão ansioso, que ela reparou. Que foi? – perguntou-lhe. Ele não respondeu. Pararam, por um momento, a contemplar o panorama da cidade vista lá do alto, da Escadaria Monumental. Depois, seguiram a conversa com aquela volubilidade mediterrânica condizente com a claridade do dia. Para os lados do rio, estava a branco e oiro que se via por entre árvores e torreões de casas sem idade – e Álvaro deixou-a à porta do Lar.
Desde então, começaram a habituar as mãos uma na outra quase sem darem por isso, até que uma vez, sem combinarem coisa nenhuma, encaminharam-se ao Aqueduto, entraram no Jardim Botânico – e foi num banco da Avenida das Tílias, ao som do repuxo do tanque, que ele se voltou, a olhou nos olhos, nos cabelos tão raros. As sombras errantes das tílias com súbitas cintilações. E a ternura – aquilo que foi aprendendo a chamar de ternura -, assim uma coisa intensa a rebentar-lhe dos olhos, e por dentro, sobretudo por dentro. Quase como um choro silencioso. Quase como. Como o quê?
Desde esse dia, Álvaro acostumou-se a pensar em Helena, o seu carinho, o seu instinto de mulher. Os dias a avançarem, os dois cada vez mais juntos a descobrirem-se, e ele a adiantar os minutos que todos os dias demoravam para ir ter com ela, com o olhar dela a crescer da sombra dos cabelos até ocupar todo o espaço que ia do rio ao alto da Sé. Era assim como se, de repente, o curso do entendimento se tivesse alterado e já não fosse preciso dizer tudo até ao fim, pois que bastava a eloquência dos silêncios, das linhas do rosto, o fluido à flor da pele, para restabelecer a nitidez do essencial. Por um período, Álvaro não teve olhos para mais nada senão para o voo das aves, as transparências do rio, os bons sinais da palma da mão. Até mesmo na janela do Arquimínio barbeiro lhe pareceu ver nascer umas minúsculas flores azuis, de sementes decerto espalhadas pelo vento.
Assim se alterou o acontecer da cidade, mesmo nas pequeninas coisas. O relógio da Universidade, por exemplo, nem sempre fazia ouvir as horas. Dependia. Não é que ele não cumprisse a sua função de relógio que era a de ser pontual, porém, o ouvi-lo ou não ouvi-lo dependia dos interesses do momento que tornava o ouvido atento ou distraído. Assim, algumas vezes acontecia Álvaro faltar às aulas por não ter dado pelas horas da torre. Dantes, não acontecia: as horas batiam sempre nítidas e a tempo. Agora era Helena, e os seus cabelos, e a sua voz, a ocupar o espaço todo que ia desde a Baixa ao alto da Sé. E porque ninguém estava ali para lhe ler os pensamentos, atreveu-se a pensar que o que enche intensamente o coração, enche o mundo, não deixa espaço para mais nada, nem sequer para um simples badalar de sino. Já lá na Ilha, em tempos, era assim com o relógio da torre da Matriz quando estava com Maria Clara. Não ouvia o relógio. Crescera, era agora um homem, acontecia a mesma coisa. Os anos passam e a gente muda muito pouco.
Fernando Aires, A Ilha de Nunca Mais
segunda-feira, 22 de junho de 2009
O homem dos 7 instrumentos
terça-feira, 2 de junho de 2009
A D. Otília
Quando D. Otília decidia passar serões ao ar livre no sofá do meu avô, o velho Manuel Mentiroso deliciava-se com as vibrantes descrições de viagens e de acontecimentos que incluíam curiosas personalidades, assim como gente ilustre que ela conhecera durante os agitados tempos que separaram as duas guerras mundiais.
Havia na atmosfera da aldeia como que uma compacta força suspensa, algo de estranho que nos roçava pela alma, apertava na garganta e eriçava a pele, quando a pianista abria a madrugada através dos ascendentes acordes de um Nocturno do “seu” Chopin. Para a ouvir clandestino, eu saía da cama e escondia-me no vão da porta ao lado da casa dela. Julguei que a minha presença tinha sido pressentida ou descoberta quando, mais tarde, tive a sensação de que me eram dedicadas algumas das maravilhosas sonatas românticas a que a artista se entregava, em êxtase. Apaixonei-me pela música. Andava sempre dentro do raio de acção sonora do piano da vizinha. Escutava as lições, suportava o martelar dos exercícios de principiantes e temia as explosões de cólera contra meninas lavadas em lágrimas, que eram expulsas sem piedade, para o “olho da rua”. Porém, nada demoveu as intenções que entretanto me tinham nascido cá dentro e acabei por dar comigo a suplicar, “ó mãe, peça à vizinha Otília para me ensinar a tocar piano”. Como o meu pai discordou com enorme arrogância, porque “o que ele precisa é trabalhar”, logo a minha mãe entendeu contrariá-lo, por rotina. Acedeu ao meu pedido com a melhor prontidão e foi falar à pianista. Ficou apalavrado o dia e a hora da primeira lição.
A professora de piano não me deixou sentar frente ao teclado, no banquinho mecânico que gemia quando se rodavam os dois manípulos que lhe regulavam a altura. Eu tinha sonhado atribuir ao momento em que me sentasse pela primeira vez ao piano o significado dum decisivo passo para a consagração. Sentou-se ela e manteve-me a uma certa distância. Ensinou-me as notas “dó, ré, mi” e… por aí adiante. Tive de as cantar avulsas à medida que ela as fazia sair vibrantes, pelo piano fora. Eu não conseguia evitar a troca de “dós” com “fás” e o desapontamento estava escrito na cara da vizinha pianista que sentenciou, “musicalmente disléxico!” Aproximei-me um pouco para saber o que isso queria dizer e apoiei a mão na tampa do piano de meia cauda. D. Otília não queria acreditar no desaforo. As sobrancelhas pintadas a azul subiram-lhe de espanto, até ao cimo da altiva testa franzida com rugas de tempestade. Levantou-se e gritou, possessa, “tira já as mãos de cima do meu marido”. Fiquei petrificado sem ver nenhum marido, até reparar que estava com a mão colada naquele monstro preto que se arreganhava para rir de mim, exibindo a enorme dentadura branca voltada para a possessiva esposa. Corri escada abaixo e corri rua fora cheio de vergonha com o escândalo que a gritaria ia provocar na aldeia. Foi uma zanga ainda pior do que as zangas rotineiras que D. Otília tinha contra meninas destituídas de talento. Era evidente que no seguimento deste fiasco público, eu passava a ter o rótulo de ser o maior insucesso pedagógico da pianista da aldeia.
domingo, 31 de maio de 2009
José Silva / Joe Sylvia
Da janela daquele quarto, Joe Sylvia observava Tulare da sua memória, centrada no Vale de San Joaquin da imensa Califórnia. Porém, já nada tinha a ver com a cidade que encontrara há quarenta anos atrás, que procurava desfazer-se do seu desenho rústico primacial, ruralizada até ao âmago e, por isso, pronta a ruir. Chamavam-lhe o town (“o tão”, continuava ele a dizer): as casas de madeira, quase geminadas, com suas pequenas lojas de miudezas – um comércio imberbe ao pé das grandes “estôas”, a que nem a agência do Bank of America dera mais prestígio. Todos se conheciam. Quem comprava a pronto era sinal de abastança. Quem pedia fiado era o óbvio. Conversava-se na rua sacudindo pó e moscas. Havia cavalos atrelados a carroças. Foguetes a filarmónica saudaram a chegada do primeiro automóvel. Depressa o alcatrão veio atapetar as estradas e, com ele, chegaram tractores, máquinas para sementeiras e safras e mais automóveis. Apostava-se nas vacas, em plantações de árvores de fruta, em sementeiras de cereais. Desse tempo, pouco aquém do cowboiano, restavam relatos e fotografias a preto e branco, arquivados num museu de minudências obsoletas. Mesmo agora, as coisas continuavam a acontecer a um ritmo que o seu estar ali sentado quase podia acompanhar. Por isso, da janela daquele quarto, só as palmeiras o atraíam com o seu penteado selvagem, ondulante e verde. Quando a enfermeira-assistente fazia descer as persianas, ele ficava-se pelas cores dos poentes que caíam sobre as casas e as árvores, transformando-as em silhuetas fantásticas, riscadas pelos faróis e pelos ruídos do tráfego, dormente como um fole de gaita, incapaz de se lembrar onde deixara os óculos de ler o presente ou o controle remoto da televisão do seu quotidiano desenhado. Se lhe perguntassem como se chamava, mesmo assim, responderia: “José Silva”. E logo acrescentaria: “Excuse me! Joe Sylvia!”, abanando a mão e sorrindo vagamente pela língua materna perdida.








