"Onde vos retiver a beleza dum lugar, há um Deus que vos indica o caminho do espírito." Natália Correia
Noite de Lua cheia. Boiando sobre as sossegadas ondas que docemente vinham acabar-se na areia branca, uma mulher de longos cabelos de oiro parecia ondular também. O tronco nu era de uma perfeição raramente vista. E o seu rosto tão suavemente belo que um pescador, deslumbrado com a visão, não sentiu qualquer lascívia a perturbar-lhe o encanto.
Ela aproximou-se. Quando já estava muito perto, o homem percebeu, cheio de temor, que o seu pescoço estava desfigurado pelo que pareciam ser guelras. E, da cintura para baixo, era igual a um peixe. Na aflição de quem julgava ter o Diabo ao pé de si, esconjurou a aparição. No mesmo instante, a mulher, que um qualquer poder maléfico transformara em sereia, voltou à perfeição da forma humana.
Não sei se conhecias esta lenda, que não nos diz se os dois se casaram e viveram felizes para sempre. Mas podemos imaginar-lhes esse destino ditoso. Esta praia merece que a felicidade a contemple. Tão bela é que, no mapa que Luís Teixeira fez dos Açores em 1584, lhe chamou “Plaia Hermosa”. E porque o mapa foi feito para D. Filipe I de Portugal, todas as legendas do mapa estão no mesmo castelhano arcaico.
Que ela é formosa percebe-se logo à primeira vista. Por isso dispensa o adjectivo, que nunca foi usado pelos naturais da ilha. Mas Luís Teixeira boas razões teria para não se ficar pelo simples nome de Praia. E ele conhecia todas as dos Açores, sem dúvida, porque, na legenda que explica o mapa, escreveu em latim: “Estas ilhas foram percorridas com a maior diligência, e com todo o cuidado as descreveu o português Luís Teixeira, cosmógrafo da Majestade Real. Ano de Cristo de 1584.”
Daniel de Sá, "Santa Maria, a ilha-mãe"
“Na noite do primeiro para o segundo dia de Setembro de 1675, deram os mouros um assalto neste sítio desta Ermida a descuido das guardas, entraram pelo porto cativaram onze pessoas, entre mulheres e meninos e com este chicote as espancaram o qual se pôs aqui para memória do sucesso para que esteja pregando que se Deus logo levantou o castigo foi talvez por não envolver mais inocentes; todavia deixou ficar em terra o açoute com que castigou. Nesta Ermida não tocaram, passando de todo por junto dela; como também no ano de 1616 saquearam toda a ilha é tradição que a não viram vendo-os a todos quem dentro estava.”
Daniel de Sá, "Santa Maria, a ilha-mãe"
Estátua de Cristóvão Colombo
CASTELHANO SE VAI EMBORA
GUARDA LA RISA PRA QUANDO LA CHORA.
José Viale Moutinho, Lendas dos Açores
A tarde vai avançando, e ele sente-se cansado mas não exausto. O pior será, com certeza, depois de o corpo repousar por umas horas e todos os músculos se recusarem a reagir, com a facilidade de hoje, ao esforço da amanhã. Tem à vista o reino da Tronqueira, com o Pico da Vara a apontar o céu, numa oração em silêncio. E parece até que se notam as marcas deixadas pelos imensos dedos do Criador, no acto de modelar a lava de que tudo isto é feito. Se um louco destruísse todos os templos da ilha, restavam-nos as montanhas, que já os deuses antigos por aí é que habitavam…
Desde que João se despediu da mulher com um beijo breve e, dos filhos a bom dormir, com um leve roçar dos lábios nas faces pequenas, doze horas se passaram e andou o rancho coisa de uns trinta quilómetros. Como ali a ilha se amontoa em serras e em cristas enrugadas, não tem espaço para descer suavemente as ravinas abruptas e os caminhos de estoirar cavalos. Vão os romeiros subindo a outra margem da ribeira do Despe-te Que Suas, nome de acertado baptismo para tão íngremes barrancos que a guardam muito funda.
Já no fim da ladeira, uma cruz ao lado da estrada assinala que ali morreu um romeiro, há muito tempo. Foi mudada um pouco mais para baixo do sítio certo, para não incomodar o trânsito, porque todos os ranchos param numa prece por alma daquele irmão de que a maior parte nem conhece o nome. Manuel Viveiros Arruda, digamos que era, porque se sabe que sim. Em Março seria, de mil oitocentos e cinquenta e quatro, o dia de que se guarda tão longínqua memória. Vinha das Sete Cidades, nome mítico da ilha, ou outro nome da ilha, que precedeu, no imaginário medieval, o mais cristão que lhe deram depois da descoberta. Ia meter-se o rancho à subida da encosta, e o pobre homem, convencido de que para tantos seus pecados era pequena a penitência que fazia, pediu licença ao mestre para levar às costas uma pedra que lhe aliviasse a alma por lhe pesar o corpo. O mestre que não, e ele que, em vez disso, carregaria os bordões de todos os irmãos. Subisse em paz, como os outros, que decerto lhe bastava ser bom romeiro e Deus lhe tomaria isso em conta. Sabe-se lá que pecados lhe pesavam na alma – talvez não muitos, porque, às vezes, quem menos peca é que maior pecador se julga -, o certo é que o arrependido penitente se agarrou mesmo a uma pedra do tamanho que lhe pôde o remorso, mais forte do que a resistência do corpo, e foi cair morto de exaustão, e com a consciência lavada pelos últimos suores, ao lado da pedra que deixou tombar quando se lhe acabavam a ladeira, as forças e a vida. E esse romeiro obscuro, que parece ter resistido a toda a subida para morrer mais perto do céu, tem com certeza sempre mais gente a rezar por si, em tempo certo, do que qualquer rei ou qualquer papa. Joaquim Teófilo Fernandes Braga [escritor, filólogo e político] nasceu em Ponta Delgada (S. Miguel), em 24 de Fevereiro de 1843.
Estudou Direito, em Coimbra. A partir de 1861, juntou-se à Geração de 70, grupo de intelectuais que criticava o estado da Nação e era a favor da implantação da República.
Quando, em 5 de Outubro de 1910, é proclamada a República, Teófilo Braga, que era deputado, foi escolhido para presidir ao Governo Provisório que governou Portugal, até ser eleito o primeiro Presidente da República.
Em menos de um ano, este Governo conseguiu: manter a ordem pública; tornar o novo regime mais forte e ser reconhecido pelos principais países estrangeiros; preparar as eleições para a Assembleia Constituinte, que elaboraria a Constituição Política da República Portuguesa. Os republicanos:
-Substituíram a bandeira (que, de azul e branca, passou a vermelha e verde);
-Adoptaram um novo hino nacional, A PORTUGUESA [nascida da onda de patriotismo que levantou os portugueses contra os ingleses, face ao Ultimato Inglês];
-Substituíram a moeda portuguesa, o real, pelo escudo;
-Reconheceram, aos trabalhadores, o direito à greve;
-Criaram novas leis da família, com mais direitos para as mulheres;
-Iniciaram uma reforma da Educação, estabelecendo o ensino obrigatório e gratuito, dos 7 aos 10 anos;
-Elaboraram a lei da separação da Igreja e do Estado.
Depois da Constituição ter sido aprovada e da eleição de Manuel de Arriaga [outro açoriano ilustre, mas do Faial] para primeiro Presidente da República Portuguesa, Teófilo Braga regressa ao seu lugar de deputado.
A 29 de Maio de 1915, depois dum complicado processo em que Manuel de Arriaga se vê obrigado a abandonar o cargo, Teófilo Braga vai substituí-lo, assumindo a presidência até à tomada de posse do novo presidente, Bernardino Machado, em 5 de Outubro de 1915.
Depois de abandonar a política, sozinho por morte dos seus familiares mais próximos, dedica-se à escrita. Ao longo da vida, escreveu mais de 300 livros.
Morre, no seu gabinete de trabalho, em Lisboa, em 28 de Janeiro de 1924.
"Como homem de máos instinctos que, forçada uma casa alheia, e entrando nella, lhe roubasse o melhor thesouro dos seus cofres, e sahisse com elle muito aconchegado ao peito, [...] assim nós, ha dias, sahiamos do gabinete de trabalho do nosso excellentissimo mestre, o snr. Theophilo Braga, depois de termos recebido da sua propria mão o primeiro volume da sua collecção, subordinada ao conceito de Alma portugueza, - que elle quiz iniciar, publicando primeiramente Os doze de Inglaterra. Era este livro o nosso thesouro que traziamos muito achegado ao peito.
Theophilo Braga pouco nos disse d'esta obra. [...]
"Mau Tempo no Canal", a sua grande obra em prosa, publicado em 1944, é considerado um dos maiores romances portugueses do século XX.
*******************
Eduardo Bettencourt Pinto nasceu na Gabela, Sul de Angola, em 1954. Viveu em vários países após 1975, residindo actualmente no Canadá. É funcionário estadual, consultor informático e editor da revista literária “Seixo review”, na Internet. Escreve para publicações no Canadá, Estados Unidos, Portugal e Brasil. Publicou vários livros de poesia e ficção.
********************
Graças ao Urbano Bettencourt, descobri este outro Bettencourt, cuja família, presumo, é originária do Nordeste.
***************
Do Meu Vagar
*****************
Já não há mais o vagar
de quando se comia sentado
e devagar se caminhava
até chegar a qualquer lado
agora vai toda a gente sempre
de mão na buzina
sempre na linha da frente
a tremer de adrenalina
*****
Do meu vagar não traço rotas
não tenho trilho que me prenda
não tiro dados nem notas
não encho uma linha de agenda
do meu vagar não chego a Meca
não faço nada num só dia
não corto a fita da meta
não vejo Roma nem Pavia
*****
Do meu vagar
sei que nunca hei-de ir longe
vou aonde for preciso
vou indo no meu vagar
em busca do tempo perdido
e se um dia o encontrar
o longe não faz sentido
*****
Do meu vagar há um nicho
um pico de ilha insubmersa
onde há lugar para o capricho
que dá pelo nome de conversa
do meu vagar a paisagem
ainda tem beleza em bruto
e vale mais uma palavra
que mil imagens por minuto
*****
Do meu vagar
sei que nunca hei-de ir longe
vou aonde for preciso
vou indo no meu vagar
em busca do tempo perdido
e se um dia o encontrar
o longe não faz sentido
***************************************
Carlos Tê [in LADO LUNAR, de Rui Veloso]
Nos dias seguintes (ou anteriores?), nalgumas aldeias e durante a noite, ouvia-se ao longe o canto difuso de grupos de cantadores. Receio estar a confundir e até agradeço que alguém me esclareça. Penso que esta festa "das estrelas" encerra o período natalício e, portanto, é mais lógico que esses cantares nocturnos se realizem entre o Natal (ou Ano Novo) até agora.
Lamento não ter conseguido encontrar as fotografias que tenho da festa para as poder pôr aqui.
Ficam estas que, apesar de não serem boas, dão uma ideia da cidade da Ribeira Grande, que acho muito bonita.
Para terminar, um recado para uma amiga (?) que, mazinha como as cobras, teve o desplante de me mandar, pelas 13h18m de hoje, a seguinte mensagem: "Aqui estou eu a comer uma malassada!". Come agora outra, por mim, e canta "até que a voz te doa" às estrelas... Há lá coisa mais poética!...
Uma noite em grande para todos os ribeiragrandenses e visitantes!
[Leia o texto completo (lá aparecem dois Açorianos ilustres) em:
[1]
Foi em Abril de 1999. Estava de licença sabática e pude permanecer, na Ilha, três semanas. Dias de encantamento e o sentimento estranho de que tinha encontrado, finalmente, o “meu lugar”.
[2]Voltei mais vezes, até que me mudei de vez. Nunca me arrependi. A paisagem de quadrados verdes luminosos, negros, suaves ou fortes, acompanhando o movimento das nuvens. As flores… o tempo das azáleas, dos jarros, das hortênsias, das conteiras, das beladonas (Meninos, p’rá Escola!) e de todas as outras. As caldeiras e fumarolas...
[3]
As lagoas e os seus mistérios… a permitirem experiências quase místicas. Os pássaros… os bandos de estorninhos, os milhafres, os melros, os santantoninhos, os cagarros, as alvéloas. E as plantinhas a que, antes, não prestava grande atenção e das quais não sabia o nome, como a bem-cheirosa madressilva ou o saboroso poejo.
Ah! O mar… lindo de morrer! O desejo de nele ficar, quando nadava. O bem que me sentia… Chegava a pensar: Será assim que os bebés se sentem no líquido amniótico?
Com amigos, voei para as outras ilhas… todas lindas!!! Faltam quatro, mas lá irei. Fiz caminhadas enormes e esplendorosas com “Os Amigos dos Açores”. Acreditei estar no PARAÍSO.
Não nasci nos Açores, é verdade. Mas…
Sou uma continental rodeada de Açores por todos os lados.
Onésimo Teotónio Almeida