Mostrar mensagens com a etiqueta Literatura Portuguesa. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Literatura Portuguesa. Mostrar todas as mensagens

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

Única entre todas, e Mulher

“Preciso dela e do seu bem, para que não mais volte a acontecer-me isto de estar como perante a morte e ter o grande medo de morrer sozinho nesta casa. Ou para que o meu amor não envelheça de novo. Porque a gente gasta-se. A gente encosta-se a esta espécie de muros do acaso, apoia neles um ombro, um simples dedo cansado, e pensa:
- Nunca soube, nunca aprendi a namorar esta mulher para toda a vida. Nunca a levei comigo a ver o mar ou o voo das pombas que atravessam as manhãs e tornam o dia claro e profundo de azul.”
Tudo, no seu amor, se alterara já até ao aspecto próximo das nuvens que habitam as casas silenciosas dos velhos, com móveis de pessoas que eles não tivessem conhecido ou fossem ainda mais antigos do que eles. A gente pensa, sabem?, que a nossa carne se foi transformando aos poucos numa simples forma de estar sem imaginação. Por hábito. Como a caca há tantos anos caída na mesma retrete comum. Como a mesa, a cama, o perfil nocturno das ruas que se avista da janela. Pensa tudo. Pensa por exemplo que todas as coisas, e nós nelas, se foram gastando, esvaziando de si mesmas, e não sabe nunca desde quando nem porquê. Pensa que talvez alguém devesse ter chegado e não veio; alguém se esqueceu para sempre de nós a meio de um areal que se transformou em deserto e tem somente o som da nossa voz. […]
*
O homem estava pois escrevendo,
- Não sei por que raio me casei com ela, não sei como me aconteceu ter ancorado precisamente nesta casa e não noutra, nestes móveis, nos beijos rápidos dos meninos que me chamam papá, no corpo morno da mulher morena, volumosa e cada vez mais ácida, não sei quase nada a respeito dos meus sonhos perdidos, […]
*
Preciso tanto e tão-só de ti, meu Amor, como no dia em que supus a tua chegada à sala dos professores.
Mas, como sabes, existem também os meses que nem sempre regressam, embora os seus nomes se repitam. Talvez – quem sabe? – o mês de Outubro já não esteja longe, e possa juntar-nos a outros animais docentes, aos seus jogos de mesa, ao cão morto no fundo do estômago que são os almoços pobres, secos e envergonhados. Talvez Outubro, se chegar, torne oportuno o dia em que hei-de conhecer-te pela primeira vez.
Por enquanto, permaneço eu, do lado de cá, amando uma e outra, e todas as mulheres, e admirando daqui a graça, o pudor, a beleza doce daquela que dorme, loira branca e pequena. Tanto a adoro e venero e trago comigo, que a sinto em redor de mim, sempre numerosa e minha, tentando eu multiplicá-la para a poder encontrar em todos os lugares e a todos os momentos.
Quanto a ti, meu Amor, sabes que estou escrevendo um livro.
Sempre que me ponho a escrever-te um livro, começo pela absoluta, repetida necessidade de inventar-te. De repetir-te. De voltar sempre e só a ti. Pássaro e anjo.
Não é verdade, meu Amor, que a principal vocação dos pássaros – e também do anjos – é voar?
***
João de Melo, in Entre Pássaro e Anjo

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

O Homem Suspenso

Pior do que do sonho ou da evidência da sua casa, um homem pode sentir-se expulso de si mesmo, da sua vida, da certeza de na casa ter vivido uma história verdadeira, o seu caso de amor. Com ele, porém, acontece muito mais do que isso. Um acto de pura e definitiva exclusão; um apagamento dos seus passos, a perda da própria sombra, uma quase solvência do corpo da arte de ser e da sua condição de homem.
O mesmo vento fatídico e acidental o afastou do coração e do desejo de Carminho, assim como do contrato e do tempo daquela que sempre fora uma casa para o entendimento do amor como única salvação. Carminho fora ao tempo de esquecer os ressentimentos que contra ele acumulara ao longo de anos. Para ele, isso significou um recuo ao princípio da memória, até à declaração da sua inexistência. Como se passasse da condição de vivo ao absurdo de nunca ter existido.
Não deve haver pior humilhação do que essa, ver-se um homem excluído de tudo aquilo em que um dia acreditou: a casa, a vida, a certeza daquela suave e descuidada alegria que até então morava no coração da sua mulher. Soube-o com a mesma fria e total evidência: deixara de merecer a atenção e o desejo dela, ia pois começar a morrer.
[…]
Para ela, a única infidelidade seria sempre de outra ordem. Por exemplo, […] O esquecimento de tudo o que entre ambos devia permanecer vivo e essencial. As suas faltas de atenção. […] De resto fora a própria Carminho quem lho dissera vezes sem conta. Saturada das suas íntimas obrigações conjugais. Alegando que ele deixara de ser para ela um marido, para tão-só se refugiar, como um hóspede, na habitação e na ordem da casa. Vivia sob o disfarce de um comportamento em duplo, sem reparar nela, já sem lhe ser afável nem afectuoso […].
Quando na vida de um homem finda a atenção da mulher que durante anos o amou, ele conhece o princípio e o fim do seu próprio mundo, o pânico da morte, o precipício da evidência e da perdição.
Mas não só da casa ela o vinha expulsando. Também do centro convulso e do firmamento turvo e atribulado da sua vida. Saber até que ponto será esse também o apagamento dos seus passos, dos seus longos amados bons sentimentos, de tudo o que aprendeu com o mundo, isso só o tempo o dirá.
João de Melo, O Homem Suspenso [1996]

quinta-feira, 17 de novembro de 2011

Ainda e sempre ANTERO

Finalmente, para os Estados Unidos, tanto tempo passado sobre aquela aventurosa viagem no Carolina, já nos seus quarenta e quatro anos, terá Antero verdadeiramente pensado em ir viver. Desejo corrente habitual em tantos açorianos, quantas vezes tornado realidade, ou apenas um projecto idealizado sem qualquer hipótese prática de concretização?

O certo é que em Fevereiro de 1886, respondendo a João Machado de Faria e Maia que então projectava fixar-se na Califórnia, escrevia-lhe: “Se se realizarem os teus planos californianos, talvez um dia vá lá juntar-me contigo, buscando mais largos horizontes, se não para mim, para aquelas duas crianças que fiz minhas.”

Mas cinco anos mais tarde, os “largos horizontes” tiveram outro nome: Ilha de São Miguel, Ponta Delgada.

“A cada ser o seu destino”, escreveu aos vinte e dois anos em “O Sentimento da Imortalidade”, “a cada destino o seu cumprimento. Aqui, ali, agora ou logo, com esta ou aquela forma, que importa? Se esta hora, chamada vida, nos mentiu, outra virá, por certo, e a mão de luz e bem nos conduzirá no nosso verdadeiro caminho.”
Para ele o seu verdadeiro caminho é sobretudo a sua obra, que, nunca será demais acentuar, tem passado para um plano inferior, enredada em teorias frequentemente precipitadas e quantas vezes incoerentes. E é porque a obra existe (ainda que com vários títulos infelizmente de há muito esgotados), que Antero de Quental permanece de pedra e cal na cultura portuguesa resistindo a tantos absurdos. Aliás, a não ser assim, ter-se-ia já sumido no luso nevoeiro se apenas a sua pessoa estivesse em causa, embora não esquecendo o exemplo de dignidade moral, cívica e intelectual que o elevou a símbolo de uma das nossas mais brilhantes gerações – a Geração de 70.
Ana Maria Almeida Martins, Antero de Quental e a Viagem à América

terça-feira, 27 de setembro de 2011

O Salto

Na solidão de um recanto da costa, agachados entre dois rochedos, Francisco Marroco e João Peixe-Rei olhavam o mar, encolhidos, silenciosos – não fossem lobrigá-los os remadores da Armada. Não conseguiam ver a barca baleeira, que pairava ao largo, não muito longe, enrodilhada no escuro, mas – o capitão o dissera – sabiam que seria naquela noite.

Às vezes era diferente – um assobio, um esganiço, o rouquejo do mar. Francisco Marroco e João Peixe-Rei sentiam no peito os corações batendo mais apressados – não fossem os remadores com as suas carabinas, com as suas baionetas...

Nem uma navalha traziam consigo, Francisco Marroco e João Peixe-Rei. Tinham saído de casa, cada um apenas com a sua saquinha de retalhos e, dentro, as vestimentas pobres de lã de ovelha.

Francisco Marroco, na sua saquinha, trazia mais uns traços de bolo seco. A mãe é que fizera o bolo seco, a saquinha de retalhos, a roupa de lã, que também fiara e também tecera. A Mãe! Quando pedira que o deixassem embarcar, ela chorara, o pai mascarara-se em nuvens de fumo do cigarro que fumava: - Custa-nos os olhos da cara, mas não te vamos quitar um futuro que nunca poderás ter aqui. Vai! Vai, e que Deus te abençoe. - Francisco Marroco não conseguira despedir-se de Maria, tanto o velho Roque lhe apertava a clausura. À porta já, a meter-se à noite no primeiro passo para a sua grande caminhada pelo mundo, confidenciara à mãe… E a mãe compreendera. E no frio e na humidade que lhe enregelavam os ossos, enchia-lhe a alma o calor do último beijo da Mãe.

João Peixe-Rei deixara a mulher esfrangalhada em soluços. E o filho, mãozinhas erguidas para ele, olhos a sorrirem, espantados, sem compreenderem. O filho! E só por ele partia.

E Francisco Marroco e João Peixe-Rei arregalavam os olhos para o mar, no escuro da noite negra. Não falavam, receavam até respirar, medrosos dos remadores. Esganiçavam-se as ondas, arrepiava a aragem, as horas passavam lentas.

À volta da meia-noite, julgaram ver uma sombra no mar. Seria o bote da barca baleeira? Seria o bote dos remadores que os vinha capturar? Não mandava o governo os remadores para a Ilha, senão para vigiarem os rapazes, não os deixarem dar o salto e fugirem da Ilha para o mundo.

- Cães danados! – pensava, com azedume, João Peixe-Rei.

E ele e o companheiro mais se agachavam, mais se encolhiam – o sangue a latejar-lhes nas veias, as mãos a engalfinharem-se nas asperezas das rochas.

…E três vezes brilhou no mar um clarão de luz mortiça. Três vezes! Era o sinal combinado! Era o bote da barca baleeira que os vinha arrancar da Ilha!

Atabalhoadamente sacaram da algibeira o fuzil, feriram lume também três vezes e deixaram-se escorregar de penedo em penedo, de calhau em calhau, até ao pesqueiro, mais em baixo.

E viram-se no meio de seis homens de expressão dura, que os recebiam sem uma palavra, sem um gesto, e puxavam os remos no silêncio da noite.

E além do silêncio, era só o chape-chape dos remos e o ciciar da quilha rasgando suavemente as águas negras.

E na alma de Francisco Marroco – o calor daquele beijo da mãe. E, Maria, quando soubesse… E Francisco Marroco sentia um não sei quê, que não sabia definir, a estoirar-lhe com o peito.

E João Peixe-Rei – via Idalina, o corpo muito branco desaurido em saudades, abandonada na cama de casal. E o filho, o seu menino – que o havia de esperar no dia seguinte, e no outro, e nos outros… E se nunca mais voltasse a ver o seu menino!? Se nunca mais!? Nunca Mais!?

E a Ilha a ficar pela popa, sumida no escuro e no silêncio da noite nua de estrelas e de luar.

E o navio, de velas erguidas, a vislumbrar-se adiante…

E a indiferença dos homens… (real?, aparente?)

E o balanço do bote…

E o fantasma do navio – os faróis de navegação suspensos no escuro – perto, perto, cada vez mais perto…

E um estalido de madeira batendo contra madeira… O costado do bote batendo contra o arcaboiço negro do navio…

Dias de Melo, Pedras Negras

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

O Fernades da perfumaria

Aquela perfumaria não era bem vista por quem vivia por perto. Para além da frequência da loja ser modesta e para além da mercadoria disponível ser precária, o Fernandes pertencia ao grupo das criaturas que jamais se livram das malhas da má fama e da pouca sorte. Era visto com malevolência por muitas pessoas e mordazmente difamado por outras tantas, até mesmo lá para as bandas dos subúrbios onde morava. Conheciam-no como tendo uma incontida aversão ao clero, que nunca perdia oportunidade de denegrir, tanto na pessoa de qualquer prelado, como na generalidade da classe. Apesar disso, o pobre homem gostava de afirmar que acreditava em santos e demonstrava a sua crença, incorporando Wolfgang Amadeus Mozart e Ludwig van Beethoven, entre os altos dignitários da corte celestial.

O objecto mais precioso que o Fernandes possuía era uma velha grafonola His Master Voice, com uma elegante campânula metálica em forma de tulipa. Esse antigo aparelho, assim como alguns livros contendo obras que ele dizia serem da melhor literatura do romantismo, fora herança de antepassados que tinham sido ricos. Porém, o cabedal desses avoengos diluíra-se no tempo até dar lugar à angustiante penúria em que o neto se via obrigado a viver.

Ouvir os concertos e as sinfonias de Mozart e Beethoven equivalia, para o Fernandes, à vivência de momentos de ascese e a um profundo prazer estético, apesar do ruidoso arranhar da agulha nas estrias das antigas gravações.

Nesses momentos, ele encontrava as únicas oportunidades de se evadir da rotina dos dias passados atrás dos quatro coloridos frascos de perfume. Dias de espera, quantas vezes em vão, pela chegada de clientes. Sentado junto à grafonola estava tranquilo, imaginava sonoridades interiores que reflectiam a emoção causada pelas obras dos grandes compositores. Isso fazia-o sentir a vibração da alma que estava viva lá no fundo de si próprio.

Experimentava, então, a leveza de quem vagueia num fluido etéreo como aquele em que o espírito de Deus terá pairado sobre as águas. Daí, dessas alturas do seu interior, via o Belo a querer atrair o Bem, a querer atrair a Justiça e, mais do que tudo, a querer atrair a Paz. Era como a contemplação do sublime, através dos humildes meios de que dispunha. Isso ajudava-o a tolerar a existência.

A forma de pensar e de sentir do dono da perfumaria provinha de ideias absorvidas na leitura dos livros que herdou. Ele concordava com Guerra Junqueiro, quando o escritor afirma na última das suas “Prosas Dispersas”, que: “O génio do Bem e da Beleza teem a mesma essencia de infinito”(1).

Também não lhe terão sido indiferentes outras afirmações do mesmo autor, feitas ao longo dessas “Prosas”, tais como a comparação do perfil do artista com os perfis do herói e do santo: “…um grande artista ou um grande heroe é um taumaturgo. S. Francisco, Joana d’Arc e Beethoven fazem milagres”(2).

De facto, quem compôs sinfonias como as de Mozart e Beethoven, tem de estar no céu. Mais do que isso, entendia o Fernandes, seres como esses dois génios eram o bastante para justificar a existência do paraíso.

Camilo Castelo Branco, com a descrição que fez da perversa personalidade do arcediago, contribuiu bastante para os fundamentos do laicismo do Fernandes. Apesar disso, também ajudou na definição de conceitos que tenham a ver com a vida celestial: “O céo ganha-se com os voos do espírito”(3), afirmava a bela Maria Elisa, companheira da filha do arcediago. Com tal afirmação, essa personagem camiliana mostrava-se irredutível perante a obsessão da beata D. Angélica que lhe recomendava entrar para o Carmelo, por ser “uma ordem muito apertada e ganha-se o céo, com a pobreza e a paciência”(4).

Ideias pouco ortodoxas sobre questões metafísicas, como as que eram oriundas de determinava literatura ou doutrina, uma vez recreadas pelo dono da perfumaria, em nada favoreciam a imagem dele no meio social daquele tempo. Ora era alvo de insultos, ora vítima de manifestações de desprezo, mas isso não o impedia de expressar com desassombro as próprias convicções. Essa postura libertária fez com que sobre ele se fizessem as mais estranhas conjecturas.

Multiplicaram-se desconfianças fundamentadas no facto do Fernandes pensar de forma diferente do vulgo, ou apenas por ele ser dado a pensamentos. A mais perigosa de todas as suspeitas, que então caíram sobre ele, era a de ser simpatizante do bolchevismo, qual agente secreto a soldo de Moscovo…

Não tardou que o dono da perfumaria passasse a ter, confirmada por toda a cidade, a fama de ser bolchevista. Era como se não houvesse qualquer dúvida a esse respeito. Por isso, a polícia política salazarista, de imediato, se convenceu de que o pobre homem era mesmo um militante revolucionário, um perigoso inimigo do Estado. Logo entenderam que se tratava de um energúmeno que convinha ser mantido debaixo d’olho. _________________________________________________________

(1) Guerra Junqueiro, in “Prosas Dispersas”, Ed. Lello & Irmão, L.da, Porto, 1921. (Foi mantida a ortografia original).

(2) Idem.

(3) Camilo Castelo Branco, in “A Filha do Arcediago”, Ed. Parceria António Maria Pereira, Lisboa, 1905. (Foi mantida a ortografia original).

(4) Idem.

Tomaz Borba Vieira, Noites de Moscovo [O Carcereiro da Vila e outras estórias]

Desenhos do autor

domingo, 19 de junho de 2011

O vidrinho de lágrima semi-inventada...

Parto amanhã de manhã para Lisboa. Sábado que será de sol. Voo semidirecto: Pico, Lajes, Lisboa. Sempre que me vou de abalada, sinto uma ponta de tristeza e de saudade do local onde aqueci lugar durante algum tempo. A mala e a pasta do computador já se encontram no chão do alpendre da casa virada ao mar. Contemplo a Ilha de São Jorge: estende-se ao longo do meu olhar numa extensão de cerca de oitenta quilómetros. Hoje, pintou-se de azul arroxeado. Daqui a pouco, já troca de pintura, mas não é troca-tintas! Nunca usa a mesma durante muito tempo. Grande vaidosa, a Ilha em frente de minha casa! O Expresso que liga os portos da Horta, de São Roque e São Jorge, não navega: azula-se de tal maneira que já vai a meio do canal, o de Vitorino Nemésio, rumo à Vila das Velas. Enxergo o casario com nitidez e, à noite, até vislumbro a claridade dos faróis dos automóveis circulando nas estradas. O mar, um espelho. Estanhado. Bom Tempo no Canal! Ainda é muito cedo! Sou ardido no tocante a horários! A boleia só chegará daqui a uma hora, mas gosto de sentir-me em mangas de camisa dentro do tempo que me faço sobejar. Vou ainda percorrer a casa, palmo a palmo. Retiro algum prazer mórbido ao despedir-me das coisas, devagar. Das pessoas, é mais fácil! Entro de novo, subo as escadas que me levam ao sótão, o meu santuário da escrita e dos livros. Acaricio a lombada de um ou outro, endireito algum mais indisciplinado, sem vocação militar para a formatura rígida, deixo cair os olhos nas estantes de criptoméria, aliso a secretária já esvaziada do computador portátil, lanço um lento olhar em redor, na esperança de que ele fique, ali, preenchendo a ausência prestes a desabotoar-se e me dê as boas-vindas quando de novo eu chegar... Como existirão os livros sem mim, neste sótão de silêncio? Desço de novo as escadas, paro uns momentos em cada degrau, capto a sala de cima, e enterneço-me com o vidrinho de lágrima semi-inventada que me embacia os olhos. ********************************************************************************** Cristóvão de Aguiar/Francisco de Aguiar, Catarse

sábado, 26 de março de 2011

Revelação

[…]
Fixou um ponto vago entre o sofá e a lareira e as palavras que se seguiram foram pronunciadas com um enorme desalento.
- Tenho tanto medo de me vir a prosternar diante de qualquer religião. E tenho também medo de não ter coragem para isso.
Nos seus lábios passou um sorriso de acre ironia.
- Como vês, tens na tua frente um sentimento de ruína dessa brilhante segurança que tantas vezes te irritou.
Dito isto, pôs-se a devorar-me o rosto com um olhar terrivelmente angustiado. Aguardava uma palavra minha e todas as frases que me acudiam pareciam-me estupidamente destituídas de qualquer oportunidade. No meio da minha aflição mental, sentia que a única atitude adequada era tomá-lo arrebatadamente nos meus braços. Foi o que fiz. Agarrou-se a mim com frenesi e durante minutos soluçou convulsivamente.
0 contacto do seu corpo sacudido pela efusão das lágrimas amargamente recalcadas, produziu-me um frémito ao qual se seguiu uma lânguida sensação de doçura. Bruscamente, todos os meus problemas recuavam até se perderem num horizonte de inverosimilhança. Toda eu era um espaço disponível para ser ocupado por uma infinita piedade que o não humilhava mas antes o enobrecia como objecto desse desmedido sentimento que me abrasava. Instantaneamente, revi as gradações do amor que em tempos sentira por ele e nenhuma delas se comparava à intensidade desta nova sensação. Começara por me apaixonar e reconhecia nessa experiência a intervenção de um elemento magnético, algo de exacerbante para os meus sentidos e para a minha imaginação mas que jamais perfurara a placenta que envolvia o meu misterioso núcleo de mulher. Depois admirara-o. O que me mantinha numa tensão de temor e revolta. Era um amor cheio de dúvidas e sobretudo assombrado pelo medo de que ele desmentisse a minha admiração. Mas era precisamente esse receio que em última análise me fascinava, atraindo-me para um exame frio do qual acabou por resultar a incomplacência que acompanha o acordar das admirações veementes. Agora era verdadeiramente a loucura que enlaça as almas e o meu embrião feminino abria-se por fim, transmitindo-me um tumulto de vibrações luminosas.
Com suavidade, ergui-lhe o queixo para que ele visse a luz do sorriso que bondosamente eu sentia amaciar-me a boca.
- Amo-te – murmurei, saboreando pela primeira vez o gosto concreto desta palavra. – Oh, Miguel… Nunca te amei tanto.
Fitou-me numa comoção em que era difícil discernir a alegria do medo. Depois, envergonhado da desvairada esperança que instantaneamente o arrebatara, baixou a cabeça e disse:
- O que tu sentes é compaixão.
- É possível – respondi num ímpeto. – Mas se é isso nunca senti nada tão intenso.
Ficou atónito como se tivesse ouvido a mais inacreditável das revelações. Repentinamente, o rosto iluminou-se. Na sua expressão lia-se o alvoroço de ter decifrado uma palavra de oráculo.
Estendi-lhe os braços. E enquanto se enfronhava neles numa comovida lassidão, pensei:
“Talvez as mulheres sejam monstruosas porque no fundo só podem amar aqueles que sofrem. Mas é nisso que elas são sublimes.”
Natália Correia, A Madona

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

Almeida Garrett: um portuense que amava os Açores

Em Angra do Heroísmo
João Baptista da Silva Leitão de Almeida Garrett nasceu, faz hoje 212 anos, na cidade do Porto, no seio de uma família burguesa.
Cedo começou a sua ligação aos Açores, quando a família, para escapar à 2ª Invasão Francesa, se refugia na Terceira, em 1809.
A sua educação é orientada pelo tio Frei Alexandre da Conceição, bispo de Angra e também escritor. Com os Iluministas, aprende o valor da Liberdade.
Mais tarde (1832), voltará à Terceira, incorpora-se no exército liberal de D. Pedro IV e participa no Cerco do Porto.
Na Praia da Vitória

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

Brumolândia

De muito longe vinha o interesse dos meios naturalistas por essas paragens longínquas e esplêndidas de Brumolândia, onde conchários eternos vesicavam o ar com revérberos, e altas plantas exóticas se encabeçavam de folhas, múrmures a ventos brandos. Fora um conde piemontês, culto e marinheiro, que, avesso a coisas de corte e a castelãs pragmáticas, se botara de alma ao estudo do ignorado país, suas riquezas e variedades, pondo sinal de carinho no que tocava a marés e leis de ventos, e atufando os museus de Londres com exemplares magníficos da fauna. Daí em diante, flotilhas de curiosos e de sábios aproavam à Brumolândia, desembarcavam com binóculos a tiracolo, e nas latas de herbanário caíam avencas raras, que depois, preparadas, eram vistas aos microscópios. Um francês do Instituto escrevera uma monografia sobre seus búzios, outro homem calvo diferenciara certa estrutura de cabozes, e mesmo alguém descobriu, num quieto porto ao norte, entre um paul verdoso, uma espécie de anuros sarapintados de vermelho. E logo os geólogos mais afamados do mundo acorriam, pois Brumolândia brotara duma válvula da terra, pouco depois do Dilúvio, com basto tiroteio de misteriosas lavas.
Ilha Terceira.Ilhéu das Cabras

Assim a pobre terra ia ganhando nomeada no assopro da fama, pois se quedara escondida entre os roçagos do Atlântico, fazendo uma vida simples de pegureiros e de manadas. Aventureiros hispânicos do Quinquecénio, por uma manhã de Agosto, haviam posto ferro na primeira enseada da terra, região pulverulenta de barreiras aonde depois se faziam enormes vasos toscos. Mas a gleba anunciava pouco, nem vivalma, por lá, resfolegava ou sofria, e só rapaces muito negros enchiam o ar de crocitos, como matracas vigiando uma triste vinha vindimada. Logo o Capitão se fez de vela à Metrópole, a trazer tão desconsolada nova.

- Ninguém, meu Senhor – dizia para o Almirante da Renascença. – Nem planta humana calcou jamais tão fero chão! E se me é dado vos tornar parecer sobre destino a que voteis o senhorio que vos trago, já vos digo que mais monta deixá-lo a ladrão de braga ao pé, do que a homem bom ou fidalgo de couto e honra em vosso termo.

O Almirante achou bem e cogitou por largos dias; e o Capitão, que tinha assento num castelo transtagano, foi-se a repousar. Tempos, porém, volvidos, o mareante mudou de pensar, tomando para si uma porção da terra, e ruivos colonos de Flandres partiram a haver o resto, em caravelas tão fartas de mantimento e sustância, que eram paródias vivas da Arca do bom borracho Noé…

Desbravados os matagais e escaboucadas as grandes calvas de pedra, onde bacelos e tojais punham a ilusão dum chinó, progrediu a colónia e erigiu capelas que nas tardes bíblicas, de um fumozinho leve, alarmavam a redondeza com repiques, nas primeiras bodas, ao olor das flores brancas… Foram cortados azevinhais milenários, com raízes no coração da terra e francas aos pés do Senhor; a urze tintureira deu cor a todas as véstias; e o pau branco, mais o cedro de bom cheiro, émulo do do Líbano, estenderam sobre os colmos: pernas de asna, tirantes e vergas mestras.

Brumolândia era, enfim, terra cristã e habitada. Mas isolada, só lentamente Brumolândia aforou civilização. Às vezes, dela faziam refúgio os príncipes pretendentes e os reis esbulhados do trono, aportando com vassalos fiéis e chorosos em armadas foragidas, que, tomado o apetecido refresco de almas e de corpos, de novo se faziam ao mar em busca nova de empresas. Não raro, mesmo, o sangue das batalhas escorria em seu dorso. Causas perdidas na nação que a anexara eram lá ganhas e salvadas, pareciam tomar rijeza das próprias lavas já frias, e, com um casulo de meses, rasgavam em borboletas de velas nos periantos das águas – já larvas, comendo a horta política da Metrópole.

De uma vez, até, que castelhanos a tentaram – escalões de infantaria em apresto de desembarque – contava o cronicon de como o indígena resistira, com pontas de chifre à frente de toiros reais, salvo seja…

Batalha da Salga [25 de Julho de 1581]
No intervalo destas convulsões políticas de transplante, voltava a terra a ensimesmar-se na vida rural, pastoril e piscatória. E era um gosto ver como dobavam os anos na dobadoira das montanhas, pacíficos e felizes, e as efemérides dos letrados só marcavam baptizos de vilão e casórios de fidalguinhos. Seria preciso remontar a tempo quão longe, para topar tão doce vida, gaudente de si mesma, feita dos pequenos nadas do campo e dos episódios rudes da faina e dos pesqueiros, sob a bondade de Neptuno – tridentes de estrelas, pela noite, alumiando… Cada lar se bastava em eternidades de núpcia, procriando, cavando a terra com o suor da cara, indo à tarde enfeixar a lenha da fornada. Vida sem assomo ou danamento, corria na imitação do mar como um véu garço sem nódoa. Só raro em raro, quando a invernia, sobretudo, sovava mais o litoral, em casais ribeirinhos ia a míngua do pão ou o caldo da panela não tinha olhas boiando. Mas logo a vizinhança supria a triste penúria das companhas, e nem a fome era mais do que uma seara de Deus, farta e luminosa, para a bondade segar a salvação das almas. Ah! Vinham às vezes os piratas…
Se a ressaca batia as rochas, num fervilhante espumedo, como espojos do mar chegavam os bergantins e os palhabotes da moirama, corsários tunísios laminavam os alfanges, e uma semente de morte, como pragana, destroçava então dois vilórios ou três. Contudo, a plebe era a que menos sofria, pois os infiéis acossavam de preferência os pequenos castros de defesa, onde uma aristocracia comedida e benfazeja medrava em pequenos feudos, casando os morgados e dando palha às éguas.
Em Caprária, cidadela do sul erguida ao pé dum monte, instalara-se o governo geral de Brumolândia, que os grão-senhores exerciam, com seus baús de dobrões e pingues tulhas de grão. Por vezo idos da Metrópole, embarcavam num cais de honra, escuso, aguardados da fidalguia, e em pratos de cobre luzindo tomavam as chaves do Castelo, enormes como fueiros. Depois, nas mornas tardes de delíquio, o sol tombando além, alcaidessas estadeavam caudas ricas nas muralhas, e as loiras filhas gentis vinham às barbacãs, pela boca da noite em prece, ouvir as teorbas doridas e as frases quentes de amor.
Quando chegava o pirata, espadaúdo, farejava estas presas como rafeiro entre coelhos. Organizado o assolo, tomavam a quieta esplanada da fortaleza, e violando o voto claustral da triste erva que a enchia, trepavam como periquitos aos muralhões calados, sacavam da fria lâmina recurva, ensopando as palmas das mãos no sangue inocente das guardas. Mortes de varão acabadas, as pilhagens do celeiro levadas ao fim malino, iam às cavalariças onde o gado ruminava, e nos alazões galopantes, sobre coxinilhos de lã, partiam, trupe-trupe, com as pálidas castelãs definhadas de medo ou de enleio…
Havendo tempo, os da terra formavam a represália. Era quando, ao cabriolar dos sinos nas torres todas, as ruas se emagotavam, cabeças esbaforidas de donas despontavam nas janelas, e, à uma, velhos e novos arrancavam, chuço em punho, num furor torvo que vinha vagamente dos Cruzados. Mas em regra o corsário era mais vivo de olho, e nos batéis aprontados de remos, três em voga, recolhia ao navio com riquezas e virgens.
Então negociavam a liberdade das pessoas, anchos e prosapiosos, quando não vinham eles ao cativeiro cristão para sempre, a mão direita cruel na estola do sétimo sacramento.
Vitorino Nemésio, in Paço do Milhafre

quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

Natal

De sacola e bordão, o velho Garrinchas fazia os possíveis por se aproximar da terra. A necessidade levara-o longe demais. Pedir é um triste ofício, e pedir em Lourosa, pior. Ninguém dá nada. Tenha paciência, Deus o favoreça, hoje não pode – e beba um desgraçado água dos ribeiros e coma pedras! Por isso, que remédio senão alargar os horizontes, e estender a mão à caridade de gente desconhecida, que ao menos se envergonhasse de à caridade de gente desconhecida, que ao menos se envergonhasse de negar uma côdea a um homem a meio do padre-nosso. Sim, rezava quando batia a qualquer porta. Gostavam… Lá se tinha a fé na oração, isso era outra conversa. As boas acções é que nos salvam. Não se entra no céu com ladainhas, tirassem daí o sentido. A coisa fia mais fino! Mas, enfim… Segue-se que só dando ao canelo por muito largo conseguia viver.
E ali vinha de mais uma dessas romarias, bem escusadas se o mundo fosse de outra maneira. Muito embora trouxesse dez réis no bolso e o bornal cheio, o certo é que já lhe custava arrastar as pernas. Derreadinho! Podia, realmente, ter ficado em Loivos. Dormia, e no dia seguinte, de manhãzinha, punha-se a caminho. Mas quê? Metera-se-lhe em cabeça consoar à manjedoira nativa… E a verdade é que nem casa nem família o esperavam. Todo o calor possível seria o do forno do povo, permanentemente escancarado à pobreza. Em todo o caso sempre era passar a noite santa debaixo de telhas conhecidas, na modorra dum borralho de estevas e giestas familiares, a respirar o perfume a pão fresco da última cozedura… Essa regalia ao menos dava-a Lourosa aos desamparados. Encher-lhes a barriga, não. Agora albergar o corpo e matar o sono naquele santuário colectivo da fome, podiam. O problema estava em chegar lá. O raio da serra nunca mais acabava, e sentia-se cansado. Setenta e cinco anos, parecendo que não, é um grande carrego. Ainda por cima atrasara-se na jornada em Feitais. Dera uma volta ao lugarejo, as bichas pegaram, a coisa começou a render, e esqueceu-se das horas. Quando foi a dar conta passava das quatro. E, como anoitecia cedo não havia outro remédio senão ir agora a mata-cavalos, a correr contra o tempo e contra a idade, com o coração a refilar. Aflito, batia-lhe na taipa do peito, a pedir misericórdia. Tivesse paciência. O remédio era andar para diante. E o pior de tudo é que começava a nevar! Pela amostra, parecia coisa ligeira. Mas vamos ao caso que pegasse a valer? Bem, um pobre já está acostumado a quantas tropelias a sorte quer. Ele então, se fosse a queixar-se! Cada desconsideração do destino! Valia-lhe o bom feitio. Viesse o que viesse, recebia tudo com a mesma cara. Aborrecer-se para quê?! Não lucrava nada! Chamavam-lhe filósofo... Areias, queriam dizer. Importava-se lá.
E caía, o algodão em rama! Caía, sim senhor! Bonito! Felizmente que a Senhora dos Prazeres ficava perto. Se a brincadeira continuasse, olha, dormia no cabido! O que é, sendo assim, adeus noite de Natal em Lourosa...
Apressou mais o passo, fez ouvidos de mercador à fadiga, e foi rompendo a chuva de pétalas. Rico panorama!
Com patorras de elefante e branco como um moleiro, ao cabo de meia hora de caminho chegou ao adro da ermida. À volta não se enxergava um palmo sequer de chão descoberto. Caiados, os penedos lembravam penitentes.
Entrou no alpendre, encostou o pau à parede, arreou o alforge, sacudiu-se, e só então reparou que a porta da capela estava apenas encostada. Ou fora esquecimento, ou alguma alma pecadora forçara a fechadura.
Vá lá! Do mal, o menos. Em caso de necessidade, podia entrar e abrigar-se dentro. Assunto a resolver na ocasião devida... Para já, a fogueira que ia fazer tinha de ser cá fora. O diabo era arranjar lenha.
Saiu, apanhou um braçado de urgueiras, voltou, e tentou acendê-las. Mas estavam verdes e húmidas, e o lume, depois de um clarão animador, apagou-se. Recomeçou três vezes, e três vezes o mesmo insucesso. Mau! Gastar os fósforos todos é que não.
Num começo de angústia, porque o ar da montanha tolhia e começava a escurecer, lembrou-se de ir à sacristia ver se encontrava um bocado de papel.
Descobriu, realmente, um jornal a forrar um gavetão, e já mais sossegado, e também agradecido ao céu por aquela ajuda, olhou o altar.
Quase invisível na penumbra, com o divino filho ao colo, a Mãe de Deus parecia sorrir-lhe. Boas festas! — desejou-lhe então, a sorrir também. Contente daquela palavra que lhe saíra da boca sem saber como, voltou-se e deu com o andor da procissão arrumado a um canto. E teve outra ideia. Era um abuso, evidentemente, mas paciência. Lá morrer de frio, isso vírgula! Ia escavacar o arcanho. Olarila! Na altura da romaria que arranjassem um novo.
Daí a pouco, envolvido pela negrura da noite, o coberto, não desfazendo, desafiava qualquer lareira afortunada. A madeira seca do palanquim ardia que regalava; só de cheirar o naco de presunto que recebera em Carvas crescia água na boca; que mais faltava?
Enxuto e quente, o Garrinchas dispôs-se então a cear. Tirou a navalha do bolso, cortou um pedaço de broa e uma fatia de febra e sentou-se. Mas antes da primeira bocada a alma deu-lhe um rebate e, por descargo de consciência, ergueu-se e chegou-se à entrada da capela. O clarão do lume batia em cheio na talha dourada e enchia depois a casa toda. É servida?
A Santa pareceu sorrir-lhe outra vez, e o menino também.
E o Garrinchas, diante daquele acolhimento cada vez mais cordial, não esteve com meias medidas: entrou, dirigiu-se ao altar, pegou na imagem e trouxe-a para junto da fogueira.
— Consoamos aqui os três — disse, com a pureza e a ironia de um patriarca. — A Senhora faz de quem é; o pequeno a mesma coisa; e eu, embora indigno, faço de S. José.
Miguel Torga, in Natal (Editora Arcádia – 1978)

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

Quase como...

Nasceu em Ponta Delgada, a 18 de Fevereiro de 1928
e aí faleceu a 9 de Novembro 2010
Fernando Aires

Quando saíram, o sol bateu nos cabelos de Helena e ele notou que não eram, propriamente, arruivados, mas mais da cor do âmbar – um brilho quente e raro que, segundo dizem os astrólogos, pertencem, de preferência, às mulheres do signo Balança. Passaram a encontrar-se todos os dias no bar da Faculdade e foram aprendendo que aquela era a hora boa, a hora esperada de todos os dias. E, de repente, num momento enigmático de desafogo da alma, Helena pareceu-lhe a criatura mais sedutora que os seus olhos tinham visto – e então deu por si tão desajeitado, tão ansioso, que ela reparou. Que foi? – perguntou-lhe. Ele não respondeu. Pararam, por um momento, a contemplar o panorama da cidade vista lá do alto, da Escadaria Monumental. Depois, seguiram a conversa com aquela volubilidade mediterrânica condizente com a claridade do dia. Para os lados do rio, estava a branco e oiro que se via por entre árvores e torreões de casas sem idade – e Álvaro deixou-a à porta do Lar.

Desde então, começaram a habituar as mãos uma na outra quase sem darem por isso, até que uma vez, sem combinarem coisa nenhuma, encaminharam-se ao Aqueduto, entraram no Jardim Botânico – e foi num banco da Avenida das Tílias, ao som do repuxo do tanque, que ele se voltou, a olhou nos olhos, nos cabelos tão raros. As sombras errantes das tílias com súbitas cintilações. E a ternura – aquilo que foi aprendendo a chamar de ternura -, assim uma coisa intensa a rebentar-lhe dos olhos, e por dentro, sobretudo por dentro. Quase como um choro silencioso. Quase como. Como o quê?

Desde esse dia, Álvaro acostumou-se a pensar em Helena, o seu carinho, o seu instinto de mulher. Os dias a avançarem, os dois cada vez mais juntos a descobrirem-se, e ele a adiantar os minutos que todos os dias demoravam para ir ter com ela, com o olhar dela a crescer da sombra dos cabelos até ocupar todo o espaço que ia do rio ao alto da Sé. Era assim como se, de repente, o curso do entendimento se tivesse alterado e já não fosse preciso dizer tudo até ao fim, pois que bastava a eloquência dos silêncios, das linhas do rosto, o fluido à flor da pele, para restabelecer a nitidez do essencial. Por um período, Álvaro não teve olhos para mais nada senão para o voo das aves, as transparências do rio, os bons sinais da palma da mão. Até mesmo na janela do Arquimínio barbeiro lhe pareceu ver nascer umas minúsculas flores azuis, de sementes decerto espalhadas pelo vento.

Assim se alterou o acontecer da cidade, mesmo nas pequeninas coisas. O relógio da Universidade, por exemplo, nem sempre fazia ouvir as horas. Dependia. Não é que ele não cumprisse a sua função de relógio que era a de ser pontual, porém, o ouvi-lo ou não ouvi-lo dependia dos interesses do momento que tornava o ouvido atento ou distraído. Assim, algumas vezes acontecia Álvaro faltar às aulas por não ter dado pelas horas da torre. Dantes, não acontecia: as horas batiam sempre nítidas e a tempo. Agora era Helena, e os seus cabelos, e a sua voz, a ocupar o espaço todo que ia desde a Baixa ao alto da Sé. E porque ninguém estava ali para lhe ler os pensamentos, atreveu-se a pensar que o que enche intensamente o coração, enche o mundo, não deixa espaço para mais nada, nem sequer para um simples badalar de sino. Já lá na Ilha, em tempos, era assim com o relógio da torre da Matriz quando estava com Maria Clara. Não ouvia o relógio. Crescera, era agora um homem, acontecia a mesma coisa. Os anos passam e a gente muda muito pouco.

Fernando Aires, A Ilha de Nunca Mais

segunda-feira, 22 de junho de 2009

O homem dos 7 instrumentos

Eu nunca estivera antes na casa do padre, compreende o senhor? Não tinha vida nem estômago para isso. Era, nesse tempo, um homem de mil ofícios e caminhos. O mundo sobrevivia, sabe como e porquê? Ora, porque eu o desratizava. Subindo e descendo, por ladeiras e estradas, essas aldeias todas do Nordeste, tocava o meu realejo à entrada da rua principal, vinham logo bandos de homens e mulheres a correr ao encontro dos meus serviços. Via-se-lhes nos olhos as vidas carregadas de pobreza e de uma tristeza sem remédio. Ou tinham tulhas cheias dessas pragas de murganhos que eu devia exterminar, ou traziam facas e tesouras e alfaias agrícolas a afiar à lima, ao esmeril, até à lixa grossa; ou então apresentavam-me guarda-chuvas com varetas e molas partidas, e outras ferramentas a precisarem de um conserto destas minhas mãos de mecânico de tudo e mais alguma coisa. Amolava enxós, serras, serrotes, ferros de arado, foices de ceifar trigo ou roçar silvas, o inferno em peso a passar-me pelos dedos. As pessoas pediam-me que lhes fizesse recados e chamadas telefónicas intercontinentais, que lhes levasse cartas para o correio e desse voltas e voltinhas por elas na Vila, à cata de papéis e encomendas, em diligências e estúpidas demandas junto da câmara municipal e do notário. Pagavam-me por isso o que entendiam ou bem podiam. Mas nunca me faltou trabalho, porque a verdade é que não havia em todo o concelho do Nordeste um desratizador como eu. Armava ratoeiras em tudo quanto fosse sítio de ratos: arribanas, cafuões de milho, armazéns de frutas, sótãos onde se vazavam o trigo, a fava, a batata-doce e a comida de Inverno para o gado. As casas ficavam presas e reféns das minhas armadilhas, tal qual o peixe miúdo numa malha entre rochas ou os pássaros nas redes que eu lançava entre o canavial – enquanto ia amolando tesouras de costura, limando facas de cozinha ou rachando lenha para o lume. Depois ia ver as minhas ratoeiras. Os bichos agonizavam às centenas, espichados pelas duras molas desses meus engenhos, dando à cauda e às patas no ar, os olhos alucinados e as línguas de fora. Abria-lhes então uma boa cova no quintal, ajudava-os a morrer por misericórdia e enterrava-os às pilhas e mais pilhas, para que o mundo ficasse limpo e salvo de semelhantes pragas. À boca de Outubro e de Novembro, consoante o tempo se anunciasse para a próxima estação, tornava-me carvoeiro. Trabalhava numa furna inventada por mim, espécie de forno abafado, com controlo de fumos e calores, onde a lenha ardia da noite para o dia por sua conta e risco, até o fogo se extinguir por si e as achas se converterem em grandes troços de carvão que eu vendia a peso ou a saco para o tempo frio. Já por aqui se vê, senhor: com uma vida destas, como ia eu ter tempo e paciência para padres e missas? Agora! Razão por que, como lhe disse, nunca tinha estado antes naquela casa.
João de Melo, A Divina Miséria

terça-feira, 2 de junho de 2009

A D. Otília

D. Otília vivia na estratosfera da Arte, sempre alheada das cruéis realidades que a circundavam. A vizinhança não a entendia. Jamais podia entendê-la. D. Otília conhecia meio mundo e falava com conhecimento bem documentado de museus, teatros e óperas das principais capitais europeias. O pai tinha sido rico e a filha, embora marcada com o estigma da ilegitimidade, acompanhou-o em inúmeras viagens e prolongadas estadas no estrangeiro. Frequentou meios de requinte social e exigente etiqueta, assim como os melhores colégios e mestres de música.
O meu avô apreciava muito receber D. Otília no terno de sala ao ar livre e até lhe perdoou o buraco que fez com a brasa do cigarro no assento do sofá. A pianista fumava, sem parar, um tabaco violento e barato que fazia tossir quem andasse por perto. Era a única mulher da aldeia que fumava cigarros de homem. D. Floriberta só consumia marcas caras e aromáticas. Entenderam as janeleiras que se ambas fumavam mereciam igualmente suspeitas das mesmas irregularidades morais. “Umas meretrizes”, gritava D. Beatriz mouca supondo que falava baixo, em confidência para a janela ao lado. A pianista, lá no planeta mítico que habitava, jamais se deu conta da crueldade que dominava o mundo das vizinhas.
ilustração de Luís França
Quando D. Otília decidia passar serões ao ar livre no sofá do meu avô, o velho Manuel Mentiroso deliciava-se com as vibrantes descrições de viagens e de acontecimentos que incluíam curiosas personalidades, assim como gente ilustre que ela conhecera durante os agitados tempos que separaram as duas guerras mundiais.
A pianista da nossa aldeia ora passava longos serões ao ar livre no sofá do meu avô, que se prolongavam até de madrugada, ora andava deprimida, com um olhar vago que não focava nada nem via ninguém. Passava temporadas de solidão como se vivesse numa ilha deserta no meio da aldeia. Tudo quanto o pai lhe tinha deixado em herança guardada no sigilo de bancos londrinos, foi transformado em material de guerra quando o governo britânico confiscou as reservas bancárias para suportar o combate final à fúria de Hitler. Sobrou-lhe apenas a humilde casa da mãe, o relógio e os anéis do pai! Empenhava ou vendia aos poucos, o pouco que tinha. As lições de piano não a sustentavam porque tinha sempre muito poucos alunos. Não tolerava os menos dotados e abominava que se tocasse sem alma, sem talento. As meninas de sensibilidade menos apurada eram postas na rua aos gritos de “vá para casa remendar as peúgas”, porque entendia que “a música não é para cabeças ocas nem para sentimentos empedernidos como calhaus”. Muito poucos alunos resistiam aos vendavais do temperamento da D. Otília. Por vezes, até aqueles que ela considerava talentosos desapareciam em pânico. Depois, sobravam as carências, a fome rondava, entrava e instalava-se na casa dela. Porém, nem nas crises mais prolongadas a pianista aceitava ajuda de quem quer que fosse. Podia não ter mais nada para além da dignidade, mas dela não abdicava. Transformava em esmola para os pedintes qualquer oferta que lhe fosse dada, mesmo que o retrato da fome lhe viesse estampado na cara. Se era convidada para comer em casa de vizinhos, exibia uma bizarra cerimónia, servindo-se de quantidades mínimas das quais ainda deixava sobras. Tinha um olhar altivo, distante, que nos reduzia à sensação de pertencermos a uma escala menor.
Havia na atmosfera da aldeia como que uma compacta força suspensa, algo de estranho que nos roçava pela alma, apertava na garganta e eriçava a pele, quando a pianista abria a madrugada através dos ascendentes acordes de um Nocturno do “seu” Chopin. Para a ouvir clandestino, eu saía da cama e escondia-me no vão da porta ao lado da casa dela. Julguei que a minha presença tinha sido pressentida ou descoberta quando, mais tarde, tive a sensação de que me eram dedicadas algumas das maravilhosas sonatas românticas a que a artista se entregava, em êxtase. Apaixonei-me pela música. Andava sempre dentro do raio de acção sonora do piano da vizinha. Escutava as lições, suportava o martelar dos exercícios de principiantes e temia as explosões de cólera contra meninas lavadas em lágrimas, que eram expulsas sem piedade, para o “olho da rua”. Porém, nada demoveu as intenções que entretanto me tinham nascido cá dentro e acabei por dar comigo a suplicar, “ó mãe, peça à vizinha Otília para me ensinar a tocar piano”. Como o meu pai discordou com enorme arrogância, porque “o que ele precisa é trabalhar”, logo a minha mãe entendeu contrariá-lo, por rotina. Acedeu ao meu pedido com a melhor prontidão e foi falar à pianista. Ficou apalavrado o dia e a hora da primeira lição.
Vivi ansioso a espera pela oportunidade de ter a sensação de me sentar ao piano. Qualquer um vivia sugestionado por imagens das fitas de cinema como aquelas em que o galã, no mais premente momento do clímax sentimental, abandonava a actriz, cuja esbelta cintura tinha entre mãos, para se sentar ao piano e dedicar-lhe uma serenata. […]
A professora de piano não me deixou sentar frente ao teclado, no banquinho mecânico que gemia quando se rodavam os dois manípulos que lhe regulavam a altura. Eu tinha sonhado atribuir ao momento em que me sentasse pela primeira vez ao piano o significado dum decisivo passo para a consagração. Sentou-se ela e manteve-me a uma certa distância. Ensinou-me as notas “dó, ré, mi” e… por aí adiante. Tive de as cantar avulsas à medida que ela as fazia sair vibrantes, pelo piano fora. Eu não conseguia evitar a troca de “dós” com “fás” e o desapontamento estava escrito na cara da vizinha pianista que sentenciou, “musicalmente disléxico!” Aproximei-me um pouco para saber o que isso queria dizer e apoiei a mão na tampa do piano de meia cauda. D. Otília não queria acreditar no desaforo. As sobrancelhas pintadas a azul subiram-lhe de espanto, até ao cimo da altiva testa franzida com rugas de tempestade. Levantou-se e gritou, possessa, “tira já as mãos de cima do meu marido”. Fiquei petrificado sem ver nenhum marido, até reparar que estava com a mão colada naquele monstro preto que se arreganhava para rir de mim, exibindo a enorme dentadura branca voltada para a possessiva esposa. Corri escada abaixo e corri rua fora cheio de vergonha com o escândalo que a gritaria ia provocar na aldeia. Foi uma zanga ainda pior do que as zangas rotineiras que D. Otília tinha contra meninas destituídas de talento. Era evidente que no seguimento deste fiasco público, eu passava a ter o rótulo de ser o maior insucesso pedagógico da pianista da aldeia.
Tomaz Borba Vieira, Herdar Estrelas

domingo, 31 de maio de 2009

José Silva / Joe Sylvia

Quem se esquecesse de lhe olhar para a alma, concluiria, sem esforço, que Joe Sylvia era um homem feliz. Aquele porte, de asseio e de compostura displicentes, mostrava um homem idoso que teimava em fazer emergir uns restos patinados de juventude: os olhos claros derramando um brilho visível, uma boca generosa com lábios a guardar a prótese dentária, cabelos a luzir de brancura que disfarçavam uma calvície mal gerida e um vestir de tonalidades assumidamente solares. Quem se não esquecesse de lhe olhar para a alma…, ou para a sua postura, aos fins de tarde, sentado na sua cadeira de rodas, olhando, através da janela larga do quarto, a paisagem possível da cidade, não concluiria estar diante de um homem idoso feliz. Bastava observá-lo quando tocado por dores crepusculares que lhe vinham da alma, que paravam inevitavelmente na garganta, que o sufocavam com minúcia até lhe alterarem a humidade dos olhos, a contracção dos lábios, o tremor das mãos.
A janela oferecia, a Joe Sylvia, uma paisagem fabricada pelos homens. Os edifícios sucediam-se na sua arquitectura angular, simples, porventura monótona e desenxabida, as cores uniformizadas, ditadas pela predominância de uma luz destemperada, viva, quente, ou por cinzentos sujos, frios, saídos de nevoeiros mortais. Desenhadas a esquadro, as ruas suportavam um tráfego ainda comezinho, sem a quantidade e a velocidade que martirizavam as grandes cidades e que distavam duas, três e mais horas de loucura por estradas de fazer perder de vista e que a polícia zelosamente controlava. Os ostensivos anúncios luminosos pareciam cabeças suspensas em enormes paus de fibrocimento. Daquela janela, ele partia para as ruas sossegadas, vendo as casas com os seus jardins cuidados, lavadas de tinta, cortinas bordadas nas janelas, árvores redondas moldadas desde o crescer, o stop, a outra rua que faz chegar ao Tower Square mexicanizado a cor de pêssego e com a sua torre de menagem com relógio – uma espécie de bife com batatas fritas e ovo a cavalo – torre em louvor de Angra do Heroísmo, sita numa pequena ilha dos Açores, de nome Terceira, de onde ele viera, sem olfacto suficiente para entender tal monumento, apesar de vulgar e prático. Aí, se plantou um centro comercial, que não pegou com a apregoada pujança californiana, apesar das boas intenções. Mas, dali, podia partir-se para o resto da cidade, saindo dos seus limites, tocando Visalia, Tipton, Hanford, onde os ranchos se espalham grandes e circunspectos como as fortunas. Era este ar pacato e provinciano que permitia a Tulare sobreviver, sem recorrer a arranha-céus nem a subterrâneos – um espaço onde o sol ainda gostava de pousar os olhos.
Da janela daquele quarto, Joe Sylvia observava Tulare da sua memória, centrada no Vale de San Joaquin da imensa Califórnia. Porém, já nada tinha a ver com a cidade que encontrara há quarenta anos atrás, que procurava desfazer-se do seu desenho rústico primacial, ruralizada até ao âmago e, por isso, pronta a ruir. Chamavam-lhe o town (“o tão”, continuava ele a dizer): as casas de madeira, quase geminadas, com suas pequenas lojas de miudezas – um comércio imberbe ao pé das grandes “estôas”, a que nem a agência do Bank of America dera mais prestígio. Todos se conheciam. Quem comprava a pronto era sinal de abastança. Quem pedia fiado era o óbvio. Conversava-se na rua sacudindo pó e moscas. Havia cavalos atrelados a carroças. Foguetes a filarmónica saudaram a chegada do primeiro automóvel. Depressa o alcatrão veio atapetar as estradas e, com ele, chegaram tractores, máquinas para sementeiras e safras e mais automóveis. Apostava-se nas vacas, em plantações de árvores de fruta, em sementeiras de cereais. Desse tempo, pouco aquém do cowboiano, restavam relatos e fotografias a preto e branco, arquivados num museu de minudências obsoletas. Mesmo agora, as coisas continuavam a acontecer a um ritmo que o seu estar ali sentado quase podia acompanhar. Por isso, da janela daquele quarto, só as palmeiras o atraíam com o seu penteado selvagem, ondulante e verde. Quando a enfermeira-assistente fazia descer as persianas, ele ficava-se pelas cores dos poentes que caíam sobre as casas e as árvores, transformando-as em silhuetas fantásticas, riscadas pelos faróis e pelos ruídos do tráfego, dormente como um fole de gaita, incapaz de se lembrar onde deixara os óculos de ler o presente ou o controle remoto da televisão do seu quotidiano desenhado. Se lhe perguntassem como se chamava, mesmo assim, responderia: “José Silva”. E logo acrescentaria: “Excuse me! Joe Sylvia!”, abanando a mão e sorrindo vagamente pela língua materna perdida.
Joe Sylvia transformara-se numa espécie de memória cristalizada que, às vezes, se estilhaçava por explosão, fazendo emergir passados das gavetas mais recônditas da alma para, pouco depois, o íman, que o peso da idade, testicularmente, lhe depositou, rechamar os mil pedacinhos de cristal, formando uma tampa de escuridões rasuradas. Os seus oitenta e dois anos, empilhados por um disfarçado desprezo pela morte, deixavam-no tocar a meta onde a lucidez acaba e o indefinido começa, tudo fechado naquele quarto de trinta metros quadrados, com a sua janela larga disposta sobre a cidade.
Há quatro anos viera para aquele quarto como se entrasse, voluntariamente, no jazigo da família. Isso mesmo pensou sem receios nem rancores de maior. Sabia que o seu fim era uma questão de corrosão final e já não tinha paciência para sentir piedade de si próprio. A morte estava-lhe tão próxima que a podia cumprimentar de beijo. Para tanto, bastava haver vontade ou qualquer momento de menor preguiça. Apercebia-se também das fugas da sua sanidade mental, construindo objectivos fictícios para medir a duração e a densidade dessas fugas. Fizera o mesmo com as emoções das pernas, perscrutando-lhes a ferrugem das dobradiças, sentindo-a invadir, de forma incontrolável, as articulações que comandam os movimentos. E deu por si a decifrar-se como general que perde, sub-repticiamente, o comando das operações, recorrendo à bengala dos seus oficiais até ao abandono que o transportou, para fora do campo de batalha, sentado numa cadeira de rodas. Incomodava-o tamanha dependência. Não por causa das liberdades perdidas, mas por um sentido de desfeita imerecida que a vida lhe pregara. O médico costumava inglesar com a enfermeira-assistente em pulverização dos ossos. Isso queria dizer morte à vista e, sobretudo, um sofrimento capaz de provocar obscenidades. “Anda cá, minha tonta! De que é que estás à espera?” E, assim, se aliviava do seu estado de idoso, privilegiadamente internado num asilo de ricos. Iria morrer fora de casa como um cão que paga para ter dono. Por isso, não se livraria de funeral a preceito, programado a rigor, da maquilhagem às flores, passando pelo fato, pela urna, pelo rosário, pelo padre, pela sepultura, com lápide balizadora das únicas datas a que um vivente tem direito: a do nascer e a do morrer. Isto incomodava-o mais que a solidão, incarnada visceralmente, mas destituída de rosto identificável. Naquele anoitecer quente e seco, interrogava-se sobre que pecado antigo o sujeitava a tamanho castigo.
“Se morresse na minha ilha…” Joe Sylvia pensava na morte ditosa dos pais, embora roesse o remorso da ausência. Mas, na ilha, era outro o morrer – mais pobre, sem dúvida -, mas com direito a lágrimas sentidas, salgadas de saudades novas que só desvaneceriam com o decorrer do tempo.
Álamo Oliveira, já não gosto de CHOCOLATES