quinta-feira, 23 de outubro de 2008

Na Serra do Açor

A Serra do Açor situa-se entre a Serra da Lousã e a Serra da Estrela e estende-se pelos concelhos de Arganil, Góis e Pampilhosa da Serra.
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Fraga da Pena, freguesia da Benfeita (Arganil)
Acabo de passar alguns dias no Piódão (Arganil), aproveitando para dar longos passeios pela Serra, e lavar a alma, no contacto com a Natureza. De vez em quando, a paisagem obrigava-me a lembrar as minhas ilhas queridas. Como se o próprio nome na Serra o não fizesse já!...
A semelhança acentou-se na Fraga da Pena, não só pela cascata em si, mas também por toda a área envolvente de vegetação luxuriante e húmida.
Enfim... uma espécie de viagem mental pelas ilhas... do lado de cá do Atlântico.

domingo, 12 de outubro de 2008

Mais vale tarde... Os 30 anos da morte de Brel

Jacques Brel
nascimento: Schaarbeek, Bélgica em 8 de Abril de 1929
morte: Bobigny, França em 9 de Outubro de 1978
Não consegui o vídeo, mas aqui fica a letra de Amsterdam e a homenagem ao grande Jacques Brel. Para os amigos deste blogue,
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AMSTERDAM
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Dans le port d’Amsterdam
Y a des marins qui chantent
Les rêves qui les hantent
Au large d’Amsterdam
Dans de port d’Amsterdam
Y a des marins qui dormant
Comme des oriflammes
Le long des berges mornes
Dans le port d’Amsterdam
Y a des marins qui meurent
Pleins de bière et de drames
Aux premières lueurs
Mais dans le port d’Amsterdam
Y a des marins qui naissent
Dans la chaleur épaisse
Des langueurs océanes
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Dans le port d’Amsterdam
Y a des marins qui mangent
Sur des nappes trop blanches
Des poisons ruisselants
Ils vous montrent des dents
A croquer la fortune
A décroiser la lune
A bouffer des haubans
Et ça sent la morue
Jusque dans le coeur des frites
Que leurs grosses mains invitent
A revenir en plus
Puis se lève en riant
Dans un bruit de tempête
Referment leur braguette
Et sortent en rotant
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Dans le port d’Amsterdam
Y a des marins qui dansent
En se frottant la panse
Sur la panse des femmes
Et ils tournent et ils dansent
Comme des soleils crachés
Dans le son déchire
D’un accordéon rance
Ils se tordent le cou
Pour mieux s’entendre rire
Jusqu’a ce que tout à coup
L’accordéon expire
Alors le geste grave
Alors le regard fier
Ils ramènent leur batave
Jusqu’en pleine lumière
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Dans le port d’Amsterdam
Y a des marins qui boivent
Et qui boivent et reboivent
Et qui reboivent encore
Ils boivent à la santé
Des putains d’Amsterdam
De Hambourg ou d’ailleurs
Enfin ils boivent aux dames
Qui leur donnent leur joli corps
Qui leur donnent leur vertu
Pour une pièce en or
Et quand ils ont bien bu
Se plantent le nez au ciel
Se mouchent dans les étoiles
Et ils pissent comme je pleure
Sur les femmes infidels
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Dans le port d’Amsterdam
Dans le port d’Amsterdam
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Aqui fica, também, a achega do João Coelho (comentário que fez no Luar de Janeiro, há tempos):
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Para quem, eventualmente, não saiba, Jacques Brel, amante da vela, saiu, em Julho de 74, de França para o Pacífico. Por problemas de saúde, aportou à Horta onde foi visto pelo Dr. Decq Mota, acabando assim por se detectar o cancro no pulmão que o mataria em 9 de Outubro de 1978 (há 30 anos, portanto) . O cantor está sepultado, por sua vontade, no cemitério de Atuona, na ilha de Hiva Oa (Marquesas), próximo da campa de Gauguin. Há algum tempo o navegador solitário açoriano Genuíno Madruga, que está a fazer a sua segunda volta ao Mundo no iate "Hemingway", deixou, no túmulo de Brel, uma placa de homenagem, em seu nome e no de José de Azevedo, do Café Sport (o Peter da Horta) que Brel frequentou. Em 1983, Fernando Tordo foi viver para o Faial durante algum tempo, conhecendo ali a família Decq Mota e, através dela, o orquestrador de Brel. Resultaram, deste contacto, dois discos de Tordo, "Anticiclone" e "A ilha do Canto".

sexta-feira, 26 de setembro de 2008

Ainda Dias de Melo

Conheci Dias de Melo estava eu na Escola Industrial e Comercial de Ponta Delgada, acabadinho de me libertar dos calções curtos da Primária. Era, se não erro, professor de Português, sem grande sucesso; homem pausado, no andar e nas falas, pendurado no seu cachimbo - anos depois assinaria crónicas num jornal micaelense, sob o título de "Fumo do meu cachimbo” - e com um sotaque "picaroto" fechado, nada o ajudava enquanto comunicador.
Perdi-o de vista depois desse tempo de escola, para só nos cruzarmos, de novo, logo a seguir ao 25 de Abril, no MDP-CDE, porto de abrigo enquanto não surgiram os Partidos, para os que acreditavam que, com a Liberdade, tudo viria… não imaginando, por um momento sequer, as desilusões (e tropelias)que o futuro nos traria.
Entretanto, li "Pedras Negras", "Mar Rubro" e "Mar pela Proa", a trilogia por onde espalhou o seu amor pela ilha-montanha, pelas suas gentes e pelo mar - mar que ele conhecia bem, porque também lá andou atrás da baleia. São livros essenciais para conhecer a vida dos que são (opinião minha, vale o que vale) os melhores senhores do oceano, no Atlântico Norte: os "picarotos", lavradores do mar que, trabalhando a terra, lutando pela vida em chão nem sempre quieto, tudo largavam quando o som do foguete os chamava para arriar as canoas e irem de abalada, atrás da baleia, até onde fosse preciso.
Guardo do Dias de Melo, em contraste com a sua tranquila forma de estar, a vivacidade e brilho dos seus olhos - era através deles que se expressava e que nos mostrava o que lhe ia na alma. E tenho ideia de que sempre andou pelo lado certo da vida.
Os Açores, depois de Emanuel Félix, perdem outro nome de referência, nas suas Letras.
João Coelho

quarta-feira, 24 de setembro de 2008

Adeus a DIAS DE MELO

Velha Professora
A velha Professora uma vez mais envolveu num olhar magoado o prato de amêndoas sobre o naperon estendido na taça da mesinha oval, em frente ao divã e à poltrona de vimes do canto, deu alguns passos trôpegos, hesitantes, sentindo no corpo franzino o gelo húmido da tarde, e ficou de pé, os cotovelos apoiados no peitoril, por dentro da janela fechada.
O calendário marcava já o começo da Primavera, o tempo, porém, continuava de Inverno rigoroso, áspero, agressivo, frio, muito frio – tão rigoroso, tão áspero, tão agressivo, tão frio que ainda as parreiras se estendiam pelo burgalhau das vinhas, negras como braços de cadáveres velhos de dedos retorcidos e pele encarquilhada, e as flores, que, num dia, apareceram brancas e perfumadas – estrelas pequeninas suspensas entre a folhagem verde do incenseiro de ao pé do muro do quintal – logo na manhã seguinte eram apenas migalhas de sonho que o vendaval nocturno destroçara e derramara pelo chão. Também a figueira plantada rente ao maroiço, uma tarde com folhinhas tenras rebentando nas pontas, logo ficara novamente com os galhos nus, cinzentos, lívidos, como certamente o foram outrora os da figueira em que se enforcou Judas.
A velha Professora aconchegava melhor o xaile de merino castanho ao pescoço magro e aos ombros estreitos, olhava a horta onde as batatas semeadas nem chegaram a abrolhar, as parreiras tristemente ressequidas, a figueira nua, o incenseiro depenado, ao longe, no fundo da paisagem, recortava-se, triangular, no céu esgazeado, a descomunal mancha branca da montanha, com a neve a escorrer-lhe pelos flancos, a alcançar as pastagens, a babujar as casas e as terras lavradias mais do alto. O mar, não o podia ver daquela janela, mas ouvia-lhe os rugidos e os lamentos das vagas, que galgavam, na costa próxima, as penedias bravas.
O sentimento de desolação que desabava sobre a Ilha, assim triste, assim parda, quando devia já revestir-se das galas faustosas das verduras novas, da policromia das flores, da sinfonia festiva dos canários e tentilhões a saltitar pelos ramos das faieiras, pelos cocurutos dos maroiços, pelos festos das paredes, doía-lhe na pele, na carne, no sangue, nos ossos, como na alma lhe doía a tortura da vida.
O Inverno, não havia que duvidar, assentara, naquele ano, arraiais nos penhascos da Ilha e para permanecer muito mais que o desejado, se era que havia alguém que o desejasse – ela, a velha Professora, tinha-lhe horror, ali metida, sem ninguém, solteira como sempre fora, entre as quatro paredes daquela casa que herdara dos antepassados.
Dantes, fizera da escola o seu lar e das alunas a sua família, principalmente depois que lhe morreram, primeiro o pai, a seguir a mãe, e os sobrinhos, que tomara à sua conta e educara pelo desaparecimento do irmão num desastre de baleia no Canal e falecimento prematura da cunhada levada por um cancro, se haviam, feitos homens, ido a tratar da vida nas lonjuras do mundo. Todavia, embora já só, mal dava pelo Inverno, mal sentia o vazio e a solidão à sua volta – lá estava a escola, lá estavam as alunas, faziam-lhe esquecer todo o Inverno, preenchiam-lhe todos os vazios, povoavam-lhe todas as solidões. Tudo, porém, se tornou diferente no dia em que, vencido o limite da idade legal para o exercício de qualquer função pública, a escorraçaram, brutalmente, como quem dá um pontapé num cão inútil, da escola e a apartaram das trinta e tantas crianças a quem ensinava a Instrução Primária, filhas e netas das antigas discípulas que, na extensa caminhada de cinquenta anos bem medidos e bem contados, fora, em cada ano que passara, ensinando, educando e levando, em Julho, à vila, ao acto solene do exame da quarta classe com emoção igual à da mãe que acompanha a sua menina ao altar para a cerimónia do casamento, mesmo depois que uma Lei da Ditadura fascista tornara obrigatório o ensino apenas até à terceira classe, Lei essa que para ela era como se não existisse, não passava de um absurdo consciente e de má fé, “acabaram com a quinta classe, agora tornam a quarta facultativa, mais cedo ou mais tarde com a quarta acabam igualmente, querem mas é fazer deste País o paraíso dos analfabetos para, com a ignorância do povo, melhor e à vontade ao povo os ricos explorarem”, dizia e rematava, “mas, enquanto isso não acontecer, aluna minha só com o seu exame da quarta classe deixarei ir para casa”.
Assim pensava, assim procedia, passava o tempo sem se aperceber de que o tempo passava, mas, obrigada (com a mais rude e grosseira brutalidade) a abandonar a escola, a apartar-se das suas alunas, tudo se tornara diferente, terrivelmente diferente, e ela vira-se como um barco destroçado, sem leme, sem bússola, sem governo, sem rumo, à deriva sobre as incertezas de um mar desconhecido.
Na torre da igreja, à ilharga do pequeno largo do centro da freguesia, aberto para a amplidão dos horizontes do oceano, o sino derramava, sobre a terra e as águas salgadas, as pessoas e as coisas, o bronze austero e amargo das cinco badaladas das trindades, enquanto uma nuvem, negra por cima da brancura da neve, crescia, arredondada, inchava, acabava por cobrir a montanha, alastrava pelo céu.
Mais encolhida, mais arrepiada, mais enregelada, a velha Professora afastou-se da janela, sentou-se na poltrona de vimes no canto, ajeitou o coxim por baixo das nádegas descarnadas, a almofada por trás das costas mirradas, uma vez mais aconchegou melhor o xaile de merino castanho no pescoço magro, engelhado, e nos ombros estreitos descaídos. Na sua frente, sobre o naperon estendido na taça da mesinha oval, o prato com amêndoas… à espera…
O calendário marcara o início da Primavera – e não tardaria a noite a trespassar os vidros da janela fechada, a noite tenebrosa de Inverno, que a amedrontava, que lhe enchia a casa e a alma de terrores… Começavam as primeiras sombras a insinuar-se, silenciosas e escorregadias como fantasmas, no quartinho em que se encontrava, a envolver as fotografias doutros tempos, dos sobrinhos miúdos, da mãe ainda nova, do pai ainda jovem, do irmão, valente baleeiro, que sucumbira levado numa linha [1] e afogado nas ondas, das festas escolares que promovera, de grupos de alunas que tivera… pedaços inertes da vida que passara…
[…]
Dias de Melo, Inverno sem Primavera

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[1] Linha: aqui, cabo com uns 600 metros de comprimento por cerca de 1 centímetro de diâmetro que, arrumado em duas selhas e amarrado ao cabo do arpão, liga, depois de arpoada, a baleia à canoa.

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Dias de Melo nascido na freguesia da Calheta de Nesquim, ilha do Pico, em 8 de Abril de 1925, morreu hoje, 24 de Setembro de 2008, em Ponta Delgada.

Os escritores que amamos viverão dentro de nós. PARA SEMPRE!

domingo, 14 de setembro de 2008

AS MEMÓRIAS DO JOÃO COELHO...

Castelo de Vide e os Açores
Os tons de verde em Castelo de Vide foram a primeira "marca" que me fez lembrar S. Miguel, quando conheci a "Sintra do Alentejo" nos idos de 80... Outra marca, a pronúncia dos locais, com o "u" acentuado, semelhante à micaelense. Dizia-me Carolino Tapadejo, então Presidente da Câmara, que isso teria a ver com a ida de mais de uma centena de famílias judaicas para S. Miguel e com a sua fixação, na zona de Castelo de Vide, no regresso ao Continente ( e, se não erro, o Município local terá colaborado com a Câmara da Vila da Povoação, na realização de trabalho de investigação sobre a matéria).
Castelo de Vide é terra natal de Mouzinho da Silveira que tem fortes ligações aos Açores, para onde foi forçado a deslocar-se em 1828, fixando-se na ilha Terceira. Em 1832 forma-se, naquela ilha, o Ministério Liberal, com Mouzinho e Almeida Garrett, entre outros; ocupando a pasta da Fazenda, Mouzinho toma uma série de medidas em prol da melhoria das condições de vida dos açorianos - uma delas, para protecção da ilha do Corvo, leva a que a população envie um grupo de representantes à ilha Terceira (em barco a remos!) para agradecer a Mouzinho da Silveira. O político, sensibilizado pela atitude, diz então que, quando morrer, quer ser sepultado no Corvo... o que acabará por não acontecer.
Outro filho ilustre de Castelo de Vide, é Salgueiro Maia, capitão de Abril. No pós 25 de Novembro, foi colocado em S. Miguel, no Batalhão de Infantaria nº18, provavelmente por o considerarem um perigoso "esquerdista"... E por lá andou, passando por provocações várias de "democratas" locais, até voltar ao Continente para, imagine-se, dirigir o Presídio Militar de Santarém...
Gosto de Castelo de Vide pelas razões apontadas, e também pela índole dos seus habitantes. É gente que passa o tempo a inventar partidas e brincadeiras, de uma forma que nunca vi noutras paragens. Por exemplo, quando Carolino Tapadejo dirigia a Câmara, participou numa "história" que levou alguns crédulos da terra a acreditar que, para se casarem, tinham de ir à Autarquia, receber uma "guia de marcha" assinada pelo Presidente e com carimbo da Câmara, rezando que " seguia o mancebo fulano de tal para a Igreja de Castelo de Vide, no dia tantos de tal, a fim de que se celebre casamento com fulana de tal... etc." - mais ou menos nestes termos. E, noutra ocasião, convenceram uma figura da terra, conhecida pelo seu conservadorismo e aparente exigência de rigores morais de que ia abrir, em Castelo de Vide, uma boite com dançarinas de strip tease, com inauguração a horas escusas... por volta da meia-noite, ou coisa assim. Depois de "adubarem" o indivíduo com informações muito sigilosas sobre as características do estabelecimento, foram pôr-se à espreita, na noite da suposta abertura, para apanhar o fabiano a rondar o local, à espera de entrar no "antro do pecado"... ao arrepio das suas propaladas virtudes de cidadão exemplar.Outra situação teve a ver com o facto de, em Castelo de Vide, existirem associações de indivíduos com o mesmo nome: os Josés, os Manueis, etc. Mas, como em boa terra alentejana, ficavam de fora uma data de cidadãos, com nomes estranhos - como Carolino Tapadejo. Então formaram a Associação dos nomes estranhos, que tinha um dia de comemorações, integrando um cortejo, com estandarte próprio, que se deslocava ao cemitério, em homenagem aos sócios falecidos, e um almoço, com discursos em louvor dos marginalizados pela estranheza do nome...
Enfim, qualidade de vida..

sexta-feira, 12 de setembro de 2008

CLÃ em Ponta Delgada

O grupo CLÃ, e a música do Norte, hoje,
no Campo de S. Francisco em Ponta Delgada
A vocalista: Manuela Azevedo
PROBLEMA DE EXPRESSÃO
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Só p'ra dizer que te amo,
Nem sempre encontro o melhor termo,
Nem sempre escolho o melhor modo.
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Devia ser como no cinema,
A língua inglesa fica sempre bem
E nunca atraiçoa ninguém.
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O teu mundo está tão perto do meu
E o que digo está tão longe,
Como o mar está do céu.
*****
Só p'ra dizer que te amo
Não sei porquê este embaraço
Que mais parece que só te estimo.
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E até nos momentos em que digo que não quero
E o que sinto por ti são coisas confusas
E até parece que estou a mentir,
As palavras custam a sair,
Não digo o que estou a sentir,
Digo o contrário do que estou a sentir.
*****
O teu mundo está tão perto do meu
E o que digo está tão longe,
Como o mar está do céu.
*****
E é tão difícil dizer amor,
É bem melhor dizê-lo a cantar.
Por isso esta noite, fiz esta canção,
Para resolver o meu problema de expressão,
Ficar mais perto, bem mais de perto.
Ficar mais perto, bem mais de perto.

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Letra: Carlos Tê

Música: Hélder Gonçalves

sexta-feira, 5 de setembro de 2008

Piquei-me nas silvas dos Açores...

Luas do Pico
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Subitamente, olhei para ti
Como quem olha para quem nunca viu
Como se fosse um luzeiro, eu descobri
Que os ventos que cruzam o Canal passam por ti
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Subitamente, nasci em ti
Na transparência da dor e do frio
Como se fosse um atalho que percorri
Piquei-me nas silvas do Pico, fiquei por aqui
********
Juntos traçámos as nossas rotas impossíveis de maresia
Cruzámos, velhos loucos, oceanos em veleiros de agonia
Guardámos nossas dores nos rumores que os ventos então traziam
Cravámos uma âncora de esperança no porto da nossa ilha
********
Subitamente, mais perto de ti
Soltei amarras do velho navio
Atravessei o Canal e então percebi
Que as luas que nascem no Pico são todas para ti
********
Juntos traçámos as nossas rotas impossíveis de maresia
Cruzámos, velhos loucos, oceanos em veleiros de agonia
Guardámos nossas dores nos rumores que os ventos então traziam
Cravámos uma âncora de esperança no porto da nossa ilha
******
Letra e música: Luís Alberto Bettencourt
Intérprete: Piedade Rego Costa
Álbum: 7 Anos de Música

quarta-feira, 3 de setembro de 2008

ADEGA LUSITÂNIA

A Adega Lusitânia, em Angra do Heroísmo, conheci-a nos anos 60, quando era ainda uma tasca, onde se comia bom peixe porque o dono era pescador… Chão de terra, espaço escuro e um bocado "encardido", não tinha nada a ver com o que é hoje, funcionando num tempo em que a cidade só tinha praticamente um restaurante, o "Beira Mar", junto ao Pátio da Alfândega.
Na Lusitânia, havia um grupo que mantinha uma "tradição" muito própria: por altura da tourada à corda do Alto das Covas, metiam-se na tasca, vendo os touros e o pessoal a correr de um lado para o outro. Quando percebiam que um dos bichos já estava um bocado farto de tanta correria, faziam-lhe uma pega, e metiam o focinho do animal na entrada da taberna… onde outros, já preparados, enfiavam um barrilete de vinho pela boca do bicho abaixo. E depois ficavam a apreciar o percurso do animal, tornado companheiro de Baco, a trocar as patas pelo caminho fora… Coisas que hoje seriam censuráveis… mas que, na altura, eram apreciadas pelo pessoal, da terra ou forasteiros.
João Coelho

terça-feira, 26 de agosto de 2008

MARGARIDA MADRUGA

Maria MARGARIDA Vieira de Bem MADRUGA, nasceu a 11 de Novembro de 1945, nas Lajes do Pico (S. João).
Começou a pintar a óleo aos 13 anos, para parentes na América. De 1966 a 1972, já em Lisboa, fez banda desenhada. Terminou o curso de Arquitectura em 1972, trabalhando, exclusivamente como arquitecta, até 1994, quando retomou a pintura, a sua grande paixão. De reconhecido talento, expôs nos Açores, Continente e Galiza.

Para ampliar, basta clicar em cima da imagem.

quarta-feira, 20 de agosto de 2008

A Carta de América

Mestre João Bernardo era sapateiro e ferrador. Calçar apenas criaturas humanas ou irracionais não seria suficiente para garantir o seu sustento e o da família, e por isso aprendeu as duas artes. Mas, para não ofender as pessoas, definia-se como um sapateiro que também calçava animais, porque, se dissesse de si mesmo que era um ferrador que também calçava gente, isto seria decerto tomado como ofensa à sensível dignidade dos bípedes pensantes.
Foi-se embora deixando a oficina dupla sem nada levar dela. A fornalha estava tão pronta a acender como todo o material em condições de ser usado. Qualquer um que o soubesse fazer reanimá-la-ia em momentos.
Foi em sua casa que se jogou o último desafio de sueca na serra. Ainda lá estavam a mesa, as cadeiras e até a garrafa com o resto da aguardente.
Com a partida de mestre João Bernardo, no dia seguinte, não ficariam na aldeia mais do que três homens: o tio Amadeu, o Joaquim Torre Velha e Manuel Cordovão. Por isso aquele serão de sueca e despedida teve honras de mutismo em velório que nem os cálices de aguardente animaram.
Os parceiros haviam sido sorteados dando uma carta a cada um. Manuel e o Joaquim Torre Velha ficaram com as duas mais baixas, e por isso formaram equipa.
Manuel preferia tê-lo como adversário, porque, se ganhasse, isso seria uma pequena vingança, embora insignificante pelo muito que o outro lhe devia de uma vida inteira vivida ao contrário do que tanto desejara. Qualquer último dia é sempre inesquecível, talvez mais do que o primeiro, nem que seja o de um simples jogo de sueca.
Para evitar uma indefinida sucessão de partidas em que os que estivessem em desvantagem invocassem o seu direito à desforra, foi combinado que a disputa terminaria quando uma das equipas alcançasse seis vitórias.
Partida a partida, a sequência de vitórias e derrotas não deu a nenhum dos pares uma vantagem superior a uma até ao quatro igual. Depois, Manuel e o Torre Velha ganharam as últimas duas com facilidade.
Ao jogar a derradeira carta, sabendo que a vitória estava assegurada, Manuel sentiu uma tristeza tão grande como se aquela fosse a maior derrota da sua vida. De cada vez que partia alguém, a tristeza era tanto maior quanto menos gente restava na aldeia. E parecia que os que se despediam, indo, sentiam o mesmo e na mesma proporção que os que diziam adeus, ficando.
Os outros dois passaram a recordar aquele último serão como se tivesse sido uma das noites mais importantes da sua vida. O velho Amadeu garantia que fora sorte apenas, a do Manuel e do Torre Velha, que se apanhasse outra vez mestre João Bernardo à sua frente e com um baralho de cartas no meio dos quatro, eles haveriam de ver como perdiam num ai.
Num fim de dia, em que conversavam à porta da casa do Torre Velha, Manuel tirou um baralho da algibeira, embaralhou bem, disse àquele que partisse e mandou que o tio Amadeu desse cartas como se mestre João Bernardo estivesse ali. “És maluco”, disse o velho, no entanto obedecendo. Manuel pegou num envelope, meteu-lhe dentro as dez cartas restantes e explicou: “Vou mandar estas cartas ao mestre João Bernardo. O senhor Joaquim jogue uma, para eu lhe dizer e ele decidir qual a carta que há-de jogar.”
Perante o pasmo deles, explicou. Cada um guardaria as suas cartas, esperando a resposta do companheiro distante. Quando ela chegasse, juntar-se-iam os três e completariam a vaza. Depois, começariam outra e Manuel Cordovão escreveria novamente a dizer como fora. “Isso nunca mais acaba!” disse o velho Amadeu, mas mais em jeito de satisfação que de censura.
Cada resposta vinda da América demorava pelo menos duas semanas a chegar. Então os três homens juntavam-se em casa do Joaquim Torre Velha, com a mulher do tio Amadeu a fazer companhia a Maria da Graça, e esperavam com ansiedade a revelação da carta devolvida. Às vezes o serão de sueca não passava disso mesmo: Manuel abria o envelope, punha na mesa, em cima das outras três, a carta enviada por mestre João Bernardo, e, se era este que ganhava a vaza, arrumavam as suas e esperavam mais duas semanas. Quando era a vez de ele dar cartas, prevenia com antecedência se queria virar trunfo por baixo ou por cima, e o velho Amadeu dava por ele. Mas ficavam felizes como se não faltasse ninguém.
O velho Amadeu adoeceu quando estavam empatados a duas partidas, mas ele ia ganhando a quinta por três a um. Ainda aguentou o suficiente para viver até à penúltima vaza, que ganharia, e o jogo também, se mestre João mandasse um trunfo para cortar um rei jogado pelo Torre Velha. Não veio o trunfo. Mas Manuel trocou uma carta sua e mostrou-a ao quase moribundo como sendo a do companheiro. “Vocês ganharam, tio Amadeu.” O velho sorriu, feliz. Pela última vez, o velho Amadeu sorriu. Para que ele sorrisse durante mais uma partida, Manuel seria capaz até de roubar ouro.
Daniel de Sá, in "O Pastor das Casas Mortas

domingo, 17 de agosto de 2008

TABACARIA AÇORIANA

A Tabacaria Açoriana, quando o Gil ainda não tinha aberto, primeiro, o seu café, e depois a livraria, era ponto de encontro e local de tertúlia, principalmente aos domingos de manhã, para alguns especialistas de tudo e coisa nenhuma. À volta de um café e folheando jornais da terra, formavam-se grupos cujos elementos iam trazendo à baila acontecimentos locais, merecedores de comentário mexeriqueiro, no geral tudo gente aspirante a classe média.

Pontificava nessas manhãs, o Sargento Carradas, músico na Banda regimental, assim conhecido por ter sempre "carradas de razão", em tudo o que discutia. Era um homem dos mais prolixos que conheci, falava de tudo: de astronomia, navegação, invenções, e de… siderurgia.
Um dia, dissertando o Carradas sobre a produção de aço em Portugal (que não existia na época, a Siderurgia do Seixal só foi criada mais tarde) entusiasmado pela sua imaginação, e partindo de alguns elementos que conhecia sobre a matéria, começou a descrever como eram os "altos fornos" portugueses:
- Diz-se altos, pelas elevadas temperaturas necessárias à produção do aço.
Estava presente o meu pai, mestre do Ensino Técnico, homem circunspecto, de ouvir mais do que falar, mas que, na ocasião, não se conteve, e disse:
- Ó sargento, olhe que em Portugal não temos altos fornos, o ferro e aço com que trabalhamos é importado.O nosso músico não se atrapalhou, e retorquiu:
- Mestre Leonel, os nossos não são, de facto, muito altos, são mais baixos, mas existem!..
Era assim o Carradas.
A Açoriana tinha outra virtude, essencial para alguns dos jovens da minha geração: era um local de compra de livros e jornais do Continente; lá comprei, entre outros, o livro de Homem de Mello que, antes de Spínola, criticava a política africana. E lá passava, sempre expectante, para ver se já tinham chegado os jornais. O dono da Tabacaria era o Sr. Fernando que, felizmente, deixou o bichinho cultural aos filhos, seus sucessores no negócio, e anos mais tarde, organizadores de uma Feira do Livro, nas instalações da Tabacaria, que julgo ter sido pioneira em S. Miguel.
João Coelho [1]
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[1] Os meus agradecimentos a João Coelho por este precioso texto, que teve a gentileza de me autorizar a publicar aqui.

quarta-feira, 13 de agosto de 2008

Alguém se lembra?

As Cavalhadas da Ribeira Grande
lembradas num selo desenhado por José Cândido
e emitido pelos Correios Portugueses,
em 11 de Maio de 1981

segunda-feira, 4 de agosto de 2008

FESTAS DA GUARITA

FESTAS DO IMPÉRIO DOS INOCENTES DA GUARITA
Texto retirado de artigo de "a União",
publicado na Sábado, dia 26 de Julho de 2008,
em "Actualidade"
Fotos gentilmente cedidas pelo
Blogue "PORTO DAS PIPAS"
Mordomos 2008
Numa noite em que a chuva não quis perder a festa, cerca de duas centenas de pessoas juntaram-se no Império dos Inocentes da Guarita para a tradicional Ceia dos Criadores.
A ceia dos criadores
A noite começou com o tradicional Pezinho, animado por seis cantadores, onde se incluía o mais jovem intérprete dos Açores, naquela que foi a sua estreia numa celebração do Divino Espírito Santo.
Altar
A zona da Guarita tem a particularidade de, apesar de estar localizada dentro da cidade de Angra, “tem uma concepção rural na sua forma, temos vários lavradores e temos sempre os mesmo criadores”, revela Miguel Azevedo, um dos Mordomos deste ano. Talvez por isso, desde 1984 – ano em que o Império reabriu após as obras de restauração devido ao sismo de 1980 – “o Império da Guarita nunca mais comprou carne, e, independentemente dos Mordomos, tem funcionado sempre bem”, confidenciou à “a União” Manuel Martins (vulgo Ramalhete), ele próprio um dos criadores que desde essa data cria gado para a festa. A comissão deste ano conta com cinco pessoas com uma média de idades de 30 anos, contrariando a ideia que os mais jovens estão algo desfasados desta celebração.
Saída da Coroação
“Já tivemos aqui comissões mais jovens, o problema é manterem-se ligados ao Império devido às dificuldades de entendimento entre mais velhos e mais novos. Julgo que não é por má vontade, as vezes é preciso compreender que para os mais velhos os impérios são como se fossem a sua segunda casa”, refere Miguel Azevedo, admitindo que a comissão gostaria de voltar a repetir esta experiência que apelida de “muito divertida e onde se fica ligado às tradições de outra forma, aprendemos coisas sobre o culto do Espírito Santo todos os dias”. Sobre as festas deste ano, o Mordomo congratula-se pelo facto de ter sido possível reunir quase 200 pessoas na noite da Ceia dos Criadores, ainda para mais num ano “em que morreu muita gente na Rua da Guarita e circundantes e houve algum custo das pessoas se chegarem ao Império, mas penso que viram que o ambiente estava como dantes e conseguimos tê-las cá”, comenta, orgulhoso.
Os jovens Mordomos deste ano
Apesar da boa participação popular neste Império, o mesmo não se passa em muitos outros dentro da cidade. Segundo o Padre Dolores isso deve-se à despovoação de Angra do Heroísmo, onde “existem ruas que estão a ficar sem ninguém, já não existe o Império da Rua de Santo Espírito e o da Rua da Boa Nova está resumido ao terço por falta da população”.
Mordomos para 2009
O culto do Divino Espírito Santo pode-se dividir em três fases, assinala o Padre Francisco Dolores – Oração, Partilha e a Festa.
A Ceia dos Criadores enquadra-se na partilha. Os criadores, se deram carne para o Império, são os primeiros a ser convidados a partilhá-la juntamente com o pão, o vinho e as sopas do Espírito Santo, com toda a gente que participou e colaborou com o Império, um momento diferente das Funções já que estas “são a promessa de um jantar feita por um Mordomo no dia da Coroação”, esclarece o sacerdote. “Antigamente era a oportunidade para as pessoas, especialmente nas freguesias rurais, mas também na cidade, comerem carne, fora isso só nos casamentos ou no Natal, o mesmo se passava com o pão branco que a grande maioria da população só comia por esta altura. A esmola do Espírito Santo - com a bênção e entrega de carne, pão e vinho aos mais pobres, feita normalmente à sexta-feira, era um grande benefício”, recorda Francisco Dolores.
A Oração com o Terço do Espírito Santo ao longo dos oito dias em que a Coroa está no Império desde o cortejo da mudança até ao dia da coroação (normalmente um domingo), é outro dos momentos centrais do Culto, onde as pessoas vão agradecer pelo ano que passou e rezar pelos mortos. A terceira vertente, segundo o Padre Dolores, prende-se com a festa em si, há moda antiga com os foliões, “aqui mais com o Pezinho e os cantadores ao desafio”, refere o pároco.As filarmónicas são outra parte importante da festa, especialmente nos cortejos e na Terceira existe ainda um elemento fundamental - as touradas, “ que costumam marcar o encerramento das festas e que aqui são à corda, que foi a forma encontrada para se brincar com os touros de forma a que toda a população pudesse participar.

sexta-feira, 25 de julho de 2008

O culto do Espírito Santo 2

Porque na Terceira estão a decorrer as Festas da Guarita e não sei falar delas, limito-me a transcrever parte do artigo O Fogo do Espírito Santo nos Açores, de Paulo Loução. É a minha forma de homenagear, nesta época, as gentes da Terceira e as suas tradições.

Império do Espírito Santo
Quando chegámos a esta ilha [Terceira], logo deparámos com o vivo colorido e a alegria que emanam dos sessenta e oito impérios que povoam este pedaço de terra circundado pelo grande oceano. Estes impérios são umas “capelas” sui generis do Espírito Santo pertencentes às respectivas irmandades laicas. Com este estilo arquitectónico, constituem uma característica desta ilha e começaram a ser construídos no século XVII. Nas outras ilhas existem casas e capelas do Espírito Santo e os triatos ou teatros, pequenas construções de madeira que são montadas na época dos festejos. […]
Massa sovada
O ciclo do Espírito Santo tem início no último domingo dos festejos, quando se realiza o pelouro logo a seguir às arrematações das ofertas. O pelouro é o sorteio realizado entre os irmãos do império, que se propõem para o efeito – normalmente cumprindo uma promessa – e que designará quem será o imperador em cada semana que vai da Páscoa até ao Domingo de Pentecostes, nuns casos, ou Domingo da Trindade, noutros casos. Serão assim sete ou oito semanas. Aquele a quem, no pelouro, sair o número um, será o responsável pelos festejos na primeira semana e ficará com a coroa do Espírito Santo durante todo o ano. Colocada no trono – um altar doméstico – a coroa será objecto de veneração e constituirá objecto de grande contentamento para aquele a quem calhar esta “sorte” no pelouro. No ano seguinte, assim que acaba a Páscoa, entra-se em plena época do Espírito Santo. Durante cada semana realizam-se as alumiações – misto de veneração das insígnias do Divino e de convívio alegre a que não faltam os olhares namoradeiros – na casa do imperador ou a reza do terço no império, canta-se o pezinho ao imperador e às pessoas que realizam generosas ofertas ao Espírito Santo, tradição que, em parte, lembra as janeiras, porque um grupo vai de casa em casa cantar o pezinho aos benfeitores do império. […] A sexta-feira é o dia do sacrifício do bovídeo, com vista ao bodo que o imperador, no domingo, oferece aos seus convidados. […] No domingo realiza-se a primeira procissão que vai a casa do imperador buscar a coroa, o ceptro e a salva, que é transportada ritualmente por jovens vestidas de branco para a igreja onde se realiza a cerimónia da coroação. Recordam as guardiãs do Graal e as vestais romanas. A bandeira do Espírito Santo, de fundo escarlate com a pomba bordada, segue sempre à frente na procissão. […] A seguir à coroação, nova procissão segue para o local do bodo […]. Uma vez finalizado o bodo ou banquete comunitário, o imperador segue em cortejo até ao império, ou em direcção à residência do imperador da próxima semana, entregando-lhe as insígnias do império. Estas procissões, onde o clero está ausente, são realizadas com grande solenidade. Hoje em dia, são acompanhados pelas filarmónicas, antigamente eram-no pelos foliões. Foi uma grande perda, porque os foliões sintetizavam tradições muito antigas. […]
O apogeu das festas acontece no fim-de-semana do Domingo de Pentecostes, prolongando-se em muitos lugares até ao Domingo da Trindade. Na sexta-feira, os bovídeos são enfeitados e realiza-se a “procissão do vitelo”, e posteriormente são “sacrificados” os animais necessários para o bodo colectivo e para a distribuição de esmolas aos pobres. […] O largo principal da povoação respira este estado de espírito colectivo. Depois da coroação, realiza-se o bodo ou a função, ou seja, um banquete ritual para o qual são convidados todos os que estejam presentes no local. Nós próprios tivemos oportunidade de participar na função do Império dos Remédios, que foi servida a mais de trezentos convivas com uma organização impecável: não houve nem stress, nem esperas prolongadas. Foram servidas a tradicional sopa do Espírito Santo e a alcatra, exemplarmente confeccionadas e acompanhadas com vinho “aprovado” pelos mordomos do Império. Nesta irmandade não se realiza o pelouro, nem existem imperadores, mas somente mordomos. A coroação é realizada com crianças. No domingo à noite, o “cabeça “ da mordomia, se desejar continuar nessa função, vai com a bandeira do Espírito Santo bater à porta daqueles que deseja para mordomos do ano seguinte. Os novos eleitos são apanhados de surpresa e respiram fundo, pois a organização dos festejos é muito trabalhosa, mas normalmente acabam por aceitar porque “ninguém se atreve a negar ao Divino Espírito Santo.” O Espírito Santo é o Deus Vivo dos açorianos, um Deus que se manifesta em vários símbolos, como a pomba e a coroa, mas que, […], nunca é antropomorfizado, o que recorda a tradição celta.
Interior do Império dos Remédios
Nestes festejos, muitas outras actividades que diferem de lugar para lugar, tendo, no entanto, uma estrutura comum. Realizam-se touradas à corda, bodos de leite, distribuição de massa sovada aos irmãos, cantorias improvisadas, actuações das filarmónicas e grupos folclóricos, etc. […]
[…]estes festejos [...] são realizados como um voto propiciatório para a abundância de bens, para a fertilidade das colheitas e saúde do gado. […] são uma exaltação aos dons da Terra, sacralizados pelo Espírito Santo, um culto agrário com fundamento iniciático.
Mas também está imanente um culto do fogo, pois é crença geral que o fogo do Espírito Santo pode apaziguar o fogo vulcânico das ilhas e tem uma forte componente social, representando cada império a alma espiritual de uma pequena comunidade.
Pudemos observar que, quando o cortejo do Império dos Remédios passou por outro império, os mordomos desse Império colocaram a sua coroa à porta dessa “capela”, como que a saudar a coroa que representava o Império dos Remédios. Foi comovente presenciar este detalhe simbólico. O sentido arcaico da convivência humana, a fraternidade e a coesão social estão presentes neste culto. […]
[…] damos a palavra ao consagrado escritor açoriano Vitorino Nemésio: “É uma verdadeira instituição social esta usança que a todas as ilhas se estende e tem a solidez e a eficácia de um município ou de uma comuna. Cada freguesia, rua ou lugarejo erige a sua mordomia ou irmandade, com um templo próprio e inteiramente original na arquitectura religiosa de todo o orbe católico. Chama-se império ou teatro; e em verdade ali se representa uma tragédia mística, com bezerro imolado, pão de cabeça enfeitado de ervas cheirosas, e uma comparsia de foliões, de pajens, de alferes e vereadores que lembra a organização de uma comunidade medieval. A festa é pagã, de um ruído e de uma cor que desnorteiam e deslumbram; mas lá tem o seu fundo de caridade cristã bem entendida para lavar toda a mancha de profanidade desenvolta.”
Paulo Loução, O Fogo do Espírito Santo nos Açores,
in Lugares Mágicos de Portugal e Espanha

sexta-feira, 4 de julho de 2008

A pedido...

O QUEIJO, de Daniel de Sá

Ver: http://luardejaneiro.blogs.sapo.pt

domingo, 29 de junho de 2008

Cavalhadas de São Pedro

E a festa da Ribeira Seca continuou, hoje, com as famosas CAVALHADAS. As fotografias são de 2003.
As Cavalhadas de S. Pedro
As Cavalhadas da Ribeira Seca da Ribeira Grande são uma das tradições mais notáveis e famosas dos Açores. O nome deriva do Castelhano caballadas (de caballo), que se refere a vários tipos de provas de destreza equestre. Câmara Cascudo, no Dicionário de Folclore Brasileiro, define cavalhada como desfile a cavalo, corrida de cavaleiros, jogos de canas, jogo de argolinhas. As cavalhadas subsistem em muitas partes do Brasil, e as de Pirenópolis, no Estado de Goiás, ligadas às festas do Espírito Santo, seguem a tradição europeia da dramatização da luta de Rolando contra os Mouros, em Roncesvales, a célebre gesta dos Doze Pares de França. As primeiras cavalhadas de Pirenópolis aconteceram em 1826, sendo a maior parte dos seus habitantes oriunda do Norte de Portugal. Em Vildemoinhos, perto de Viseu, mantêm-se como desfile de cavaleiros vestidos de fato escuro e montando cavalos ajaezados. Resultam, segundo a tradição, de uma promessa feita a São João Baptista pelos moleiros, no caso de conseguirem sentença favorável de água para os seus moinhos, havendo quem pense que têm influência das Cavalhadas da Ribeira Seca. A primeira destas romagens à capela do santo, com os cavaleiros vestindo de negro, como os nobres, e com os cavalos ajaezados, terá sido em 1652. No entanto, no século XX passaram a incluir carros alegóricos, bandas de música, ranchos folclóricos e muitos outros elementos que não faziam parte da tradição.
Há a opinião generalizada de que as Cavalhadas da Ribeira Seca terão sido inspiradas nos jogos de canas. No entanto, essa influência, se realmente existiu, talvez não tenha ido além do facto de se tratar de um desfile de cavaleiros, vestidos com trajes coloridos e montando cavalos ajaezados.
Os jogos de canas consistiam numa simulação de luta entre dois grupos de cavaleiros, e eram assim chamados por ser uma cana que servia de lança de arremesso ou dardo. Para se defenderem, os cavaleiros usavam um escudo pequeno e redondo de coiro, a adarga. Há notícia de alguns destes combates realizados em São Miguel, sendo aquele de que se conhecem mais pormenores o que organizou o quinto Capitão da ilha, Rui Gonçalves da Câmara, o segundo que houve com este nome. Foi num dia de Páscoa, pouco tempo depois da subversão de Vila Franca do Campo em 1522. A folgança destinou-se a divertir a população de São Miguel, ainda muito abalada pelos trágicos acontecimentos daquela noite de 22 de Outubro. Os contendores de Ponta Delgada e da Lagoa lutaram contra cavaleiros da Ribeira Grande – a que se juntou alguma gente de Rabo de Peixe –, de Água de Pau e de Vila Franca. Vestiam trajes coloridos de seda, veludo e outros tecidos nobres. Os de Vila Franca, em sinal de luto, usaram apenas o preto e o roxo. Os cavalos, e mesmo uma besta que transportou as canas, estavam também ricamente adornados. O combate decorreu num terreno ao longo do mar, na Lagoa, onde o Capitão residiu algum tempo depois da tragédia. Veio muito povo, de toda a ilha, que assistiu num lugar mais alto, de modo a estarem todos protegidos de eventuais pisadelas dos cavalos ou de alguma cana que falhasse o alvo.
Muitos eram os cavaleiros que usavam mais do que um cavalo, porque a luta lhes exigia um grande esforço. Havia arranques e paragens constantes e corridas com mudança de direcção em ângulos apertados, numa espécie de bailado para fugir ao ataque dos adversários ou para tentar apanhá-los desprotegidos. Nesse jogo de canas houve um episódio que serve para perceber como, por vezes, essa simples diversão poderia tornar-se numa luta perigosa. Esteve ali presente o Abade de Moreira, que viveu alguns anos na Ribeira Grande, exímio na arte de cavalgar e de jogar as canas. Lutador incansável, levou consigo dois cavalos. Um dos adversários com quem lutou foi D. Manuel da Câmara, filho do Capitão, a quem atirou uma cana certeira que o moço defendeu com a adarga. A mãe, D. Filipa Coutinha, exaltou-se muito, considerando que o filho tinha direito a tratamento semelhante ao de El-Rei, a quem as canas não deviam visar o vulto mas ser lançadas por cima da cabeça. E, no seu destempero, gritou que matassem o abade. Este, homem forte e truculento, pegou num dardo e respondeu que viessem matá-lo, mas que antes deixaria ali cinco ou seis caídos para sempre. Mais sensato, Rui Gonçalves da Câmara entendeu que o filho não tinha direito a isenções, e mandou ao abade que lhe atirasse outra cana. A origem das Cavalhadas – e neste ponto é indispensável evocar o Dr. Armando Cortes Rodrigues – é tida como resultante de uma promessa do próprio Capitão, que era então D. Manuel da Câmara e que já voltara a residir em Vila Franca. A lava da erupção de 1563 destruiu a maior parte da Ribeira Seca da Ribeira Grande, deixando porém intacta a igreja paroquial, dedicada a São Pedro. Apesar da devastação provocada, não houve nenhum morto na ilha por sua causa. D. Manuel da Câmara teria prometido ir cantar em verso a vida do apóstolo à porta da sua igreja, caso a família não sofresse consequências graves. E tê-lo-á feito indo de Vila Franca à Ribeira Seca a cavalo e acompanhado de homens que o serviam e dos mordomos do Espírito Santo.
Ora, mesmo que se tenha por certa esta versão, não se percebe onde estará a dita derivação das Cavalhadas a partir dos jogos de canas. Talvez não mais do que nos trajes usados pelos cavaleiros, em que dominam o branco e o vermelho (as cores do Espírito Santo), pois que D. Manuel da Câmara e o seu séquito terão ido decerto com os ornamentos pessoais e dos cavalos que ostentariam em momentos de gala. E os jogos de canas eram um desses momentos especiais, tanto mais que costumavam ocorrer em dias de grande festa. A comitiva do Capitão terá dado sete voltas à igreja de S. Pedro, talvez evocando os dons do Espírito Santo, dirigindo-se depois à sua igreja da Misericórdia, para concluir o ritual com uma visita à ermida de Santo André, irmão de S. Pedro. Sem grandes alterações no essencial é este o percurso actual do cortejo, normalmente com mais de uma centena de participantes. São comandados pelo “Rei”, seguido de perto por três corneteiros que vão anunciando a aproximação e passagem dos cavaleiros. Tornou-se habitual que todo o grupo, que parte do Solar da Mafoma, na Ribeira Seca, visite também a Câmara Municipal, entoando loas à edilidade como reconhecimento pelo apoio que dela recebem.
Daniel de Sá

sábado, 28 de junho de 2008

As Alâmpadas de S. Pedro

Daqui, desta cidade do Porto séria e aburguesada, há sempre um pensamento, terno e saudoso, que voa para a minha ilha encantada.
Estamos no S. Pedro e há festa rija na Ribeira Seca [Ribeira Grande]. Penduradas aqui e ali, já as alâmpadas emprestam à cidade um ar de festa. Lembro-me bem da primeira vez que vi aqueles cachos de flores e frutos entrelaçados, enfeitando as varandas da Ribeira Grande. São realmente belíssimas e, para falar delas, dou a palavra a Daniel de Sá, a quem agradeço o muito que me tem ensinado.

As alâmpadas são arranjos florais, que incluem frutos, destinados a ornamentar a paroquial da Ribeira Seca da Ribeira Grande e a oferecer a pessoas que se queira honrar durante as festas de S. Pedro. A sua forma reproduz a de um lampadário.

Sendo os frutos utilizados os primeiros da estação, que se designam “lampos”, deriva deste facto, sem dúvida, o termo “alâmpada”. É que “lampa”, além de se assemelhar à palavra “lâmpada”, já foi, em português arcaico, um seu sinónimo.

Existem registos desta palavra (lâmpada) desde meados do século X, tendo o substantivo evoluído para “alâmpada” (prótese do artigo “a”) no séc. XIV e para “lampa” no XVII, através do processo de síncope do “d” (“lampaa) e posterior contracção de “aa”.

Segundo o Dr. Cortes Rodrigues, a origem das alâmpadas estará nas ofertas dos primeiros frutos colhidos depois da esterilidade provocada pelo vulcão de 1563.

Daniel de Sá

sexta-feira, 13 de junho de 2008

O RECONHECIMENTO MERECIDO

Nesta casa da Maia (Ribeira Grande), vive um Oficial da Ordem do Infante D. Henrique. Claro que já toda a gente sabe quem é.
Para quem andar distraído, pode saber a resposta no Blogue Luar de Janeiro.

terça-feira, 10 de junho de 2008

A PÁTRIA NO CORAÇÃO

Michael de Brito, Dinner Guests
Michael de Brito, Avó Pequena Michael de Brito, Small Kitchen Scene
Os portugueses de fora crêem-se por vezes mais patriotas do que os de dentro porque, no confronto com os outros da terra adoptiva, são movidos pela necessidade de se agarrar ao que sentem como particularmente seu, e que partilham apenas com os seus compatriotas que perto de si vivem, mas também com os que ficaram na pátria longe. Daí uma corrente magnética, o cordão umbilical da cultura, que se estabelece imitindo vibrações quase num só sentido - de fora para a pátria. Costuma chamar-se a isso "saudade". Evidentemente que isso não nos torna moralmente superiores. É um reflexo natural de sobrevivência que nos impele a agarrar-nos àquilo que instintivamente sentimos como nosso e que a distância geográfica e cultural ameaça fazer-nos perder.

Onésimo Teotónio Almeida, in Público [10.06.2008]

Michael de Brito, Afternoon Conversation

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Onésimo Teotónio Almeida - nasceu em 1946, no Pico da Pedra (S. Miguel), escritor, professor catedrático do Departamento de Estudos Portugueses e Brasileiros da Universidade de Brown (Providence), residente nos EUA há 30 anos.

Michael de Brito - nasceu em 1980, em New Jersey, filho de emigrantes portugueses do Algarve. Os quadros aqui publicados mostram bem as raízes portuguesas e fazem parte de exposição patente na Eleanor Ettinger Gallery, em Nova Iorque.

sábado, 7 de junho de 2008

Homenagem ao ciclone dos AÇORES

Ao começar o Euro/2008, quero aqui lembrar o "voo do milhafre" PAULETA.
Para lhe agradecer as muitas alegrias que deu, a mim e
a todos os portugueses.
FORÇA, PORTUGAL!!!