quarta-feira, 20 de agosto de 2008

A Carta de América

Mestre João Bernardo era sapateiro e ferrador. Calçar apenas criaturas humanas ou irracionais não seria suficiente para garantir o seu sustento e o da família, e por isso aprendeu as duas artes. Mas, para não ofender as pessoas, definia-se como um sapateiro que também calçava animais, porque, se dissesse de si mesmo que era um ferrador que também calçava gente, isto seria decerto tomado como ofensa à sensível dignidade dos bípedes pensantes.
Foi-se embora deixando a oficina dupla sem nada levar dela. A fornalha estava tão pronta a acender como todo o material em condições de ser usado. Qualquer um que o soubesse fazer reanimá-la-ia em momentos.
Foi em sua casa que se jogou o último desafio de sueca na serra. Ainda lá estavam a mesa, as cadeiras e até a garrafa com o resto da aguardente.
Com a partida de mestre João Bernardo, no dia seguinte, não ficariam na aldeia mais do que três homens: o tio Amadeu, o Joaquim Torre Velha e Manuel Cordovão. Por isso aquele serão de sueca e despedida teve honras de mutismo em velório que nem os cálices de aguardente animaram.
Os parceiros haviam sido sorteados dando uma carta a cada um. Manuel e o Joaquim Torre Velha ficaram com as duas mais baixas, e por isso formaram equipa.
Manuel preferia tê-lo como adversário, porque, se ganhasse, isso seria uma pequena vingança, embora insignificante pelo muito que o outro lhe devia de uma vida inteira vivida ao contrário do que tanto desejara. Qualquer último dia é sempre inesquecível, talvez mais do que o primeiro, nem que seja o de um simples jogo de sueca.
Para evitar uma indefinida sucessão de partidas em que os que estivessem em desvantagem invocassem o seu direito à desforra, foi combinado que a disputa terminaria quando uma das equipas alcançasse seis vitórias.
Partida a partida, a sequência de vitórias e derrotas não deu a nenhum dos pares uma vantagem superior a uma até ao quatro igual. Depois, Manuel e o Torre Velha ganharam as últimas duas com facilidade.
Ao jogar a derradeira carta, sabendo que a vitória estava assegurada, Manuel sentiu uma tristeza tão grande como se aquela fosse a maior derrota da sua vida. De cada vez que partia alguém, a tristeza era tanto maior quanto menos gente restava na aldeia. E parecia que os que se despediam, indo, sentiam o mesmo e na mesma proporção que os que diziam adeus, ficando.
Os outros dois passaram a recordar aquele último serão como se tivesse sido uma das noites mais importantes da sua vida. O velho Amadeu garantia que fora sorte apenas, a do Manuel e do Torre Velha, que se apanhasse outra vez mestre João Bernardo à sua frente e com um baralho de cartas no meio dos quatro, eles haveriam de ver como perdiam num ai.
Num fim de dia, em que conversavam à porta da casa do Torre Velha, Manuel tirou um baralho da algibeira, embaralhou bem, disse àquele que partisse e mandou que o tio Amadeu desse cartas como se mestre João Bernardo estivesse ali. “És maluco”, disse o velho, no entanto obedecendo. Manuel pegou num envelope, meteu-lhe dentro as dez cartas restantes e explicou: “Vou mandar estas cartas ao mestre João Bernardo. O senhor Joaquim jogue uma, para eu lhe dizer e ele decidir qual a carta que há-de jogar.”
Perante o pasmo deles, explicou. Cada um guardaria as suas cartas, esperando a resposta do companheiro distante. Quando ela chegasse, juntar-se-iam os três e completariam a vaza. Depois, começariam outra e Manuel Cordovão escreveria novamente a dizer como fora. “Isso nunca mais acaba!” disse o velho Amadeu, mas mais em jeito de satisfação que de censura.
Cada resposta vinda da América demorava pelo menos duas semanas a chegar. Então os três homens juntavam-se em casa do Joaquim Torre Velha, com a mulher do tio Amadeu a fazer companhia a Maria da Graça, e esperavam com ansiedade a revelação da carta devolvida. Às vezes o serão de sueca não passava disso mesmo: Manuel abria o envelope, punha na mesa, em cima das outras três, a carta enviada por mestre João Bernardo, e, se era este que ganhava a vaza, arrumavam as suas e esperavam mais duas semanas. Quando era a vez de ele dar cartas, prevenia com antecedência se queria virar trunfo por baixo ou por cima, e o velho Amadeu dava por ele. Mas ficavam felizes como se não faltasse ninguém.
O velho Amadeu adoeceu quando estavam empatados a duas partidas, mas ele ia ganhando a quinta por três a um. Ainda aguentou o suficiente para viver até à penúltima vaza, que ganharia, e o jogo também, se mestre João mandasse um trunfo para cortar um rei jogado pelo Torre Velha. Não veio o trunfo. Mas Manuel trocou uma carta sua e mostrou-a ao quase moribundo como sendo a do companheiro. “Vocês ganharam, tio Amadeu.” O velho sorriu, feliz. Pela última vez, o velho Amadeu sorriu. Para que ele sorrisse durante mais uma partida, Manuel seria capaz até de roubar ouro.
Daniel de Sá, in "O Pastor das Casas Mortas

domingo, 17 de agosto de 2008

TABACARIA AÇORIANA

A Tabacaria Açoriana, quando o Gil ainda não tinha aberto, primeiro, o seu café, e depois a livraria, era ponto de encontro e local de tertúlia, principalmente aos domingos de manhã, para alguns especialistas de tudo e coisa nenhuma. À volta de um café e folheando jornais da terra, formavam-se grupos cujos elementos iam trazendo à baila acontecimentos locais, merecedores de comentário mexeriqueiro, no geral tudo gente aspirante a classe média.

Pontificava nessas manhãs, o Sargento Carradas, músico na Banda regimental, assim conhecido por ter sempre "carradas de razão", em tudo o que discutia. Era um homem dos mais prolixos que conheci, falava de tudo: de astronomia, navegação, invenções, e de… siderurgia.
Um dia, dissertando o Carradas sobre a produção de aço em Portugal (que não existia na época, a Siderurgia do Seixal só foi criada mais tarde) entusiasmado pela sua imaginação, e partindo de alguns elementos que conhecia sobre a matéria, começou a descrever como eram os "altos fornos" portugueses:
- Diz-se altos, pelas elevadas temperaturas necessárias à produção do aço.
Estava presente o meu pai, mestre do Ensino Técnico, homem circunspecto, de ouvir mais do que falar, mas que, na ocasião, não se conteve, e disse:
- Ó sargento, olhe que em Portugal não temos altos fornos, o ferro e aço com que trabalhamos é importado.O nosso músico não se atrapalhou, e retorquiu:
- Mestre Leonel, os nossos não são, de facto, muito altos, são mais baixos, mas existem!..
Era assim o Carradas.
A Açoriana tinha outra virtude, essencial para alguns dos jovens da minha geração: era um local de compra de livros e jornais do Continente; lá comprei, entre outros, o livro de Homem de Mello que, antes de Spínola, criticava a política africana. E lá passava, sempre expectante, para ver se já tinham chegado os jornais. O dono da Tabacaria era o Sr. Fernando que, felizmente, deixou o bichinho cultural aos filhos, seus sucessores no negócio, e anos mais tarde, organizadores de uma Feira do Livro, nas instalações da Tabacaria, que julgo ter sido pioneira em S. Miguel.
João Coelho [1]
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[1] Os meus agradecimentos a João Coelho por este precioso texto, que teve a gentileza de me autorizar a publicar aqui.

quarta-feira, 13 de agosto de 2008

Alguém se lembra?

As Cavalhadas da Ribeira Grande
lembradas num selo desenhado por José Cândido
e emitido pelos Correios Portugueses,
em 11 de Maio de 1981

segunda-feira, 4 de agosto de 2008

FESTAS DA GUARITA

FESTAS DO IMPÉRIO DOS INOCENTES DA GUARITA
Texto retirado de artigo de "a União",
publicado na Sábado, dia 26 de Julho de 2008,
em "Actualidade"
Fotos gentilmente cedidas pelo
Blogue "PORTO DAS PIPAS"
Mordomos 2008
Numa noite em que a chuva não quis perder a festa, cerca de duas centenas de pessoas juntaram-se no Império dos Inocentes da Guarita para a tradicional Ceia dos Criadores.
A ceia dos criadores
A noite começou com o tradicional Pezinho, animado por seis cantadores, onde se incluía o mais jovem intérprete dos Açores, naquela que foi a sua estreia numa celebração do Divino Espírito Santo.
Altar
A zona da Guarita tem a particularidade de, apesar de estar localizada dentro da cidade de Angra, “tem uma concepção rural na sua forma, temos vários lavradores e temos sempre os mesmo criadores”, revela Miguel Azevedo, um dos Mordomos deste ano. Talvez por isso, desde 1984 – ano em que o Império reabriu após as obras de restauração devido ao sismo de 1980 – “o Império da Guarita nunca mais comprou carne, e, independentemente dos Mordomos, tem funcionado sempre bem”, confidenciou à “a União” Manuel Martins (vulgo Ramalhete), ele próprio um dos criadores que desde essa data cria gado para a festa. A comissão deste ano conta com cinco pessoas com uma média de idades de 30 anos, contrariando a ideia que os mais jovens estão algo desfasados desta celebração.
Saída da Coroação
“Já tivemos aqui comissões mais jovens, o problema é manterem-se ligados ao Império devido às dificuldades de entendimento entre mais velhos e mais novos. Julgo que não é por má vontade, as vezes é preciso compreender que para os mais velhos os impérios são como se fossem a sua segunda casa”, refere Miguel Azevedo, admitindo que a comissão gostaria de voltar a repetir esta experiência que apelida de “muito divertida e onde se fica ligado às tradições de outra forma, aprendemos coisas sobre o culto do Espírito Santo todos os dias”. Sobre as festas deste ano, o Mordomo congratula-se pelo facto de ter sido possível reunir quase 200 pessoas na noite da Ceia dos Criadores, ainda para mais num ano “em que morreu muita gente na Rua da Guarita e circundantes e houve algum custo das pessoas se chegarem ao Império, mas penso que viram que o ambiente estava como dantes e conseguimos tê-las cá”, comenta, orgulhoso.
Os jovens Mordomos deste ano
Apesar da boa participação popular neste Império, o mesmo não se passa em muitos outros dentro da cidade. Segundo o Padre Dolores isso deve-se à despovoação de Angra do Heroísmo, onde “existem ruas que estão a ficar sem ninguém, já não existe o Império da Rua de Santo Espírito e o da Rua da Boa Nova está resumido ao terço por falta da população”.
Mordomos para 2009
O culto do Divino Espírito Santo pode-se dividir em três fases, assinala o Padre Francisco Dolores – Oração, Partilha e a Festa.
A Ceia dos Criadores enquadra-se na partilha. Os criadores, se deram carne para o Império, são os primeiros a ser convidados a partilhá-la juntamente com o pão, o vinho e as sopas do Espírito Santo, com toda a gente que participou e colaborou com o Império, um momento diferente das Funções já que estas “são a promessa de um jantar feita por um Mordomo no dia da Coroação”, esclarece o sacerdote. “Antigamente era a oportunidade para as pessoas, especialmente nas freguesias rurais, mas também na cidade, comerem carne, fora isso só nos casamentos ou no Natal, o mesmo se passava com o pão branco que a grande maioria da população só comia por esta altura. A esmola do Espírito Santo - com a bênção e entrega de carne, pão e vinho aos mais pobres, feita normalmente à sexta-feira, era um grande benefício”, recorda Francisco Dolores.
A Oração com o Terço do Espírito Santo ao longo dos oito dias em que a Coroa está no Império desde o cortejo da mudança até ao dia da coroação (normalmente um domingo), é outro dos momentos centrais do Culto, onde as pessoas vão agradecer pelo ano que passou e rezar pelos mortos. A terceira vertente, segundo o Padre Dolores, prende-se com a festa em si, há moda antiga com os foliões, “aqui mais com o Pezinho e os cantadores ao desafio”, refere o pároco.As filarmónicas são outra parte importante da festa, especialmente nos cortejos e na Terceira existe ainda um elemento fundamental - as touradas, “ que costumam marcar o encerramento das festas e que aqui são à corda, que foi a forma encontrada para se brincar com os touros de forma a que toda a população pudesse participar.

sexta-feira, 25 de julho de 2008

O culto do Espírito Santo 2

Porque na Terceira estão a decorrer as Festas da Guarita e não sei falar delas, limito-me a transcrever parte do artigo O Fogo do Espírito Santo nos Açores, de Paulo Loução. É a minha forma de homenagear, nesta época, as gentes da Terceira e as suas tradições.

Império do Espírito Santo
Quando chegámos a esta ilha [Terceira], logo deparámos com o vivo colorido e a alegria que emanam dos sessenta e oito impérios que povoam este pedaço de terra circundado pelo grande oceano. Estes impérios são umas “capelas” sui generis do Espírito Santo pertencentes às respectivas irmandades laicas. Com este estilo arquitectónico, constituem uma característica desta ilha e começaram a ser construídos no século XVII. Nas outras ilhas existem casas e capelas do Espírito Santo e os triatos ou teatros, pequenas construções de madeira que são montadas na época dos festejos. […]
Massa sovada
O ciclo do Espírito Santo tem início no último domingo dos festejos, quando se realiza o pelouro logo a seguir às arrematações das ofertas. O pelouro é o sorteio realizado entre os irmãos do império, que se propõem para o efeito – normalmente cumprindo uma promessa – e que designará quem será o imperador em cada semana que vai da Páscoa até ao Domingo de Pentecostes, nuns casos, ou Domingo da Trindade, noutros casos. Serão assim sete ou oito semanas. Aquele a quem, no pelouro, sair o número um, será o responsável pelos festejos na primeira semana e ficará com a coroa do Espírito Santo durante todo o ano. Colocada no trono – um altar doméstico – a coroa será objecto de veneração e constituirá objecto de grande contentamento para aquele a quem calhar esta “sorte” no pelouro. No ano seguinte, assim que acaba a Páscoa, entra-se em plena época do Espírito Santo. Durante cada semana realizam-se as alumiações – misto de veneração das insígnias do Divino e de convívio alegre a que não faltam os olhares namoradeiros – na casa do imperador ou a reza do terço no império, canta-se o pezinho ao imperador e às pessoas que realizam generosas ofertas ao Espírito Santo, tradição que, em parte, lembra as janeiras, porque um grupo vai de casa em casa cantar o pezinho aos benfeitores do império. […] A sexta-feira é o dia do sacrifício do bovídeo, com vista ao bodo que o imperador, no domingo, oferece aos seus convidados. […] No domingo realiza-se a primeira procissão que vai a casa do imperador buscar a coroa, o ceptro e a salva, que é transportada ritualmente por jovens vestidas de branco para a igreja onde se realiza a cerimónia da coroação. Recordam as guardiãs do Graal e as vestais romanas. A bandeira do Espírito Santo, de fundo escarlate com a pomba bordada, segue sempre à frente na procissão. […] A seguir à coroação, nova procissão segue para o local do bodo […]. Uma vez finalizado o bodo ou banquete comunitário, o imperador segue em cortejo até ao império, ou em direcção à residência do imperador da próxima semana, entregando-lhe as insígnias do império. Estas procissões, onde o clero está ausente, são realizadas com grande solenidade. Hoje em dia, são acompanhados pelas filarmónicas, antigamente eram-no pelos foliões. Foi uma grande perda, porque os foliões sintetizavam tradições muito antigas. […]
O apogeu das festas acontece no fim-de-semana do Domingo de Pentecostes, prolongando-se em muitos lugares até ao Domingo da Trindade. Na sexta-feira, os bovídeos são enfeitados e realiza-se a “procissão do vitelo”, e posteriormente são “sacrificados” os animais necessários para o bodo colectivo e para a distribuição de esmolas aos pobres. […] O largo principal da povoação respira este estado de espírito colectivo. Depois da coroação, realiza-se o bodo ou a função, ou seja, um banquete ritual para o qual são convidados todos os que estejam presentes no local. Nós próprios tivemos oportunidade de participar na função do Império dos Remédios, que foi servida a mais de trezentos convivas com uma organização impecável: não houve nem stress, nem esperas prolongadas. Foram servidas a tradicional sopa do Espírito Santo e a alcatra, exemplarmente confeccionadas e acompanhadas com vinho “aprovado” pelos mordomos do Império. Nesta irmandade não se realiza o pelouro, nem existem imperadores, mas somente mordomos. A coroação é realizada com crianças. No domingo à noite, o “cabeça “ da mordomia, se desejar continuar nessa função, vai com a bandeira do Espírito Santo bater à porta daqueles que deseja para mordomos do ano seguinte. Os novos eleitos são apanhados de surpresa e respiram fundo, pois a organização dos festejos é muito trabalhosa, mas normalmente acabam por aceitar porque “ninguém se atreve a negar ao Divino Espírito Santo.” O Espírito Santo é o Deus Vivo dos açorianos, um Deus que se manifesta em vários símbolos, como a pomba e a coroa, mas que, […], nunca é antropomorfizado, o que recorda a tradição celta.
Interior do Império dos Remédios
Nestes festejos, muitas outras actividades que diferem de lugar para lugar, tendo, no entanto, uma estrutura comum. Realizam-se touradas à corda, bodos de leite, distribuição de massa sovada aos irmãos, cantorias improvisadas, actuações das filarmónicas e grupos folclóricos, etc. […]
[…]estes festejos [...] são realizados como um voto propiciatório para a abundância de bens, para a fertilidade das colheitas e saúde do gado. […] são uma exaltação aos dons da Terra, sacralizados pelo Espírito Santo, um culto agrário com fundamento iniciático.
Mas também está imanente um culto do fogo, pois é crença geral que o fogo do Espírito Santo pode apaziguar o fogo vulcânico das ilhas e tem uma forte componente social, representando cada império a alma espiritual de uma pequena comunidade.
Pudemos observar que, quando o cortejo do Império dos Remédios passou por outro império, os mordomos desse Império colocaram a sua coroa à porta dessa “capela”, como que a saudar a coroa que representava o Império dos Remédios. Foi comovente presenciar este detalhe simbólico. O sentido arcaico da convivência humana, a fraternidade e a coesão social estão presentes neste culto. […]
[…] damos a palavra ao consagrado escritor açoriano Vitorino Nemésio: “É uma verdadeira instituição social esta usança que a todas as ilhas se estende e tem a solidez e a eficácia de um município ou de uma comuna. Cada freguesia, rua ou lugarejo erige a sua mordomia ou irmandade, com um templo próprio e inteiramente original na arquitectura religiosa de todo o orbe católico. Chama-se império ou teatro; e em verdade ali se representa uma tragédia mística, com bezerro imolado, pão de cabeça enfeitado de ervas cheirosas, e uma comparsia de foliões, de pajens, de alferes e vereadores que lembra a organização de uma comunidade medieval. A festa é pagã, de um ruído e de uma cor que desnorteiam e deslumbram; mas lá tem o seu fundo de caridade cristã bem entendida para lavar toda a mancha de profanidade desenvolta.”
Paulo Loução, O Fogo do Espírito Santo nos Açores,
in Lugares Mágicos de Portugal e Espanha

sexta-feira, 4 de julho de 2008

A pedido...

O QUEIJO, de Daniel de Sá

Ver: http://luardejaneiro.blogs.sapo.pt

domingo, 29 de junho de 2008

Cavalhadas de São Pedro

E a festa da Ribeira Seca continuou, hoje, com as famosas CAVALHADAS. As fotografias são de 2003.
As Cavalhadas de S. Pedro
As Cavalhadas da Ribeira Seca da Ribeira Grande são uma das tradições mais notáveis e famosas dos Açores. O nome deriva do Castelhano caballadas (de caballo), que se refere a vários tipos de provas de destreza equestre. Câmara Cascudo, no Dicionário de Folclore Brasileiro, define cavalhada como desfile a cavalo, corrida de cavaleiros, jogos de canas, jogo de argolinhas. As cavalhadas subsistem em muitas partes do Brasil, e as de Pirenópolis, no Estado de Goiás, ligadas às festas do Espírito Santo, seguem a tradição europeia da dramatização da luta de Rolando contra os Mouros, em Roncesvales, a célebre gesta dos Doze Pares de França. As primeiras cavalhadas de Pirenópolis aconteceram em 1826, sendo a maior parte dos seus habitantes oriunda do Norte de Portugal. Em Vildemoinhos, perto de Viseu, mantêm-se como desfile de cavaleiros vestidos de fato escuro e montando cavalos ajaezados. Resultam, segundo a tradição, de uma promessa feita a São João Baptista pelos moleiros, no caso de conseguirem sentença favorável de água para os seus moinhos, havendo quem pense que têm influência das Cavalhadas da Ribeira Seca. A primeira destas romagens à capela do santo, com os cavaleiros vestindo de negro, como os nobres, e com os cavalos ajaezados, terá sido em 1652. No entanto, no século XX passaram a incluir carros alegóricos, bandas de música, ranchos folclóricos e muitos outros elementos que não faziam parte da tradição.
Há a opinião generalizada de que as Cavalhadas da Ribeira Seca terão sido inspiradas nos jogos de canas. No entanto, essa influência, se realmente existiu, talvez não tenha ido além do facto de se tratar de um desfile de cavaleiros, vestidos com trajes coloridos e montando cavalos ajaezados.
Os jogos de canas consistiam numa simulação de luta entre dois grupos de cavaleiros, e eram assim chamados por ser uma cana que servia de lança de arremesso ou dardo. Para se defenderem, os cavaleiros usavam um escudo pequeno e redondo de coiro, a adarga. Há notícia de alguns destes combates realizados em São Miguel, sendo aquele de que se conhecem mais pormenores o que organizou o quinto Capitão da ilha, Rui Gonçalves da Câmara, o segundo que houve com este nome. Foi num dia de Páscoa, pouco tempo depois da subversão de Vila Franca do Campo em 1522. A folgança destinou-se a divertir a população de São Miguel, ainda muito abalada pelos trágicos acontecimentos daquela noite de 22 de Outubro. Os contendores de Ponta Delgada e da Lagoa lutaram contra cavaleiros da Ribeira Grande – a que se juntou alguma gente de Rabo de Peixe –, de Água de Pau e de Vila Franca. Vestiam trajes coloridos de seda, veludo e outros tecidos nobres. Os de Vila Franca, em sinal de luto, usaram apenas o preto e o roxo. Os cavalos, e mesmo uma besta que transportou as canas, estavam também ricamente adornados. O combate decorreu num terreno ao longo do mar, na Lagoa, onde o Capitão residiu algum tempo depois da tragédia. Veio muito povo, de toda a ilha, que assistiu num lugar mais alto, de modo a estarem todos protegidos de eventuais pisadelas dos cavalos ou de alguma cana que falhasse o alvo.
Muitos eram os cavaleiros que usavam mais do que um cavalo, porque a luta lhes exigia um grande esforço. Havia arranques e paragens constantes e corridas com mudança de direcção em ângulos apertados, numa espécie de bailado para fugir ao ataque dos adversários ou para tentar apanhá-los desprotegidos. Nesse jogo de canas houve um episódio que serve para perceber como, por vezes, essa simples diversão poderia tornar-se numa luta perigosa. Esteve ali presente o Abade de Moreira, que viveu alguns anos na Ribeira Grande, exímio na arte de cavalgar e de jogar as canas. Lutador incansável, levou consigo dois cavalos. Um dos adversários com quem lutou foi D. Manuel da Câmara, filho do Capitão, a quem atirou uma cana certeira que o moço defendeu com a adarga. A mãe, D. Filipa Coutinha, exaltou-se muito, considerando que o filho tinha direito a tratamento semelhante ao de El-Rei, a quem as canas não deviam visar o vulto mas ser lançadas por cima da cabeça. E, no seu destempero, gritou que matassem o abade. Este, homem forte e truculento, pegou num dardo e respondeu que viessem matá-lo, mas que antes deixaria ali cinco ou seis caídos para sempre. Mais sensato, Rui Gonçalves da Câmara entendeu que o filho não tinha direito a isenções, e mandou ao abade que lhe atirasse outra cana. A origem das Cavalhadas – e neste ponto é indispensável evocar o Dr. Armando Cortes Rodrigues – é tida como resultante de uma promessa do próprio Capitão, que era então D. Manuel da Câmara e que já voltara a residir em Vila Franca. A lava da erupção de 1563 destruiu a maior parte da Ribeira Seca da Ribeira Grande, deixando porém intacta a igreja paroquial, dedicada a São Pedro. Apesar da devastação provocada, não houve nenhum morto na ilha por sua causa. D. Manuel da Câmara teria prometido ir cantar em verso a vida do apóstolo à porta da sua igreja, caso a família não sofresse consequências graves. E tê-lo-á feito indo de Vila Franca à Ribeira Seca a cavalo e acompanhado de homens que o serviam e dos mordomos do Espírito Santo.
Ora, mesmo que se tenha por certa esta versão, não se percebe onde estará a dita derivação das Cavalhadas a partir dos jogos de canas. Talvez não mais do que nos trajes usados pelos cavaleiros, em que dominam o branco e o vermelho (as cores do Espírito Santo), pois que D. Manuel da Câmara e o seu séquito terão ido decerto com os ornamentos pessoais e dos cavalos que ostentariam em momentos de gala. E os jogos de canas eram um desses momentos especiais, tanto mais que costumavam ocorrer em dias de grande festa. A comitiva do Capitão terá dado sete voltas à igreja de S. Pedro, talvez evocando os dons do Espírito Santo, dirigindo-se depois à sua igreja da Misericórdia, para concluir o ritual com uma visita à ermida de Santo André, irmão de S. Pedro. Sem grandes alterações no essencial é este o percurso actual do cortejo, normalmente com mais de uma centena de participantes. São comandados pelo “Rei”, seguido de perto por três corneteiros que vão anunciando a aproximação e passagem dos cavaleiros. Tornou-se habitual que todo o grupo, que parte do Solar da Mafoma, na Ribeira Seca, visite também a Câmara Municipal, entoando loas à edilidade como reconhecimento pelo apoio que dela recebem.
Daniel de Sá

sábado, 28 de junho de 2008

As Alâmpadas de S. Pedro

Daqui, desta cidade do Porto séria e aburguesada, há sempre um pensamento, terno e saudoso, que voa para a minha ilha encantada.
Estamos no S. Pedro e há festa rija na Ribeira Seca [Ribeira Grande]. Penduradas aqui e ali, já as alâmpadas emprestam à cidade um ar de festa. Lembro-me bem da primeira vez que vi aqueles cachos de flores e frutos entrelaçados, enfeitando as varandas da Ribeira Grande. São realmente belíssimas e, para falar delas, dou a palavra a Daniel de Sá, a quem agradeço o muito que me tem ensinado.

As alâmpadas são arranjos florais, que incluem frutos, destinados a ornamentar a paroquial da Ribeira Seca da Ribeira Grande e a oferecer a pessoas que se queira honrar durante as festas de S. Pedro. A sua forma reproduz a de um lampadário.

Sendo os frutos utilizados os primeiros da estação, que se designam “lampos”, deriva deste facto, sem dúvida, o termo “alâmpada”. É que “lampa”, além de se assemelhar à palavra “lâmpada”, já foi, em português arcaico, um seu sinónimo.

Existem registos desta palavra (lâmpada) desde meados do século X, tendo o substantivo evoluído para “alâmpada” (prótese do artigo “a”) no séc. XIV e para “lampa” no XVII, através do processo de síncope do “d” (“lampaa) e posterior contracção de “aa”.

Segundo o Dr. Cortes Rodrigues, a origem das alâmpadas estará nas ofertas dos primeiros frutos colhidos depois da esterilidade provocada pelo vulcão de 1563.

Daniel de Sá

sexta-feira, 13 de junho de 2008

O RECONHECIMENTO MERECIDO

Nesta casa da Maia (Ribeira Grande), vive um Oficial da Ordem do Infante D. Henrique. Claro que já toda a gente sabe quem é.
Para quem andar distraído, pode saber a resposta no Blogue Luar de Janeiro.

terça-feira, 10 de junho de 2008

A PÁTRIA NO CORAÇÃO

Michael de Brito, Dinner Guests
Michael de Brito, Avó Pequena Michael de Brito, Small Kitchen Scene
Os portugueses de fora crêem-se por vezes mais patriotas do que os de dentro porque, no confronto com os outros da terra adoptiva, são movidos pela necessidade de se agarrar ao que sentem como particularmente seu, e que partilham apenas com os seus compatriotas que perto de si vivem, mas também com os que ficaram na pátria longe. Daí uma corrente magnética, o cordão umbilical da cultura, que se estabelece imitindo vibrações quase num só sentido - de fora para a pátria. Costuma chamar-se a isso "saudade". Evidentemente que isso não nos torna moralmente superiores. É um reflexo natural de sobrevivência que nos impele a agarrar-nos àquilo que instintivamente sentimos como nosso e que a distância geográfica e cultural ameaça fazer-nos perder.

Onésimo Teotónio Almeida, in Público [10.06.2008]

Michael de Brito, Afternoon Conversation

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Onésimo Teotónio Almeida - nasceu em 1946, no Pico da Pedra (S. Miguel), escritor, professor catedrático do Departamento de Estudos Portugueses e Brasileiros da Universidade de Brown (Providence), residente nos EUA há 30 anos.

Michael de Brito - nasceu em 1980, em New Jersey, filho de emigrantes portugueses do Algarve. Os quadros aqui publicados mostram bem as raízes portuguesas e fazem parte de exposição patente na Eleanor Ettinger Gallery, em Nova Iorque.

sábado, 7 de junho de 2008

Homenagem ao ciclone dos AÇORES

Ao começar o Euro/2008, quero aqui lembrar o "voo do milhafre" PAULETA.
Para lhe agradecer as muitas alegrias que deu, a mim e
a todos os portugueses.
FORÇA, PORTUGAL!!!

sábado, 31 de maio de 2008

O culto do Espírito Santo 1

in "Azorean Spirit" , Sata Magazine
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[…] Via-se em Monterey, saindo de casa para a Escola Dominical, e depois viu uma lenta procissão de crianças portuguesas, vestidas de branco, marchando em honra do Espírito Santo, guiadas por uma rainha coroada. […]
John Steinbeck, A Um Deus Desconhecido, 1933
***************************************************************************** Altar do "Império" de S. Sebastião da Terceira, com a coroa do do Espírito Santo e a imagem da Rainha Santa Isabel in "Lugares Mágicos de Portugal e Espanha"
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Um outro olhar...
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O culto do Espírito Santo, nos Açores, está vivo e pode ser uma experiência mágica visitar as ilhas nas sete semanas entre a Páscoa e o Domingo de Pentecostes.
Este culto, agora popular, tem, no seu mistério, algo de prospectivo, algo dos novos caminhos ecuménicos, tão necessários à relação harmoniosa entre as diversas culturas humanas.
O culto do Espírito Santo recebeu, em Portugal, um forte impulso no reinado de D. Dinis (1261-1325) e da rainha D. Isabel de Aragão (1271-1336).
D. Dinis, rei trovador e civilizador, nunca aceitou as acusações e perseguições feitas aos cavaleiros templários e, após difícil campanha diplomática, conseguiu que o papa João XXII autorizasse a criação da Ordem de Cristo, que integrou os Templários portugueses, permitindo, assim, a continuação do seu trabalho no Reino.
Pensa-se que D. Isabel trouxe, quando veio para Portugal, um importante segredo, com origem na Ordem do Templo, cujo destinatário é D. Dinis. Quando, mais tarde, o rei de França manipula monarcas e papas para a cruel e violenta extinção dos Templários, D. Dinis acolhe os monges foragidos, alberga os seus tesouros e esconde os seus conhecimentos, que passam à Ordem de Cristo.
Foi precisamente nesse período do primeiro quartel do século XIV que sua mulher, a quem o povo veio a chamar de Rainha Santa Isabel, em cooperação com os Franciscanos e com a recente Ordem de Cristo, deu um forte impulso ao culto do Espírito Santo que, em Portugal, adquiriu uma especificidade muito própria, integrando elementos claramente heterodoxos e até pré-cristãos. Dá a ideia que com a supressão da Ordem Templária, algo dos seus rituais se exoterizou neste culto pentecostal.
São os novos cavaleiros da Ordem de Cristo que expandem este culto na zona da sua influência, no território português. O fogo e a coroa, a pomba e o ceptro, o convívio fraterno e a laicidade espiritual, povoam os lugares templários, agora domínio da Ordem de Cristo.
Um século mais tarde, o culto do Espírito Santo toma o caminho do Ocidente, instalando-se nas ilhas atlânticas.
Seria a Ordem de Cristo que, nos Açores, veio a ter o exclusivo do governo espiritual em dependência do centro mítico de Tomar que, por sua vez, apenas dependia do Papa. De assinalar o facto de Angra do Heroísmo ter sido, inicialmente, construída segundo o modelo urbanístico de Tomar, a cidade templária por excelência. Durante um século, os Cavaleiros de Cristo puderam modelar os ritos paracléticos nas ilhas.
Depois, o Portugal Mítico começa a definhar graças à intervenção da Inquisição, no séc. XVI, mas o Divino Espírito Santo já está de tal modo arreigado no sentir e no viver dos açorianos que venceria todos os obstáculos levantados pelo clero oficial.
No séc. XVIII, o culto do Espírito Santo foi revitalizado, na cidade de Lisboa, por açorianos. E foram, também, os açorianos que o levaram para o continente americano, tendo chegado aos confins da Califórnia, onde açorianos ricos chegaram a oferecer bodos para vinte mil pessoas.
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Fontes: Paulo Alexandre Loução,
Lugares Mágicos de Portugal e de Espanha”; Maria Helena Ventura, “Onde Vais, Isabel?”

domingo, 25 de maio de 2008

Francisco Ferreira Drummond

Igreja de S. Sebastião
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Nasceu na vila de S. Sebastião (Terceira), a 21 de Janeiro de 1796, tendo sido baptizado, na respectiva Matriz, a 27 desse mesmo mês.
Era filho de Tomé Ferreira Drumond, lavrador abastado, e Rita de Cássia, ambos residentes na Vila de S. Sebastião, em cuja Matriz foram também baptizados.
A família Drumond estava, então, intimamente ligada ao magistério primário e à governança da Vila de S. Sebastião, tendo a presidência da Câmara sido ocupada por seu pai (em 1821). O seu irmão, o capitão de ordenanças José Ferreira Drumond, dominou a vida política local durante várias décadas.
Ferreira Drumond desde a infância que revelou decidida vocação para as letras e para a música. Depois da instrução primária, estudou latim, lógica e retórica (disciplinas próprias do ensino da mocidade culta de então e as únicas disponíveis na sua vila natal ). Muito estudioso, procurou constantemente aumentar a sua instrução literária e artística, o que lhe foi facilitado pelo meio familiar em que viveu.
Com apenas 15 anos, foi nomeado para o cargo de organista da Matriz da Praia.
Cedo aderiu à causa liberal, tendo sido eleito pelo novo sistema constitucional, em 1822, secretário da Câmara Municipal de S. Sebastião. Tal eleição valeu-lhe grandes dissabores, tendo, para escapar às perseguições dos absolutistas, fugido da Terceira, durante a noite, numa embarcação que o levou à ilha de Santa Maria, de onde passou a Ponta Delgada, dali partindo, com passagem pela Madeira, para Lisboa.
Depois de um ano de exílio voltou à Terceira, tendo participado activamente em todo o desenrolar da guerra civil nesta ilha, que depois tão bem descreveu nos seus Anais da Ilha Terceira.
Desempenhou, ainda em S. Sebastião, os cargos de escrivão dos órfãos, secretário da Administração do Concelho, e tabelião. Em 1836 foi eleito Presidente da referida Câmara, tendo desempenhado essas funções até 1839. Nesse ano foi eleito Procurador à Junta Geral.
Exerceu também, durante vários anos, o cargo de Provedor da Santa Casa da Misericórdia.
Distinguiu-se na luta contra a extinção do concelho de S. Sebastião, extinção que, em boa parte graças à sua actividade, apenas se consumou em 1 de Abril de 1870, apesar de decretada em 24 de Outubro de 1855.
Algumas das mais importantes obras da antiga Câmara de S. Sebastião foram iniciativa sua, nomeadamente a captação das nascentes do Cabrito e o seu aproveitamento para moagem, naquela época a maior obra hidráulica da Terceira e uma das maiores dos Açores.
Faleceu em 11 de Setembro 1858, contando 63 anos incompletos de idade, na casa que tinha aforado da Santa Casa da Misericórdia, na Travessa da Misericórdia, onde hoje está a lápide comemorativa. Esta casa foi recentemente adquirida pela Santa Casa da Misericórdia local, estando para breve previsto o seu restauro e transformação em biblioteca associada da rede de leitura pública.
Francisco Ferreira Drumond foi homenageado em 1951 com um pequeno monumento localizado no Rossio, Vila de S. Sebastião.
O seu trabalho histórico ocupa um lugar cimeiro na historiografia açoriana, sendo a base de boa parte das obras sobre a história dos Açores, em particular sobre a história da ilha Terceira.
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Obras publicadas
  • Memória Histórica da Capitania da Praia da Vitória — editado pela Câmara Municipal da Praia da Vitória em 1846, Praia da Vitória. A obra foi reeditada inserta na colectânea Memória Histórica do Horrível Terramoto de 15.VI.1841 que Assolou a Vila da Praia da Vitória, edição da Câmara Municipal da Praia da Vitória, 1983.
  • Anais da Ilha Terceira — obra escrita segundo o critério cronológico típico dos Anais, cobrindo o período desde a descoberta e povoamento da ilha até 1850. Foi oferecida à Câmara Municipal de Angra do Heroísmo, que a editou em 4 volumes, contendo 510 de documentos. O volume I foi publicado em 1850; o vol. II em 1856; o III em 1859; e o IV, póstumo, em 1864. Reeditado, em fac-símile da edição original, pela Secretaria Regional da Educação e Cultura, Angra do Heroísmo, 1981.
  • Apontamentos Topográficos, Políticos, Civis e Eclesiásticos, para a História das Nove Ilhas dos Açores - obra inacabada deixada em manuscrito. Após um conturbado percurso, a obra foi editada em 1990 pelo Instituto Histórico da Ilha Terceira, Angra do Heroísmo.

quinta-feira, 15 de maio de 2008

Miradouro da PONTA DO SOSSEGO

Por que não um passeio até ao Nordeste, no próximo fim-de-semana? Aqui ficam algumas fotografias, tiradas na Ponta do Sossego, no passado dia 10 de Abril.
O azulejo português sempre presente.
A entrada.
Povoação de que não sei o nome. Será Pedreira?
O mar em tons de azul.
A lindíssima costa nordestina.
Jardim
A poesia para rematar.
Lindo, não é? Para os que não estiverem em S. Miguel, sempre podem deliciar-se, ou matar saudades, aqui.

sábado, 10 de maio de 2008

Lendas dos Açores 4

Foto Maurício Abreu
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O Menino do Coro e a Pomba
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No tesouro da Sé de Angra do Heroísmo há uma curiosa imagem de Santo António com a vestimenta de menino de coro. Os menos avisados surpreendem-se, decerto não suspeitando de que se trata de um ex-voto. E a lenda conta-nos que isto já vem do século XVII, num qualquer dia de festa na catedral.

Um mestre de capela, nervoso porque aquilo tinha de estar tudo nos conformes, zangou-se a valer com um dos meninos do coro, ameaçando bater-lhe. Apavorada, a criança andou a fugir pelas dependências, até que enfiou para as altas torres. Mas não encontrava onde ocultar-se, pelo que subiu as escadas que lhe faltavam para o ponto mais alto da maior das torres, e, sentindo o mestre de capela na peugada, lançou-se.

Terá valido um vento muito especial que tomou o menino do coro nos seus braços, usando-lhe a opa da função, e, passando três ruas, foi depositar o corpo do espavorido no telhado do Convento de Nossa Senhora da Esperança, onde as religiosas o recolheram. O pai, emocionado, mandou fazer a referida imagem e levou-a à Sé. Esteve exposta alguns anos antes de dar entrada no tesouro. No entanto, para o menino do coro estava reservado outro voo, ser padre.

Já agora continuamos no século XVII, exactamente em 1640, na altura da aclamação de D. João IV como novo rei de Portugal. Tendo assistido na capital do reino às referidas solenidades, D. Francisco Ornelas da Câmara, capitão-mor de Vila da Praia, regressou à sua ilha Terceira com a missão de tomar aos espanhóis o Castelo de Angra, que eles ainda retinham em seu poder. Não foi fácil a missão, porque durou 11 meses o cerco e as frequentes batalhas e escaramuças não davam os resultados almejados pelos portugueses. Os espanhóis do castelo passavam privações tais que chegaram a comer ratos. Por fim, houve um acordo de rendição e a bandeira portuguesa foi hasteada no Castelo de Angra, retirando-se os espanhóis. Porém, as intrigas na nova corte já tinham começado, e o marquês de Castelo Rodrigo conseguiu que Ornelas da Câmara e outros fidalgos da Terceira fossem encarcerados. Profundamente cristão, Francisco Ornelas viveu com os seus companheiros as amarguras da prisão. Evocava Deus e oferecia-lhe o seu sacrifício. A sua filha, Emília de Ornelas, também orava. Mas parecia nada resultar, que a sentença foi de morte. Os condenados apelaram para os tribunais da corte. Os debates demoraram dias, pois os juízes achavam os autos pouco claros. Por fim, o Tribunal da Relação de Lisboa ratificou a sentença. No entanto, quando o presidente ia assiná-la, entrou pela janela uma pomba branca, que, voando rente à mesa, voltou o tinteiro, tornando elegível o que estava escrito. Confundidos com o que acabara de suceder, os juízes declararam ter aquilo sido um sinal de Deus. E reescreveram a acta, mas em sentido oposto: a absolvição dos réus. Devoto do Espírito Santo, Ornelas da Câmara prometeu dar todos os anos um grande bodo aos pobres, que ele servia descalço, e edificar aquela Ermida do Espírito Santo, que lá está na Rua dos Quatro Cantos, em Angra. E no seu brasão incluiu o emblema do Senhor.

José Viale Moutinho, Lendas dos Açores

segunda-feira, 5 de maio de 2008

O Senhor Santo Cristo dos Milagres

O Convento de Nossa Senhora da Conceição, na Caloura (Água de Pau) teria sido fundado pelas filhas de Jorge da Mota, de Vila Franca do Campo. Pensa-se que foi o primeiro convento feminino da ilha de S. Miguel.
Por volta de 1520, duas religiosas deslocaram-se a Roma para pedir, ao Papa, a Bula Apostólica necessária. O Papa Paulo III não só lhes concedeu o documento que permitia a fundação do convento, como lhes ofereceu uma imagem do Ecce Homo.
Em 1541, devido ao isolamento e ao perigo de ataques piratas, as últimas ocupantes deste convento da Ordem de Santa Clara, mudaram-se para o Convento de Nossa Senhora da Esperança, em Ponta Delgada, acabado de fundar pela viúva do Capitão Donatário, Rui Gonçalves da Câmara.
A imagem do Senhor Santo Cristo, oferecida pelo Papa, não ficou esquecida na Caloura, porque a religiosa galega, Madre Inês de Santa Iria, a levou para Ponta Delgada.
O interior da Igreja
A devoção de Madre Teresa da Anunciada (25 de Novembro de 1658/16 de Maio de 1738), os sismos frequentes e a constante actividade vulcânica (que levavam o povo a refugiar-se na fé) intensificaram o culto ao Senhor Santo Cristo.
A primeira procissão realizou-se em 1700 e, diz-se que pôs fim a uma série de tremores de terra.
A imagem encontra-se, desde então, no “Coro Baixo”, ao fundo da Igreja de Nossa Senhora da Esperança. Esta é muito expressiva e consoante os modos como a luz lhe incide, parece que varia os sentimentos que transmite.
Procissão de 2001
Numa enorme manifestação de fé e devoção, as festas do Senhor Santo Cristo realizam-se no quinto domingo após a Páscoa. As ruas de Ponta Delgada por onde passa a procissão, que demora cerca de 5 horas, enchem-se de tapetes de flores.
Na madrugada de sábado, os fiéis pagam as suas promessas, muitas vezes de joelhos.
Nesses dias, é bem visível a presença de emigrantes açorianos que se encontram nos Estados Unidos e no Canadá.

Esclarecimento de Daniel de Sá, que permitirá corrigir alguns factos do primitivo texto, baseado na história tradicional. Desde já, os meus agradecimentos ao amigo, e escritor querido, Daniel de Sá.

Sobre o Senhor Santo Cristo
(A propósito de uma notícia publicada na imprensa)

Com o respeito devido a quem terá dado as informações constantes em notícia deste jornal (08/02/2012), sobre as próximas festas do Senhor Santo Cristo dos Milagres, tento, uma vez mais, chamar a atenção para os erros óbvios que a história tradicional de tão sagrada devoção contém.
Em tal notícia se repete uma evidente impossibilidade, a de que a primeira procissão tenha sido em 1700. Desse cortejo, quase espontâneo, sabe-se que foi a onze de Abril e em dia de trabalho. E, naquele ano de 1700, o dia onze de Abril foi Domingo de Páscoa.
Também é dito que a procissão se repete há mais de três séculos, sempre no quinto Domingo depois da Páscoa. No entanto, a primeira terá sido, provavelmente, na 6ª-feira que se seguiu ao Domingo de Pascoela de 1698, e a segunda no Sábado, 16 de Dezembro (e não 17, como diz o padre José Clemente no livro sobre a vida de Madre Teresa) de 1713, para implorar a Deus o fim de uma crise sísmica em São Miguel. Da terceira e das seguintes nada se sabe. Nem o ano nem o dia. Mas não terão acontecido pelo menos na primeira metade do século XVIII.
A lenda da origem da belíssima imagem continua também a sobrepor-se à razão mais elementar. A versão tradicional é a de haver sido oferta do Papa Paulo III, feita a duas jovens que teriam ido a Roma pedir a bula para fundação do mosteiro de Nossa Senhora da Conceição, em Vale de Cabaços. Eis, sintetizadas, as razões que nos dão a certeza de que tal viagem não se verificou:
Era impensável, naquele tempo, quase impossível, a ida de duas jovens dos Açores a Roma;
Gaspar Frutuoso, que conta em pormenor a criação do convento, não alude a qualquer viagem ao Vaticano, seja delas ou de alguém por elas;
O convento foi fundado durante um terrível período de peste em São Miguel, desgraça que se seguiu à subversão de Vila Franca, tendo terminado apenas em 1530, tempo durante o qual a ilha esteve isolada, só se verificando para o exterior as viagens absolutamente essenciais;
Finalmente, e razão que bastaria para negar a origem atribuída a tão sagrada imagem, o Papa Paulo III foi eleito em 13 de Outubro de 1534, depois, portanto, de construído o convento.

P.S. – É estranho que, sendo os factos que negam a história tradicional tão evidentes, a lenda se tenha mantido até agora, e sabe Deus até quando. Por um lado, têm o muito frágil suporte do livro do padre José Clemente, um bem intencionado que parece que nunca esteve sequer em São Miguel, ilha a respeito da qual estava convencido de que nevava. Por outro lado, há a autoridade muito respeitável de Urbano de Mendonça Dias. Mas o ilustre investigador a quem tanto devemos também se enganou algumas vezes, como é óbvio no caso da data da primeira procissão do Senhor Santo Cristo. Ou, por exemplo, quando escreveu que a Maia não foi elevada a vila por ter sido em grande parte destruída por um incêndio. Ora aquele notável investigador fez, neste ponto, uma grave confusão. Gaspar Frutuoso, usando a linguagem do tempo, tanto se referia a um vulcão como terramoto ou como incêndio. E é assim que explica que a Maia teria sido vila se “não fora o incêndio segundo”, ou seja, a erupção da lagoa do Fogo, em 1563, cujas cinzas destruíram searas e outras culturas, deixando a terra estéril durante alguns anos.

Daniel de Sá

quinta-feira, 1 de maio de 2008

terça-feira, 29 de abril de 2008

A Generosidade da "minha" Ilha

Quando, no passado dia 9, cheguei às Furnas, estava longe de imaginar as transformações operadas na zona da Poça da Dona Beija.
A começar na placa, bem visível.
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A continuar nos muros que domesticam a ribeira.
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E nas piscinas disponíveis a mais utentes. ************************************************** Esta é a poça inicial. A sua água quente relaxa e provoca grande bem- -estar. Quem precisa de ginásios, saunas, piscinas aquecidas? A generosa Natureza de S. Miguel dá, de graça, estas maravilhas que fazem bem ao corpo e à alma.

quinta-feira, 24 de abril de 2008