sexta-feira, 21 de agosto de 2009

Por aqui se passeia a Ibel...

Com estas belíssimas paisagens, não duvido de que a Ibel se sinta feliz e tranquila na Graciosa.

Para ela, um abraço do tamanho do Atlântico que nos separa e... nos une.

segunda-feira, 6 de julho de 2009

O QUE NÃO DEVERIA ESTAR A ACONTECER...

S. Miguel.Lagoas das Empadadas
Falta de água está a reduzir níveis de lagoas em São Miguel
O nível da água na Lagoa do Fogo, em S. Miguel, desceu para níveis mínimos históricos como consequência da falta de água que já afecta cinco das ilhas açorianas, alertou a associação ecologista Amigos dos Açores. “Em alguns locais, o recuo das margens da Lagoa do Fogo chega às dezenas de metros, surgindo nas margens agora descobertas algumas espécies invasoras, que chegam até estes locais através das linhas de água”, revelou a associação num comunicado enviado à Lusa. Segundo os ecologistas, o problema não diz apenas respeito à Lagoa do Fogo, afectando outras, como as Lagoas das Empadadas, frisando que “são diversos os relatos de populares que afirmam nunca ter observado as lagoas com tão baixo nível de água”.
S. Miguel.Lagoa do Fogo
Os Amigos dos Açores recordam que, nos últimos anos, tem vindo a ser registada uma redução dos índices de pluviosidade, que se reflecte na diminuição do caudal das nascentes, salientando que a falta de água é actualmente um problema reconhecido em cinco das nove ilhas açorianas (Terceira, S. Miguel, Pico, S. Jorge e Graciosa). “A falta de chuva nos Açores reflecte-se na paisagem, com pastagens cada vez mais secas, as ribeiras e as lagoas com pouca água”, refere a associação ambientalista, alertando para o previsível agravamento do problema durante os meses de Verão. Para inverter este quadro, os Amigos dos Açores apelam à “consciência dos cidadãos”, no sentido de um melhor aproveitamento da água, através de “comportamentos responsáveis” no quotidiano. Por outro lado, os ecologistas defenderam a necessidade de serem combatidas as perdas registadas nos sistemas de abastecimento de água, que chegam a atingir 40 por cento. A necessidade de uma gestão responsável da água em sectores como a agricultura e a pecuária, foi também defendida pelos Amigos dos Açores para combater o problema da falta de água.
Açoriano Oriental on line [06.07.2009]

quarta-feira, 1 de julho de 2009

Parabéns a você!

Como não sei escrever as coisas lindas que gostaria de dizer, fiz esta brincadeira, com muito carinho. Um beijo no coração, querida Cris!

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Bem!... Como quem não sabe escrever coisas lindas, recorre às coisas lindas de quem sabe, atrevo-me a copiar o poemeto, dedicado à Cris, que o nosso muito amigo Daniel de Sá gentilmente deixou nos comentários:

Mulher-menina,

Mulher-criança,

Que nunca foge,

Mas não se alcança.

*

Mulher sem tempo,

Sem ter idade,

Faz do instante

A eternidade.

*

Beijos e abraços

Tão pouco são

Para quem é

Só coração.

*

Coração de alma,

Como nenhum,

Para caber

Em qualquer um.

*

Cantem-lhe, amigos,

Um canto vário,

Que hoje foi dia

De aniversário.

*

Mesmo que o canto

Seja imperfeito,

Há-de ficar-lhe

Dentro do peito.

*

Que a sua vida,

Seu coração,

É dar beleza

À imperfeição.

Daniel de Sá

segunda-feira, 29 de junho de 2009

A Casa de Antero em Vila do Conde

Casa de Vila do Conde onde viveu Anthero de Quental
Aqui as praias são amplas e belas, e por elas me passeio ou estendo ao sol com a voluptuosidade que só conhecem os poetas e os lagartos adoradores da luz.
Anthero de Quental

A Câmara de Vila do Conde está a recuperar e abrirá ao público brevemente a Casa onde, durante dez anos, viveu o poeta. O imóvel, que tinha sido alvo de uma intervenção que o descaracterizou, teve de ser demolido e reconstruído para se aproximar, o mais possível, ao que era no tempo de Anthero.

A casa reconstruída

O espaço não é grande, mas estão a ser criados espaços de exposição, um pequeno auditório e uma biblioteca a instalar na antiga torre, um dos locais mais atractivos da casa.
O acesso a essa torre, é feita através de uma escada, em espiral, que termina numa janela com vista para o núcleo antigo da cidade. A espiral tem a forma de estante e poderá representar, por exemplo, "a subida para o conhecimento", uma vez que ali ficarão aquartelados mais de 5000 livros. Existe a vontade de reunir, neste local, tudo o que diga respeito a Anthero e que se encontra disperso.
Dentro da casa, há um outro espaço que merece também ser realçado: o jardim. Antero de Quental conta, numa carta escrita a um amigo, que pretende libertar aquela zona da função de horta e transformá-la, colocando ali duas laranjeiras, um pessegueiro, plumas, um morangueiro e uma ramada. O jardim está a ser ordenado tal e qual esta descrição.
A casa situa-se no Largo com o nome do poeta (antiga Praça Velha), próximo da Igreja Matriz.
Fica prometida nova visita para quando a Casa de Anthero de Quental abrir ao público.

segunda-feira, 22 de junho de 2009

O homem dos 7 instrumentos

Eu nunca estivera antes na casa do padre, compreende o senhor? Não tinha vida nem estômago para isso. Era, nesse tempo, um homem de mil ofícios e caminhos. O mundo sobrevivia, sabe como e porquê? Ora, porque eu o desratizava. Subindo e descendo, por ladeiras e estradas, essas aldeias todas do Nordeste, tocava o meu realejo à entrada da rua principal, vinham logo bandos de homens e mulheres a correr ao encontro dos meus serviços. Via-se-lhes nos olhos as vidas carregadas de pobreza e de uma tristeza sem remédio. Ou tinham tulhas cheias dessas pragas de murganhos que eu devia exterminar, ou traziam facas e tesouras e alfaias agrícolas a afiar à lima, ao esmeril, até à lixa grossa; ou então apresentavam-me guarda-chuvas com varetas e molas partidas, e outras ferramentas a precisarem de um conserto destas minhas mãos de mecânico de tudo e mais alguma coisa. Amolava enxós, serras, serrotes, ferros de arado, foices de ceifar trigo ou roçar silvas, o inferno em peso a passar-me pelos dedos. As pessoas pediam-me que lhes fizesse recados e chamadas telefónicas intercontinentais, que lhes levasse cartas para o correio e desse voltas e voltinhas por elas na Vila, à cata de papéis e encomendas, em diligências e estúpidas demandas junto da câmara municipal e do notário. Pagavam-me por isso o que entendiam ou bem podiam. Mas nunca me faltou trabalho, porque a verdade é que não havia em todo o concelho do Nordeste um desratizador como eu. Armava ratoeiras em tudo quanto fosse sítio de ratos: arribanas, cafuões de milho, armazéns de frutas, sótãos onde se vazavam o trigo, a fava, a batata-doce e a comida de Inverno para o gado. As casas ficavam presas e reféns das minhas armadilhas, tal qual o peixe miúdo numa malha entre rochas ou os pássaros nas redes que eu lançava entre o canavial – enquanto ia amolando tesouras de costura, limando facas de cozinha ou rachando lenha para o lume. Depois ia ver as minhas ratoeiras. Os bichos agonizavam às centenas, espichados pelas duras molas desses meus engenhos, dando à cauda e às patas no ar, os olhos alucinados e as línguas de fora. Abria-lhes então uma boa cova no quintal, ajudava-os a morrer por misericórdia e enterrava-os às pilhas e mais pilhas, para que o mundo ficasse limpo e salvo de semelhantes pragas. À boca de Outubro e de Novembro, consoante o tempo se anunciasse para a próxima estação, tornava-me carvoeiro. Trabalhava numa furna inventada por mim, espécie de forno abafado, com controlo de fumos e calores, onde a lenha ardia da noite para o dia por sua conta e risco, até o fogo se extinguir por si e as achas se converterem em grandes troços de carvão que eu vendia a peso ou a saco para o tempo frio. Já por aqui se vê, senhor: com uma vida destas, como ia eu ter tempo e paciência para padres e missas? Agora! Razão por que, como lhe disse, nunca tinha estado antes naquela casa.
João de Melo, A Divina Miséria

domingo, 21 de junho de 2009

Ainda a chegada de Genuíno Madruga ao Pico

Fotos gentilmente cedidas
por Margarida Madruga
A Ilha...
A espera...
A alegria da chegada
Os familiares, os amigos, os abraços...
A televisão e a festa

sábado, 6 de junho de 2009

Genuíno Madruga à hora da chegada

Genuíno Madruga: o navegador do nosso orgulho

Que bom voltar a sentir o cheiro destas ilhas!...
Depois de ter percorrido cerca de 34 mil milhas, em 21 meses, na sua segunda volta ao Mundo, o navegador solitário Genuíno Madruga e o seu iate Hemingway chegaram por volta das 14 horas às Lajes do Pico.
Genuíno, meu rico primo Genuíno
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Quase na curva da estrada, ali no PALMO do GATO, entre as duas companhias, a de CIMA e a de BAIXO, isto é a meio da freguesia de S. JOÃO, num dia de inverno, 9 de Dezembro de 1950, ano Mariano, nasce este meu primo que agora vos apresento.Genuíno é o segundo filho, o primeiro do sexo masculino, de Maria da Conceição Goulart Madruga que casou aos 17 anos com Alexandre do Amaral Madruga, irmão de meu Pai.
A nossa avó paterna morreu de parto do 8º filho e dividiram seus filhos entre os parentes de S. João e das Bandeiras. Foi um castigo para aqueles meninos, que cresceram e se formaram a partir de todas as dores e saudades que a Vida lhes enviou. Foram forjados com uma têmpera de aço!
Tio Alexandre e meu Pai eram... tão próximos -13 meses de diferença de idades!!! (era vê-los já idosos ao lado um do outro fazendo coisas em conjunto e não falavam. Não precisavam de falar, tão unidos eles eram). Casaram no mesmo ano de 1943.
...e a vida deu as voltas que tinha de dar...
Genuíno era um menino rebitez. Louro, magrito e rijo, cheio de certezas, tão engraçado que ele era! E levava sempre a sua avante. Era como ele queria. Mas ele era esperto, muito esperto: sabia sempre o que queria e como queria. Nunca exigiu impossíveis. Tinha a noção exacta do que exigia. Deixava-nos andar no seu triciclo em troca sempre de algo. Se não houvesse troca que lhe agradasse, de certeza não emprestaria o seu triciclo.
...e isto com 5 anos de idade!!!
Desde cedo se evidenciaram nele as competências para o arrojo e aventura calculada. O medo nunca se gerou naquela cabeça de rapaz do Pico, que acima de tudo tinha que experimentar, para tirar conclusões. Foi assim que, numa das suas experiências, rebentou uma garrafa de gás... que não teve conclusões desastrosas, sabe-se lá porquê!
Porque era preciso estudar (!), dei-lhe explicações de Geometria Descritiva. Tinha um talento especial para as noções da geometria no espaço.
Apesar de toda a sua capacidade e inteligência, num dia de primavera de 1969, Genuíno diz-me: “Margarida, não vale a pena dares-me mais explicações. Vou desistir de estudar. VOU DEDICAR-ME À PESCA!!!”.
Acabara de fazer 18 anos!
Na sua primeira viagem à volta do mundo, Genuíno foi à procura de si mesmo, dos seus desafios, das suas capacidades que ele sempre quer ilimitadas, porque não há limites para os seus próprios desafios e também à descoberta de tantos e tantas coisas que o mar seu companheiro lhe foi presenteando.
Nesta segunda viagem ele quis levar as nossas ilhas em peregrinação, nesta circum-navegação, levando já outros compromissos a que ele se propôs. Como se ele fosse em procissão levando o “Santo Graal”, apesar de só, nunca deixou de cumprir o paradigma do sonho de Portugal: cumprir o Mar, cumprir Portugal, “dar novos mundos ao mundo”, cumprir o V IMPÉRIO que Fernando Pessoa sonhou e apregoou como o grande FADO, como o DESTINO SAGRADO e extraordinário deste nosso PORTUGAL. Genuíno foi cumprir o grande sonho de qualquer Português, que se revê nesta façanha. E Genuíno cumpriu.
Como qualquer HOMEM de BRAVURA, quando as coisas não correm de feição é que se percebe a sua CORAGEM, TÊMPERA, ESTOICISMO e RENÚNCIA a facilidades. Ele enfrenta a adversidade com uma TENACIDADE e DIGNIDADE próprias apenas de GENTE ILUMINADA, de gente de “antes quebrar que torcer”. Não é fácil para ele esta adversidade quase no fim da jornada, quando já sentia “areias de Portugal”... E não cumprir uma promessa (chegar pelo “Espírito Santo”) é uma desolação. A PALAVRA é para cumprir, doa a quem doer. Mas ele não se resignou, continua batalhando. Ele quer chegar, ele tem que chegar! Ele é naturalmente um sobrevivente de todas as tempestades que a vida lhe enviou. Ele é da estirpe dos heróis!
Este é que é o meu rico primo Genuíno, neto de meu Avô.
Margarida de Bem Madruga Horta, Maio de 2009

terça-feira, 2 de junho de 2009

A D. Otília

D. Otília vivia na estratosfera da Arte, sempre alheada das cruéis realidades que a circundavam. A vizinhança não a entendia. Jamais podia entendê-la. D. Otília conhecia meio mundo e falava com conhecimento bem documentado de museus, teatros e óperas das principais capitais europeias. O pai tinha sido rico e a filha, embora marcada com o estigma da ilegitimidade, acompanhou-o em inúmeras viagens e prolongadas estadas no estrangeiro. Frequentou meios de requinte social e exigente etiqueta, assim como os melhores colégios e mestres de música.
O meu avô apreciava muito receber D. Otília no terno de sala ao ar livre e até lhe perdoou o buraco que fez com a brasa do cigarro no assento do sofá. A pianista fumava, sem parar, um tabaco violento e barato que fazia tossir quem andasse por perto. Era a única mulher da aldeia que fumava cigarros de homem. D. Floriberta só consumia marcas caras e aromáticas. Entenderam as janeleiras que se ambas fumavam mereciam igualmente suspeitas das mesmas irregularidades morais. “Umas meretrizes”, gritava D. Beatriz mouca supondo que falava baixo, em confidência para a janela ao lado. A pianista, lá no planeta mítico que habitava, jamais se deu conta da crueldade que dominava o mundo das vizinhas.
ilustração de Luís França
Quando D. Otília decidia passar serões ao ar livre no sofá do meu avô, o velho Manuel Mentiroso deliciava-se com as vibrantes descrições de viagens e de acontecimentos que incluíam curiosas personalidades, assim como gente ilustre que ela conhecera durante os agitados tempos que separaram as duas guerras mundiais.
A pianista da nossa aldeia ora passava longos serões ao ar livre no sofá do meu avô, que se prolongavam até de madrugada, ora andava deprimida, com um olhar vago que não focava nada nem via ninguém. Passava temporadas de solidão como se vivesse numa ilha deserta no meio da aldeia. Tudo quanto o pai lhe tinha deixado em herança guardada no sigilo de bancos londrinos, foi transformado em material de guerra quando o governo britânico confiscou as reservas bancárias para suportar o combate final à fúria de Hitler. Sobrou-lhe apenas a humilde casa da mãe, o relógio e os anéis do pai! Empenhava ou vendia aos poucos, o pouco que tinha. As lições de piano não a sustentavam porque tinha sempre muito poucos alunos. Não tolerava os menos dotados e abominava que se tocasse sem alma, sem talento. As meninas de sensibilidade menos apurada eram postas na rua aos gritos de “vá para casa remendar as peúgas”, porque entendia que “a música não é para cabeças ocas nem para sentimentos empedernidos como calhaus”. Muito poucos alunos resistiam aos vendavais do temperamento da D. Otília. Por vezes, até aqueles que ela considerava talentosos desapareciam em pânico. Depois, sobravam as carências, a fome rondava, entrava e instalava-se na casa dela. Porém, nem nas crises mais prolongadas a pianista aceitava ajuda de quem quer que fosse. Podia não ter mais nada para além da dignidade, mas dela não abdicava. Transformava em esmola para os pedintes qualquer oferta que lhe fosse dada, mesmo que o retrato da fome lhe viesse estampado na cara. Se era convidada para comer em casa de vizinhos, exibia uma bizarra cerimónia, servindo-se de quantidades mínimas das quais ainda deixava sobras. Tinha um olhar altivo, distante, que nos reduzia à sensação de pertencermos a uma escala menor.
Havia na atmosfera da aldeia como que uma compacta força suspensa, algo de estranho que nos roçava pela alma, apertava na garganta e eriçava a pele, quando a pianista abria a madrugada através dos ascendentes acordes de um Nocturno do “seu” Chopin. Para a ouvir clandestino, eu saía da cama e escondia-me no vão da porta ao lado da casa dela. Julguei que a minha presença tinha sido pressentida ou descoberta quando, mais tarde, tive a sensação de que me eram dedicadas algumas das maravilhosas sonatas românticas a que a artista se entregava, em êxtase. Apaixonei-me pela música. Andava sempre dentro do raio de acção sonora do piano da vizinha. Escutava as lições, suportava o martelar dos exercícios de principiantes e temia as explosões de cólera contra meninas lavadas em lágrimas, que eram expulsas sem piedade, para o “olho da rua”. Porém, nada demoveu as intenções que entretanto me tinham nascido cá dentro e acabei por dar comigo a suplicar, “ó mãe, peça à vizinha Otília para me ensinar a tocar piano”. Como o meu pai discordou com enorme arrogância, porque “o que ele precisa é trabalhar”, logo a minha mãe entendeu contrariá-lo, por rotina. Acedeu ao meu pedido com a melhor prontidão e foi falar à pianista. Ficou apalavrado o dia e a hora da primeira lição.
Vivi ansioso a espera pela oportunidade de ter a sensação de me sentar ao piano. Qualquer um vivia sugestionado por imagens das fitas de cinema como aquelas em que o galã, no mais premente momento do clímax sentimental, abandonava a actriz, cuja esbelta cintura tinha entre mãos, para se sentar ao piano e dedicar-lhe uma serenata. […]
A professora de piano não me deixou sentar frente ao teclado, no banquinho mecânico que gemia quando se rodavam os dois manípulos que lhe regulavam a altura. Eu tinha sonhado atribuir ao momento em que me sentasse pela primeira vez ao piano o significado dum decisivo passo para a consagração. Sentou-se ela e manteve-me a uma certa distância. Ensinou-me as notas “dó, ré, mi” e… por aí adiante. Tive de as cantar avulsas à medida que ela as fazia sair vibrantes, pelo piano fora. Eu não conseguia evitar a troca de “dós” com “fás” e o desapontamento estava escrito na cara da vizinha pianista que sentenciou, “musicalmente disléxico!” Aproximei-me um pouco para saber o que isso queria dizer e apoiei a mão na tampa do piano de meia cauda. D. Otília não queria acreditar no desaforo. As sobrancelhas pintadas a azul subiram-lhe de espanto, até ao cimo da altiva testa franzida com rugas de tempestade. Levantou-se e gritou, possessa, “tira já as mãos de cima do meu marido”. Fiquei petrificado sem ver nenhum marido, até reparar que estava com a mão colada naquele monstro preto que se arreganhava para rir de mim, exibindo a enorme dentadura branca voltada para a possessiva esposa. Corri escada abaixo e corri rua fora cheio de vergonha com o escândalo que a gritaria ia provocar na aldeia. Foi uma zanga ainda pior do que as zangas rotineiras que D. Otília tinha contra meninas destituídas de talento. Era evidente que no seguimento deste fiasco público, eu passava a ter o rótulo de ser o maior insucesso pedagógico da pianista da aldeia.
Tomaz Borba Vieira, Herdar Estrelas

domingo, 31 de maio de 2009

José Silva / Joe Sylvia

Quem se esquecesse de lhe olhar para a alma, concluiria, sem esforço, que Joe Sylvia era um homem feliz. Aquele porte, de asseio e de compostura displicentes, mostrava um homem idoso que teimava em fazer emergir uns restos patinados de juventude: os olhos claros derramando um brilho visível, uma boca generosa com lábios a guardar a prótese dentária, cabelos a luzir de brancura que disfarçavam uma calvície mal gerida e um vestir de tonalidades assumidamente solares. Quem se não esquecesse de lhe olhar para a alma…, ou para a sua postura, aos fins de tarde, sentado na sua cadeira de rodas, olhando, através da janela larga do quarto, a paisagem possível da cidade, não concluiria estar diante de um homem idoso feliz. Bastava observá-lo quando tocado por dores crepusculares que lhe vinham da alma, que paravam inevitavelmente na garganta, que o sufocavam com minúcia até lhe alterarem a humidade dos olhos, a contracção dos lábios, o tremor das mãos.
A janela oferecia, a Joe Sylvia, uma paisagem fabricada pelos homens. Os edifícios sucediam-se na sua arquitectura angular, simples, porventura monótona e desenxabida, as cores uniformizadas, ditadas pela predominância de uma luz destemperada, viva, quente, ou por cinzentos sujos, frios, saídos de nevoeiros mortais. Desenhadas a esquadro, as ruas suportavam um tráfego ainda comezinho, sem a quantidade e a velocidade que martirizavam as grandes cidades e que distavam duas, três e mais horas de loucura por estradas de fazer perder de vista e que a polícia zelosamente controlava. Os ostensivos anúncios luminosos pareciam cabeças suspensas em enormes paus de fibrocimento. Daquela janela, ele partia para as ruas sossegadas, vendo as casas com os seus jardins cuidados, lavadas de tinta, cortinas bordadas nas janelas, árvores redondas moldadas desde o crescer, o stop, a outra rua que faz chegar ao Tower Square mexicanizado a cor de pêssego e com a sua torre de menagem com relógio – uma espécie de bife com batatas fritas e ovo a cavalo – torre em louvor de Angra do Heroísmo, sita numa pequena ilha dos Açores, de nome Terceira, de onde ele viera, sem olfacto suficiente para entender tal monumento, apesar de vulgar e prático. Aí, se plantou um centro comercial, que não pegou com a apregoada pujança californiana, apesar das boas intenções. Mas, dali, podia partir-se para o resto da cidade, saindo dos seus limites, tocando Visalia, Tipton, Hanford, onde os ranchos se espalham grandes e circunspectos como as fortunas. Era este ar pacato e provinciano que permitia a Tulare sobreviver, sem recorrer a arranha-céus nem a subterrâneos – um espaço onde o sol ainda gostava de pousar os olhos.
Da janela daquele quarto, Joe Sylvia observava Tulare da sua memória, centrada no Vale de San Joaquin da imensa Califórnia. Porém, já nada tinha a ver com a cidade que encontrara há quarenta anos atrás, que procurava desfazer-se do seu desenho rústico primacial, ruralizada até ao âmago e, por isso, pronta a ruir. Chamavam-lhe o town (“o tão”, continuava ele a dizer): as casas de madeira, quase geminadas, com suas pequenas lojas de miudezas – um comércio imberbe ao pé das grandes “estôas”, a que nem a agência do Bank of America dera mais prestígio. Todos se conheciam. Quem comprava a pronto era sinal de abastança. Quem pedia fiado era o óbvio. Conversava-se na rua sacudindo pó e moscas. Havia cavalos atrelados a carroças. Foguetes a filarmónica saudaram a chegada do primeiro automóvel. Depressa o alcatrão veio atapetar as estradas e, com ele, chegaram tractores, máquinas para sementeiras e safras e mais automóveis. Apostava-se nas vacas, em plantações de árvores de fruta, em sementeiras de cereais. Desse tempo, pouco aquém do cowboiano, restavam relatos e fotografias a preto e branco, arquivados num museu de minudências obsoletas. Mesmo agora, as coisas continuavam a acontecer a um ritmo que o seu estar ali sentado quase podia acompanhar. Por isso, da janela daquele quarto, só as palmeiras o atraíam com o seu penteado selvagem, ondulante e verde. Quando a enfermeira-assistente fazia descer as persianas, ele ficava-se pelas cores dos poentes que caíam sobre as casas e as árvores, transformando-as em silhuetas fantásticas, riscadas pelos faróis e pelos ruídos do tráfego, dormente como um fole de gaita, incapaz de se lembrar onde deixara os óculos de ler o presente ou o controle remoto da televisão do seu quotidiano desenhado. Se lhe perguntassem como se chamava, mesmo assim, responderia: “José Silva”. E logo acrescentaria: “Excuse me! Joe Sylvia!”, abanando a mão e sorrindo vagamente pela língua materna perdida.
Joe Sylvia transformara-se numa espécie de memória cristalizada que, às vezes, se estilhaçava por explosão, fazendo emergir passados das gavetas mais recônditas da alma para, pouco depois, o íman, que o peso da idade, testicularmente, lhe depositou, rechamar os mil pedacinhos de cristal, formando uma tampa de escuridões rasuradas. Os seus oitenta e dois anos, empilhados por um disfarçado desprezo pela morte, deixavam-no tocar a meta onde a lucidez acaba e o indefinido começa, tudo fechado naquele quarto de trinta metros quadrados, com a sua janela larga disposta sobre a cidade.
Há quatro anos viera para aquele quarto como se entrasse, voluntariamente, no jazigo da família. Isso mesmo pensou sem receios nem rancores de maior. Sabia que o seu fim era uma questão de corrosão final e já não tinha paciência para sentir piedade de si próprio. A morte estava-lhe tão próxima que a podia cumprimentar de beijo. Para tanto, bastava haver vontade ou qualquer momento de menor preguiça. Apercebia-se também das fugas da sua sanidade mental, construindo objectivos fictícios para medir a duração e a densidade dessas fugas. Fizera o mesmo com as emoções das pernas, perscrutando-lhes a ferrugem das dobradiças, sentindo-a invadir, de forma incontrolável, as articulações que comandam os movimentos. E deu por si a decifrar-se como general que perde, sub-repticiamente, o comando das operações, recorrendo à bengala dos seus oficiais até ao abandono que o transportou, para fora do campo de batalha, sentado numa cadeira de rodas. Incomodava-o tamanha dependência. Não por causa das liberdades perdidas, mas por um sentido de desfeita imerecida que a vida lhe pregara. O médico costumava inglesar com a enfermeira-assistente em pulverização dos ossos. Isso queria dizer morte à vista e, sobretudo, um sofrimento capaz de provocar obscenidades. “Anda cá, minha tonta! De que é que estás à espera?” E, assim, se aliviava do seu estado de idoso, privilegiadamente internado num asilo de ricos. Iria morrer fora de casa como um cão que paga para ter dono. Por isso, não se livraria de funeral a preceito, programado a rigor, da maquilhagem às flores, passando pelo fato, pela urna, pelo rosário, pelo padre, pela sepultura, com lápide balizadora das únicas datas a que um vivente tem direito: a do nascer e a do morrer. Isto incomodava-o mais que a solidão, incarnada visceralmente, mas destituída de rosto identificável. Naquele anoitecer quente e seco, interrogava-se sobre que pecado antigo o sujeitava a tamanho castigo.
“Se morresse na minha ilha…” Joe Sylvia pensava na morte ditosa dos pais, embora roesse o remorso da ausência. Mas, na ilha, era outro o morrer – mais pobre, sem dúvida -, mas com direito a lágrimas sentidas, salgadas de saudades novas que só desvaneceriam com o decorrer do tempo.
Álamo Oliveira, já não gosto de CHOCOLATES

sábado, 16 de maio de 2009

As estranhas razões do coração

Aconteceu, há dias, um acidente cá em casa. Um armário caiu e partiram-se alguns objectos, que se espalharam, numa mistura, pelo chão. Entre eles, este frasquinho contendo areia preta da Praia das Milícias, no Pópulo (Ilha de S. Miguel).
Quando, em meados de 2005, regressei ao Porto, trouxe, dentro dum saquito, um pouco da areia da ilha, areia essa que repousou no dito frasquinho durante estes quase quatro anos.
Já esqueci os outros objectos partidos, mas... volta e meia, um alfinetezinho pica o meu coração: é que me faz falta aquele bocadito da ilha da minha saudade. Isto dos afectos tem muito que se lhe diga!...

quarta-feira, 13 de maio de 2009

Jardim do Paraíso antes e depois

RIBEIRA GRANDE
Pontes e Jardim do Paraíso
Jardim do Paraíso e Câmara Municipal Jardim do Paraíso actualmente
Nas duas primeiras fotografias não existia, ainda, aquela espécie de anfiteatro grego visível, parcialmente, na última (lado direito inferior).

terça-feira, 12 de maio de 2009

Furnas... 1924

Vale das Furnas visto do Pico do Ferro
Lagoa das Furnas
6 de Agosto de 1924
Atravesso a Chada das Furnas, região desolada, até se me deparar pela frente o espinhaço disforme da serra do Trigo. Desço as Pedras do Galego e abre-se diante de mim, entre contrafortes temerosos, o esplêndido vale das Furnas. É uma bacia rodeada de montes – o Pico do Bode, a Lagoa Seca, o Pico do Ferro, o Pico do Cavaleiro. No fundo da cratera, casinhas escondidas na verdura e um grande contraste entre os contrafortes cor de lousa e alguns campinhos de milho muito tenro por onde apetece passas a mão, acariciando-os; entre a bacia cheia de árvores e de água, com o vulcão canalizado e reduzido a alguns penachos de fumo, que saem de muros redondos de resguardo, e as grandes serrar que ele vomitou e produziu. Agora, está ali só para nos dar alguma inquietação – para a volúpia ser maior… Sob a crosta que calcamos, e que terá alguns metros de espessura, o inferno, naturalmente, continua: basta escavar na terra com a ponta da bengala para abrir uma chaminé.
Raul Brandão, As Ilhas Desconhecidas
Caldeira e fumarolas

terça-feira, 5 de maio de 2009

A escolha de um outro amor

A actividade política de Antero de Quental era por ele assumida como uma imposição moral, como uma espécie de missão. Desde muito cedo se percebe nele algo de nobre, de intrinsecamente bom, que o faz abdicar de uma possível felicidade individual, para se dar inteiramente à construção do bem colectivo. Esta escolha não foi, com certeza, fácil e exigiu dele um esforço constante para não ceder às humanas tentações do homem vulgar. Em carta de 1866 (com apenas 24 anos) a António de Azevedo Castelo Branco, diz:

A natureza em mim é conservadora: só o espírito é revolucionário. Esta desarmonia fundamental te sirva para explicar todas as minhas fraquezas, contradições, cobardias mesmo. Só o que te posso assegurar é que entro nesta acção violenta contra mim mesmo com uma boa fé que me dá ânimo enquanto de pé e (se tenho de sucumbir), caído, me será a melhor das consolações, poupando-me a este último e verdadeiro inferno: o desprezo do homem por si mesmo.

O "statu quo" tem doçuras! Pelo que me tem custado a combater as visões do passado, que lagrimosas me surgem no meu caminho a enlaçar-me nos braços acalentadores e brandos, a suplicar-me, a arguir-me como duma traição, desta revolta contra metade já de uma vida, por aí meço a força de inércia da minha natureza. De inércia? não: de harmonia, fora melhor dizer. O natural não é quebrar violentamente o fio da vida, para i-la reatar, não sei onde, bem longe, fora de toda a tradição, sem mais antecedentes do que uma ideia tenaz, dominadora, sim, mas afinal uma mera abstracção… Não: é preciso que o ar social esteja feito de um modo bem impróprio para as exigências naturais do pulmão humano, para que, chegando o homem à idade adulta da consciência, se vire e diga “nada disto é a vida: para trás! para o lado! correr vales! a ver se se acha, longe de todo o rastro conhecido, coisa que mais nos dulcifique por dentro este azedume insuportável!”

Mas a vida é um silogismo: o tecto paterno é uma premissa; a outra é a morte na doçura da sua própria consciência e na fraternidade das outras consciências que lhe aprovam a vida. É preciso que a sociedade seja bem ímpia para obrigar o homem à blasfémia social por excelência – a Revolta. O lar é toda uma política; e o "statu quo" uma filosofia.

Quantas vezes as lágrimas me têm corrido no meio destes pensamentos! Afora tudo isto eu tenho preso ao coração um amor que não sei (talvez porque não quero, nem ele o merece) como o tirar de aqui (1). Ele me simboliza toda uma vida segundo a natureza; vulgar... e bela como qualquer árvore da primeira colina que o sol e os ventos visitam; quero dizer, aquilo que todo o homem tem direito de exigir, porque nenhum homem tem direito de exigir mais... Enfim, o instinto, com todas as suas vozes, tem levantado a sua celeuma no meio do silêncio que eu com a minha razão julgara impor a este ser, para como um ditador determinar e fazer caminhar no vazio as minhas abstracções ordenadas em colunas e batalhões! O instinto! a tradição! a espontaneidade! a natureza! [...]

Entretanto, a minha persistência e as boas disposições de continuar te mostram que tenho sabido, com subtileza de sofista umas vezes, outras com as cóleras de revolucionário, responder a este coro desgrenhado das Níobes da minha mitologia íntima e pessoal. É que tudo aquilo, por isso mesmo que é santo e justo e radioso, só na santidade, na justiça e na luz se pode aceitar. É o carácter das coisas verdadeiramente boas não poderem ser somenos. São ou não são, eis tudo. O espírito revolucionário, visto a esta luz, acha-se não ser no fundo senão um imenso espírito de paz e de harmonia, que por isso mesmo que o não deixam ser pacífico à sua vontade se enfurece e reage. É a filosofia dos desesperados, é a coragem dos medrosos.

Apesar das frustrações, em 1890 e já próximo do fim, mantém a mesma opção de vida, em carta a Jaime de Magalhães Lima, a propósito da Liga Patriótica do Norte:
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O que se vai passar em Portugal é seriíssimo. Faça cada um o seu sacrifício no altar da Pátria. Eu sacrifico a minha saúde, que naufragará de todo no meio disto, e muito provavelmente o meu nome, que antes de seis meses estará manchado. Não importa. Quero sacrificar a vida, e morrerei contente se tiver vivido seis meses ao menos da verdadeira vida de homem que é a da acção por uma grande causa.
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(1) Referia-se a D. Maria da Mota Porto-Carrero, que veio a casar com o Dr. Filomeno da Câmara de Melo Cabral. Segundo J. Bruno Carreiro, foi ela que inspirou os sonetos Pequenina, Quinze Anos, Jura e o poemeto Maria.