quinta-feira, 17 de janeiro de 2008

UM BOM DIA DAS AMIGAS!

Cumprindo a tradição da "nossa Ilha", juntamo-nos através deste blogue. Não podemos jantar juntas... as quatro espalhadas por quatro cidades diferentes. Mas S. Miguel e os Açores vão fazer, para sempre, parte das nossas vidas e dos nossos amores. Uma vida feliz para todas!
Para quem não sabe, festeja-se nesta altura do ano, em quatro quintas-feiras seguidas, o dia dos amigos (para os homens), das amigas (para as mulheres), dos compradres e das comadres (para os respectivos). Não me lembro se a ordem é esta, nem se há mais algum pormenor que desconheça. Agradeço a quem sabe que faça o favor de me explicar.
Não ponho aqui mais fotografias porque não tenho, mas desde manhã que as mensagens, via telemóvel, começaram a chegar. Para as amigas que aqui não estão vai também o meu abraço... Que inveja tenho por não poder estar, como vocês e com vocês, no paraíso misterioso das brumas.
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Façam o favor de serem felizes!

domingo, 13 de janeiro de 2008

PARABÉNS A TODA A FAMÍLIA

Cada criança que nasce é uma semente de esperança.

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Que o Tiago venha a ser muito feliz e herde os dotes da família. Vai ser um miúdo fantástico.

Parabéns à família, especialmente à mãe (que é, e será sempre, o "porto de abrigo") e ao "avô babado", o meu querido amigo Daniel de Sá.

*Elisabete*

sexta-feira, 11 de janeiro de 2008

Se não fossem as pequenas alegrias...

Encontrar seja o que for que diga respeito às ilhas dá-me uma alegria imensa. Sinto, dolorosamente, a falta do muito de bom que nelas há. Por isso, vou-me contentando com o que aparece sem eu contar. Claro que prefiro gastar o leite, a manteiga, o queijo, o atum e o ananás açorianos. Quanto ao resto não é fácil de encontrar.
Agora, calculem o que senti quando, no Pingo Doce a dois passos de casa, dou de caras com as embalagens castanhas dos "Carrilhos", fabricados em Vila Franca do Campo pela "Garçataínha". E também de biscoitos caseiros e de côco. Levei dos três para provar. Todos bons: os caseiros, mais leves e menos doces, engordam menos; mas... os carrilhos são deliciosos. Já viciei toda a família. São de "comer e chorar por mais". Há dias, foi a vez do chá. Estava sempre a barafustar por não encontrar à venda o chá dos Açores. É verdade que os amigos daí me vão abastecendo, mas custa-me incomodá-los. Desta vez, foi o Continente a surpreender-me. Já tem chá do Porto Formoso. Espero que, em breve, tenha também da Gorreana. Afinal, são ambos deliciosos.
E este "bonito" de S. Jorge? Muito bom, MESMO!!!
Vê-se logo que sou gulosa. Não nego. Gosto de comer coisas boas e ainda mais quando estão associadas aos meus afectos.
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Para não ficar só pela Gastronomia, vou transcrever uma notícia publicada na revista TEMPO LIVRE, do INATEL. Aqui vai:
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TURISMO PARA TODOS – AÇORES 2008
Por iniciativa de S. Ex.ª o Presidente do Governo Regional dos Açores, o Orçamento da Região Autónoma para 2008 criou o Programa Turismo para Todos/Açores, com gestão do Inatel, destinado a proporcionar férias, nas épocas baixa e média da hotelaria e restauração, a mil concidadãos açorianos carenciados, combatendo, também, o isolamento decorrente da dupla ou tripla insularidade.
[…] instrumento de coesão social e inter-ilhas, de combate ao isolamento económico ilhéu, empresarial e local. É, para o Inatel, uma honra haver merecido do Governo Regional dos Açores a confiança para este novo e estimulante desafio.
Decorrem, também, negociações com o Governo Regional e os Municípios de Ponta Delgada, Angra do Heroísmo e Horta, no sentido da criação de centros de férias em S. Miguel, Terceira e Faial, assim como nas Flores e na Graciosa, ilha que a UNESCO acaba de classificar como reserva natural de biodiversidade. (*)
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Sou sócia do INATEL e tenho uma enorme admiração pelo trabalho desenvolvido por esta instituição. Para além dos centros de férias, com óptimas condições e localizados em locais lindíssimos, investe na cultura, na recuperação do património, no desporto, etc.
Quando apresentou um projecto para exploração do Teatro Rivoli (como acontece, em Lisboa, com o Teatro da Trindade, onde executa um repertório de excelente qualidade), fiquei deveras desapontada ao saber da preferência, do Presidente da Câmara do Porto, pela candidatura de Filipe La Féria.
O INATEL tem, talvez como grande objectivo humanitário e social, o chamado "turismo sénior", que proporciona viagens e férias aos mais velhos a preços especiais, de acordo com os seus rendimentos. Se eu, e outros com rendimentos idênticos ou superiores, quisermos participar nessas actividades, pagamos o máximo. Acho isso muito justo. Muitas dessas pessoas tiveram vidas de trabalho e de dificuldades, sem nunca terem tido a possibilidade de "sair do seu canto". É bom podermos adoçar-lhes um pouco os anos finais das suas vidas.
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(*) "As ilhas do Corvo e da Graciosa, nos Açores, foram classificadas pela UNESCO como Reservas da Biosfera, na sequência de uma candidatura apresentada pelo Governo Regional.
A classificação de uma zona como Reserva da Biosfera tem como principal função a defesa e protecção da biodiversidade, o desenvolvimento sustentado e o conhecimento científico.
Este estatuto permitirá reorientar as decisões ao nível da gestão, compatibilizando a preservação da biodiversidade com a presença humana.
Com esta classificação, Portugal passa a ter três Reservas da Biosfera, sendo que, até agora, o país dispunha de uma única zona com tal estatuto – a Reserva Natural do Paul do Boquilobo (Golegã).
"No site da UNESCO, é dito sobre o Corvo que 'a reserva inclui a massa de terra e toda a área marítima circundante. Centenas de anos de agricultura e criação de gado criaram uma paisagem de significante importância cultural'.
Sobre a ilha Graciosa, o mesmo site diz que 'a reserva inclui os habitats costeiros e as florestas verdejantes onde vivem numerosas espécies de aves, morcegos, moluscos eantrópodes. Agricultura, produção de vinho e criação de gado são as formas tradicionais de sustento dos habitantes desta ilha culturalmente diversificada'."

domingo, 6 de janeiro de 2008

As Coisas que Vamos Perdendo

Ribeira Grande

O Café Central, enquanto vivi na Ribeira Grande, era de facto uma espécie de ponto de encontro de amigos e das pessoas que, por qualquer razão, visitavam a cidade.

Gostava de ir até lá tomar o meu café e ler o Açoriano Oriental ou um livro. À noite, quase sempre me encontrava com colegas e amigos em animadas discussões.

Entrar no Central e ser acolhida pelo sorriso aberto do Sr. Paulo (o Paulinho: sempre bem dispoto e pronto a ajudar o próximo), encontrar na mesa do costume o Dr. Sampaio e os seus amigos, "dar dois dedos de conversa" à D. Zélia se estivesse em "dia sim", fazia com que me sentisse em casa.

O café funcionava, também, como sala de visitas das personalidades que gravavam programas para a RTP Açores ou participavam em espectáculos, no Teatro Ribeiragrandense. Tanto podíamos tropeçar no Onésimo, como na Filipa Pais ou no Zeca Medeiros. Estávamos sempre bem informados das actividades culturais, a que na generalidade não faltávamos.

Quando, há mais ou menos ano e meio. lá entrei não reconheci o "meu café". Já sabia das mudanças mas... mesmo assim foi um choque. Agora, se bem me lembro... até já nem existe.

Sei que "o mundo é composto de mudança" e que nada é para sempre, mas ver desaparecer os lugares que, num dado momento, fizeram parte do nosso quotidiano, é como se com eles partisse uma parte de nós.

Enfim... deu-me para a saudade do Café Central. Apenas uma das muitas coisas, da "minha ilha", de que tenho saudades.

sexta-feira, 21 de dezembro de 2007

Natal 2007 * Ano 2008

A MINHA MENSAGEM DE NATAL

[...]

Mais império menos império,

mais faraó menos faraó,

será tudo um vastíssimo cemitério,

cacos, cinzas e pó.

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Compreende-se.

Lá para o ano três mil e tal.

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E o nosso sofrimento para que serviu afinal?

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António Gedeão, Poema do Alegre Desespero

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O nosso mundo está a viver, quer queiramos quer não, um período revolucionário da trajectória da Humanidade. Enfrenta, dolorosamente, desafios nunca sonhados. É hora de parar e reflectir.
Independentemente das religiões professadas, a maior parte do mundo ocidental festeja o Natal. Mas o Natal não pode resumir-se aos presentes, às ruas iluminadas, ao bacalhau, às rabanadas e ao bolo-rei... ou a qualquer outra tradição.
Por acaso pensamos no que estamos a festejar? Todos dirão: o nascimento de Jesus Cristo. Só que o nascimento dum homem bom [ou do Filho de Deus, se preferirem ] deve, acima de tudo, levar-nos a reflectir na mensagem que deixou. Longe de estar ultrapassada, ela indica o caminho a seguir, HOJE, se queremos sobreviver no nosso planeta.
Afinal, como têm vivido os homens: uns com os outros ou uns contra os outros?
Começamos por descobrir que as palavras de ordem da sociedade dominante, a sociedade ocidental baseada na competição, conduzem a colectividade humana à catástrofe. O futuro é, hoje, ditado pelos banqueiros. Para resolver os seus problemas, as nossas sociedades recorrem a um processo que crêem mágico: o CRESCIMENTO. Consumamos sempre mais e tudo correrá da melhor maneira. As consequências dessa visão estão debaixo dos nossos olhos: uma Terra maltratada, onde sobressaem graves desequilíbrios ambientais e um esgotamento dos recursos; sociedades profundamente desiguais, ilustrativas da injustiça e da exploração de homens por outros homens.
Jesus Cristo [como mais tarde, Francisco de Assis e também, à sua maneira, os seguidores do Budismo e do Socialismo (o autêntico) e muitos outros impossíveis de identificar aqui], ousou dizer não ao dinheiro, ao egoísmo, ao poder, à violência, à guerra; ousou dizer sim ao amor, ao respeito pelo próximo, à ideia de que o Homem habita um Universo comum, que com ele forma um todo e de cuja harmonia depende a sua sobrevivência.
Esta é a preciosa herança que Cristo nos legou. A que talvez valha a pena seguir para bem de nós todos.
Os tempos vão sombrios... O futuro?....... ??????????????

Para todos:

UM BOM NATAL!

UM 2008 MAIS JUSTO E SOLIDÁRIO!!!

Fonte: Ensaio sobre a Pobreza de Albert Jacquard

quarta-feira, 19 de dezembro de 2007

As tradições portuguesas

Por alturas do Natal, quando vivia na Ribeira Grande, comecei a reparar numas tacinhas com lindas plantas verdes que as empregadas da Escola onde leccionava, colocavam na sala dos professores. Claro que tentei logo saber o que aquilo era. Disseram-me que se tratava duma tradição natalícia e explicaram-me como se procedia à sementeira do trigo e da ervilhaca. Fui logo comprar as sementes e experimentei. A partir daí, as "searas" fazem parte do meu Natal, primeiro em S. Miguel, agora no Porto.
Claro que pensava tratar-se duma tradição açoriana. Qual não é o meu espanto quando ao entrar numa igrejinha em Querença (Loulé), encontrei o presépio que fotografei e aqui publico.
Agora sei que se trata duma tradição, inicialmente algarvia, que madeirenses e açorianos adoptaram. Estes, se não estou confundida, tê-la-iam levado para Santa Catarina (Brasil), povoada maioritariamente por casais açorianos.
É linda esta capacidade de levarmos connosco, para todo o lado, aquilo que nos é querido. Um povo com memória é um povo com Alma.

segunda-feira, 10 de dezembro de 2007

sexta-feira, 23 de novembro de 2007

O Porto recebe os Açores

S. Miguel - Lagoa do Fogo

Porto - Rotunda da Boavista - Monumento à Guerra Peninsular

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Recebi, da “Associação para a Medicina, as Artes e as Ideias”, com sede na Rua do Campo Alegre, no Porto, um convite para o Jantar Comemorativo do seu 5º Aniversário.
Reparem na ementa! Deliciem-se e fiquem orgulhosos! Eu fiquei, acreditem.
Simplificando, reza assim:
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Um jantar especial...
A História
A viagem aos Açores, no passado mês de Maio, a propósito da Rota do Chá, torna o Jantar Comemorativo do 5º Aniversário da AMAI ainda mais especial. Para partilhar connosco o mistério do encantamento das Ilhas, os caprichos da Terra Vulcânica e a surpreendente e sofisticada gastronomia que daí resultam, desloca-se ao Porto a Chefe Guiomar Correia, do Restaurante “A Colmeia” (Hotel do Colégio), em Ponta Delgada. Com a ementa, que cuidadosamente preparou, chegam até nós especialidades açorianas únicas – muitas delas inexistentes no circuito comercial – e um toque mágico a Natal.
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A Ementa
Chicharro de S. Miguel Recheado, com Vinagreta de
Pimenta da Terra
Verdelho do Pico
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Cornucópia de Frutos do Mar dos Açores
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Lombo de Cherne com Ouriço-do-mar, em molho de pétalas
de açafroa e puré de inhame
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Nacos Extra de Novilho dos Açores IGP, com papas de carolo no forno e abóbora assada em vinho verdelho do Pico
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Troucha de Queijo velho de S. Miguel, com Banana e
Compota de Araçá
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Mousse de Anona, Trufa de Ananás e Coulis de Uva da Serra
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Bolo de Natal; Amendoins Cobertos
Licor de Tangerina
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Os Vinhos
Vinhos da Herdade do Perdigão – Portugal cum laude
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Depois deste jantar, acho que vou participar num dos fins-de-semana temáticos da Associação: Um passeio de Burro, em Trás-os-Montes.
Imaginação e qualidade não lhes falta.

sexta-feira, 16 de novembro de 2007

quarta-feira, 7 de novembro de 2007

A Pianista que gostava de saber pintar

GABRIELA CANAVILHAS
“[...] Não posso deixar de desabafar outra problemática, que é sentir na sociedade em geral, nos públicos, nos parceiros, nos patrocinadores, um aligeiramento das fasquias.” “Cada vez mais nos é pedido para baixar o nível, para fazer música soft, música light, tocar com os grupos rock, com o fado. Acho lindamente fazer projectos com música ligeira, mas não pode ser esse o objectivo da orquestra. Queremos apresentar repertórios que exijam trabalho mental do público. A maior parte dos nossos patrocinadores são compradores de concertos. Fazem protocolos em que nos patrocinam com determinada verba e em troca têm “x” concertos, ou então patrocinam-nos para um concerto “x”, onde gostam de ter uma palavra. O que eu critico é o nível cultural que nos pedem, para nivelar por baixo em vez de sermos motores do desenvolvimento e obrigarmos o público a subir os seus níveis de exigência. Quando o público é confrontado com obras de muita qualidade, mesmo que sejam difíceis, rende-se. Ninguém pode não gostar daquilo que não conhece.”
“[...] porque não se pode só governar ao gosto do público, tem também de se estabelecer paradigmas para criar nova massa crítica. [...]
Acho que tenho um cargo político. Quando se interage com a sociedade está-se a fazer política. A política é muito aliciante desde que seja para melhorar a vida das pessoas, para genuinamente fazer a diferença.” [...] Quando for grande quero saber pintar.”
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Esta é a mulher que, a 7 de Outubro passado, disse o que se transcreveu acima numa longa entrevista ao Notícias magazine. Chama-se GABRIELA CANAVILHAS, é pianista com 7 discos editados, venera Schubert e é açoriana. Deu uma nova vida à Orquestra Metropolitana de Lisboa que, em 2003, encontrou numa situação financeira “devastadora”. É presidente da Associação Música – Educação e Cultura que gere duas orquestras (a Metropolitana de Lisboa e a Orquestra Académica Metropolitana) e dois estabelecimentos de ensino: a nível superior, a Academia Nacional Superior de Orquestra; a níveis básico e secundário, o Conservatório Metropolitano de Música de Lisboa. São fundadores da AMEC a Câmara Municipal de Lisboa, os ministérios da Cultura, da Educação e do Trabalho e da Solidariedade Social /Inatel e as Secretarias de Estado do Turismo e da Juventude e Desporto.
Se todos os que ocupam cargos públicos tivessem o grau de exigência desta artista açoriana, tudo no país estaria bem melhor. Grande mulher! E, ainda por cima, linda.

quinta-feira, 1 de novembro de 2007

Novo Livro de Cristóvão de Aguiar

Cristóvão de Aguiar apresentará no sábado, 10 de Novembro de 2007, pelas 21 h, na Casa dos Açores do Norte (PORTO), a obra, editada pela Almedina,
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A Tabuada do Tempo - A lenta narrativa dos dias
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Cristóvão de Aguiar nasceu no Pico da Pedra, concelho de Ribeira Grande, ilha de S. Miguel (Açores), em 1940. Frequentou a Escola Primária no Pico da Pedra, terminou o Curso Complementar no Liceu Nacional de Ponta Delgada (1960) e licenciou-se em Filologia Germânica na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra (1968).
Fez a Guerra Colonial, na Guiné, entre 1965 e 1967.
Foi professor em Leiria (1969-72) e redactor da revista Vértice (1967-82). É, desde 1972, Leitor de Língua Inglesa na Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra, cidade onde reside. Como escritor recebeu o prémio Ricardo Malheiros da Academia de Ciências de Lisboa (1978), para Raiz Comovida I, a Semente e a Seiva; o Grande Prémio de Literatura Biográfica APE/CMP (1999), para Relação de Bordo I; o Prémio Nacional Miguel Torga/Cidade de Coimbra (2002), para Trasfega, casos e contos.
Foi agraciado, em Setembro de 2001, com o grau de comendador da Ordem Infante Dom Henrique, pelo Presidente da República.
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Para quem não conhece, aqui fica, o início de A Semente e a Seiva (da trilogia Raiz Comovida):

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O dia de cozedura de Vavó Luzia calhava sempre à sexta-feira; o chão da cozinha, revestido de tijolos vermelhos, que nos outros dias da semana se podia varrer com a língua, ficava, nesse dia, num verdadeiro esparrame: os molhos de lenha de ramada e de tremoceiros atados com um baraço de tabuga, emedados ao pé do talhão da água, os alguidares de barro da Vila em cima da amassaria, a massa levedando que era um louvar a Deus (ela nunca se esquecia de a benzer e encomendar no fim da amassadura, ao acrescentar-lhe o fermento) e Vavó, lenço pela testa e amarrado atrás, na nuca – a cova do ladrão -, numa dobadoira viva, as faces tintas do lume, ora tendendo o pão já lêvedo, ora botando lenha no forno para o esquentar. Todas as manhãs que Nosso Senhor botava ao mundo, no meu caminho para a escola do senhor professor Anacleto, o Caniço, por ser acrescentado em tamanho e escanzelado de carnes, era certo como a Igreja que tinha paragem obrigatória na tenda de tanoeiro de meu avô José dos Reis, à ilharga esquerda da casa, pedia-lhe a bênção, Vavô subença, Deus te abençoe, meu rico home, e, enquanto o diabo esfregava um olho e coçava o rabo pelado, dava eu meia volta pelas traseiras e ia direito à cozinha, onde seria milagre não se encontrar Vavó Luzia na lida das panelas, da lavação ou, se era dia azado, no cerimonial da cozedura do pão trigo e do pão de milho, dos bolos de rala e dos biscoitos feitos da rapadura dos alguidares, rijinhos, famosos para se migar na tigela de barro vidrado, da Lagoa, cheia de chá com leite.

sábado, 27 de outubro de 2007

ZECA MEDEIROS

O Zeca é um pássaro. Ele canta, encanta, inventa e reinventa, sem nunca cansar quem o ouve - e quem o vê. Porque ver o Zeca é tão importante como ouvi-lo [...] na entrega, no modo inteiro como interpreta as suas canções de amor e mágoa, esperança e desencanto e saudades de um futuro em que não desiste de acreditar, mesmo se o presente tantas vezes parece empenhado em desmenti-lo. [...]
Ainda por cima, o Zeca é uma das melhores pessoas que me foi dado conhecer e ter como amigo, o que não é nada despiciendo nestes tempos em que a honra e a verticalidade são tão desprezadas, em contraponto com a leviandade e a hipocrisia, convertidas em valores instituídos da sociedade do faz-de-conta em que nos querem fazer viver.”
Viriato Teles
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José Medeiros, o Zeca Medeiros, nasceu em Vila Franca do Campo, ilha de S. Miguel, em 1951. Para além de realizador de televisão, é cantor, compositor, letrista, actor. Portanto... um homem cheio de talentos.
Funcionário da RTP Açores, desde 1976, realizou trabalhos televisivos como: “Xailes Negros” (1986); “Sete Cidades - A Lenda do Arcebispo” (onde se desdobra como compositor, letrista e intérprete; “Gente Feliz com Lágrimas”, série baseada no romance homónimo de João de Melo; “O Barco e o Sonho”, adaptação da novela com o mesmo nome de Manuel Ferreira. Esteve presente nas bandas sonoras de “Mau Tempo no Canal” e “Feiticeiro do Vento”.
Entre outros, gravou “Cinefílias e Outras Incertezas” que deu origem a um espectáculo, que tive o privilégio de ver, no Teatro Ribeiragrandense e achei fabuloso.
Com o CD “Torna Viagem”, conquistou o Prémio José Afonso, em 2005.
Recentemente, foi o Cipriano (e que pena “morrer” tão cedo) na telenovela “Ilha dos Amores”, ainda a passar na TVI.
Gosto muito de o ouvir cantar e reconheço nele um enorme talento. Presto aqui, apenas, uma pequena homenagem a um “filhos de S. Miguel” que engrandece tanto os Açores como o País.
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CANTIGA DA TERRA
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Quero ver o que a terra me dá
Ao romper desta manhã
O poejo, o milho e o araçá
A videira e a maçã.
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Ó mãe de água, ó mãe de chuvas mil
Já não quero o teu aguaceiro
Quero ver a luz do mês de Abril
A folia no terreiro.
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E vou colher inhames e limões
Hortelã e alecrim
E vou cantar charambas e canções
P´ra te ver ao pé de mim.
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E nos requebros deste teu “bailhar”
Quero ser o cantador
E vou saudar a várzea desse olhar
Ao compasso do tambor.
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Zeca Medeiros (intérprete e autor da letra e da música )

sábado, 20 de outubro de 2007

A "minha" ilha

A Ilha Do Meu Fado
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Esta ilha que há em mim
E que em ilha me transforma
Perdida num mar sem fim
Perdida dentro de mim
Tem da minha ilha a forma
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Esta lava incandescente
Derramada no meu peito
Faz de mim um ser diferente
Tenho do mar a semente
Da saudade tenho o jeito
* * *
Trago no corpo a mornaça
Das brumas e nevoeiros
Há uma nuvem que ameaça
Desfazer-se em aguaceiros
Nestes meus olhos de garça
* * *
Neste beco sem saída
Onde o meu coração mora
Oiço sons da despedida
Vejo sinais de partida
Mas teimo em não ir embora
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Letra: João Mendonça
Música: Zeca Medeiros
Intérprete: Dulce Pontes
... "Mas teimo em não ir embora"...

terça-feira, 16 de outubro de 2007

quinta-feira, 11 de outubro de 2007

AÇORES: o Paraíso por 9 ilhas repartido

"Sonha-se o Paraíso. Ele existe. Sonham-se nove paraísos. Eles existem. Sonha-se ir lá. E fui. [...] Vim com os olhos rasos de espanto e o coração pleno de gratidão, por trazer comigo para sempre, tudo o que vi e senti."

Maria da Graça Queiroz, in Tempo Livre (Revista do Inatel)

quinta-feira, 4 de outubro de 2007

Gestos que enchem o coração

Hoje fui surpreendida com uma encomenda, vinda de S. Miguel e enviada por amigos meus, que aí vivem.
Trazia este postal por eles feito no computador.

Trazia, também, umas quantas embalagens do delicioso chá Gorreana, bolos lêvedos e caramelos de chocolate (da Maria da Glória Moniz, das Furnas), queijadas da Vila (de Vila Franca do Campo, claro!). Atirei a dieta às urtigas e preparei uma merenda a preceito, com adereços açorianos, como não podia deixar de ser.

Mas há mais... até me mandaram um inhame!!!!!

No verso do postal, escreveram: "Esperamos que, com este pequeno mimo, sintas os cheiros e os sabores desta ilha e mates as saudades."
Por vezes, há dias negros ou cinzentos nas vidas de todos nós. Hoje, o meu dia foi iluminado pelo carinho dos meus amigos.
Costumo dizer que "choro por tudo e por nada", mas hoje o choro não foi por nada. Vale a pena ter amigos que nos mimam, que sabem do que gostamos e que se esforçam por nos dar felicidade.
Gosto muito, muito, de vocês!
Mas desenganem-se! Ao contrário de me matarem as saudades da "nossa ilha", AUMENTARAM-NAS.
Obrigada por fazerem parte da minha vida.

terça-feira, 2 de outubro de 2007

Santa Maria, a ilha-mãe

Muito bom o novo livro de Daniel de Sá. Um "guia turístico" muito original, lindo, de grande qualidade gráfica e a escrita inconfundível do autor. Uma viagem, à História da ilha e das suas gentes, conduzida pela memória dos afectos.
O José Augusto Soares já pode lê-lo na íntegra. Espero que goste tanto como eu.

quinta-feira, 27 de setembro de 2007

Memórias com 50 anos

O vulcão dos Capelinhos
Há 50 anos atrás, tinha acabado de fazer oito anos, vivia na cidade onde nasci (Barcelos) e preparava-me para, dez dias depois, voltar à escola e frequentar a minha 2ª Classe. Nesse tempo, o ano lectivo começava sempre, no Ensino Primário, a 7 de Outubro.
Lembro-me de, por esses dias, ter ouvido dizer que, nos Açores, o vulcão dos Capelinhos entrara em erupção. Não percebia, então, muito bem o que era um vulcão ou uma erupção; e, acerca dos Açores, tinha ideia de que era um lugar longínquo do nosso país. Com certeza que pedi explicações aos meus pais e irmãos mais velhos. Duvido que tivesse ficado esclarecida, mas “o vulcão dos Capelinhos” nunca mais abandonou a minha memória. Imagens dessa época não guardei, porque ainda não havia televisor lá em casa. A RTP tinha começado as suas emissões, precisamente, seis meses antes, a 7 de Março de 1957.
Só no dia 5 de Outubro de 2001, me foi permitido ver aquele pedaço de terra que o vulcão acrescentou à ilha do Faial. Foi um momento especial: um misto de fascínio e de respeito por este Planeta vivo que habitamos e cujo poder, por vezes, esquecemos.
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[“Lembro-me de que primeiro começaram os tremores de terra miudinhos, mas depois os abanões tornaram-se mais fortes, pelo que fui com o meu marido para uma casa mais baixa. Só no dia seguinte, de manhã, é que o meu sogro me disse que tinha rebentado um vulcão.” Num relato apaixonado, continua a desfiar a memória de juventude. Sua e do vulcão. “Como não sabia bem o que era, deu-me grande curiosidade e quis ver: havia água a ferver, parecia um lago, mas não tinha medo nenhum, só me assustava de vez em quando com as explosões. Mas mesmo quando ele deitava coisas para o ar, fumo, areia e pedras, achava que era ao mesmo tempo muito bonito. Mesmo não sendo bom para a agricultura e para as casas, tive um pouco de pena quando me fui embora, porque não consigo mentir – as explosões eram mesmo muito bonitas, sobretudo à noite. Ainda agora, aos domingos, costumo passear com a família até ao vulcão. Está diferente, é verdade, mas continua a ser um bom vizinho.” Também Manuel de Vargas Garcia foi um espectador privilegiado. Vive na cidade da Horta, entretido com o alindamento do seu jardim, e não tem dificuldade em recuar 50 anos no tempo: “Estava no Varadouro a passar férias e senti vários tremores de terra nessa tarde. Claro que fiquei preocupado, mas não liguei muito, tanto mais que à noite, apesar de muito escuro, tudo ficou mais calmo. Mas não dormi nada, porque os abalos voltaram a surgir. Quando amanheceu, decidimos voltar para a Horta e só quando chegámos é que soubemos que havia um vulcão. Depois, voltei lá várias vezes para ver o fenómeno.” E o fenómeno marcou-o para toda a vida: “Parecia uma panela de água a ferver, intercalada por explosões. Nessa altura tinha 35 anos, por isso recordo-me perfeitamente. Era, aliás, um sítio que conhecia muito bem, pois aquela baía era um paraíso de fauna e de flora, e costumava ir para ali pescar. Claro que quando apareceu o vulcão, tudo isso acabou.” Mas a nostalgia desses tempos nunca abandonou o espírito de Manuel Garcia: “Sempre que posso, ainda vou lá vê-lo para saber como está o vulcão que vi crescer.” A erupção submarina prosseguiu nos dias seguintes, enchendo o lugar de cinzas, escórias, roncos assustadores e cheiros sulfurosos. Os campos de cultivo e as pastagens cobriram-se de cinzento e as casas das imediações, nomeadamente no Capelo e no Norte Pequeno, ruíram ou abateram com a força dos tremores e pela acumulação da cinza. Surgiram, assim, os primeiros sinistrados, embora não houvesse vítimas a lamentar. Cinco dias depois, o vulcão já tinha emergido do mar e formara uma ilhota – baptizada de ilha Nova – de forma anelar, com 600 metros de diâmetro e 30 de altura. Duas semanas depois, crescera mais 200 e 70 metros, respectivamente. Ao longo do mês de Outubro, com a acumulação dos materiais expelidos, formou-se um istmo que abraçou os ilhéus dos Capelinhos e aproximou a ilhota da costa. A actividade incrementou e a coluna de vapores e cinzas atingiu grande altura, sobretudo porque parte da cratera era aberta ao mar, sendo assim inundada pelas vagas. Ninguém sabia o que iria acontecer, mas os receios eram fundamentados – a terra não parava de tremer. Nada que impedisse que, no meio deste turbilhão incandescente, alguns loucos corajosos tenham arriscado a pele para garantir a soberania daquele pedaço de terra fumegante para o Estado português. Havia receio de que a ilha Nova fosse reclamada por outra nação, como se não estivesse já em águas territoriais portuguesas. No dia 13 de Outubro, então, o jornalista Urbano Carrasco, do “Diário Popular”, e o cineasta Carlos Tudela, da RTP, entre outros, desembarcaram na ilha vulcânica e, ziguezagueando entre bombas e cinzas lançadas pela cratera principal, fincaram no solo uma bandeira portuguesa. Regressaram felizes e foram recebidos como heróis – um final feliz para um dos episódios mais surrealistas da história dos Capelinhos.]
Excerto da NATIONAL GEOGRAPHIC Portugal,
de Setembro, que publica o excelente artigo
"Capelinhos - O vulcão que mudou os Açores"

domingo, 23 de setembro de 2007

DANIEL DE SÁ imparável

Amanhã, 24 de Setembro, pelas 19.30 h, será lançado o novo livro de Daniel de Sá, "SANTA MARIA, a ilha-mãe". A sessão de apresentação será presidida pela Directora Regional do Turismo, na Vila do Porto, ilha de Santa Maria.
Daniel de Sá, que é natural de S. Miguel, viveu em criança em Santa Maria. Este livro parece ser uma viagem às memórias do passado, visto "com os olhos da saudade" que, como ele próprio diz, tornam as coisas mais belas.
Atrevo-me a deixar aqui umas "migalhas", para aguçar o apetite, do "manjar" que Daniel de Sá, com toda a certeza, nos vai servir.
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“À paisagem mariense, austera e bela, desigual e majestosa, corresponderam os homens com delicadeza, como que pedindo licença para ferirem vales, montes e planície com a sua presença abrigada. [...]
Casas feitas à medida humana. Com uma ténue semelhança de serem humanas elas mesmas, na frequência de fachadas só com uma porta e duas janelas. Até as chaminés mais antigas não se erguem muito acima dos telhados. As redondas vão um pouco mais alto, na sua elegância de navio a vapor. [...]
Se das povoações açorianas algumas merecem que se as compare a um presépio, é aqui que a comparação será mais acertada. [...]
Mas o presépio perfeito é Santa Bárbara, com as suas casinhas espalhadas por cerrados e outeiros, emolduradas por barras de azul-anil nas empenas, portas, janelas e ao rés do solo. Se o Valverde estará próximo da cor de Belém, nesta freguesia serrana, onde a ilha parece outra, já coberta de vegetação abundante a que não falta a laurissilva, basta imaginar umas leivas de musgo à volta do povoado para se ter a visão da maneira mais tradicional de armar o presépio nos Açores. [...]
Todos os visitantes deveriam poder ver os lugares aonde vão com olhos de saudade, porque só vista por eles a verdade se transfigura até à sua dimensão total. [...]
A outra espécie de museu é o miradouro da Vigia da Baleia, no caminho para a Maia, que lembra que em Santa Maria, como em todas as outras ilhas dos Açores, a aventura daquela caça também garantiu melhor sustento a muita gente. [...]
Ali floriram muitos laranjais. E poderia produzir-se tantos cereais como outrora, restando desses tempos as matamorras, covas onde se escondiam as provisões de boca que queria proteger-se dos ataques de corsários e piratas. [...]
São Pedro é o primeiro lugar do Mundo com que se tecem as memórias da minha vida. Devo-lhe isto para sempre. [...]”

terça-feira, 18 de setembro de 2007

O "Inukshuk"

O "Inukshuk" tradicional
Os inuit, como são chamados os esquimós do Canadá, construíam monumentos de pedras sobrepostas, com forma humana, que serviam de sinalização e guia nas suas deslocações no Árctico gelado. Esses monumentos da arte inuit – os INUKSHUK - significam também amizade e são, hoje, um dos maiores símbolos do Canadá, sendo usados, a nível oficial, em homenagem à mais antiga cultura indígena do país. A sua popularidade levou a que fosse adoptado como logotipo dos Jogos Olímpicos de Vancouver (edição de Inverno) de 2010.
Pois agora, um açoriano da ilha de S. Miguel, de seu nome José de Melo, que emigrou para o Canadá há cerca de 35 anos, resolveu construir o Inukshuk mais alto do mundo, para que seja registado no Guinness. Esta peça de arte tem 11.77 metros de altura e pesa 82 toneladas. Até aqui, nada de novo. Muitos são os que querem entrar para o famoso livro.
Interessantes são as razões que, segundo o Sr. José de Melo, o levaram a fazer esta obra: Este Inukshuk pretende ser um "reconhecimento à arte e história dos povos aborígenes do Canadá", mas "também chamar a atenção para os produtos em granito que, além de serem materiais muito duradouros, não prejudicam o meio ambiente em que se inscrevem". O autor confessa ser um defensor atento da ecologia.
Tendo começado a trabalhar, no Canadá, como jardineiro, estabeleceu-se por conta própria e fundou uma empresa que extrai e trabalha o granito da sua pedreira, localizada na cidade de King, nas proximidades de Toronto.
São homens como este que nos fazem sentir orgulhosos dos emigrantes portugueses que, tendo de procurar o “pão” em países estranhos, não se deixaram abater, mostrando como a sua saída empobrece o país que se dá ao luxo de os perder.
O "Inukshuk" do Sr. José de Melo