quarta-feira, 12 de março de 2008

Lendas dos Açores 1

A FURNA DE SANT’ANA
Nos finais do séc. XVI e princípios do seguinte, a ilha de Santa Maria foi constantemente assaltada pelos piratas, sobretudo argelinos, que tudo roubavam, tudo destruíam e levavam consigo prisioneiros, que depois negociavam como escravos. Ora, a penedia basáltica dava ocasião a alguns esconderijos que a população aproveitava. A mais célebre dessas buracas foi a Furna de Sant’Ana, sobre a qual circulam algumas lendas.
Vejamos uma delas.
Pois corria o ano de 1616 quando meio milhar de piratas caiu sobre a ilha, nela permanecendo durante oito dias. Ninguém ousou resistir-lhes, e todos os que puderam correram a esconder-se. Muitos deles na Furna de Sant’Ana. Muitos deles? Sempre eram umas centenas de velhos, mulheres e crianças, que ficaram quase todo o tempo às escuras, silenciosos, trementes, à espera do pior. Às tantas, em data não registada, os que ali oravam, aflitos, escutaram uma barulheira tremenda. Alguns espreitaram e viram um grande cortejo de piratas a cavalo e a pé, rufando tambores e tocando cornetas. E entre os refugiados ouviu-se a prece de uma velhinha:
- Senhora Santa Maria dos Anjos, que sois senhora desta ilha, salvai-nos!
E todos ajoelharam porque julgavam ser aquele o último dia das suas pobres vidas. Ainda barulhavam a pouca distância os piratas quando, ao som da prece, tudo voltou ao silêncio.
Como um manto azul, a ilha ficou sem um ruído. O Sol deu uma volta no espaço e lançou os seus raios até ao cabo da Furna de Sant’Ana. Então, do alto de uma árvore, para onde acabara de subir, um rapazote, olhando o mar, gritou:
- Estamos salvos! Saiam todos!
Os barcos dos piratas estavam na linha do horizonte. Haviam abandonado a ilha.
- Nossa Senhora salvou-nos!
Pois valha falar de uma outra gruta, situada entre as duas fajãs referidas por Gaspar Frutuoso no seu Saudades da Terra. Tinha a boca cerrada com areia e cal, do mesmo aparelho que os castelos que contornam Santa Maria. A lenda diz que aí dentro se guardou por séculos um tesouro de piratas mouros, mas havia também quem receasse o que lá poderia encontrar-se.
Porém, como se cumprira a Restauração, era voz corrente que se tratava antes de um tesouro dos espanhóis, que o não puderam levar na saída precipitada para os seus territórios, já que dali foram corridos. Tesouro ou armas e munições, deixando escrito nas paredes da gruta, tal como o haviam feito em diversos castelos, estes dizeres mal escritos:

CASTELHANO SE VAI EMBORA

GUARDA LA RISA PRA QUANDO LA CHORA.

José Viale Moutinho, Lendas dos Açores

sábado, 1 de março de 2008

Homenagem aos Romeiros de S. Miguel

Com um abraço de parabéns, pelo dia de amanhã, a Daniel de Sá, e um pedido de desculpas por truncar o seu belo texto. Quis, apenas, encurtá-lo para caber neste espaço sem se tornar ininteligível. *************************************************
A ilha, toda inteira. Passo a passo há-de João andá-la de ponta a ponta, duzentos e cinquenta quilómetros em redor, cinquenta léguas compridas de cansaços e Ave-Marias, Romeiro, ele, cristão de pouco ir à Missa… E a pão e água, a promessa!...
Pois sim, a guerra… Ainda ela, a guerra, de que pouco mais se sabia do que estatísticas falsas e a voz do Ferreira da Costa que só dava notícias de quem estava bem.
[…]

A tarde vai avançando, e ele sente-se cansado mas não exausto. O pior será, com certeza, depois de o corpo repousar por umas horas e todos os músculos se recusarem a reagir, com a facilidade de hoje, ao esforço da amanhã. Tem à vista o reino da Tronqueira, com o Pico da Vara a apontar o céu, numa oração em silêncio. E parece até que se notam as marcas deixadas pelos imensos dedos do Criador, no acto de modelar a lava de que tudo isto é feito. Se um louco destruísse todos os templos da ilha, restavam-nos as montanhas, que já os deuses antigos por aí é que habitavam…

Desde que João se despediu da mulher com um beijo breve e, dos filhos a bom dormir, com um leve roçar dos lábios nas faces pequenas, doze horas se passaram e andou o rancho coisa de uns trinta quilómetros. Como ali a ilha se amontoa em serras e em cristas enrugadas, não tem espaço para descer suavemente as ravinas abruptas e os caminhos de estoirar cavalos. Vão os romeiros subindo a outra margem da ribeira do Despe-te Que Suas, nome de acertado baptismo para tão íngremes barrancos que a guardam muito funda.
Já no fim da ladeira, uma cruz ao lado da estrada assinala que ali morreu um romeiro, há muito tempo. Foi mudada um pouco mais para baixo do sítio certo, para não incomodar o trânsito, porque todos os ranchos param numa prece por alma daquele irmão de que a maior parte nem conhece o nome. Manuel Viveiros Arruda, digamos que era, porque se sabe que sim. Em Março seria, de mil oitocentos e cinquenta e quatro, o dia de que se guarda tão longínqua memória. Vinha das Sete Cidades, nome mítico da ilha, ou outro nome da ilha, que precedeu, no imaginário medieval, o mais cristão que lhe deram depois da descoberta. Ia meter-se o rancho à subida da encosta, e o pobre homem, convencido de que para tantos seus pecados era pequena a penitência que fazia, pediu licença ao mestre para levar às costas uma pedra que lhe aliviasse a alma por lhe pesar o corpo. O mestre que não, e ele que, em vez disso, carregaria os bordões de todos os irmãos. Subisse em paz, como os outros, que decerto lhe bastava ser bom romeiro e Deus lhe tomaria isso em conta. Sabe-se lá que pecados lhe pesavam na alma – talvez não muitos, porque, às vezes, quem menos peca é que maior pecador se julga -, o certo é que o arrependido penitente se agarrou mesmo a uma pedra do tamanho que lhe pôde o remorso, mais forte do que a resistência do corpo, e foi cair morto de exaustão, e com a consciência lavada pelos últimos suores, ao lado da pedra que deixou tombar quando se lhe acabavam a ladeira, as forças e a vida. E esse romeiro obscuro, que parece ter resistido a toda a subida para morrer mais perto do céu, tem com certeza sempre mais gente a rezar por si, em tempo certo, do que qualquer rei ou qualquer papa.
Chega-se, pois, tarde ao fim, e, com ele, a primeira jornada do rancho, que lentamente se aproxima de Santo António, onde espera a caridade de um cristão acolhimento. João será mandado pelo mestre, logo depois de entregues as crianças, com um romeiro muito mais velho que já fez para cima de uma dúzia de romarias.
Quem os acolhe é pobre, mas tem a mesa posta com fartura, coisa que João nota enquanto saúda “seja louvado nosso Senhor Jesus Cristo”, e ouve a resposta “Seja para sempre louvado com Sua e nossa Mãe Maria Santíssima”. Encosta o bordão à parede, despe o xaile, tira das costas a saca com o pão e a garrafa de água, e deixa pelos ombros o lenço e ao pescoço o terço de contas de lágrimas e cruz de latão, em sinal de que é romeiro. A dona da casa traz uma bacia de água quente com sal, como é costume. João sente vergonha por ter de lavar os pés à vista de estranhos, mas o calor reconfortante da água acalma-lhe um pouco o ardor que lhe sobe deles pelas pernas acima.
Ao sentarem-se à mesa, anuncia que está a pão e água. […]
- Mas, a pão e água, é um sacrifício muito grande. O irmão não vai aguentar.
Havia de aguentar, sim. Por muito pior já passara, e a cruz de guerra de quarta classe era o testemunho desse tal milhão de horrores, porque um diploma assim só se dá a mortos ou aos que o foram quase.
Daniel de Sá, Ilha Grande Fechada

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2008

O 165º Aniversário do Nascimento dum Micaelense Ilustre

"Por saber e poder, que o homem comporte,
Somente o Amor harmónico pondera
A ideia e acção para vencer a morte."
Teófilo Braga, Doze de Inglaterra
© Museu da Presidência da República
TEÓFILO BRAGA
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Joaquim Teófilo Fernandes Braga [escritor, filólogo e político] nasceu em Ponta Delgada (S. Miguel), em 24 de Fevereiro de 1843.

Estudou Direito, em Coimbra. A partir de 1861, juntou-se à Geração de 70, grupo de intelectuais que criticava o estado da Nação e era a favor da implantação da República.

Quando, em 5 de Outubro de 1910, é proclamada a República, Teófilo Braga, que era deputado, foi escolhido para presidir ao Governo Provisório que governou Portugal, até ser eleito o primeiro Presidente da República.

Em menos de um ano, este Governo conseguiu: manter a ordem pública; tornar o novo regime mais forte e ser reconhecido pelos principais países estrangeiros; preparar as eleições para a Assembleia Constituinte, que elaboraria a Constituição Política da República Portuguesa. Os republicanos:

-Substituíram a bandeira (que, de azul e branca, passou a vermelha e verde);

-Adoptaram um novo hino nacional, A PORTUGUESA [nascida da onda de patriotismo que levantou os portugueses contra os ingleses, face ao Ultimato Inglês];

-Substituíram a moeda portuguesa, o real, pelo escudo;

-Reconheceram, aos trabalhadores, o direito à greve;

-Criaram novas leis da família, com mais direitos para as mulheres;

-Iniciaram uma reforma da Educação, estabelecendo o ensino obrigatório e gratuito, dos 7 aos 10 anos;

-Elaboraram a lei da separação da Igreja e do Estado.

Depois da Constituição ter sido aprovada e da eleição de Manuel de Arriaga [outro açoriano ilustre, mas do Faial] para primeiro Presidente da República Portuguesa, Teófilo Braga regressa ao seu lugar de deputado.

A 29 de Maio de 1915, depois dum complicado processo em que Manuel de Arriaga se vê obrigado a abandonar o cargo, Teófilo Braga vai substituí-lo, assumindo a presidência até à tomada de posse do novo presidente, Bernardino Machado, em 5 de Outubro de 1915.

Depois de abandonar a política, sozinho por morte dos seus familiares mais próximos, dedica-se à escrita. Ao longo da vida, escreveu mais de 300 livros.

Morre, no seu gabinete de trabalho, em Lisboa, em 28 de Janeiro de 1924.

"Como homem de máos instinctos que, forçada uma casa alheia, e entrando nella, lhe roubasse o melhor thesouro dos seus cofres, e sahisse com elle muito aconchegado ao peito, [...] assim nós, ha dias, sahiamos do gabinete de trabalho do nosso excellentissimo mestre, o snr. Theophilo Braga, depois de termos recebido da sua propria mão o primeiro volume da sua collecção, subordinada ao conceito de Alma portugueza, - que elle quiz iniciar, publicando primeiramente Os doze de Inglaterra. Era este livro o nosso thesouro que traziamos muito achegado ao peito.

Theophilo Braga pouco nos disse d'esta obra. [...]

O grande restaurador da litteratura portugueza dissera-nos apenas: - "Na minha obra, - dizem-me! - ha um sentimento patriotico que me consola." E mais nada.
Fernandes Agudo, THEOPHILO BRAGA e a "ALMA PORTUGUEZA",
Porto, Livraria Chardron, de Lello & Irmão, Editores, 1902
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Nesta fase tão pessimista da vida nacional, é bom lembrar homens generosos e honestos que lutaram por um Portugal mais justo e igual. Independentemente, dos resultados obtidos, tiveram um sonho grande e "viram e amaram a alma" da Nação portuguesa.

sábado, 23 de fevereiro de 2008

Seguir a UTOPIA

José Afonso [2 de Agosto de 1929 - 23 de Fevereiro de 1987]
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UTOPIA
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Cidade
Sem muros nem ameias
Gente igual por dentro
Gente igual por fora
Onde a folha da palma
Afaga a cantaria
Cidade do homem
Não lobo mas irmão
Capital da alegria
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Braço que dormes
Nos braços do rio
Toma o fruto da terra
É teu, a ti o deves,
Lança o teu
Desafio
*****
Homem que olhas nos olhos
Que não negas
O sorriso, a palavra forte e justa
Homem para quem
Nada disto custa.
Será que existe,
Lá para os lados do Oriente,
Este rio, este rumo, esta gaivota.
Que outro fumo deverei seguir
Na minha rota?

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2008

30.º Aniversário da Morte VITORINO NEMÉSIO

Vitorino Nemésio, nascido em 19 de Dezembro de 1901, na Praia da Vitória (Ilha Terceira), morreu em Lisboa, no dia 20 de Fevereiro de 1978, tendo sido sepultado em Coimbra. Quem não se recorda do seu programa, na RTP, "Se bem me lembro..."? Só os mais novos é que podem não se lembrar...
Deixou uma vasta e variada obra.

"Mau Tempo no Canal", a sua grande obra em prosa, publicado em 1944, é considerado um dos maiores romances portugueses do século XX.

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Feio e teimoso bicho! Mas bicho firme, de um só rosto e de uma só fé — a fé refeita e salgada do fundo do Oceano Atlântico.”
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«Sou ilhéu; e, tanto ou mais do que a ilha, o ilhéu define-se por um rodeio de mar por todos os lados. Vivemos de peixe, da hora da maré e a ver navios... Na infância e na adolescência era o meu mais belo espectáculo. Quase todas as casas abastadas, nos Açores, estavam munidas de um velho óculo de alcance, e algumas de binóculos, com que se seguiam as chaminés dos paquetes e as árvores dos veleiros molhadas na linha do horizonte. Na nossa casinha de campo, na Vinha do Mão Roxa, sobre os vinhedos e lavas lambidas ao longe pela ressaca, meu pai, — músico e um pouco poeta, — trepava à varanda do telhado, sacava do grande búzio, ao pôr do sol, e metendo e tirando a mão direita na rosca corada do calcário, tirava-lhe dois aulidos alternos e melancólicos, intencionalmente repetidos, sinal de vida isolada dado à vizinhança do longe.”

Vitorino Nemésio, “Corsário das Ilhas

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2008

EDUARDO BETTENCOURT PINTO

Eduardo Bettencourt Pinto nasceu na Gabela, Sul de Angola, em 1954. Viveu em vários países após 1975, residindo actualmente no Canadá. É funcionário estadual, consultor informático e editor da revista literária “Seixo review”, na Internet. Escreve para publicações no Canadá, Estados Unidos, Portugal e Brasil. Publicou vários livros de poesia e ficção. ******************** Graças ao Urbano Bettencourt, descobri este outro Bettencourt, cuja família, presumo, é originária do Nordeste.
Dele diz Urbano: É por isso que me sinto grato ao Eduardo Bettencourt Pinto pela sua poesia destes anos, com a qual ele nos tem revelado a harmonia do mundo para lá das ruínas e das sombras do quotidiano, ao mesmo tempo que com ela fomos descobrindo outros sentidos para a língua que falamos.
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Um Amigo
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Há uma casa no olhar
de um amigo.
Nela entramos sacudindo a chuva.
Deixamos no cabide o casaco
fumegando ainda dos incêndios do dia.
Nas fontes e nos jardins
das palavras que trazemos
o amigo ergue o cálice
e o verão
das sementes.
Então abre as janelas das mãos para que
cantem
a claridade, a água
e as pontes da sua voz
onde dançam os mais árduos esplendores.
***
Um amigo somos nós, atravessando o olhar
e os véus de linho sobre o rosto da vida
nas tardes de relâmpagos e nos exílios,
***
onde a ira nómada da cidade arde
como um cego em busca de luz.
Eduardo Bettencourt Pinto, "Da Outra Margem"

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2008

"Era um génio e era um santo"

ANTERO DE QUENTAL
[Ponta Delgada, 18 de Abril de 1842
Ponta Delgada, 11 de Setembro de 1891]

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TENTANDA VIA
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I
***
Com que passo tremente se caminha
Em busca dos destinos encobertos!
Como se estão volvendo olhos incertos!
Como esta geração marcha sozinha!
***
Fechado, em volta, o céu! o mar, escuro!
A noite, longa! o dia, duvidoso!
Vai o giro dos céus, vem vagaroso...
Vem longe ainda a praia do futuro...
***
É a grande incerteza, que se estende
Sobre os destinos dum porvir, que é treva...
É o escuro terror de quem nos leva...
O futuro horrível que das almas pende!
***
A tristeza do tempo! o espectro mudo
Que pela mão conduz... não sei aonde!
– Quanto pode sorrir, tudo se esconde...
Quanto pode pungir, mostra-se tudo. -
***
Não é a grande luta, braço a braço,
No chão da Pátria, à clara luz da História...
Nem o gládio de César, nem a glória...
É um misto de pavor e de cansaço!
***
Não é a luta dos trezentos bravos,
Que o solo amado beijam quando caem...
Crentes que traz um Deus, e à guerra saem,
Por não dormir no leito dos escravos...
***
É a luta sem glória! é ser vencido
Por uma oculta, súbita fraqueza!
Um desalento, uma íntima tristeza
Que à morte leva... sem se ter vivido!
***
Não há aí pelejar... não há combate...
Nem há já glória no ficar prostrado –
São os tristes suspiros do Passado
Que se erguem desse chão, por toda a parte...
***
É a saudade, que nos rói e mina
E gasta, como à pedra a gota d'água...
Depois, a compaixão, a íntima mágoa
De olhar essa tristíssima ruína...
***
Tristíssimas ruínas! Entristece
E causa dó olhá-las – a vontade
Amolece nas águas da piedade,
E, em meio do lutar, treme e falece.
***
Cada pedra, que cai dos muros lassos
Do trémulo castelo do passado,
Deixa um peito partido, arruinado,
E um coração aberto em dois pedaços!
***
II
***
A estrada da vida anda alastrada
De folhas secas e mirradas flores...
Eu não vejo que os céus sejam maiores,
Mas a alma... essa é que eu vejo mais minguada!
***
Ah! via dolorosa é esta via!
Onde uma Lei terrível nos domina!
Onde é força marchar pela neblina...
Quem só tem olhos para a luz do dia!
***
Irmãos! irmãos! amemo-nos! é a hora...
É de noite que os tristes se procuram,
E paz e união entre si juram...
Irmãos! irmãos! amemo-nos agora!
***
E vós, que andais a dores mais afeitos,
Que mais sabeis à Via do Calvário
Os desvios do giro solitário,
E tendes, de sofrer, largos os peitos;
***
Vós, que ledes na noite... vós, profetas...
Que sois os loucos... porque andais na frente...
Que sabeis o segredo da fremente
Palavra que dá fé – ó vós, poetas!
***
Estendei vossas almas, como mantos
Sobre a cabeça deles... e do peito
Fazei-lhes um degrau, onde com jeito
Possam subir a ver os astros santos...
***
Levai-os vós à pátria-misteriosa,
Os que perdidos vão com passo incerto!
Sede vós a coluna de deserto!
Mostrai-lhes vós a Via-dolorosa!
***
III
***
Sim! que é preciso caminhar avante!
Andar! passar por cima dos soluços!
Como quem numa mina vai de bruços
Olhar apenas uma luz distante!
***
É preciso passar sobre ruínas,
Como quem vai pisando um chão de flores!
Ouvir as maldições, ais e clamores,
Como quem ouve músicas divinas!
***
Beber, em taça túrbida, o veneno,
Sem contrair o lábio palpitante!
Atravessar os círculos do Dante,
E trazer desse inferno o olhar sereno!
***
Ter um manto da casta luz das crenças,
Para cobrir as trevas da miséria!
Ter a vara, o condão da fada aérea,
Que em ouro torne estas areias densas!
***
É, quando, tem temor e sem saudade,
Puderdes, dentre o pó dessa ruína,
Erguei o olhar à cúpula divina,
Heis-de então ver a nova-claridade!
***
Heis-de então ver, ao descerrar do escuro,
Bem como o cumprimento de um agouro,
Abrir-se, como grandes portas de ouro,
As imensas auroras do Futuro!
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Aconselho ouvir "A NOITE", de
José Mário Branco, com base neste
poema do meu "enorme" e amado Antero

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2008

PORQUE OS AFECTOS SÃO O MAIS IMPORTANTE DA VIDA...

Para todos os meus amigos
e amigas, desejo o que há
de melhor no mundo:
O AMOR PERFEITO!

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2008

Porque tudo na vida é política...

Carta Aberta ao Presidente Carlos César
Vivi alguns anos em S. Miguel e apaixonei-me, sem remédio pelas “Ilhas”. Os Açores são, para mim, uma espécie de Paraíso que eu gostaria de ver como símbolo do que é bom e belo no Planeta. Infelizmente, não restam muitos lugares assim.
Os Açorianos, por vezes, pensam que vivem mal, que precisam de se tornar iguais aos outros para serem felizes. Como se enganam! A qualidade da vida que têm é um bem que muitos gostariam de ter. É evidente que há coisas a melhorar e que todas as pessoas têm direito aos bens essenciais e a viver com dignidade.
As notícias que me têm chegado nos últimos dias, contudo, fazem-me temer o futuro das minhas “Ilhas Encantadas”.
Transcrevo apenas excertos de artigos de dois jornais. Quero esclarecer que, nomeadamente no caso do artigo (completo) do Tomaz Dentinho, não me liga ao seu autor qualquer afinidade política. Pelo contrário, faz afirmações e tem opiniões com as quais estou em absoluto desacordo. No entanto, tenho de reconhecer que tem razão nos dois ou três aspectos que cito.
Dirijo-me ao Senhor Presidente porque, apesar de me situar à esquerda do Partido a que pertence, reconheço no senhor um homem de bem, digno e sério. Sobretudo, acredito que quer o melhor para a sua região. No entanto, nem sempre o melhor é o dinheiro (“Ah! Mònim dum corisco!) ou a subserviência.
Por favor, proteja as nossas ilhas da cobiça e dos interesses estrangeiros e da incompetência nacional! Não queira ficar na História por colaborar em verdadeiros atentados, esses sim, contra a Humanidade.
Terá, com certeza, muita gente a apoiá-lo na luta para travar os disparates do Governo Central e a ganância prepotente dos que se julgam senhores do Mundo.
Quero dizer-lhe que uma das coisas que, ainda hoje, mais me magoa é ver o nome dos Açores associado à Invasão do Iraque.
As ilhas dos Açores transmitem harmonia, paz, serenidade, bem-estar. É esse o papel de que a Natureza as incumbiu: o de transmitir aos Homens a esperança de que ainda é possível ser feliz na Terra.
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Face à possibilidade de ser criada nos Açores uma base de treino para os novos caças norte-americanos e para o sistema de armamento de mísseis hipersónicos, “a região está disponível para aceitar que a Base das Lajes tenha novas funcionalidades de futuro, no âmbito da relação bilateral que já existe entre os EUA e Portugal”. Quem o diz ao Destak é o representante do Governo Regional na Comissão Bilateral Permanente do Acordo das Lajes.
André Bradfort acrescenta, no entanto, que “esta hipótese terá de ser avaliada na presença de um projecto concreto” e que ainda é muito cedo para se falar disso. […]
As conversações entre os dois países foram ontem confirmadas pela embaixada dos EUA em Lisboa. Em declarações à TSF, coube ao conselheiro para a imprensa e cultura da Embaixada dos EUA, Wesley Carrington, garantir que “tem havido conversações”, mas não “negociações” sobre esta ideia, que também tem sido explorada com outros parceiros da NATO. […]
No entanto, o Ministério da Defesa, contactado pelo Destak, negou a existência de “conversações directas ou indirectas” sobre a criação de uma base de treinos militares dos EUA nos Açores. Este ministério sublinha ainda que, até ao momento, não chegou ao gabinete qualquer pedido sobre esta matéria.
Patrícia Susano Ferreira (jornal Destak)
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As notícias são recentes e angustiantes: a condescendência ao Tratado Europeu que transfere para a competência comunitária a gestão exclusiva da biodiversidade marinha; o último acordo Luso-espanhol que permite a invasão de atuneiros espanhóis nos mares dos Açores; e, para finalizar, a perspectiva de criar nos Açores uma base americana para testes de armas com óbvios impactos nos recursos marinhos, na potencialidade logística e na atractividade turística. […]
Mas se o mar está a ser alienado para os Europeus, a posição estratégica e a potencialidade turística está a ser dada aos americanos. Venham os testes de armas para os mares dos Açores para que o ruído dos jactos americanos perturbe os passeios pedestres dos turistas europeus e se demonstre que a biodiversidade marinha, vendida aos europeus, pode ser perturbada pelos americanos em retirada do Médio Oriente. Os estrategas nacionais querem assim balancear as forças de um lado e de outro do Atlântico. Ficam contentinhos com um passeio a Washington e com alguma sucata que nos chegue do desastre iraquiano. Porventura o que nos resta é sair da Europa para salvar Portugal.
Tomaz Dentinho (jornal A União)

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2008

URBANO BETTENCOURT e o gosto das palavras

Às vezes, dá-me saudades dos anos sessenta. E não será tanto a vaga nostalgia dessa "adolescência que nunca ninguém tem a não ser quando a relê num livro" (como escreve Joaquim Manuel Magalhães num belíssimo poema) e nem talvez num qualquer sentimento de desencanto de quem perdeu as flores que Scott McKenzie nos pusera nos cabelos antes de entrarmos em San Francisco, de cujos caminhos acabámos, aliás, por desviar-nos, sem nunca lá termos chegado. Não, não será por isso que às vezes sabe bem olhar para trás e, nessa pausa do tempo, recuperar algum do apaziguamento interior, da ingenuidade mesmo, que os anos foram transtornando e subvertendo até; aquilo que continua a chamar-me, nesse regresso, será muito mais a possibilidade de confrontar-me, trinta anos depois, com a pura sensação de quem vê as suas próprias palavras estampadas em letra de forma nas páginas dos jornais. E aqui, sim, poderá insinuar-se a nostalgia pelo tempo de um olhar optimista sobre a imprensa e que talvez fosse, afinal, o sinal de uma confiança mais vasta, de uma crença na possibilidade de transformação do gosto, da vontade e do desejo; é decerto a limpidez desse olhar antigo que me atrai ainda, sobretudo quando em confronto com alguma perversidade que se atravessa no meu olhar de hoje sobre a imprensa, os seus jogos, o seu tédio.
Urbano Bettencourt, "O Gosto das Palavras III"
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Urbano Bettencourt nasceu na Piedade, Ilha do Pico, em 1949. Frequentou o Seminário de Angra, que abandonou, vindo posteriormente a licenciar-se em Filologia Românica pela Faculdade de Letras de Lisboa, depois de uma experiência de dois anos de guerra colonial na Guiné-Bissau. Professor do Ensino Secundário na margem sul do Tejo e em Ponta Delgada e, desde 1990, Assistente Convidado da Universidade dos Açores, onde tem leccionado Literatura Portuguesa Clássica, Estudos Literários e Literatura Açoriana. Tem colaboração dispersa por jornais, revistas, rádio e televisão, para a última das quais adaptou, com José Medeiros, o romance Mau Tempo no Canal, de Vitorino Nemésio. Algumas obras: Raiz de Mágoa (poesia); Ilhas (narrativas), de parceria com Santos Barros; Marinheiro com residência fixa (poesia, narrativas); O Gosto das Palavras I, II e III(ensaios); Naufrágios Inscrições (poesia, narrativas); Emigração e Literatura (ensaio); Algumas das Cidades (poesia, narrativas).

terça-feira, 5 de fevereiro de 2008

De VAGAR... precisa-se!

Do Meu Vagar

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Já não há mais o vagar

de quando se comia sentado

e devagar se caminhava

até chegar a qualquer lado

agora vai toda a gente sempre

de mão na buzina

sempre na linha da frente

a tremer de adrenalina

*****

Do meu vagar não traço rotas

não tenho trilho que me prenda

não tiro dados nem notas

não encho uma linha de agenda

do meu vagar não chego a Meca

não faço nada num só dia

não corto a fita da meta

não vejo Roma nem Pavia

*****

Do meu vagar

sei que nunca hei-de ir longe

vou aonde for preciso

vou indo no meu vagar

em busca do tempo perdido

e se um dia o encontrar

o longe não faz sentido

*****

Do meu vagar há um nicho

um pico de ilha insubmersa

onde há lugar para o capricho

que dá pelo nome de conversa

do meu vagar a paisagem

ainda tem beleza em bruto

e vale mais uma palavra

que mil imagens por minuto

*****

Do meu vagar

sei que nunca hei-de ir longe

vou aonde for preciso

vou indo no meu vagar

em busca do tempo perdido

e se um dia o encontrar

o longe não faz sentido

***************************************

Carlos Tê [in LADO LUNAR, de Rui Veloso]

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2008

Vamos "Cantar às Estrelas"?

Igreja Matriz (N. Sr.ª da Estrela)
Foi no ano 2000 que, estando a trabalhar na sala dos professores da minha escola, ao fim da tarde, ouvi pela primeira vez alguém dizer que, à noite, iam cantar às estrelas. Fiquei agradavelmente surpreendida. Coisa linda: cantar às estrelas...
Soube depois que se tratava da Festa de Nossa Senhora da Estrela, cuja imagem deixa por umas horas a Igreja Matriz e sai à rua, até à Câmara Municipal, onde o povo se reúne para a festejar.
Lembro-me que havia vários grupos que, juntando-se na Ribeira Seca, percorriam a Rua Direira (Rua El-rei D. Carlos I), tocando, cantando e recebendo presentes (comida e bebidas) de alguns dos moradores, enquanto se dirigiam aos Paços do Concelho. Aí se encontrava um palco, onde actuavam os grupos, filmados pela RTP Açores.
Penso que, pelas 5 horas da manhã se celebrava missa. Aliás, tenho a ideia de que a maior parte das missas das festas religiosas se celebravam a esta hora. Nunca percebi porquê. Ou melhor, tentei arranjar uma explicação: o hábito de, no passado, os agricultores estarem habituados a começar o trabalho muito cedo, mesmo nos dias que se seguiam às festas.

Nos dias seguintes (ou anteriores?), nalgumas aldeias e durante a noite, ouvia-se ao longe o canto difuso de grupos de cantadores. Receio estar a confundir e até agradeço que alguém me esclareça. Penso que esta festa "das estrelas" encerra o período natalício e, portanto, é mais lógico que esses cantares nocturnos se realizem entre o Natal (ou Ano Novo) até agora.

Lamento não ter conseguido encontrar as fotografias que tenho da festa para as poder pôr aqui.

Ficam estas que, apesar de não serem boas, dão uma ideia da cidade da Ribeira Grande, que acho muito bonita.

Para terminar, um recado para uma amiga (?) que, mazinha como as cobras, teve o desplante de me mandar, pelas 13h18m de hoje, a seguinte mensagem: "Aqui estou eu a comer uma malassada!".

Come agora outra, por mim, e canta "até que a voz te doa" às estrelas... Há lá coisa mais poética!...

Uma noite em grande para todos os ribeiragrandenses e visitantes!

quinta-feira, 31 de janeiro de 2008

PORTO.31.Janeiro.1891

“Nesse dia, cerca das duas horas e meia duma daquelas manhãs, nevoentas e frias, tão frequentes no Porto durante a estação invernosa, no profundo silêncio da cidade adormecida”… assim começa Basílio Teles, na lúcida análise que é “Do Ultimatum ao 31 de Janeiro – Esboço de História política”, o relato do 31 de Janeiro.

[Leia o texto completo (lá aparecem dois Açorianos ilustres) em:

http://amaroporto2.blogs.sapo.pt/]

terça-feira, 29 de janeiro de 2008

Manuel Alegre no Clube dos Pensadores

Numa feliz iniciativa do Clube dos Pensadores, Manuel Alegre esteve ontem, em Gaia, para debater o tema "O Sistema político: alternância e alternativas".
Se quiser ler a sua intervenção inicial, vá a http://amaroporto2.blogs.sapo.pt/
Vale a pena. Talvez mais tarde, possa contar-vos o mais importante da participação do grande número de intervenções dos presentes.

terça-feira, 22 de janeiro de 2008

Os meus cantinhos açorianos

"Não se descobrem novos oceanos se não se tiver coragem de perder a terra de vista." André Gide
Esta foi uma das imagens que guardei da minha primeira viagem a S. Miguel. Ali, nas Sete Cidades, junto àquela casa (Que bela estalagem daria!), apenas nevoeiro... Não se via "um palmo à frente do nariz" e, de repente, surge do meio da bruma o burrico, o homem e as vasilhas do leite. Entendi todo o mistério da brumas: o que encobrem e o que mostram. Foi um momento mágico, quase irreal, que nunca mais esqueci.

[1]

Foi em Abril de 1999. Estava de licença sabática e pude permanecer, na Ilha, três semanas. Dias de encantamento e o sentimento estranho de que tinha encontrado, finalmente, o “meu lugar”.

[2]

Voltei mais vezes, até que me mudei de vez. Nunca me arrependi. A paisagem de quadrados verdes luminosos, negros, suaves ou fortes, acompanhando o movimento das nuvens. As flores… o tempo das azáleas, dos jarros, das hortênsias, das conteiras, das beladonas (Meninos, p’rá Escola!) e de todas as outras. As caldeiras e fumarolas...

[3]

As lagoas e os seus mistérios… a permitirem experiências quase místicas. Os pássaros… os bandos de estorninhos, os milhafres, os melros, os santantoninhos, os cagarros, as alvéloas. E as plantinhas a que, antes, não prestava grande atenção e das quais não sabia o nome, como a bem-cheirosa madressilva ou o saboroso poejo.

Ah! O mar… lindo de morrer! O desejo de nele ficar, quando nadava. O bem que me sentia… Chegava a pensar: Será assim que os bebés se sentem no líquido amniótico?
A fruta… o ananás (personalizado e único), os capuchos (que aqui encontro sob o nome de phisalys e caríssimos), os maracujás, as enormes anonas, os araçás . E o chá, e o bolo de sertã, e a massa sovada, e as queijadas, e os bolos lêvedos das Furnas, e as “fofas” da Povoação. E a carne e o peixe… de óptima qualidade. E a manteiga, e os queijos, e os iogurtes, e o cheirinho do leite do dia a ferver. É preciso dizer mais?
Senhor Santo Cristo e Espírito Santo, os Romeiros… O artesanato e a surpreendente oferta cultural duma cidade como a Ribeira Grande. Assisti a espectáculos, de teatro e música, muito bons; confirmei a natural tendência dos açorianos para as Artes; descobri escritores que ocupam, hoje, um lugar de destaque na minha modesta biblioteca. Li “Saudades da Terra”, do Gaspar Frutuoso. Amei, ainda mais, o meu Antero de Quental, que considero um dos maiores vultos da cultura portuguesa e um ser humano extraordinário.
Com amigos, voei para as outras ilhas… todas lindas!!! Faltam quatro, mas lá irei. Fiz caminhadas enormes e esplendorosas com “Os Amigos dos Açores”. Acreditei estar no PARAÍSO.
Mas… a vida não pára. Tive de voltar ao Porto. Houve amigos que vieram também. Alguns ficaram. Mas do meu coração não saem mais. A eles devo o muito que conheci dessas ilhas espantosas [as “nossas ilhas”], o carinho e o “ombro” amigo sempre que precisei, as “tertúlias”, em amena ou acesa discussão, as petiscadas bem-humoradas; com eles partilho a saudade desses anos e da nossa aventura açoriana.
Para aguentar as saudades, tenho a casa cheia daquilo a que chamo “os meus cantinhos açorianos”. Tirei algumas fotografias para que vissem.
As quatro obras-de-arte numeradas são da autoria de uma dessas amigas que também voltou. A Elsa teve o cuidado de pôr a sua arte ao serviço da minha (também sua) paixão pelos Açores. É uma boa amiga… como os outros todos, cada um a seu modo.
Como já ficou provado, os que ficaram estragam-me com mimos. Gosto mesmo muito de vocês todos! Para sempre!
[4]

Não nasci nos Açores, é verdade. Mas…

Sou uma continental rodeada de Açores por todos os lados.

sexta-feira, 18 de janeiro de 2008

Ah! Mònim dum corisco!

Onésimo Teotónio Almeida
Há muito que desejava ler o “Ah! Mònim dum Corisco!”, de Onésimo Teotónio Almeida.
Felizmente, uns amigos encontraram-no na Feira do Livro, em Ponta Delgada, e trouxeram-mo (acompanhado de mais alguns, mas só de escritores açorianos), no Natal.
É, de facto, uma delícia. Ainda me lembro dum espectáculo excelente do “Pontilha”, no Teatro Ribeiragrandense, nele inspirado, aquando do lançamento de uma outra obra deste autor.
***
Começa com os seguintes versos cantados com a música da “Charamba” da Terceira:
***
Boa noite, meus senhores,
Senhoras e belas flores
Que aqui estão neste salão.
Para vós vou eu cantar
E a todos quero saudar
Do fundo do coração.
***
Hai! Gudívnim, Gudenaite, [Hi! Good evening, good night]
Vocês ‘tão todos òráite, [Vocês estão todos all right]
Luke! Yu bérabi, camâne! [Look! You better be, come on]
Vamos ter um naice shó, [Vamor ter um nice show]
Que até no Cirió [Que até no City Hall]
Vão dizer:Sanavagâne! [Vão dizer:Son of a Gun!]
***
Coro:
Ah! Mònim dum corisco! [Ah! Dinheiro dum corisco!]
***
Passaram-se milhas,
Ficaram as ilhas
Tão longe, pra lá;
E a gente que veio
Ficou de permeio,
Nem além nem cá.
É outra esta terra,
É outra esta gente,
E o Joe, que era Zé,
Lá dentro até sente
Que agora já é
Nas ilhas ausente;
Mas sabe também
Que ainda não tem
Aqui o seu pé
Seguro e assente.
Ausente-presente,
Quer cá como lá,
Aquém como além,
Ao meio partido,
O Joe que era Zé,
Não sabe se até,
Assim dividido,
É um dois ou três,
João ou Jànim, [Johnny]
Se Frank ou Francisco;
E ignora outra vez
Que a culpa, enfim,
É só do mònim,
Mònim dum corisco!
***
Enfim... a aventura do emigrante açoriano na América. Mas bom mesmo, para mim, foi relembrar frases e expressões como estas:
***
“Mamã que vá que eu fico cá fora de guarda.”
“... eles não vam dá os papeles amaricanos...”
“Eh, home, pela tua saúde. Deixa-me as políticas da mão.”
“Como é agora isso?”
“... quer dizer que os homens e as mulheres é iguales...
- Tava aí um bonito trabalho!”
“Ah, senhora, ...”
“Corisca mulher aquela!”
“E é amanhar.”
“Meu sogro está a sonhar alto. (...) O meu sogro deixe lá isso.”
***
Que saudades do falar michaelense!... E que comovente as preocupações do Tio Costa:
***
“Eh, home! E se a América entra em guerra com Portugal, por que lado é que a gente tira parte?”
[...]
Diálogo entre a Tia Evangelina e o Tio Costa:
“ - Eh, home? Para que é agora que foste perguntar se podias jurar a bandeira amaricana com uma mão na algibeira do casaco?
- Ó mulher, é porque eu tenho cá uma coisa cá dentro por causa desse juramento. Eu penso na minha rica terra onde eu nasci...
- E ó depois, vai daí?
- Era que se eu pudesse estar com uma mão na algibeira do casaco quando eu estivesse a jurar, eu levava comigo escondido na algibeira uma bandeirinha portuguesa pequenina e agarrava-a com a mão. Ninguém desconfiava. Da boca para fora era para a amaricana, mas cá para mim, não pegava nada, que a nossa é que contava!”
***
Lindo, Tio Costa!!!

quinta-feira, 17 de janeiro de 2008

UM BOM DIA DAS AMIGAS!

Cumprindo a tradição da "nossa Ilha", juntamo-nos através deste blogue. Não podemos jantar juntas... as quatro espalhadas por quatro cidades diferentes. Mas S. Miguel e os Açores vão fazer, para sempre, parte das nossas vidas e dos nossos amores. Uma vida feliz para todas!
Para quem não sabe, festeja-se nesta altura do ano, em quatro quintas-feiras seguidas, o dia dos amigos (para os homens), das amigas (para as mulheres), dos compradres e das comadres (para os respectivos). Não me lembro se a ordem é esta, nem se há mais algum pormenor que desconheça. Agradeço a quem sabe que faça o favor de me explicar.
Não ponho aqui mais fotografias porque não tenho, mas desde manhã que as mensagens, via telemóvel, começaram a chegar. Para as amigas que aqui não estão vai também o meu abraço... Que inveja tenho por não poder estar, como vocês e com vocês, no paraíso misterioso das brumas.
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Façam o favor de serem felizes!

domingo, 13 de janeiro de 2008

PARABÉNS A TODA A FAMÍLIA

Cada criança que nasce é uma semente de esperança.

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Que o Tiago venha a ser muito feliz e herde os dotes da família. Vai ser um miúdo fantástico.

Parabéns à família, especialmente à mãe (que é, e será sempre, o "porto de abrigo") e ao "avô babado", o meu querido amigo Daniel de Sá.

*Elisabete*

sexta-feira, 11 de janeiro de 2008

Se não fossem as pequenas alegrias...

Encontrar seja o que for que diga respeito às ilhas dá-me uma alegria imensa. Sinto, dolorosamente, a falta do muito de bom que nelas há. Por isso, vou-me contentando com o que aparece sem eu contar. Claro que prefiro gastar o leite, a manteiga, o queijo, o atum e o ananás açorianos. Quanto ao resto não é fácil de encontrar.
Agora, calculem o que senti quando, no Pingo Doce a dois passos de casa, dou de caras com as embalagens castanhas dos "Carrilhos", fabricados em Vila Franca do Campo pela "Garçataínha". E também de biscoitos caseiros e de côco. Levei dos três para provar. Todos bons: os caseiros, mais leves e menos doces, engordam menos; mas... os carrilhos são deliciosos. Já viciei toda a família. São de "comer e chorar por mais". Há dias, foi a vez do chá. Estava sempre a barafustar por não encontrar à venda o chá dos Açores. É verdade que os amigos daí me vão abastecendo, mas custa-me incomodá-los. Desta vez, foi o Continente a surpreender-me. Já tem chá do Porto Formoso. Espero que, em breve, tenha também da Gorreana. Afinal, são ambos deliciosos.
E este "bonito" de S. Jorge? Muito bom, MESMO!!!
Vê-se logo que sou gulosa. Não nego. Gosto de comer coisas boas e ainda mais quando estão associadas aos meus afectos.
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Para não ficar só pela Gastronomia, vou transcrever uma notícia publicada na revista TEMPO LIVRE, do INATEL. Aqui vai:
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TURISMO PARA TODOS – AÇORES 2008
Por iniciativa de S. Ex.ª o Presidente do Governo Regional dos Açores, o Orçamento da Região Autónoma para 2008 criou o Programa Turismo para Todos/Açores, com gestão do Inatel, destinado a proporcionar férias, nas épocas baixa e média da hotelaria e restauração, a mil concidadãos açorianos carenciados, combatendo, também, o isolamento decorrente da dupla ou tripla insularidade.
[…] instrumento de coesão social e inter-ilhas, de combate ao isolamento económico ilhéu, empresarial e local. É, para o Inatel, uma honra haver merecido do Governo Regional dos Açores a confiança para este novo e estimulante desafio.
Decorrem, também, negociações com o Governo Regional e os Municípios de Ponta Delgada, Angra do Heroísmo e Horta, no sentido da criação de centros de férias em S. Miguel, Terceira e Faial, assim como nas Flores e na Graciosa, ilha que a UNESCO acaba de classificar como reserva natural de biodiversidade. (*)
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Sou sócia do INATEL e tenho uma enorme admiração pelo trabalho desenvolvido por esta instituição. Para além dos centros de férias, com óptimas condições e localizados em locais lindíssimos, investe na cultura, na recuperação do património, no desporto, etc.
Quando apresentou um projecto para exploração do Teatro Rivoli (como acontece, em Lisboa, com o Teatro da Trindade, onde executa um repertório de excelente qualidade), fiquei deveras desapontada ao saber da preferência, do Presidente da Câmara do Porto, pela candidatura de Filipe La Féria.
O INATEL tem, talvez como grande objectivo humanitário e social, o chamado "turismo sénior", que proporciona viagens e férias aos mais velhos a preços especiais, de acordo com os seus rendimentos. Se eu, e outros com rendimentos idênticos ou superiores, quisermos participar nessas actividades, pagamos o máximo. Acho isso muito justo. Muitas dessas pessoas tiveram vidas de trabalho e de dificuldades, sem nunca terem tido a possibilidade de "sair do seu canto". É bom podermos adoçar-lhes um pouco os anos finais das suas vidas.
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(*) "As ilhas do Corvo e da Graciosa, nos Açores, foram classificadas pela UNESCO como Reservas da Biosfera, na sequência de uma candidatura apresentada pelo Governo Regional.
A classificação de uma zona como Reserva da Biosfera tem como principal função a defesa e protecção da biodiversidade, o desenvolvimento sustentado e o conhecimento científico.
Este estatuto permitirá reorientar as decisões ao nível da gestão, compatibilizando a preservação da biodiversidade com a presença humana.
Com esta classificação, Portugal passa a ter três Reservas da Biosfera, sendo que, até agora, o país dispunha de uma única zona com tal estatuto – a Reserva Natural do Paul do Boquilobo (Golegã).
"No site da UNESCO, é dito sobre o Corvo que 'a reserva inclui a massa de terra e toda a área marítima circundante. Centenas de anos de agricultura e criação de gado criaram uma paisagem de significante importância cultural'.
Sobre a ilha Graciosa, o mesmo site diz que 'a reserva inclui os habitats costeiros e as florestas verdejantes onde vivem numerosas espécies de aves, morcegos, moluscos eantrópodes. Agricultura, produção de vinho e criação de gado são as formas tradicionais de sustento dos habitantes desta ilha culturalmente diversificada'."

domingo, 6 de janeiro de 2008

As Coisas que Vamos Perdendo

Ribeira Grande

O Café Central, enquanto vivi na Ribeira Grande, era de facto uma espécie de ponto de encontro de amigos e das pessoas que, por qualquer razão, visitavam a cidade.

Gostava de ir até lá tomar o meu café e ler o Açoriano Oriental ou um livro. À noite, quase sempre me encontrava com colegas e amigos em animadas discussões.

Entrar no Central e ser acolhida pelo sorriso aberto do Sr. Paulo (o Paulinho: sempre bem dispoto e pronto a ajudar o próximo), encontrar na mesa do costume o Dr. Sampaio e os seus amigos, "dar dois dedos de conversa" à D. Zélia se estivesse em "dia sim", fazia com que me sentisse em casa.

O café funcionava, também, como sala de visitas das personalidades que gravavam programas para a RTP Açores ou participavam em espectáculos, no Teatro Ribeiragrandense. Tanto podíamos tropeçar no Onésimo, como na Filipa Pais ou no Zeca Medeiros. Estávamos sempre bem informados das actividades culturais, a que na generalidade não faltávamos.

Quando, há mais ou menos ano e meio. lá entrei não reconheci o "meu café". Já sabia das mudanças mas... mesmo assim foi um choque. Agora, se bem me lembro... até já nem existe.

Sei que "o mundo é composto de mudança" e que nada é para sempre, mas ver desaparecer os lugares que, num dado momento, fizeram parte do nosso quotidiano, é como se com eles partisse uma parte de nós.

Enfim... deu-me para a saudade do Café Central. Apenas uma das muitas coisas, da "minha ilha", de que tenho saudades.