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terça-feira, 4 de novembro de 2008

A ILHA

De repente, o mar detém-se. E a ilha defende-se de ser água por detrás dos muros das arribas.
Uma ilha grande, fechada, que durante muito tempo só se abriu para deixar sair gente. A única mensagem de libertação que lhe chegava estava gasta por quase dois mil anos de interpretações acomodadas, salvando os pobres numa redenção de mortos, e garantindo aos ricos a felicidade eterna pelos lugares nos primeiros bancos da igreja e pelas varas do pálio nas procissões anuais. Todo o trigo mirrava com a alforra da avareza, fazendo da fome a padroeira-mor da ilha. Por isso se aceitava a servidão, em nome errado de Deus e pela ordem pobre da pátria, como uma bênção maldita.
João nascera dessa gente que só servia para servir, e crescera neste pedaço de terra, onde o mar suspende um meridiano de água para que a ilha se levante sob um céu de nuvens, fechada no seu cilício de espuma.
Daniel de Sá, Ilha Grande Fechada

terça-feira, 28 de outubro de 2008

Espreitar a escrita de... JUDITE JORGE

Judite Jorge

Nova Iorque, 12 de Setembro de 1947

Querida mãe e restante família,

Oxalá que esta vos vá encontrar de saúde e na forma do costume. Pensar que estou a meio caminho daí e que ainda não é desta que vos vejo! Tinha muita vontade de ir aí, até disse ao Luís, Pois se a gente vai atravessar a América toda, vai mais adiante, vamos aos Açores para eu ver os meus e para tu os conheceres, mas ele respondeu, Sabes que a gente deu agora um balanço grande à vida com a compra da casa e as passagens de avião são caras, a gente para ir de barco é mais o tempo que passa no mar do que em terra com eles, a gente há-de ir para o ano. Ele tinha gosto em vir aqui ao Este ver os sobrinhos, que já não via há muitos anos, e eu tinha gosto em ir ter com vocês, que ainda há mais tempo que não vos vejo, mas não podíamos ter ambos os gostos de uma vez, estamos então aqui agora e, para o ano, por esta altura, havemos de estar aí, assim Deus permita.
Mando estas fotografias que tirámos na viagem. Louvado seja Deus, eu gostava que vocês vissem como esta América é grande e variada. Andámos mais de quatro mil quilómetros para chegar aqui e ainda fomos ver Niagara Falls, são umas quedas de água muito lindas. Amanhã começamos a viagem para trás, que quando chegarmos ainda vamos fazer a mudança de São Francisco para a casa de São José, tem de ser antes de eu voltar ao trabalho.
Muitas saudades para todos
desta que nunca se esquece de vocês
e a todos abraça
Maria
- Foi por isso que não casaste com ele? Por ser protestante? – perguntou o homem.
Alto e magro, mas bem constituído, rosto recortado e forte em tez escura, olhos grandes, castanhos e pestanudos, cabelos ondulados a denunciar duas pequenas entradas, não mais do que uma ou outra ruga à volta dos olhos, ninguém diria que ia fazer cinquenta anos.
- Foi uma razão de peso – respondeu a mulher.
Não fosse o cabelo branco e não pareceria mais velha do que ele. De estatura baixa, magra a ponto de parecer frágil, tinha rosto redondo, nariz fino, olhos doces e perspicazes. O cabelo, curto e penteado para trás, deixava-lhe à vista a testa generosa.
- Mas casaste comigo e sou ortodoxo! – retorquiu, admirado.
- Pensando bem, não posso dizer que tenha sido só pela questão da religião que não casei com ele. Quando isso se passou, eu estava acabando de chegar à América, era muito nova, não me quis prender logo. Talvez não me sentisse preparada para dar aquele passo. Contigo foi diferente, a situação era outra. Estava nesta terra há muito tempo, tinha a minha vida organizada, mas, longe dos meus e sem nunca me ter juntado com ninguém, sentia-me sozinha. Tu apareceste, soubeste cativar-me… Só te pus uma condição, a do casamento misto, e tu concordaste logo, prometendo que cada um respeitava a vida religiosa do outro.
- Assim tem sido. Por causa disso, até celebramos duas vezes o Natal e a Páscoa… Diz lá, Maria, alguma vez nos zangámos por causa da religião?
- Eu parece-me mesmo que a gente nunca se zangou.
- Zanga, zanga não foi, mas antes da viagem tivemos aquela diferença de opiniões quanto à casa.
- Eu preferia continuar em São Francisco, mas tu quiseste comprar em São José e lá acabei por te fazer a vontade. Embora, a meu ver, já que não tínhamos o dinheiro todo e foi preciso o empréstimo, pudéssemos ter pedido mais algum e…
- Mas os preços – atalhou ele, acentuando a palavra – não se comparavam.
- Pois tu lá sabes, é que trataste disso, e o que está feito, está feito, não se fala mais no assunto. Mas estou tão habituada a São Francisco que me custa sair de lá…
- Não vais chegar a sentir saudades, é em São Francisco que trabalhas, acabas por ir lá quase todos os dias. Eu é que não… Vendeu-se a barbearia, vou ficar desocupado… Não sei o que é que hei-de fazer para não me sentir inútil.
- Não te preocupes, hás-de entreter-te a tratar do jardim. Quanto à barbearia, não te arrependas, está vendida e o dinheiro que recebeste e mandaste aos teus lá na Grécia há-de ser de bom proveito.
- É como dizes, toda a ajuda que recebam é bem aplicada. Coitados, aquela guerra parece que nunca mais tem fim, estão a passar muito mal. Não estás arrependida de não teres querido parte do dinheiro da venda e de me teres dito que mandasse tudo para a Grécia?
- Não, Luís, não tenho de que me arrependa. Aquela barbearia já era tua antes de eu te conhecer. E, além disso, os meus também passam dificuldades lá no nosso Pico, mas felizmente vivem em paz, vão conseguindo tirar uma coisinha da terra, batatas, inhames, milho, trigo, o principal, e ao mar vão buscar peixe que o há com fartura. Tenho gosto em mandar-lhes algum dinheiro sempre que posso, e sabes que mando duzentos dólares pelo Natal, mas os teus estão em pior situação, fazes bem em ajudá-los.
_________
Conversavam no apartamento de Susana, sobrinha dele, uma rapariga simpática e roliça, mãe de dois rapazes adolescentes e casada com um grego que Maria não chegou a conhecer por andar embarcado num navio de mercadorias. Era a véspera do regresso à Califórnia e tinham passado o dia a dar as últimas voltas. Primeiro, logo de manhã – Maria não passava que não assistisse à missa dos portugueses -, ele deixara-a à porta da igreja de Santo António. Não entrara, dissera-lhe que ia pôr no correio a carta dela para os Açores e uma, sua, para a Grécia. Apanhara-a uma hora mais tarde no mesmo sítio, trazendo uma surpresa: sanduíches e sumos com que lhe sugeria um piquenique no Central Park. Fascinados e sem pressa, tinham passeado pela luxuriante verdura do parque, comentando como era bom que uma cidade assim, cheia de vidro, cimento e ferro, usufruísse de um tal pulmão. Mais tarde, ao rever a pequena ilha, quase abafada à sombra da Estátua da Liberdade, recordara as suas primeiras horas em terras da América. Ali as passara, em Ellis Island, à espera que os serviços de emigração sentenciassem quem entrava e quem era mandado para trás.
Agora, sozinhos em casa, pois tanto Susana como os sobrinhos ainda estavam fora à hora que chegaram do passeio, não era tarde nem cedo para prepararem o regresso.
- Vou fazer a mala – disse Maria. – Que roupa queres que deixe fora para vestires amanhã?
- Pode ser as calças e a camisa bege – escolheu Luís e depois sentou-se, de mapa na mão, a traçar o itinerário de regresso. – Nova Iorque, Pennsylvania, Ohio, Indiana, Illinois, Iowa, Nebraska, Wyoming, Utah, Nevada, Califórnia… Vamos voltar a passar por estes estados todos…
- Pois sim! – concordou, entusiasmada.
Com ele irá onde for preciso, é o seu único homem, com ele casou há seis anos, com ele pela primeira vez tomou o gosto ao amor e à vida partilhada, com ele, sim, quer atravessar sem desfalecimentos as serras e os desertos que lhes caibam.
Judite Jorge, Afectos de Alma

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Baseado na história verídica de Maria Polley, este foi o primeiro romance de Judite Jorge. Nascida, em 1965, no lugar de Pontas Negras (Ilha do Pico), é jornalista, poetisa e recebeu vários prémios.

Vale a pena continuar a leitura deste romance, que aqui se inicia, numa publicação da Dom Quixote.

sexta-feira, 26 de setembro de 2008

Ainda Dias de Melo

Conheci Dias de Melo estava eu na Escola Industrial e Comercial de Ponta Delgada, acabadinho de me libertar dos calções curtos da Primária. Era, se não erro, professor de Português, sem grande sucesso; homem pausado, no andar e nas falas, pendurado no seu cachimbo - anos depois assinaria crónicas num jornal micaelense, sob o título de "Fumo do meu cachimbo” - e com um sotaque "picaroto" fechado, nada o ajudava enquanto comunicador.
Perdi-o de vista depois desse tempo de escola, para só nos cruzarmos, de novo, logo a seguir ao 25 de Abril, no MDP-CDE, porto de abrigo enquanto não surgiram os Partidos, para os que acreditavam que, com a Liberdade, tudo viria… não imaginando, por um momento sequer, as desilusões (e tropelias)que o futuro nos traria.
Entretanto, li "Pedras Negras", "Mar Rubro" e "Mar pela Proa", a trilogia por onde espalhou o seu amor pela ilha-montanha, pelas suas gentes e pelo mar - mar que ele conhecia bem, porque também lá andou atrás da baleia. São livros essenciais para conhecer a vida dos que são (opinião minha, vale o que vale) os melhores senhores do oceano, no Atlântico Norte: os "picarotos", lavradores do mar que, trabalhando a terra, lutando pela vida em chão nem sempre quieto, tudo largavam quando o som do foguete os chamava para arriar as canoas e irem de abalada, atrás da baleia, até onde fosse preciso.
Guardo do Dias de Melo, em contraste com a sua tranquila forma de estar, a vivacidade e brilho dos seus olhos - era através deles que se expressava e que nos mostrava o que lhe ia na alma. E tenho ideia de que sempre andou pelo lado certo da vida.
Os Açores, depois de Emanuel Félix, perdem outro nome de referência, nas suas Letras.
João Coelho

quarta-feira, 24 de setembro de 2008

Adeus a DIAS DE MELO

Velha Professora
A velha Professora uma vez mais envolveu num olhar magoado o prato de amêndoas sobre o naperon estendido na taça da mesinha oval, em frente ao divã e à poltrona de vimes do canto, deu alguns passos trôpegos, hesitantes, sentindo no corpo franzino o gelo húmido da tarde, e ficou de pé, os cotovelos apoiados no peitoril, por dentro da janela fechada.
O calendário marcava já o começo da Primavera, o tempo, porém, continuava de Inverno rigoroso, áspero, agressivo, frio, muito frio – tão rigoroso, tão áspero, tão agressivo, tão frio que ainda as parreiras se estendiam pelo burgalhau das vinhas, negras como braços de cadáveres velhos de dedos retorcidos e pele encarquilhada, e as flores, que, num dia, apareceram brancas e perfumadas – estrelas pequeninas suspensas entre a folhagem verde do incenseiro de ao pé do muro do quintal – logo na manhã seguinte eram apenas migalhas de sonho que o vendaval nocturno destroçara e derramara pelo chão. Também a figueira plantada rente ao maroiço, uma tarde com folhinhas tenras rebentando nas pontas, logo ficara novamente com os galhos nus, cinzentos, lívidos, como certamente o foram outrora os da figueira em que se enforcou Judas.
A velha Professora aconchegava melhor o xaile de merino castanho ao pescoço magro e aos ombros estreitos, olhava a horta onde as batatas semeadas nem chegaram a abrolhar, as parreiras tristemente ressequidas, a figueira nua, o incenseiro depenado, ao longe, no fundo da paisagem, recortava-se, triangular, no céu esgazeado, a descomunal mancha branca da montanha, com a neve a escorrer-lhe pelos flancos, a alcançar as pastagens, a babujar as casas e as terras lavradias mais do alto. O mar, não o podia ver daquela janela, mas ouvia-lhe os rugidos e os lamentos das vagas, que galgavam, na costa próxima, as penedias bravas.
O sentimento de desolação que desabava sobre a Ilha, assim triste, assim parda, quando devia já revestir-se das galas faustosas das verduras novas, da policromia das flores, da sinfonia festiva dos canários e tentilhões a saltitar pelos ramos das faieiras, pelos cocurutos dos maroiços, pelos festos das paredes, doía-lhe na pele, na carne, no sangue, nos ossos, como na alma lhe doía a tortura da vida.
O Inverno, não havia que duvidar, assentara, naquele ano, arraiais nos penhascos da Ilha e para permanecer muito mais que o desejado, se era que havia alguém que o desejasse – ela, a velha Professora, tinha-lhe horror, ali metida, sem ninguém, solteira como sempre fora, entre as quatro paredes daquela casa que herdara dos antepassados.
Dantes, fizera da escola o seu lar e das alunas a sua família, principalmente depois que lhe morreram, primeiro o pai, a seguir a mãe, e os sobrinhos, que tomara à sua conta e educara pelo desaparecimento do irmão num desastre de baleia no Canal e falecimento prematura da cunhada levada por um cancro, se haviam, feitos homens, ido a tratar da vida nas lonjuras do mundo. Todavia, embora já só, mal dava pelo Inverno, mal sentia o vazio e a solidão à sua volta – lá estava a escola, lá estavam as alunas, faziam-lhe esquecer todo o Inverno, preenchiam-lhe todos os vazios, povoavam-lhe todas as solidões. Tudo, porém, se tornou diferente no dia em que, vencido o limite da idade legal para o exercício de qualquer função pública, a escorraçaram, brutalmente, como quem dá um pontapé num cão inútil, da escola e a apartaram das trinta e tantas crianças a quem ensinava a Instrução Primária, filhas e netas das antigas discípulas que, na extensa caminhada de cinquenta anos bem medidos e bem contados, fora, em cada ano que passara, ensinando, educando e levando, em Julho, à vila, ao acto solene do exame da quarta classe com emoção igual à da mãe que acompanha a sua menina ao altar para a cerimónia do casamento, mesmo depois que uma Lei da Ditadura fascista tornara obrigatório o ensino apenas até à terceira classe, Lei essa que para ela era como se não existisse, não passava de um absurdo consciente e de má fé, “acabaram com a quinta classe, agora tornam a quarta facultativa, mais cedo ou mais tarde com a quarta acabam igualmente, querem mas é fazer deste País o paraíso dos analfabetos para, com a ignorância do povo, melhor e à vontade ao povo os ricos explorarem”, dizia e rematava, “mas, enquanto isso não acontecer, aluna minha só com o seu exame da quarta classe deixarei ir para casa”.
Assim pensava, assim procedia, passava o tempo sem se aperceber de que o tempo passava, mas, obrigada (com a mais rude e grosseira brutalidade) a abandonar a escola, a apartar-se das suas alunas, tudo se tornara diferente, terrivelmente diferente, e ela vira-se como um barco destroçado, sem leme, sem bússola, sem governo, sem rumo, à deriva sobre as incertezas de um mar desconhecido.
Na torre da igreja, à ilharga do pequeno largo do centro da freguesia, aberto para a amplidão dos horizontes do oceano, o sino derramava, sobre a terra e as águas salgadas, as pessoas e as coisas, o bronze austero e amargo das cinco badaladas das trindades, enquanto uma nuvem, negra por cima da brancura da neve, crescia, arredondada, inchava, acabava por cobrir a montanha, alastrava pelo céu.
Mais encolhida, mais arrepiada, mais enregelada, a velha Professora afastou-se da janela, sentou-se na poltrona de vimes no canto, ajeitou o coxim por baixo das nádegas descarnadas, a almofada por trás das costas mirradas, uma vez mais aconchegou melhor o xaile de merino castanho no pescoço magro, engelhado, e nos ombros estreitos descaídos. Na sua frente, sobre o naperon estendido na taça da mesinha oval, o prato com amêndoas… à espera…
O calendário marcara o início da Primavera – e não tardaria a noite a trespassar os vidros da janela fechada, a noite tenebrosa de Inverno, que a amedrontava, que lhe enchia a casa e a alma de terrores… Começavam as primeiras sombras a insinuar-se, silenciosas e escorregadias como fantasmas, no quartinho em que se encontrava, a envolver as fotografias doutros tempos, dos sobrinhos miúdos, da mãe ainda nova, do pai ainda jovem, do irmão, valente baleeiro, que sucumbira levado numa linha [1] e afogado nas ondas, das festas escolares que promovera, de grupos de alunas que tivera… pedaços inertes da vida que passara…
[…]
Dias de Melo, Inverno sem Primavera

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[1] Linha: aqui, cabo com uns 600 metros de comprimento por cerca de 1 centímetro de diâmetro que, arrumado em duas selhas e amarrado ao cabo do arpão, liga, depois de arpoada, a baleia à canoa.

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Dias de Melo nascido na freguesia da Calheta de Nesquim, ilha do Pico, em 8 de Abril de 1925, morreu hoje, 24 de Setembro de 2008, em Ponta Delgada.

Os escritores que amamos viverão dentro de nós. PARA SEMPRE!

quarta-feira, 20 de agosto de 2008

A Carta de América

Mestre João Bernardo era sapateiro e ferrador. Calçar apenas criaturas humanas ou irracionais não seria suficiente para garantir o seu sustento e o da família, e por isso aprendeu as duas artes. Mas, para não ofender as pessoas, definia-se como um sapateiro que também calçava animais, porque, se dissesse de si mesmo que era um ferrador que também calçava gente, isto seria decerto tomado como ofensa à sensível dignidade dos bípedes pensantes.
Foi-se embora deixando a oficina dupla sem nada levar dela. A fornalha estava tão pronta a acender como todo o material em condições de ser usado. Qualquer um que o soubesse fazer reanimá-la-ia em momentos.
Foi em sua casa que se jogou o último desafio de sueca na serra. Ainda lá estavam a mesa, as cadeiras e até a garrafa com o resto da aguardente.
Com a partida de mestre João Bernardo, no dia seguinte, não ficariam na aldeia mais do que três homens: o tio Amadeu, o Joaquim Torre Velha e Manuel Cordovão. Por isso aquele serão de sueca e despedida teve honras de mutismo em velório que nem os cálices de aguardente animaram.
Os parceiros haviam sido sorteados dando uma carta a cada um. Manuel e o Joaquim Torre Velha ficaram com as duas mais baixas, e por isso formaram equipa.
Manuel preferia tê-lo como adversário, porque, se ganhasse, isso seria uma pequena vingança, embora insignificante pelo muito que o outro lhe devia de uma vida inteira vivida ao contrário do que tanto desejara. Qualquer último dia é sempre inesquecível, talvez mais do que o primeiro, nem que seja o de um simples jogo de sueca.
Para evitar uma indefinida sucessão de partidas em que os que estivessem em desvantagem invocassem o seu direito à desforra, foi combinado que a disputa terminaria quando uma das equipas alcançasse seis vitórias.
Partida a partida, a sequência de vitórias e derrotas não deu a nenhum dos pares uma vantagem superior a uma até ao quatro igual. Depois, Manuel e o Torre Velha ganharam as últimas duas com facilidade.
Ao jogar a derradeira carta, sabendo que a vitória estava assegurada, Manuel sentiu uma tristeza tão grande como se aquela fosse a maior derrota da sua vida. De cada vez que partia alguém, a tristeza era tanto maior quanto menos gente restava na aldeia. E parecia que os que se despediam, indo, sentiam o mesmo e na mesma proporção que os que diziam adeus, ficando.
Os outros dois passaram a recordar aquele último serão como se tivesse sido uma das noites mais importantes da sua vida. O velho Amadeu garantia que fora sorte apenas, a do Manuel e do Torre Velha, que se apanhasse outra vez mestre João Bernardo à sua frente e com um baralho de cartas no meio dos quatro, eles haveriam de ver como perdiam num ai.
Num fim de dia, em que conversavam à porta da casa do Torre Velha, Manuel tirou um baralho da algibeira, embaralhou bem, disse àquele que partisse e mandou que o tio Amadeu desse cartas como se mestre João Bernardo estivesse ali. “És maluco”, disse o velho, no entanto obedecendo. Manuel pegou num envelope, meteu-lhe dentro as dez cartas restantes e explicou: “Vou mandar estas cartas ao mestre João Bernardo. O senhor Joaquim jogue uma, para eu lhe dizer e ele decidir qual a carta que há-de jogar.”
Perante o pasmo deles, explicou. Cada um guardaria as suas cartas, esperando a resposta do companheiro distante. Quando ela chegasse, juntar-se-iam os três e completariam a vaza. Depois, começariam outra e Manuel Cordovão escreveria novamente a dizer como fora. “Isso nunca mais acaba!” disse o velho Amadeu, mas mais em jeito de satisfação que de censura.
Cada resposta vinda da América demorava pelo menos duas semanas a chegar. Então os três homens juntavam-se em casa do Joaquim Torre Velha, com a mulher do tio Amadeu a fazer companhia a Maria da Graça, e esperavam com ansiedade a revelação da carta devolvida. Às vezes o serão de sueca não passava disso mesmo: Manuel abria o envelope, punha na mesa, em cima das outras três, a carta enviada por mestre João Bernardo, e, se era este que ganhava a vaza, arrumavam as suas e esperavam mais duas semanas. Quando era a vez de ele dar cartas, prevenia com antecedência se queria virar trunfo por baixo ou por cima, e o velho Amadeu dava por ele. Mas ficavam felizes como se não faltasse ninguém.
O velho Amadeu adoeceu quando estavam empatados a duas partidas, mas ele ia ganhando a quinta por três a um. Ainda aguentou o suficiente para viver até à penúltima vaza, que ganharia, e o jogo também, se mestre João mandasse um trunfo para cortar um rei jogado pelo Torre Velha. Não veio o trunfo. Mas Manuel trocou uma carta sua e mostrou-a ao quase moribundo como sendo a do companheiro. “Vocês ganharam, tio Amadeu.” O velho sorriu, feliz. Pela última vez, o velho Amadeu sorriu. Para que ele sorrisse durante mais uma partida, Manuel seria capaz até de roubar ouro.
Daniel de Sá, in "O Pastor das Casas Mortas

sexta-feira, 13 de junho de 2008

O RECONHECIMENTO MERECIDO

Nesta casa da Maia (Ribeira Grande), vive um Oficial da Ordem do Infante D. Henrique. Claro que já toda a gente sabe quem é.
Para quem andar distraído, pode saber a resposta no Blogue Luar de Janeiro.

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2008

EDUARDO BETTENCOURT PINTO

Eduardo Bettencourt Pinto nasceu na Gabela, Sul de Angola, em 1954. Viveu em vários países após 1975, residindo actualmente no Canadá. É funcionário estadual, consultor informático e editor da revista literária “Seixo review”, na Internet. Escreve para publicações no Canadá, Estados Unidos, Portugal e Brasil. Publicou vários livros de poesia e ficção. ******************** Graças ao Urbano Bettencourt, descobri este outro Bettencourt, cuja família, presumo, é originária do Nordeste.
Dele diz Urbano: É por isso que me sinto grato ao Eduardo Bettencourt Pinto pela sua poesia destes anos, com a qual ele nos tem revelado a harmonia do mundo para lá das ruínas e das sombras do quotidiano, ao mesmo tempo que com ela fomos descobrindo outros sentidos para a língua que falamos.
********************
Um Amigo
********
Há uma casa no olhar
de um amigo.
Nela entramos sacudindo a chuva.
Deixamos no cabide o casaco
fumegando ainda dos incêndios do dia.
Nas fontes e nos jardins
das palavras que trazemos
o amigo ergue o cálice
e o verão
das sementes.
Então abre as janelas das mãos para que
cantem
a claridade, a água
e as pontes da sua voz
onde dançam os mais árduos esplendores.
***
Um amigo somos nós, atravessando o olhar
e os véus de linho sobre o rosto da vida
nas tardes de relâmpagos e nos exílios,
***
onde a ira nómada da cidade arde
como um cego em busca de luz.
Eduardo Bettencourt Pinto, "Da Outra Margem"