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"Onde vos retiver a beleza dum lugar, há um Deus que vos indica o caminho do espírito." Natália Correia
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Do Meu Vagar
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Já não há mais o vagar
de quando se comia sentado
e devagar se caminhava
até chegar a qualquer lado
agora vai toda a gente sempre
de mão na buzina
sempre na linha da frente
a tremer de adrenalina
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Do meu vagar não traço rotas
não tenho trilho que me prenda
não tiro dados nem notas
não encho uma linha de agenda
do meu vagar não chego a Meca
não faço nada num só dia
não corto a fita da meta
não vejo Roma nem Pavia
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Do meu vagar
sei que nunca hei-de ir longe
vou aonde for preciso
vou indo no meu vagar
em busca do tempo perdido
e se um dia o encontrar
o longe não faz sentido
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Do meu vagar há um nicho
um pico de ilha insubmersa
onde há lugar para o capricho
que dá pelo nome de conversa
do meu vagar a paisagem
ainda tem beleza em bruto
e vale mais uma palavra
que mil imagens por minuto
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Do meu vagar
sei que nunca hei-de ir longe
vou aonde for preciso
vou indo no meu vagar
em busca do tempo perdido
e se um dia o encontrar
o longe não faz sentido
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Carlos Tê [in LADO LUNAR, de Rui Veloso]
Nos dias seguintes (ou anteriores?), nalgumas aldeias e durante a noite, ouvia-se ao longe o canto difuso de grupos de cantadores. Receio estar a confundir e até agradeço que alguém me esclareça. Penso que esta festa "das estrelas" encerra o período natalício e, portanto, é mais lógico que esses cantares nocturnos se realizem entre o Natal (ou Ano Novo) até agora.
Lamento não ter conseguido encontrar as fotografias que tenho da festa para as poder pôr aqui.
Ficam estas que, apesar de não serem boas, dão uma ideia da cidade da Ribeira Grande, que acho muito bonita.
Para terminar, um recado para uma amiga (?) que, mazinha como as cobras, teve o desplante de me mandar, pelas 13h18m de hoje, a seguinte mensagem: "Aqui estou eu a comer uma malassada!". Come agora outra, por mim, e canta "até que a voz te doa" às estrelas... Há lá coisa mais poética!...
Uma noite em grande para todos os ribeiragrandenses e visitantes!
[Leia o texto completo (lá aparecem dois Açorianos ilustres) em:
[1]
Foi em Abril de 1999. Estava de licença sabática e pude permanecer, na Ilha, três semanas. Dias de encantamento e o sentimento estranho de que tinha encontrado, finalmente, o “meu lugar”.
[2]Voltei mais vezes, até que me mudei de vez. Nunca me arrependi. A paisagem de quadrados verdes luminosos, negros, suaves ou fortes, acompanhando o movimento das nuvens. As flores… o tempo das azáleas, dos jarros, das hortênsias, das conteiras, das beladonas (Meninos, p’rá Escola!) e de todas as outras. As caldeiras e fumarolas...
[3]
As lagoas e os seus mistérios… a permitirem experiências quase místicas. Os pássaros… os bandos de estorninhos, os milhafres, os melros, os santantoninhos, os cagarros, as alvéloas. E as plantinhas a que, antes, não prestava grande atenção e das quais não sabia o nome, como a bem-cheirosa madressilva ou o saboroso poejo.
Ah! O mar… lindo de morrer! O desejo de nele ficar, quando nadava. O bem que me sentia… Chegava a pensar: Será assim que os bebés se sentem no líquido amniótico?
Com amigos, voei para as outras ilhas… todas lindas!!! Faltam quatro, mas lá irei. Fiz caminhadas enormes e esplendorosas com “Os Amigos dos Açores”. Acreditei estar no PARAÍSO.
Não nasci nos Açores, é verdade. Mas…
Sou uma continental rodeada de Açores por todos os lados.
Onésimo Teotónio Almeida
Para quem não sabe, festeja-se nesta altura do ano, em quatro quintas-feiras seguidas, o dia dos amigos (para os homens), das amigas (para as mulheres), dos compradres e das comadres (para os respectivos). Não me lembro se a ordem é esta, nem se há mais algum pormenor que desconheça. Agradeço a quem sabe que faça o favor de me explicar.
Cada criança que nasce é uma semente de esperança.
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Que o Tiago venha a ser muito feliz e herde os dotes da família. Vai ser um miúdo fantástico.
Parabéns à família, especialmente à mãe (que é, e será sempre, o "porto de abrigo") e ao "avô babado", o meu querido amigo Daniel de Sá.
*Elisabete*
Agora, calculem o que senti quando, no Pingo Doce a dois passos de casa, dou de caras com as embalagens castanhas dos "Carrilhos", fabricados em Vila Franca do Campo pela "Garçataínha". E também de biscoitos caseiros e de côco. Levei dos três para provar. Todos bons: os caseiros, mais leves e menos doces, engordam menos; mas... os carrilhos são deliciosos. Já viciei toda a família. São de "comer e chorar por mais".
Há dias, foi a vez do chá. Estava sempre a barafustar por não encontrar à venda o chá dos Açores. É verdade que os amigos daí me vão abastecendo, mas custa-me incomodá-los. Desta vez, foi o Continente a surpreender-me. Já tem chá do Porto Formoso. Espero que, em breve, tenha também da Gorreana. Afinal, são ambos deliciosos.
O Café Central, enquanto vivi na Ribeira Grande, era de facto uma espécie de ponto de encontro de amigos e das pessoas que, por qualquer razão, visitavam a cidade.
Gostava de ir até lá tomar o meu café e ler o Açoriano Oriental ou um livro. À noite, quase sempre me encontrava com colegas e amigos em animadas discussões.
Entrar no Central e ser acolhida pelo sorriso aberto do Sr. Paulo (o Paulinho: sempre bem dispoto e pronto a ajudar o próximo), encontrar na mesa do costume o Dr. Sampaio e os seus amigos, "dar dois dedos de conversa" à D. Zélia se estivesse em "dia sim", fazia com que me sentisse em casa.
O café funcionava, também, como sala de visitas das personalidades que gravavam programas para a RTP Açores ou participavam em espectáculos, no Teatro Ribeiragrandense. Tanto podíamos tropeçar no Onésimo, como na Filipa Pais ou no Zeca Medeiros. Estávamos sempre bem informados das actividades culturais, a que na generalidade não faltávamos.
Quando, há mais ou menos ano e meio. lá entrei não reconheci o "meu café". Já sabia das mudanças mas... mesmo assim foi um choque. Agora, se bem me lembro... até já nem existe.
Sei que "o mundo é composto de mudança" e que nada é para sempre, mas ver desaparecer os lugares que, num dado momento, fizeram parte do nosso quotidiano, é como se com eles partisse uma parte de nós.
Enfim... deu-me para a saudade do Café Central. Apenas uma das muitas coisas, da "minha ilha", de que tenho saudades.
Mais império menos império,
mais faraó menos faraó,
será tudo um vastíssimo cemitério,
cacos, cinzas e pó.
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Compreende-se.
Lá para o ano três mil e tal.
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E o nosso sofrimento para que serviu afinal?
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António Gedeão, Poema do Alegre Desespero
Fonte: Ensaio sobre a Pobreza de Albert Jacquard
Por alturas do Natal, quando vivia na Ribeira Grande, comecei a reparar numas tacinhas com lindas plantas verdes que as empregadas da Escola onde leccionava, colocavam na sala dos professores. Claro que tentei logo saber o que aquilo era. Disseram-me que se tratava duma tradição natalícia e explicaram-me como se procedia à sementeira do trigo e da ervilhaca.
Fui logo comprar as sementes e experimentei. A partir daí, as "searas" fazem parte do meu Natal, primeiro em S. Miguel, agora no Porto.
Claro que pensava tratar-se duma tradição açoriana. Qual não é o meu espanto quando ao entrar numa igrejinha em Querença (Loulé), encontrei o presépio que fotografei e aqui publico.
Agora sei que se trata duma tradição, inicialmente algarvia, que madeirenses e açorianos adoptaram. Estes, se não estou confundida, tê-la-iam levado para Santa Catarina (Brasil), povoada maioritariamente por casais açorianos.