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quinta-feira, 11 de março de 2010

Torga em S. Miguel

Ponta Delgada, 16 de Março de 1970 – Aqui tenho já no aconchego dos olhos alguns aspectos reais de S. Miguel, que começou por ser uma fantasmagórica linha convexa no mostrador do radar de bordo, foi progressivamente passando de miragem a vulto informe, se clarificou a seguir em manchas risonhas de cultivo e casario, e finalmente pude sentir concreta e vulcânica debaixo dos pés.
São disparos sôfregos da retentiva, sem ângulo estudado, nem luz medida. Relances citadinos, instantâneos humanos e, sobretudo, panorâmicas da ilha, sempre com o mar ou uma cratera à vista. As imagens mais emocionadamente recolhidas, de objectiva focada nas Sete Cidades, justamente por causa desse nervosismo da alma, creio que ficaram tremidas. Assombrado, perdi a firmeza diante dum tal fascínio, que Raul Brandão, a pinceladas de caneta, me inculcara à curiosidade na figuração de uma fresca aguarela, de tintas ainda a escorrer, e que, afinal, desdenhava soberanamente de todas as paletas e desafiava os mais ousados voos da imaginação. Tão certo é haver trechos da natureza que, por mais poderosa que seja a mão do escritor, nunca poderão transformar-se em trechos de literatura. Ficam neles meras e sugestivas ficções. Ou então sou eu que, faça o que fizer, não consigo ver pelos óculos de ninguém. Seja como for, no caso presente, a representação que trazia no pensamento não correspondia à realidade. E acabei por gastar o rolo emotivo a abrir e a fechar a retina, numa espécie de frenesim suicida, como se todo eu, na ânsia de apreender o inapreensível, me precipitasse cego naquele abismo de cor, idílico e terrível ao mesmo tempo, de paredes abruptas e alcatifado por um lago de límpida transparência, a reflectir com irónica serenidade o pasmo e a angústia de quem olha de cima.
Miguel Torga, Diário XI

segunda-feira, 6 de julho de 2009

O QUE NÃO DEVERIA ESTAR A ACONTECER...

S. Miguel.Lagoas das Empadadas
Falta de água está a reduzir níveis de lagoas em São Miguel
O nível da água na Lagoa do Fogo, em S. Miguel, desceu para níveis mínimos históricos como consequência da falta de água que já afecta cinco das ilhas açorianas, alertou a associação ecologista Amigos dos Açores. “Em alguns locais, o recuo das margens da Lagoa do Fogo chega às dezenas de metros, surgindo nas margens agora descobertas algumas espécies invasoras, que chegam até estes locais através das linhas de água”, revelou a associação num comunicado enviado à Lusa. Segundo os ecologistas, o problema não diz apenas respeito à Lagoa do Fogo, afectando outras, como as Lagoas das Empadadas, frisando que “são diversos os relatos de populares que afirmam nunca ter observado as lagoas com tão baixo nível de água”.
S. Miguel.Lagoa do Fogo
Os Amigos dos Açores recordam que, nos últimos anos, tem vindo a ser registada uma redução dos índices de pluviosidade, que se reflecte na diminuição do caudal das nascentes, salientando que a falta de água é actualmente um problema reconhecido em cinco das nove ilhas açorianas (Terceira, S. Miguel, Pico, S. Jorge e Graciosa). “A falta de chuva nos Açores reflecte-se na paisagem, com pastagens cada vez mais secas, as ribeiras e as lagoas com pouca água”, refere a associação ambientalista, alertando para o previsível agravamento do problema durante os meses de Verão. Para inverter este quadro, os Amigos dos Açores apelam à “consciência dos cidadãos”, no sentido de um melhor aproveitamento da água, através de “comportamentos responsáveis” no quotidiano. Por outro lado, os ecologistas defenderam a necessidade de serem combatidas as perdas registadas nos sistemas de abastecimento de água, que chegam a atingir 40 por cento. A necessidade de uma gestão responsável da água em sectores como a agricultura e a pecuária, foi também defendida pelos Amigos dos Açores para combater o problema da falta de água.
Açoriano Oriental on line [06.07.2009]