"Onde vos retiver a beleza dum lugar, há um Deus que vos indica o caminho do espírito." Natália Correia
Depois de ter percorrido cerca de 34 mil milhas, em 21 meses, na sua segunda volta ao Mundo, o navegador solitário Genuíno Madruga e o seu iate Hemingway chegaram por volta das 14 horas às Lajes do Pico.
Quando D. Otília decidia passar serões ao ar livre no sofá do meu avô, o velho Manuel Mentiroso deliciava-se com as vibrantes descrições de viagens e de acontecimentos que incluíam curiosas personalidades, assim como gente ilustre que ela conhecera durante os agitados tempos que separaram as duas guerras mundiais.
Havia na atmosfera da aldeia como que uma compacta força suspensa, algo de estranho que nos roçava pela alma, apertava na garganta e eriçava a pele, quando a pianista abria a madrugada através dos ascendentes acordes de um Nocturno do “seu” Chopin. Para a ouvir clandestino, eu saía da cama e escondia-me no vão da porta ao lado da casa dela. Julguei que a minha presença tinha sido pressentida ou descoberta quando, mais tarde, tive a sensação de que me eram dedicadas algumas das maravilhosas sonatas românticas a que a artista se entregava, em êxtase. Apaixonei-me pela música. Andava sempre dentro do raio de acção sonora do piano da vizinha. Escutava as lições, suportava o martelar dos exercícios de principiantes e temia as explosões de cólera contra meninas lavadas em lágrimas, que eram expulsas sem piedade, para o “olho da rua”. Porém, nada demoveu as intenções que entretanto me tinham nascido cá dentro e acabei por dar comigo a suplicar, “ó mãe, peça à vizinha Otília para me ensinar a tocar piano”. Como o meu pai discordou com enorme arrogância, porque “o que ele precisa é trabalhar”, logo a minha mãe entendeu contrariá-lo, por rotina. Acedeu ao meu pedido com a melhor prontidão e foi falar à pianista. Ficou apalavrado o dia e a hora da primeira lição.
A professora de piano não me deixou sentar frente ao teclado, no banquinho mecânico que gemia quando se rodavam os dois manípulos que lhe regulavam a altura. Eu tinha sonhado atribuir ao momento em que me sentasse pela primeira vez ao piano o significado dum decisivo passo para a consagração. Sentou-se ela e manteve-me a uma certa distância. Ensinou-me as notas “dó, ré, mi” e… por aí adiante. Tive de as cantar avulsas à medida que ela as fazia sair vibrantes, pelo piano fora. Eu não conseguia evitar a troca de “dós” com “fás” e o desapontamento estava escrito na cara da vizinha pianista que sentenciou, “musicalmente disléxico!” Aproximei-me um pouco para saber o que isso queria dizer e apoiei a mão na tampa do piano de meia cauda. D. Otília não queria acreditar no desaforo. As sobrancelhas pintadas a azul subiram-lhe de espanto, até ao cimo da altiva testa franzida com rugas de tempestade. Levantou-se e gritou, possessa, “tira já as mãos de cima do meu marido”. Fiquei petrificado sem ver nenhum marido, até reparar que estava com a mão colada naquele monstro preto que se arreganhava para rir de mim, exibindo a enorme dentadura branca voltada para a possessiva esposa. Corri escada abaixo e corri rua fora cheio de vergonha com o escândalo que a gritaria ia provocar na aldeia. Foi uma zanga ainda pior do que as zangas rotineiras que D. Otília tinha contra meninas destituídas de talento. Era evidente que no seguimento deste fiasco público, eu passava a ter o rótulo de ser o maior insucesso pedagógico da pianista da aldeia.
Da janela daquele quarto, Joe Sylvia observava Tulare da sua memória, centrada no Vale de San Joaquin da imensa Califórnia. Porém, já nada tinha a ver com a cidade que encontrara há quarenta anos atrás, que procurava desfazer-se do seu desenho rústico primacial, ruralizada até ao âmago e, por isso, pronta a ruir. Chamavam-lhe o town (“o tão”, continuava ele a dizer): as casas de madeira, quase geminadas, com suas pequenas lojas de miudezas – um comércio imberbe ao pé das grandes “estôas”, a que nem a agência do Bank of America dera mais prestígio. Todos se conheciam. Quem comprava a pronto era sinal de abastança. Quem pedia fiado era o óbvio. Conversava-se na rua sacudindo pó e moscas. Havia cavalos atrelados a carroças. Foguetes a filarmónica saudaram a chegada do primeiro automóvel. Depressa o alcatrão veio atapetar as estradas e, com ele, chegaram tractores, máquinas para sementeiras e safras e mais automóveis. Apostava-se nas vacas, em plantações de árvores de fruta, em sementeiras de cereais. Desse tempo, pouco aquém do cowboiano, restavam relatos e fotografias a preto e branco, arquivados num museu de minudências obsoletas. Mesmo agora, as coisas continuavam a acontecer a um ritmo que o seu estar ali sentado quase podia acompanhar. Por isso, da janela daquele quarto, só as palmeiras o atraíam com o seu penteado selvagem, ondulante e verde. Quando a enfermeira-assistente fazia descer as persianas, ele ficava-se pelas cores dos poentes que caíam sobre as casas e as árvores, transformando-as em silhuetas fantásticas, riscadas pelos faróis e pelos ruídos do tráfego, dormente como um fole de gaita, incapaz de se lembrar onde deixara os óculos de ler o presente ou o controle remoto da televisão do seu quotidiano desenhado. Se lhe perguntassem como se chamava, mesmo assim, responderia: “José Silva”. E logo acrescentaria: “Excuse me! Joe Sylvia!”, abanando a mão e sorrindo vagamente pela língua materna perdida.
A natureza em mim é conservadora: só o espírito é revolucionário. Esta desarmonia fundamental te sirva para explicar todas as minhas fraquezas, contradições, cobardias mesmo. Só o que te posso assegurar é que entro nesta acção violenta contra mim mesmo com uma boa fé que me dá ânimo enquanto de pé e (se tenho de sucumbir), caído, me será a melhor das consolações, poupando-me a este último e verdadeiro inferno: o desprezo do homem por si mesmo.
O "statu quo" tem doçuras! Pelo que me tem custado a combater as visões do passado, que lagrimosas me surgem no meu caminho a enlaçar-me nos braços acalentadores e brandos, a suplicar-me, a arguir-me como duma traição, desta revolta contra metade já de uma vida, por aí meço a força de inércia da minha natureza. De inércia? não: de harmonia, fora melhor dizer. O natural não é quebrar violentamente o fio da vida, para i-la reatar, não sei onde, bem longe, fora de toda a tradição, sem mais antecedentes do que uma ideia tenaz, dominadora, sim, mas afinal uma mera abstracção… Não: é preciso que o ar social esteja feito de um modo bem impróprio para as exigências naturais do pulmão humano, para que, chegando o homem à idade adulta da consciência, se vire e diga “nada disto é a vida: para trás! para o lado! correr vales! a ver se se acha, longe de todo o rastro conhecido, coisa que mais nos dulcifique por dentro este azedume insuportável!”
Mas a vida é um silogismo: o tecto paterno é uma premissa; a outra é a morte na doçura da sua própria consciência e na fraternidade das outras consciências que lhe aprovam a vida. É preciso que a sociedade seja bem ímpia para obrigar o homem à blasfémia social por excelência – a Revolta. O lar é toda uma política; e o "statu quo" uma filosofia.
Quantas vezes as lágrimas me têm corrido no meio destes pensamentos! Afora tudo isto eu tenho preso ao coração um amor que não sei (talvez porque não quero, nem ele o merece) como o tirar de aqui (1). Ele me simboliza toda uma vida segundo a natureza; vulgar... e bela como qualquer árvore da primeira colina que o sol e os ventos visitam; quero dizer, aquilo que todo o homem tem direito de exigir, porque nenhum homem tem direito de exigir mais... Enfim, o instinto, com todas as suas vozes, tem levantado a sua celeuma no meio do silêncio que eu com a minha razão julgara impor a este ser, para como um ditador determinar e fazer caminhar no vazio as minhas abstracções ordenadas em colunas e batalhões! O instinto! a tradição! a espontaneidade! a natureza! [...]
Entretanto, a minha persistência e as boas disposições de continuar te mostram que tenho sabido, com subtileza de sofista umas vezes, outras com as cóleras de revolucionário, responder a este coro desgrenhado das Níobes da minha mitologia íntima e pessoal. É que tudo aquilo, por isso mesmo que é santo e justo e radioso, só na santidade, na justiça e na luz se pode aceitar. É o carácter das coisas verdadeiramente boas não poderem ser somenos. São ou não são, eis tudo. O espírito revolucionário, visto a esta luz, acha-se não ser no fundo senão um imenso espírito de paz e de harmonia, que por isso mesmo que o não deixam ser pacífico à sua vontade se enfurece e reage. É a filosofia dos desesperados, é a coragem dos medrosos.
Era a esta casa que te referias? Não tenho a certeza. Penso, no entanto, que o Largo 2 de Março é onde fica a Presidência do Governo e, portanto, a Casa das Palmeiras fica na esquina do Largo com a Rua do Diário dos Açores. Será?
Se tiveres tempo, e seguires o conselho do nosso amigo João Coelho, podes dizer este belo soneto do Antero de Quental, quando desceres à mágica Lagoa do Fogo.
Subo por um caminho entre figueiras-do-diabo e solteiras, como se chamam aqui as sardinheiras, que crescem por todos os lados. Colinas, campos de pastagem, e ao longe um pico mais alto donde se descobre toda a ilha. Povoação de duas ou três ruas e casinhas, com a igreja, a ossada dum convento e o solar humilde de Gonçalo Velho. É isolado e triste – mas pedras, campos e furnas estão cheios de asas e de gritos: os escarnentos, negros como melros, passam no ar com o biscato no bico, e a babosa enche este negrume cinzelado de oiro e de perfume. Há momentos em que se encobre o Sol e o torresmo sai mais negro do mar: só fica o cheiro que impregna a terra e o céu.
Que importa que isto seja um ermo onde até às vezes a água falta, sendo preciso para matar a sede trazê-la em navios de S. Miguel? Aqui se vive e aqui se morre. E devo dizer que desta ilha silvestre duas coisas ficarão para sempre na minha memória: o púcaro de barro poroso que torna a água fresquíssima, e o cheiro a giesta que a embalsama. Fiquei-a conhecendo para o resto da minha vida pela ilha que cheira bem…