A minha casa... Mas é outra a história:
Sou eu ao vento e à chuva, aqui descalço,
Sentado numa pedra de memória.
Vitorino Nemésio, in A Concha
"Onde vos retiver a beleza dum lugar, há um Deus que vos indica o caminho do espírito." Natália Correia
Ponta Delgada (e a ilha de S. Miguel) em festa e eu, aqui tão longe...
Ponta Delgada, 16 de Março de 1970 – Aqui tenho já no aconchego dos olhos alguns aspectos reais de S. Miguel, que começou por ser uma fantasmagórica linha convexa no mostrador do radar de bordo, foi progressivamente passando de miragem a vulto informe, se clarificou a seguir em manchas risonhas de cultivo e casario, e finalmente pude sentir concreta e vulcânica debaixo dos pés.
São disparos sôfregos da retentiva, sem ângulo estudado, nem luz medida. Relances citadinos, instantâneos humanos e, sobretudo, panorâmicas da ilha, sempre com o mar ou uma cratera à vista. As imagens mais emocionadamente recolhidas, de objectiva focada nas Sete Cidades, justamente por causa desse nervosismo da alma, creio que ficaram tremidas. Assombrado, perdi a firmeza diante dum tal fascínio, que Raul Brandão, a pinceladas de caneta, me inculcara à curiosidade na figuração de uma fresca aguarela, de tintas ainda a escorrer, e que, afinal, desdenhava soberanamente de todas as paletas e desafiava os mais ousados voos da imaginação. Tão certo é haver trechos da natureza que, por mais poderosa que seja a mão do escritor, nunca poderão transformar-se em trechos de literatura. Ficam neles meras e sugestivas ficções. Ou então sou eu que, faça o que fizer, não consigo ver pelos óculos de ninguém.
Seja como for, no caso presente, a representação que trazia no pensamento não correspondia à realidade. E acabei por gastar o rolo emotivo a abrir e a fechar a retina, numa espécie de frenesim suicida, como se todo eu, na ânsia de apreender o inapreensível, me precipitasse cego naquele abismo de cor, idílico e terrível ao mesmo tempo, de paredes abruptas e alcatifado por um lago de límpida transparência, a reflectir com irónica serenidade o pasmo e a angústia de quem olha de cima.
Maria Norberta Amorim (à esquerda)
No meu tempo de Natal
Era no tempo em que havia pai natal
Era no tempo dos meus pais
Era no tempo em que havia pai natal
Maria Isabel Fidalgo
Angra do Heroísmo
Localizado no cimo do Jardim Duque da Terceira, na elevação onde a cidade nasceu, o obelisco da Memória comemora a passagem do rei D. Pedro IV, pela ilha Terceira, durante as lutas liberais. Foi neste outeiro que os primeiros povoadores se estabeleceram e nele construíram a primeira fortaleza da ilha - o Castelo de São Luís, também conhecido por Castelo dos Moinhos - ao redor do qual se desenvolveu um povoado medieval, ainda hoje visível nas tortuosas ladeiras que descem o morro. A pequena fortificação de defesa e de vigia do porto, e litoral circundante, localizada longe do mar, espelhava a ideia ainda medieval, continental e mediterrânica duma defesa em acrópole. Perdendo pouco a pouco a sua importância, à medida que Angra cresce em direcção ao mar e outras fortificações se erguem, o arruinado forte foi demolido, no século XIX, sendo as suas pedras aproveitadas para a construção deste obelisco em forma de pirâmide.