quarta-feira, 18 de março de 2009
Um Cheirinho Açoriano na Cidade Invicta
terça-feira, 17 de março de 2009
Santa Maria por Raul Brandão
Subo por um caminho entre figueiras-do-diabo e solteiras, como se chamam aqui as sardinheiras, que crescem por todos os lados. Colinas, campos de pastagem, e ao longe um pico mais alto donde se descobre toda a ilha. Povoação de duas ou três ruas e casinhas, com a igreja, a ossada dum convento e o solar humilde de Gonçalo Velho. É isolado e triste – mas pedras, campos e furnas estão cheios de asas e de gritos: os escarnentos, negros como melros, passam no ar com o biscato no bico, e a babosa enche este negrume cinzelado de oiro e de perfume. Há momentos em que se encobre o Sol e o torresmo sai mais negro do mar: só fica o cheiro que impregna a terra e o céu.
Que importa que isto seja um ermo onde até às vezes a água falta, sendo preciso para matar a sede trazê-la em navios de S. Miguel? Aqui se vive e aqui se morre. E devo dizer que desta ilha silvestre duas coisas ficarão para sempre na minha memória: o púcaro de barro poroso que torna a água fresquíssima, e o cheiro a giesta que a embalsama. Fiquei-a conhecendo para o resto da minha vida pela ilha que cheira bem…domingo, 8 de março de 2009
segunda-feira, 2 de março de 2009
65º Aniversário
terça-feira, 24 de fevereiro de 2009
quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009
Nos Açores, com a cal e o basalto
Mas voltemos a S. Miguel. Além da brancura, deveríamos falar destes verdes que nos saltam às canelas por todo o lado, desde os mais tenros de Fra Angelico até esses cor de breu que atormentaram os dias de Greco; deveríamos, se não tivéssemos vergonha na cara: pois quem ousará fazê-lo depois de Raul Brandão? Só me resta virar-me para as vacas, mansas como se não tivessem pontas, fartas de carnes, a alma esguichando pelas tetas – bonitas, graciosas, só as vitelas aos pinotes. O Jacinto, que andou a guardá-las em pequeno, disse-me que são poucas, muito poucas mesmo, as que se abrigam debaixo de telha. Vivem a céu descoberto nos campos de pasto: no inverno, em noites mais hostis, encostam-se umas às outras para dormir, cerradinhas; de verão, se tiverem sorte, suportarão a calma à sombra das criptomérias. Valha-nos o anjo da Ribeira Grande, que eu não posso nada por vós, camaradas!terça-feira, 3 de fevereiro de 2009
Lendas dos Açores 6
De facto, depois de arrasarem e roubarem a Vila da Praia, os piratas voltaram a embarcar e seguiram para outra ilha. E logo Gil de Quadros comunicou às filhas o voto que fizera, e, embora elas ficassem chorosas, inconsoláveis, enclausurou-as no Convento dos Capuchinhos de Angra. Ao contrário de Clélia, mais doce e passiva, Anunciação irritou-se com a decisão paterna. Gostava da sua ilha e da vida secular para se deixar assim meter num convento. A clausura era para ela algo verdadeiramente penoso. Ora, a madre abadessa, que era tia das irmãs, tinha uma visão diferente da vida e era de opinião que para um convento só deve ir quem tiver vocação. Assim, não foram poucas as cartas que enviou ao seu irmão Gil, observando que as sobrinhas não tinham vocação para aquela vida. Porém, o capitão-mor, embora sofresse com a subtracção, procurava manter-se fiel ao voto formulado numa hora de aflição.José Viale Moutinho, Lendas dos Açores
quinta-feira, 29 de janeiro de 2009
Lágrimas caindo sobre o mundo...
VISÃO
A J. M. Eça de Queiroz
Eu vi o Amor – mas nos seus olhos baços
Nada sorria já: só fixo e lento
Morava agora ali um pensamento
De dor sem trégua e de íntimos cansaços.
*
Pairava, como espectro, nos espaços,
Todo envolto num nimbo pardacento…
Na atitude convulsa do tormento,
Torcia e retorcia os magros braços…
*
E arrancava das asas destroçadas
A uma e uma as penas maculadas,
Soltando a espaços um soluço fundo,
*
Soluço de ódio e raiva impenitentes…
E do fantasma as lágrimas ardentes
Caíam lentamente sobre o mundo!
Antero de Quental
quinta-feira, 15 de janeiro de 2009
Quem guarda tem...
Justiça Cega
O rapazinho chorava. O agente da PSP que estava de serviço àquela escola de Rabo de Peixe perguntou-lhe a razão do choro, e ele respondeu: "Minha mãe não teve dinheiro para comprar velas".
Uns anos antes, o pai fora acusado de maus tratos à mulher e aos filhos. Entretanto, deixara de beber e arranjara emprego. Mas foi então que, numa certa noite, alguns polícias foram buscá-lo a casa para cumprir a pena de prisão finalmente decidida pelo tribunal. Quando ele já não representava nenhum perigo para a sociedade nem para a família, e se tornara indispensável para garantir o sustento desta.
A mãe não tivera dinheiro para pagar a conta da electricidade, que lhe foi cortada. Nem o teve para comprar velas à luz das quais o filho pudesse fazer os trabalhos de casa. E ele estava com medo de que a professora se zangasse.
A justiça é cega. Mas, às vezes, seria melhor que abrisse os olhos.
segunda-feira, 12 de janeiro de 2009
Ai! Tanta SAUDADINHA...
domingo, 11 de janeiro de 2009
Junto ao mar...
Oceano Nox
Junto do mar, que erguia gravemente
A trágica voz rouca, enquanto o vento
Passava como o vôo do pensamento
Que busca e hesita, inquieto e intermitente,
*
Junto do mar sentei-me tristemente,
Olhando o céu pesado e nevoento,
E interroguei, cismando, esse lamento
Que saía das coisas, vagamente...
*
Que inquieto desejo vos tortura,
Seres elementares, força obscura?
Em volta de que ideia gravitais?
*
Mas na imensa extensão, onde se esconde
O Inconsciente imortal, só me responde
Um bramido, um queixume, e nada mais...
Antero de Quental, Sonetos
quarta-feira, 31 de dezembro de 2008
quinta-feira, 25 de dezembro de 2008
quarta-feira, 24 de dezembro de 2008
segunda-feira, 15 de dezembro de 2008
A Poesia de Natália Correia
Queixa das almas jovens censuradas
******************************************
Dão-nos um lírio e um canivete
e uma alma para ir à escola
mais um letreiro que promete
raízes, hastes e corola
***
Dão-nos um mapa imaginário
que tem a forma de uma cidade
mais um relógio e um calendário
onde não vem a nossa idade
***
Dão-nos a honra de manequim
para dar corda à nossa ausência.
Dão-nos um prémio de ser assim
sem pecado e sem inocência
***
Dão-nos um barco e um chapéu
para tirarmos o retrato
Dão-nos bilhetes para o céu
levado à cena num teatro
***
Penteiam-nos os crânios ermos
com as cabeleiras dos avós
para jamais nos parecermos
connosco quando estamos sós
***
Dão-nos um bolo que é a história
da nossa historia sem enredo
e não nos soa na memória
outra palavra para o medo
***
Temos fantasmas tão educados
que adormecemos no seu ombro
somos vazios despovoados
de personagens de assombro
***
Dão-nos a capa do evangelho
e um pacote de tabaco
dão-nos um pente e um espelho
pra pentearmos um macaco
***
Dão-nos um cravo preso à cabeça
e uma cabeça presa à cintura
para que o corpo não pareça
a forma da alma que o procura
***
Dão-nos um esquife feito de ferro
com embutidos de diamante
para organizar já o enterro
do nosso corpo mais adiante
***
Dão-nos um nome e um jornal
um avião e um violino
mas não nos dão o animal
que espeta os cornos no destino
***
Dão-nos marujos de papelão
com carimbo no passaporte
por isso a nossa dimensão
não é a vida, nem é a morte(Poesia musicada e cantada, magistralmente, por José Mário Branco)
terça-feira, 9 de dezembro de 2008
Igreja Matriz de Vila Franca do Campo
A porta axial é em forma de arco conopial terminado por um cogulho de cariz vegetalista e tem quatro colunelos por lado, que se continuam nas arquivoltas. Os capitéis são se anel com folhagem e os ábacos muito desenvolvidos. As bases são complexas, de tipo arquitectural flamejante. ________________
(*) Tributo municipal extraordinário, em que era imposta uma quantia a cada contribuinte, de acordo com a sua fortuna e a soma necessária para uma determinada despesa. As fintas eram lançadas, principalmente, para obter fundos destinados a obras dentro do próprio concelho.
sexta-feira, 5 de dezembro de 2008
Eu queria...
sexta-feira, 28 de novembro de 2008
Aguçar o apetite...
segunda-feira, 17 de novembro de 2008
Lendas dos Açores 5
Os piratas argelinos levaram-no e fizeram uma grande viagem, indo depois dar a Tunes, onde o moço corvino foi oferecido a um faquir, mudando-lhe este o nome de Alípio para Ali. O rapaz, com o seu amo e mestre, aprendeu tudo o que pôde, que lá esperto era ele. Não tardou a ter poderes de faquir: via a distâncias incalculáveis, deixava-se cortar pelas finas lâminas sarracenas e, num ápice, ficava curado. No peito, ostentava a tatuagem do pentagrama, demonstrativa da sua autoridade como faquir.José Viale Moutinho, Lendas dos Açores








.jpg)
