segunda-feira, 21 de março de 2011
Poesia
sábado, 19 de março de 2011
sexta-feira, 18 de março de 2011
A Nau Catrineta
quarta-feira, 16 de março de 2011
Será possível?
quarta-feira, 9 de março de 2011
Ilhéus das Formigas
O que destes baixos aparece sobre a água do mar tem no princípio um grande e alto penedo, e na outra ponta outro mais baixo e pequeno, e, do alto até o mais baixo, corre a compridão delas como do Nordeste a Su-sudoeste, e a ponta mais delgada delas, que é o penedo mais baixo, vai direita à ilha de Santa Maria, esvarando pela banda do Norte da mesma ilha. Têm estas Formigas, do penedo grande à outra ponta do outro penedo mais pequeno […], tanto como um bom tiro de besta. O penedo maior, que é a cabeça deste baixo, é de altura de uma casa sobradada, e, deste penedo para a ponta, que é outro penedo um pouco mais baixo, corre em altura de casa térrea. Assim que são três alturas diferentes, porquanto têm os meios mais baixos. E há um canal entre o penedo grande e o outro baixo mais baixo, por onde passam barcos de banda à banda, e aqui, neste canal, morre muito peixe de muitas maneiras nas bocas dele, e morrem também escolares. E da banda de Leste se abrigam os barcos a este penedo grande de todo o temporal que corre contrário de rosto ao Leste. A largura deste baixo será tanto como vinte côvados, de três palmos cada côvado, a lugares mais e a lugares menos. E da banda do Sul está outro baixo arredado, que é o penedo mais pequeno da outra ponta, por entre o qual e o baixo do meio pode passar um barco. E estes penedos dos cabos, assim o grande como o pequeno, chamam os mareantes Cuadas, porque são os extremos e pontas de todo este baixo, que está sobre o mar. […] Nestes baixos há muitos caranguejos, lapas, cracas e búzios, em tanta quantidade, que é coisa de espanto ver a multidão deste marisco. […] Da Cuada, ou cabo deste grande e mais alto penedo, direito ao Sueste, espaço de uma légua, demora outro baixo debaixo do mar, ficando-lhe o outro alto ao Noroeste, de maneira que estão ambos Noroeste Sueste. Este baixo, que chamam o Raso, é muito mais perigoso que o outro alto, de que mais se temem os mareantes, e onde os navios se perdem; e são três baixas debaixo do mar, com três eiras entrempadas como em triângulo, que farão todas três estendidas e o mar, que no meio se mete, quantidade de três alqueires de terra. Por muito manso e chão que esteja o mar, receia qualquer barco, por pequeno que seja, de se meter entre elas, pelo grande fervor que a água ali trás. Com baixa-mar, podem ser sobre estas baixas sete ou oito palmos de água, e com mar grosso (porque cava, então, muito), tudo aparece branco e quase se descobrem. Dizia um Álvaro Gonçalves Maranhão, mareante da cidade da Ponta Delgada, que já vira nestas baixas calhaus como de lastro de navio, que parece que ali em algum tempo de tormenta se perdera.
Neste baixo, e ao redor dele, em barcos, se faz a pescaria principal, onde morre peixe escolar e de toda sorte. Mas os barcos que pescam nele, por ser tão perigoso para de noite dormirem no mar, que é ali roleiro, logo se acolhem dele ao penedo grande, onde estão mais seguros.
[…]
Vindo a estas Formigas Frei Gonçalo Velho no novo descobrimento […], não achando ilha frutuosa e fresca, senão estéreis e feios penedos, e, em lugar de terras altas e seguras, vendo somente baixas pedras, tão baixas e perigosas, cuidando e suspeitando ele e os da sua companhia que o Infante seu senhor se enganara, julgando aquela pobre penedia por uma rica ilha, não entendendo todos eles com esta suspeita que havia mais que descobrir, se tornaram desgostosos ao Algarve, donde partiram, sem mais ver outra coisa que terra parecesse, e dando esta nova ao Infante D. Henrique, juntamente dizendo seu parecer, que não havia por este mar outras terras senão aquelas duras pedras que nele somente acharam.
Gaspar Frutuoso, Saudades da Terra [Livro III, Capítulo Primeiro]
sábado, 5 de março de 2011
Lenda dos nove irmãos
sexta-feira, 4 de março de 2011
Cancioneiro das Ilhas
quarta-feira, 2 de março de 2011
Açores e Atlântida
Mapa de Athanasius Kircher mostrando a Atlântida no meio do Oceano Atlântico. De Mundus Subterraneus, de 1669, publicado em Amesterdão. O mapa é orientado com o sul para cima (Wikipédia)
[…] se tornaram à cidade de Roma, sem achar estas ilhas dos Açores pegadas com a costa de Portugal ou de Europa, rodeando-a toda até ao cabo de Finisterra, sem fazer tão longo rodeio como fora, se pelas ditas ilhas dos Açores foram. Pelo que, do que tenho contado, se segue que nunca estas ilhas dos Açores foram pegadas com Portugal, como tem a primeira opinião, nem com ilha Atlântida, que não houve antes nem depois de Platão […], que é a segunda opinião, como, pelas histórias contadas atrás e pela experiência que dos mais tempos já tão conhecidos e lembrados temos, tão claro parece.[…]
Ainda se Platão não tivera que o Mundo teve princípio e cuidara, como cuidou Aristóteles, que era ab eterno, deste erro pudera persuadir que houvera em algum tempo atrás (de que não houve memória de homens) a ilha Atlântida, porque ninguém, então, lho pudera nem soubera contrariar, pela infinidade de anos em que atrás pudera haver sido o que contara ele e qualquer outro que quisera fingir histórias muito antigas. Mas ele tem que o Mundo teve princípio e a Igreja Católica, que é mais verdadeira e certa mestra que as escolas de Atenas, assim o afirma; e é verdade infalível de fé que teve o Mundo princípio, como se vê e prova no primeiro capítulo do Génesis, onde a Sagrada Escritura começa que no princípio criou Deus o Céu e a Terra. E temos anos contados no Mundo, desde o princípio dele até agora.
E os reis e governadores de Espanha que de Tubal, primeiro rei dela, começaram até os que em tempo de Platão e Aristóteles, seu discípulo, reinaram e governaram, e claramente vimos que, no tempo que eles reinaram e governaram, nem setecentos e cinquenta anos antes que Platão escrevesse […] haver tal Atlântida, nem rei dela, que aos de Espanha em algum tempo depois, nem dantes, vencesse, como tenho contado, os que a Tubal sucederam até os anos em que Platão e Aristóteles floresceram, e até os tempos claros e conhecidos em que notoriamente experimentamos e sabemos não haver tal Atlântida, por onde, nestes nossos tempos acordados, parece ficar ar e nada o sonho da Atlântida que Platão, como dormindo, sonhou e contou. […]
Não quero nisto dizer que Platão quisesse fingir esta história da Atlântida, senão que a contou como a ouviu a alguns, a que deu mais crédito do que o necessário […]
Também diz Platão que dos egípcios ouvira o que da Atlântida conta […]
Platão, como coisa nova, conta aos atenienses esta história da Atlântida e dos reis dela, como, sendo tão belicosos, foram vencidos pelos mesmos atenienses, como a eles nova e deles nunca sabida, nem ouvida. Eu não sei como possa ser que uma coisa tão grande, como diz que era a Atlântida, e tão poderosos reis dela e vencedores dos reis de Espanha, ou a subversão dela, ou a vitória que dela houveram os atenienses [...], sendo cada uma destas coisas tão grande e de tanto nome, que a menor delas era digna de memória perpétua, fosse ignorada e esquecida no Mundo todo, e especialmente em Espanha e em Atenas, pois de muito menores coisas e acontecimentos há tantas memórias e estão as escrituras cheias […]
Mais claro que o meio-dia fica e parece que nem reis de Atlântida venceram reis de Espanha, nem atenienses venceram reis de ilha Atlântida nem tal Atlântida no Mundo houve em algum tempo, pois tenho contado os tempos e as mais notáveis coisas e guerras deles (em que Platão diz que foi), sem neles, dantes nem depois, disso se achar nem em escritura, nem tradição, nem memória de homens lembrança, faro, parte, nem mandado.
[…] sem haver em tempo de nenhum deles memória de vitória que os atenienses tivessem de reis de Atlântida, pelo que claro parece nunca haver sido tal ilha. E não a havendo, mal podem ser estas ilhas dos Açores partes dela.
[…]
Se, para prova de não serem estas ilhas parte de Europa, nem da ilha Atlântida, não são suficientes as razões que atrás tenho ditas, digo que elas e outras, que por brevidade deixo de dizer, são bastantes para me persuadir e concluir, a mim, a ter o contrário das duas opiniões e me convencem meu entendimento para afirmar que entendo e não posso entender outra cousa, senão que parece claro que nunca estas ilhas dos Açores foram pegadas com Portugal ou Europa, como tem a primeira opinião. Nem houve em algum tempo ilha Atlântida, nem estas ilhas são parte sua, como a segunda opinião afirma. Mas nem com isso quero obrigar os entendimentos doutros (pois Deus os fez livres) a que entendam o mesmo e digam o que eu digo. Entenda e diga cada um o que quiser, que eu isto entendo e afirmo, enquanto não vejo outras melhores razões que me convençam meu entendimento no que agora disto alcanço saber.
Gaspar Frutuoso, Saudades da Terra, Livro I, (retirado dos capítulos 27º, 28º, 29º, 30º, 31º e 32º)
NOTA: Quero esclarecer que, devido à extensão do texto, me atrevi a retirar dele pequenos trechos que, no seu conjunto, pudessem dar uma ideia, ainda que imperfeita, do pensamento e da posição de Frutuoso face a este assunto.
Para tornar a leitura mais fácil e inteligível, procurei dentro do possível “modernizar” a grafia de certas palavras. Que me sejam perdoadas estas "liberdades".
sábado, 26 de fevereiro de 2011
Mãe ilha
quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011
sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011
Almeida Garrett: um portuense que amava os Açores
João Baptista da Silva Leitão de Almeida Garrett nasceu, faz hoje 212 anos, na cidade do Porto, no seio de uma família burguesa.quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011
Cantar às Estrelas
terça-feira, 1 de fevereiro de 2011
Cinema na Ribeira Grande
Clube de Cinema da Ribeira Grande
Actividades 2011
Ciclos de Cinema
O sentido da vida (Fevereiro)
Bruscamente no verão passado (Suddenly last summer), Joseph Mankiewicz (1959)
A linha invisível (The thin red line), Terence Malick (1998)
A Máscara (Persona), Ingmar Bergman (1966)
1941, Steven Spilberg (1979)
Liberdade e revolução (Março)
O Leopardo (Il gattopardo), Luchino Visconti (1963)
O Couraçado Pontenkin, Sergei Eisenstein (1925)
1900, Bernardo Bertolucci (1976)
Bom povo português, Rui Simões (1981)
Retratos da América (Abril)
Taxi driver, Martin Scorcese (1976)
O Caçador (The deer hunter), Michaeçl Cimino (1981)
O cowboy da meia-noite (Midnight cowboy), John Schlesinger (1969)
Thelma & Louise, Ridley Scott (1991)
O Barbeiro (The man who wasn’t there), Joel Coen & Ethan Coen (2001)
Fellini a preto-e-branco e a cores (Maio)
Os inúteis (I vitelloni), Federico Fellini (1953)
Amarcord, Federico Fellini (1973)
8 ½, Federico Fellini (1963)
Fellini Satyricon, Federico Fellini (1969)
Elogio do amor (Junho)
O importante é amar (L'important c'est d'aimer), Andrzej Zulawski (1975)
O último tango em Paris (Le dernier tango à Paris), Bernardo Bertolucci (1972)
Betty Blue, Jean-Jacques Beinix (1986)
As lágrimas amargas de Petra von Kant (Die bitteren Tränen der Petra von Kant), R. W. Fassbinder (1972)
Paris, Texas, Wim Wenders (1984)
Ingmar (Julho)
Morangos silvestres (Smultronstället), Ingmar Bergman (1957)
Fanny e Alexander (Fanny och Alexander), Ingmar Bergman (1982)
Mónica e o desejo (Sommaren med Monika), Ingmar Bergman (1953)
Lágrimas e suspiros (Viskningar och Rop), Ingmar Bergman (1972)
segunda-feira, 24 de janeiro de 2011
GASPAR FRUTUOSO
Foi sepultado na capela-mor da sua igreja, acima dos primeiros degraus, quase defronte do altar-mor. Em 3 de Setembro de 1866, as suas cinzas foram trasladadas para o cemitério da Ribeira Grande. Sobre o local em que repousam esses restos, erigiu-se um pequeno mausoléu, em que está escrito o seguinte:Fonte: Rodrigo Rodrigues, Notícia Biográfica do Dr. Gaspar Frutuoso, in Saudades da Terra, edição do Instituto Cultural de Ponta Delgada
quarta-feira, 12 de janeiro de 2011
Brumolândia
Assim a pobre terra ia ganhando nomeada no assopro da fama, pois se quedara escondida entre os roçagos do Atlântico, fazendo uma vida simples de pegureiros e de manadas. Aventureiros hispânicos do Quinquecénio, por uma manhã de Agosto, haviam posto ferro na primeira enseada da terra, região pulverulenta de barreiras aonde depois se faziam enormes vasos toscos. Mas a gleba anunciava pouco, nem vivalma, por lá, resfolegava ou sofria, e só rapaces muito negros enchiam o ar de crocitos, como matracas vigiando uma triste vinha vindimada. Logo o Capitão se fez de vela à Metrópole, a trazer tão desconsolada nova.
- Ninguém, meu Senhor – dizia para o Almirante da Renascença. – Nem planta humana calcou jamais tão fero chão! E se me é dado vos tornar parecer sobre destino a que voteis o senhorio que vos trago, já vos digo que mais monta deixá-lo a ladrão de braga ao pé, do que a homem bom ou fidalgo de couto e honra em vosso termo.
O Almirante achou bem e cogitou por largos dias; e o Capitão, que tinha assento num castelo transtagano, foi-se a repousar. Tempos, porém, volvidos, o mareante mudou de pensar, tomando para si uma porção da terra, e ruivos colonos de Flandres partiram a haver o resto, em caravelas tão fartas de mantimento e sustância, que eram paródias vivas da Arca do bom borracho Noé…
Desbravados os matagais e escaboucadas as grandes calvas de pedra, onde bacelos e tojais punham a ilusão dum chinó, progrediu a colónia e erigiu capelas que nas tardes bíblicas, de um fumozinho leve, alarmavam a redondeza com repiques, nas primeiras bodas, ao olor das flores brancas… Foram cortados azevinhais milenários, com raízes no coração da terra e francas aos pés do Senhor; a urze tintureira deu cor a todas as véstias; e o pau branco, mais o cedro de bom cheiro, émulo do do Líbano, estenderam sobre os colmos: pernas de asna, tirantes e vergas mestras.
Brumolândia era, enfim, terra cristã e habitada. Mas isolada, só lentamente Brumolândia aforou civilização. Às vezes, dela faziam refúgio os príncipes pretendentes e os reis esbulhados do trono, aportando com vassalos fiéis e chorosos em armadas foragidas, que, tomado o apetecido refresco de almas e de corpos, de novo se faziam ao mar em busca nova de empresas. Não raro, mesmo, o sangue das batalhas escorria em seu dorso. Causas perdidas na nação que a anexara eram lá ganhas e salvadas, pareciam tomar rijeza das próprias lavas já frias, e, com um casulo de meses, rasgavam em borboletas de velas nos periantos das águas – já larvas, comendo a horta política da Metrópole.
De uma vez, até, que castelhanos a tentaram – escalões de infantaria em apresto de desembarque – contava o cronicon de como o indígena resistira, com pontas de chifre à frente de toiros reais, salvo seja…
quinta-feira, 23 de dezembro de 2010
Natal
De sacola e bordão, o velho Garrinchas fazia os possíveis por se aproximar da terra. A necessidade levara-o longe demais. Pedir é um triste ofício, e pedir em Lourosa, pior. Ninguém dá nada. Tenha paciência, Deus o favoreça, hoje não pode – e beba um desgraçado água dos ribeiros e coma pedras! Por isso, que remédio senão alargar os horizontes, e estender a mão à caridade de gente desconhecida, que ao menos se envergonhasse de à caridade de gente desconhecida, que ao menos se envergonhasse de negar uma côdea a um homem a meio do padre-nosso. Sim, rezava quando batia a qualquer porta. Gostavam… Lá se tinha a fé na oração, isso era outra conversa. As boas acções é que nos salvam. Não se entra no céu com ladainhas, tirassem daí o sentido. A coisa fia mais fino! Mas, enfim… Segue-se que só dando ao canelo por muito largo conseguia viver.sexta-feira, 10 de dezembro de 2010
A propósito dos Alfenins...
terça-feira, 7 de dezembro de 2010
Quase como...
Quando saíram, o sol bateu nos cabelos de Helena e ele notou que não eram, propriamente, arruivados, mas mais da cor do âmbar – um brilho quente e raro que, segundo dizem os astrólogos, pertencem, de preferência, às mulheres do signo Balança. Passaram a encontrar-se todos os dias no bar da Faculdade e foram aprendendo que aquela era a hora boa, a hora esperada de todos os dias. E, de repente, num momento enigmático de desafogo da alma, Helena pareceu-lhe a criatura mais sedutora que os seus olhos tinham visto – e então deu por si tão desajeitado, tão ansioso, que ela reparou. Que foi? – perguntou-lhe. Ele não respondeu. Pararam, por um momento, a contemplar o panorama da cidade vista lá do alto, da Escadaria Monumental. Depois, seguiram a conversa com aquela volubilidade mediterrânica condizente com a claridade do dia. Para os lados do rio, estava a branco e oiro que se via por entre árvores e torreões de casas sem idade – e Álvaro deixou-a à porta do Lar.
Desde então, começaram a habituar as mãos uma na outra quase sem darem por isso, até que uma vez, sem combinarem coisa nenhuma, encaminharam-se ao Aqueduto, entraram no Jardim Botânico – e foi num banco da Avenida das Tílias, ao som do repuxo do tanque, que ele se voltou, a olhou nos olhos, nos cabelos tão raros. As sombras errantes das tílias com súbitas cintilações. E a ternura – aquilo que foi aprendendo a chamar de ternura -, assim uma coisa intensa a rebentar-lhe dos olhos, e por dentro, sobretudo por dentro. Quase como um choro silencioso. Quase como. Como o quê?
Desde esse dia, Álvaro acostumou-se a pensar em Helena, o seu carinho, o seu instinto de mulher. Os dias a avançarem, os dois cada vez mais juntos a descobrirem-se, e ele a adiantar os minutos que todos os dias demoravam para ir ter com ela, com o olhar dela a crescer da sombra dos cabelos até ocupar todo o espaço que ia do rio ao alto da Sé. Era assim como se, de repente, o curso do entendimento se tivesse alterado e já não fosse preciso dizer tudo até ao fim, pois que bastava a eloquência dos silêncios, das linhas do rosto, o fluido à flor da pele, para restabelecer a nitidez do essencial. Por um período, Álvaro não teve olhos para mais nada senão para o voo das aves, as transparências do rio, os bons sinais da palma da mão. Até mesmo na janela do Arquimínio barbeiro lhe pareceu ver nascer umas minúsculas flores azuis, de sementes decerto espalhadas pelo vento.
Assim se alterou o acontecer da cidade, mesmo nas pequeninas coisas. O relógio da Universidade, por exemplo, nem sempre fazia ouvir as horas. Dependia. Não é que ele não cumprisse a sua função de relógio que era a de ser pontual, porém, o ouvi-lo ou não ouvi-lo dependia dos interesses do momento que tornava o ouvido atento ou distraído. Assim, algumas vezes acontecia Álvaro faltar às aulas por não ter dado pelas horas da torre. Dantes, não acontecia: as horas batiam sempre nítidas e a tempo. Agora era Helena, e os seus cabelos, e a sua voz, a ocupar o espaço todo que ia desde a Baixa ao alto da Sé. E porque ninguém estava ali para lhe ler os pensamentos, atreveu-se a pensar que o que enche intensamente o coração, enche o mundo, não deixa espaço para mais nada, nem sequer para um simples badalar de sino. Já lá na Ilha, em tempos, era assim com o relógio da torre da Matriz quando estava com Maria Clara. Não ouvia o relógio. Crescera, era agora um homem, acontecia a mesma coisa. Os anos passam e a gente muda muito pouco.
Fernando Aires, A Ilha de Nunca Mais
segunda-feira, 6 de dezembro de 2010
Ilha das Flores.Fajãzinha
terça-feira, 30 de novembro de 2010
Fernando Pessoa
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Que voz vem no som das ondas
Que não é a voz do mar?
É a voz de alguém que nos fala,
Mas que, se escutarmos, cala,
Por ter havido escutar.
***
E só se, meio dormindo,
Sem saber de ouvir ouvimos,
Que ela nos diz a esperança
A que, como uma criança
Dormente, a dormir sorrimos.
***
São ilhas afortunadas
São terras sem ter lugar,
Onde o Rei mora esperando.
Mas, se vamos despertando,
Cala a voz, e há só o mar.
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Fernando Pessoa, in Mensagem
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A mãe de Fernando Pessoa, D. Maria Madalena Pinheiro Nogueira, era natural da Ilha Terceira.












