terça-feira, 29 de abril de 2008

A Generosidade da "minha" Ilha

Quando, no passado dia 9, cheguei às Furnas, estava longe de imaginar as transformações operadas na zona da Poça da Dona Beija.
A começar na placa, bem visível.
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A continuar nos muros que domesticam a ribeira.
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E nas piscinas disponíveis a mais utentes. ************************************************** Esta é a poça inicial. A sua água quente relaxa e provoca grande bem- -estar. Quem precisa de ginásios, saunas, piscinas aquecidas? A generosa Natureza de S. Miguel dá, de graça, estas maravilhas que fazem bem ao corpo e à alma.

quinta-feira, 24 de abril de 2008

quarta-feira, 23 de abril de 2008

A Poesia Popular do Jorgense José Soares

JOSÉ SOARES
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PICO
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Quando acharam o Pico,

Portugal ficou mais rico

E mais pertinho do céu.

Lá na montanha da Ilha

Até a neve, quando brilha,

Imita um lindo véu.

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Ali há lobos do mar

Que conseguem irmanar

O mar com a sua aldeia;

Souberam ganhar o pão,

Cavando o duro chão,

Ou matando a baleia.

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Lá, nas fendas dos rochedos,

As figueiras e os vinhedos

Vivem ali abraçados.

É assim aquela gente,

Faz vinho e aguardente

Que são tão apreciados.

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O Picaroto é pedreiro,

Lavrador ou marinheiro,

É doutor ou artesão;

Mas, naquela Ilha inteira,

Todos procuram maneira

De ganharem o seu pão.

José Soares, in "O Canto de um Lavrador"

BLU edições

segunda-feira, 21 de abril de 2008

quinta-feira, 17 de abril de 2008

MORREREMOS AMANHÃ

Na minha recente visita a S. Miguel, encontrei o livro MORREREMOS AMANHÃ, de Carlos Tomé. São memórias da Guerra Colonial e as implicações que, ainda hoje tem, nas vidas de quem, directa ou indirectamente, nela esteve envolvido.
Carlos Tomé
Transcrevo aqui um episódio do romance que se assemelha a outro, que eu própria vivi quando, pela primeira, vez estive em Ponta Delgada.
Mais tarde, com os meus alunos do Clube de História da Escola Gaspar Frutuoso, da Ribeira Grande, escrevi à Presidente da Câmara pedindo a colocação duma lápide no local onde Antero de Quental se suicidou, no Campo de S. Francisco.
Constatei, na semana passada, que a autarquia continua a ignorar a frustração de quem, amando Antero de Quental, vê a sua memória esquecida neste local.
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Procuro o banco onde Antero de Quental se suicidou. […] Encontro-o com facilidade. Fica a menos de cinquenta metros da porta da igreja, meio encoberto por uma enorme estátua de Madre Teresa da Anunciada, a iniciadora do culto do Santo Cristo. Acho exageradas as dimensões da estátua, mas não me atrevo a mais pensamentos críticos. As flores ao pé da madre dizem tudo sobre a relatividade do tamanho e, até, da qualidade artística do monumento.
Onde não há uma flor, nem ninguém sentado, é no banco onde Antero pôs termo à vida. Sempre pensei haver aqui uma placa assinalando a data e o trágico evento. Não há. Mais de cem anos depois, o poeta ainda está de castigo por se ter suicidado.
Sento-me. Não sei se este é, exactamente, o mesmo banco. Simples, desconfortável como todos os bancos de jardim, tem aspecto de antigo. É possível. O assento, de madeira, é que deve ser já outro.
Na parede branca, mesmo sobre mim, a palavra “Esperança”, em relevo, chama a atenção. Que fina ironia, se se tratou de um propósito de Antero. Mas, ao mesmo tempo, tanta amargura, tanta desilusão, tanta desistência.
Esforço-me por recordar um soneto do grande poeta. Disse-o algumas vezes, em festas, no liceu, embora os professores o considerassem um pouco derrotista para as mentes jovens. Talvez por isso todos o sabíamos de cor. Eu é que, agora, só consigo recordar o último terceto:
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Abrem-se as portas d’ouro, com fragor…
Mas dentro encontro só, cheio de dor,
Silêncio e escuridão – e nada mais!
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Já andei assim, arrastando-me, vergado ao peso do desencanto e da frustração. Em lugar de me matar, liquidei o meu casamento, tornei a vida de Luísa num inferno, perdi amigos. Stress pós-traumático, disseram dois médicos a quem pedia tranquilizantes como se fossem rebuçados. Diagnóstico errado. O que tenho é solidão, uma imensa solidão. Sinto-me só no Estádio da Luz, no meio de sessenta mil pessoas. Tão só quanto estou aqui, no banco onde Antero de Quental pôs à boca um revólver e disparou.
Aqui se suicidou o grande
ANTERO DE QUENTAL
E porque se trata de uma verdadeira pérola, transcrevo também as palavrinhas do nosso querido Daniel de Sá, a respeito da obra e da guerra.
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Quando acaba a guerra? Quando morre o último soldado ou quando é assinado o tratado de paz?... Quando saram as derradeiras feridas ou quando os cegos se adaptam à escuridão e os amputados às próteses?... Quando se esquece o amigo que se viu morrer ou quando vai a enterrar a mãe que o terá amamentado?... Quando, finalmente, se cumpre um desejo do irmão de armas que não voltou?... Ou quando falecem todos os antigos combatentes?...
Este romance de Carlos Tomé é a história da guerra depois da guerra. A que continua na memória dos sobreviventes. Que às vezes têm de suportar uma estranha espécie de remorso por estarem vivos. Com o espírito atormentado depois da tortura dos combates. Um romance escrito numa linguagem que insinua o drama sem insistir nele. Serena e fluida. Bela e límpida. Um hino à paz e um hossana à Língua Portuguesa.
Mais em:

segunda-feira, 14 de abril de 2008

O Novo Rosto do Teatro Ribeiragrandense

Pois! O Teatro está vestido de amarelo. Não consigo definir-me: contra ou a favor? Para mim, o casario da Ribeira Grande era a “preto e branco”. Mas… não posso negar que está bonito, alegre. O monograma destaca-se, colorido e orgulhoso do que representa.
Mais importante do que isso, é que parece que recomeçam as actividades, numa altura em que eu temia que estivesse adormecido. Lá estava a carrinha da RTP Açores… cinema, pelo menos ao fim-de-semana… a Pontilha a levar à cena o seu trabalho…
Por mim, fico mais descansada e feliz. Cabe aos habitantes da cidade apoiar, com carinho, o “seu Teatro”, o grande veículo de educação e cultura que pode e deve ser.

terça-feira, 1 de abril de 2008

O Teatro Ribeiragrandense

Tenho boas memórias do Teatro Ribeiragrandense. Estava em obras quando fui, pela primeira vez, à segunda cidade de S. Miguel.
Depois, reabriu com este aspecto bem açoriano e com uma sala (a principal) lindíssima. Era um centro cultural que estranhei numa cidade pequena. Para além do cinema, assisti lá a teatro de grande qualidade (de grupos locais e nacionais), concertos, exposições e até tertúlias literárias.
Volta e meia, a carrinha da RTP Açores estava parada na porta lateral. Já se sabia que, ou se gravava algum programa ou se ia realizar um debate político ou um espectáculo que merecia transmissão ou notícia.
Pelo que me dizem, já não há cinema na Ribeira Grande e o Teatro está um pouco parado. E é pena!
É muito bom viver na Ribeira Grande. Sendo uma cidade, tem ainda um ambiente calmo e de qualidade. Para viver, sempre a preferi a Ponta Delgada.
É certo que o Teatro Micaelense também foi renovado, é certo que o Parque Atlântico tem várias salas de cinema. Tudo bem! Espero é que a Ribeira Grande mantenha vida cultural própria e dê uso a um edifício que merece o carinho dos seus habitantes e dos poderes locais.

sexta-feira, 21 de março de 2008

A Páscoa na Ilha

No dia 31 de Março de 2002, domingo de Páscoa, estava assim decorada, com cestas de jarros, esta casa que penso situar-se na freguesia de Candelária. Pelo menos, fica na estrada que das Sete Cidades nos leva a Ponta Delgada. SAUDADES...
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Para todos,
uma PÁSCOA muito feliz
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terça-feira, 18 de março de 2008

Parabéns à Ibel!

À Ibel, que hoje está de parabéns, que posso oferecer?
Não sei fazer versos como ela. Mas sei que ela adora o mar.
Por isso, aqui estão quatro fotografias do mar dos Açores: as duas primeiras, das águas revoltas do Canal (entre o Faial e o Pico); as outras duas, das águas quentes da Ferraria (em S. Miguel).
Ao contrário do que se pensa, minha querida Ibel, esta é a fase melhor da vida. A sabedoria dos cinquenta é infinita. Vá por mim! O melhor do Mundo e um beijinho para si!

sexta-feira, 14 de março de 2008

Lendas dos Açores 3

A sereia da Praia

Noite de Lua cheia. Boiando sobre as sossegadas ondas que docemente vinham acabar-se na areia branca, uma mulher de longos cabelos de oiro parecia ondular também. O tronco nu era de uma perfeição raramente vista. E o seu rosto tão suavemente belo que um pescador, deslumbrado com a visão, não sentiu qualquer lascívia a perturbar-lhe o encanto.

Ela aproximou-se. Quando já estava muito perto, o homem percebeu, cheio de temor, que o seu pescoço estava desfigurado pelo que pareciam ser guelras. E, da cintura para baixo, era igual a um peixe. Na aflição de quem julgava ter o Diabo ao pé de si, esconjurou a aparição. No mesmo instante, a mulher, que um qualquer poder maléfico transformara em sereia, voltou à perfeição da forma humana.

Não sei se conhecias esta lenda, que não nos diz se os dois se casaram e viveram felizes para sempre. Mas podemos imaginar-lhes esse destino ditoso. Esta praia merece que a felicidade a contemple. Tão bela é que, no mapa que Luís Teixeira fez dos Açores em 1584, lhe chamou “Plaia Hermosa”. E porque o mapa foi feito para D. Filipe I de Portugal, todas as legendas do mapa estão no mesmo castelhano arcaico.

Que ela é formosa percebe-se logo à primeira vista. Por isso dispensa o adjectivo, que nunca foi usado pelos naturais da ilha. Mas Luís Teixeira boas razões teria para não se ficar pelo simples nome de Praia. E ele conhecia todas as dos Açores, sem dúvida, porque, na legenda que explica o mapa, escreveu em latim: “Estas ilhas foram percorridas com a maior diligência, e com todo o cuidado as descreveu o português Luís Teixeira, cosmógrafo da Majestade Real. Ano de Cristo de 1584.”

Daniel de Sá, "Santa Maria, a ilha-mãe"

quinta-feira, 13 de março de 2008

Lendas dos Açores 2

Com os meus agradecimentos
a Daniel de Sá
Piratas nos Anjos
Os principais atractivos da zona de Santana, incluindo os Anjos, eram a facilidade de acesso ao mar e a ribeira onde corre água durante todo o ano, e que recebeu aquele nome porque os terrenos por onde passa pertenciam a Gonçalo Velho. Todos os mapas actuais a trazem como ribeira de Santana, mas lá ela tem três nomes diferentes deste, sendo na parte final curiosamente chamada ribeira do Rei.
No entanto, por ali o mar tanto abre as portas da terra a quem vem por bem como a quem chega por mal. E os piratas e corsários várias vezes se aproveitaram dessa franqueza, ao ponto de, na sacristia da igrejinha dos Anjos, talvez a primeira que houve nos Açores, ter sido guardado ao longo dos séculos um chicote com que eles atormentaram alguns infelizes habitantes do lugar. E, para memória das gentes, foi feita a seguinte inscrição:

Na noite do primeiro para o segundo dia de Setembro de 1675, deram os mouros um assalto neste sítio desta Ermida a descuido das guardas, entraram pelo porto cativaram onze pessoas, entre mulheres e meninos e com este chicote as espancaram o qual se pôs aqui para memória do sucesso para que esteja pregando que se Deus logo levantou o castigo foi talvez por não envolver mais inocentes; todavia deixou ficar em terra o açoute com que castigou. Nesta Ermida não tocaram, passando de todo por junto dela; como também no ano de 1616 saquearam toda a ilha é tradição que a não viram vendo-os a todos quem dentro estava.”

Desse episódio de pirataria ficou a lenda de um canavial que teria surgido de súbito, não permitindo aos mouros verem a ermida. Que, segundo outra lenda, houve quem quisesse mudar para o sítio que passou a chamar-se Cruz dos Anjos. Todos os materiais que, durante o dia, eram levados para ali, à noite voltavam para o lugar onde a pequena igreja haveria de ficar para sempre. E terá ficado também a palavra “bei”, como exclamação de grande espanto, com frequência acompanhada da invocação de Santa Bárbara, protectora contra raios e calamidades. Seria com esse grito que muitas pessoas reagiam ao rebate que anunciava piratas na costa, pois “bei” era título de chefe na Tunísia. Curiosamente, em iguais circunstâncias a mesma palavra se diz na Graciosa.

Daniel de Sá, "Santa Maria, a ilha-mãe"

Estátua de Cristóvão Colombo
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Na Capela dos Anjos, provavavelmente o mais antigo templo dos Açores, rezou a tripulação de Colombo, no regresso da viagem de descobrimento da América (Fevereiro de 1493).
As fotografias fazem parte da obra de Daniel de Sá, citada acima, que recomendo vivamente, pela sua qualidade literária, gráfica e fotográfica.
Se quer saber mais, pode ver, neste blogue, os posts: DANIEL DE SÁ imparável [23.Set.2007] e Santa Maria, a ilha-mãe [02.Out.2007].

quarta-feira, 12 de março de 2008

Lendas dos Açores 1

A FURNA DE SANT’ANA
Nos finais do séc. XVI e princípios do seguinte, a ilha de Santa Maria foi constantemente assaltada pelos piratas, sobretudo argelinos, que tudo roubavam, tudo destruíam e levavam consigo prisioneiros, que depois negociavam como escravos. Ora, a penedia basáltica dava ocasião a alguns esconderijos que a população aproveitava. A mais célebre dessas buracas foi a Furna de Sant’Ana, sobre a qual circulam algumas lendas.
Vejamos uma delas.
Pois corria o ano de 1616 quando meio milhar de piratas caiu sobre a ilha, nela permanecendo durante oito dias. Ninguém ousou resistir-lhes, e todos os que puderam correram a esconder-se. Muitos deles na Furna de Sant’Ana. Muitos deles? Sempre eram umas centenas de velhos, mulheres e crianças, que ficaram quase todo o tempo às escuras, silenciosos, trementes, à espera do pior. Às tantas, em data não registada, os que ali oravam, aflitos, escutaram uma barulheira tremenda. Alguns espreitaram e viram um grande cortejo de piratas a cavalo e a pé, rufando tambores e tocando cornetas. E entre os refugiados ouviu-se a prece de uma velhinha:
- Senhora Santa Maria dos Anjos, que sois senhora desta ilha, salvai-nos!
E todos ajoelharam porque julgavam ser aquele o último dia das suas pobres vidas. Ainda barulhavam a pouca distância os piratas quando, ao som da prece, tudo voltou ao silêncio.
Como um manto azul, a ilha ficou sem um ruído. O Sol deu uma volta no espaço e lançou os seus raios até ao cabo da Furna de Sant’Ana. Então, do alto de uma árvore, para onde acabara de subir, um rapazote, olhando o mar, gritou:
- Estamos salvos! Saiam todos!
Os barcos dos piratas estavam na linha do horizonte. Haviam abandonado a ilha.
- Nossa Senhora salvou-nos!
Pois valha falar de uma outra gruta, situada entre as duas fajãs referidas por Gaspar Frutuoso no seu Saudades da Terra. Tinha a boca cerrada com areia e cal, do mesmo aparelho que os castelos que contornam Santa Maria. A lenda diz que aí dentro se guardou por séculos um tesouro de piratas mouros, mas havia também quem receasse o que lá poderia encontrar-se.
Porém, como se cumprira a Restauração, era voz corrente que se tratava antes de um tesouro dos espanhóis, que o não puderam levar na saída precipitada para os seus territórios, já que dali foram corridos. Tesouro ou armas e munições, deixando escrito nas paredes da gruta, tal como o haviam feito em diversos castelos, estes dizeres mal escritos:

CASTELHANO SE VAI EMBORA

GUARDA LA RISA PRA QUANDO LA CHORA.

José Viale Moutinho, Lendas dos Açores

sábado, 1 de março de 2008

Homenagem aos Romeiros de S. Miguel

Com um abraço de parabéns, pelo dia de amanhã, a Daniel de Sá, e um pedido de desculpas por truncar o seu belo texto. Quis, apenas, encurtá-lo para caber neste espaço sem se tornar ininteligível. *************************************************
A ilha, toda inteira. Passo a passo há-de João andá-la de ponta a ponta, duzentos e cinquenta quilómetros em redor, cinquenta léguas compridas de cansaços e Ave-Marias, Romeiro, ele, cristão de pouco ir à Missa… E a pão e água, a promessa!...
Pois sim, a guerra… Ainda ela, a guerra, de que pouco mais se sabia do que estatísticas falsas e a voz do Ferreira da Costa que só dava notícias de quem estava bem.
[…]

A tarde vai avançando, e ele sente-se cansado mas não exausto. O pior será, com certeza, depois de o corpo repousar por umas horas e todos os músculos se recusarem a reagir, com a facilidade de hoje, ao esforço da amanhã. Tem à vista o reino da Tronqueira, com o Pico da Vara a apontar o céu, numa oração em silêncio. E parece até que se notam as marcas deixadas pelos imensos dedos do Criador, no acto de modelar a lava de que tudo isto é feito. Se um louco destruísse todos os templos da ilha, restavam-nos as montanhas, que já os deuses antigos por aí é que habitavam…

Desde que João se despediu da mulher com um beijo breve e, dos filhos a bom dormir, com um leve roçar dos lábios nas faces pequenas, doze horas se passaram e andou o rancho coisa de uns trinta quilómetros. Como ali a ilha se amontoa em serras e em cristas enrugadas, não tem espaço para descer suavemente as ravinas abruptas e os caminhos de estoirar cavalos. Vão os romeiros subindo a outra margem da ribeira do Despe-te Que Suas, nome de acertado baptismo para tão íngremes barrancos que a guardam muito funda.
Já no fim da ladeira, uma cruz ao lado da estrada assinala que ali morreu um romeiro, há muito tempo. Foi mudada um pouco mais para baixo do sítio certo, para não incomodar o trânsito, porque todos os ranchos param numa prece por alma daquele irmão de que a maior parte nem conhece o nome. Manuel Viveiros Arruda, digamos que era, porque se sabe que sim. Em Março seria, de mil oitocentos e cinquenta e quatro, o dia de que se guarda tão longínqua memória. Vinha das Sete Cidades, nome mítico da ilha, ou outro nome da ilha, que precedeu, no imaginário medieval, o mais cristão que lhe deram depois da descoberta. Ia meter-se o rancho à subida da encosta, e o pobre homem, convencido de que para tantos seus pecados era pequena a penitência que fazia, pediu licença ao mestre para levar às costas uma pedra que lhe aliviasse a alma por lhe pesar o corpo. O mestre que não, e ele que, em vez disso, carregaria os bordões de todos os irmãos. Subisse em paz, como os outros, que decerto lhe bastava ser bom romeiro e Deus lhe tomaria isso em conta. Sabe-se lá que pecados lhe pesavam na alma – talvez não muitos, porque, às vezes, quem menos peca é que maior pecador se julga -, o certo é que o arrependido penitente se agarrou mesmo a uma pedra do tamanho que lhe pôde o remorso, mais forte do que a resistência do corpo, e foi cair morto de exaustão, e com a consciência lavada pelos últimos suores, ao lado da pedra que deixou tombar quando se lhe acabavam a ladeira, as forças e a vida. E esse romeiro obscuro, que parece ter resistido a toda a subida para morrer mais perto do céu, tem com certeza sempre mais gente a rezar por si, em tempo certo, do que qualquer rei ou qualquer papa.
Chega-se, pois, tarde ao fim, e, com ele, a primeira jornada do rancho, que lentamente se aproxima de Santo António, onde espera a caridade de um cristão acolhimento. João será mandado pelo mestre, logo depois de entregues as crianças, com um romeiro muito mais velho que já fez para cima de uma dúzia de romarias.
Quem os acolhe é pobre, mas tem a mesa posta com fartura, coisa que João nota enquanto saúda “seja louvado nosso Senhor Jesus Cristo”, e ouve a resposta “Seja para sempre louvado com Sua e nossa Mãe Maria Santíssima”. Encosta o bordão à parede, despe o xaile, tira das costas a saca com o pão e a garrafa de água, e deixa pelos ombros o lenço e ao pescoço o terço de contas de lágrimas e cruz de latão, em sinal de que é romeiro. A dona da casa traz uma bacia de água quente com sal, como é costume. João sente vergonha por ter de lavar os pés à vista de estranhos, mas o calor reconfortante da água acalma-lhe um pouco o ardor que lhe sobe deles pelas pernas acima.
Ao sentarem-se à mesa, anuncia que está a pão e água. […]
- Mas, a pão e água, é um sacrifício muito grande. O irmão não vai aguentar.
Havia de aguentar, sim. Por muito pior já passara, e a cruz de guerra de quarta classe era o testemunho desse tal milhão de horrores, porque um diploma assim só se dá a mortos ou aos que o foram quase.
Daniel de Sá, Ilha Grande Fechada

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2008

O 165º Aniversário do Nascimento dum Micaelense Ilustre

"Por saber e poder, que o homem comporte,
Somente o Amor harmónico pondera
A ideia e acção para vencer a morte."
Teófilo Braga, Doze de Inglaterra
© Museu da Presidência da República
TEÓFILO BRAGA
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Joaquim Teófilo Fernandes Braga [escritor, filólogo e político] nasceu em Ponta Delgada (S. Miguel), em 24 de Fevereiro de 1843.

Estudou Direito, em Coimbra. A partir de 1861, juntou-se à Geração de 70, grupo de intelectuais que criticava o estado da Nação e era a favor da implantação da República.

Quando, em 5 de Outubro de 1910, é proclamada a República, Teófilo Braga, que era deputado, foi escolhido para presidir ao Governo Provisório que governou Portugal, até ser eleito o primeiro Presidente da República.

Em menos de um ano, este Governo conseguiu: manter a ordem pública; tornar o novo regime mais forte e ser reconhecido pelos principais países estrangeiros; preparar as eleições para a Assembleia Constituinte, que elaboraria a Constituição Política da República Portuguesa. Os republicanos:

-Substituíram a bandeira (que, de azul e branca, passou a vermelha e verde);

-Adoptaram um novo hino nacional, A PORTUGUESA [nascida da onda de patriotismo que levantou os portugueses contra os ingleses, face ao Ultimato Inglês];

-Substituíram a moeda portuguesa, o real, pelo escudo;

-Reconheceram, aos trabalhadores, o direito à greve;

-Criaram novas leis da família, com mais direitos para as mulheres;

-Iniciaram uma reforma da Educação, estabelecendo o ensino obrigatório e gratuito, dos 7 aos 10 anos;

-Elaboraram a lei da separação da Igreja e do Estado.

Depois da Constituição ter sido aprovada e da eleição de Manuel de Arriaga [outro açoriano ilustre, mas do Faial] para primeiro Presidente da República Portuguesa, Teófilo Braga regressa ao seu lugar de deputado.

A 29 de Maio de 1915, depois dum complicado processo em que Manuel de Arriaga se vê obrigado a abandonar o cargo, Teófilo Braga vai substituí-lo, assumindo a presidência até à tomada de posse do novo presidente, Bernardino Machado, em 5 de Outubro de 1915.

Depois de abandonar a política, sozinho por morte dos seus familiares mais próximos, dedica-se à escrita. Ao longo da vida, escreveu mais de 300 livros.

Morre, no seu gabinete de trabalho, em Lisboa, em 28 de Janeiro de 1924.

"Como homem de máos instinctos que, forçada uma casa alheia, e entrando nella, lhe roubasse o melhor thesouro dos seus cofres, e sahisse com elle muito aconchegado ao peito, [...] assim nós, ha dias, sahiamos do gabinete de trabalho do nosso excellentissimo mestre, o snr. Theophilo Braga, depois de termos recebido da sua propria mão o primeiro volume da sua collecção, subordinada ao conceito de Alma portugueza, - que elle quiz iniciar, publicando primeiramente Os doze de Inglaterra. Era este livro o nosso thesouro que traziamos muito achegado ao peito.

Theophilo Braga pouco nos disse d'esta obra. [...]

O grande restaurador da litteratura portugueza dissera-nos apenas: - "Na minha obra, - dizem-me! - ha um sentimento patriotico que me consola." E mais nada.
Fernandes Agudo, THEOPHILO BRAGA e a "ALMA PORTUGUEZA",
Porto, Livraria Chardron, de Lello & Irmão, Editores, 1902
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Nesta fase tão pessimista da vida nacional, é bom lembrar homens generosos e honestos que lutaram por um Portugal mais justo e igual. Independentemente, dos resultados obtidos, tiveram um sonho grande e "viram e amaram a alma" da Nação portuguesa.

sábado, 23 de fevereiro de 2008

Seguir a UTOPIA

José Afonso [2 de Agosto de 1929 - 23 de Fevereiro de 1987]
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UTOPIA
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Cidade
Sem muros nem ameias
Gente igual por dentro
Gente igual por fora
Onde a folha da palma
Afaga a cantaria
Cidade do homem
Não lobo mas irmão
Capital da alegria
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Braço que dormes
Nos braços do rio
Toma o fruto da terra
É teu, a ti o deves,
Lança o teu
Desafio
*****
Homem que olhas nos olhos
Que não negas
O sorriso, a palavra forte e justa
Homem para quem
Nada disto custa.
Será que existe,
Lá para os lados do Oriente,
Este rio, este rumo, esta gaivota.
Que outro fumo deverei seguir
Na minha rota?

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2008

30.º Aniversário da Morte VITORINO NEMÉSIO

Vitorino Nemésio, nascido em 19 de Dezembro de 1901, na Praia da Vitória (Ilha Terceira), morreu em Lisboa, no dia 20 de Fevereiro de 1978, tendo sido sepultado em Coimbra. Quem não se recorda do seu programa, na RTP, "Se bem me lembro..."? Só os mais novos é que podem não se lembrar...
Deixou uma vasta e variada obra.

"Mau Tempo no Canal", a sua grande obra em prosa, publicado em 1944, é considerado um dos maiores romances portugueses do século XX.

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Feio e teimoso bicho! Mas bicho firme, de um só rosto e de uma só fé — a fé refeita e salgada do fundo do Oceano Atlântico.”
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«Sou ilhéu; e, tanto ou mais do que a ilha, o ilhéu define-se por um rodeio de mar por todos os lados. Vivemos de peixe, da hora da maré e a ver navios... Na infância e na adolescência era o meu mais belo espectáculo. Quase todas as casas abastadas, nos Açores, estavam munidas de um velho óculo de alcance, e algumas de binóculos, com que se seguiam as chaminés dos paquetes e as árvores dos veleiros molhadas na linha do horizonte. Na nossa casinha de campo, na Vinha do Mão Roxa, sobre os vinhedos e lavas lambidas ao longe pela ressaca, meu pai, — músico e um pouco poeta, — trepava à varanda do telhado, sacava do grande búzio, ao pôr do sol, e metendo e tirando a mão direita na rosca corada do calcário, tirava-lhe dois aulidos alternos e melancólicos, intencionalmente repetidos, sinal de vida isolada dado à vizinhança do longe.”

Vitorino Nemésio, “Corsário das Ilhas

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2008

EDUARDO BETTENCOURT PINTO

Eduardo Bettencourt Pinto nasceu na Gabela, Sul de Angola, em 1954. Viveu em vários países após 1975, residindo actualmente no Canadá. É funcionário estadual, consultor informático e editor da revista literária “Seixo review”, na Internet. Escreve para publicações no Canadá, Estados Unidos, Portugal e Brasil. Publicou vários livros de poesia e ficção. ******************** Graças ao Urbano Bettencourt, descobri este outro Bettencourt, cuja família, presumo, é originária do Nordeste.
Dele diz Urbano: É por isso que me sinto grato ao Eduardo Bettencourt Pinto pela sua poesia destes anos, com a qual ele nos tem revelado a harmonia do mundo para lá das ruínas e das sombras do quotidiano, ao mesmo tempo que com ela fomos descobrindo outros sentidos para a língua que falamos.
********************
Um Amigo
********
Há uma casa no olhar
de um amigo.
Nela entramos sacudindo a chuva.
Deixamos no cabide o casaco
fumegando ainda dos incêndios do dia.
Nas fontes e nos jardins
das palavras que trazemos
o amigo ergue o cálice
e o verão
das sementes.
Então abre as janelas das mãos para que
cantem
a claridade, a água
e as pontes da sua voz
onde dançam os mais árduos esplendores.
***
Um amigo somos nós, atravessando o olhar
e os véus de linho sobre o rosto da vida
nas tardes de relâmpagos e nos exílios,
***
onde a ira nómada da cidade arde
como um cego em busca de luz.
Eduardo Bettencourt Pinto, "Da Outra Margem"

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2008

"Era um génio e era um santo"

ANTERO DE QUENTAL
[Ponta Delgada, 18 de Abril de 1842
Ponta Delgada, 11 de Setembro de 1891]

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TENTANDA VIA
****************
I
***
Com que passo tremente se caminha
Em busca dos destinos encobertos!
Como se estão volvendo olhos incertos!
Como esta geração marcha sozinha!
***
Fechado, em volta, o céu! o mar, escuro!
A noite, longa! o dia, duvidoso!
Vai o giro dos céus, vem vagaroso...
Vem longe ainda a praia do futuro...
***
É a grande incerteza, que se estende
Sobre os destinos dum porvir, que é treva...
É o escuro terror de quem nos leva...
O futuro horrível que das almas pende!
***
A tristeza do tempo! o espectro mudo
Que pela mão conduz... não sei aonde!
– Quanto pode sorrir, tudo se esconde...
Quanto pode pungir, mostra-se tudo. -
***
Não é a grande luta, braço a braço,
No chão da Pátria, à clara luz da História...
Nem o gládio de César, nem a glória...
É um misto de pavor e de cansaço!
***
Não é a luta dos trezentos bravos,
Que o solo amado beijam quando caem...
Crentes que traz um Deus, e à guerra saem,
Por não dormir no leito dos escravos...
***
É a luta sem glória! é ser vencido
Por uma oculta, súbita fraqueza!
Um desalento, uma íntima tristeza
Que à morte leva... sem se ter vivido!
***
Não há aí pelejar... não há combate...
Nem há já glória no ficar prostrado –
São os tristes suspiros do Passado
Que se erguem desse chão, por toda a parte...
***
É a saudade, que nos rói e mina
E gasta, como à pedra a gota d'água...
Depois, a compaixão, a íntima mágoa
De olhar essa tristíssima ruína...
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Tristíssimas ruínas! Entristece
E causa dó olhá-las – a vontade
Amolece nas águas da piedade,
E, em meio do lutar, treme e falece.
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Cada pedra, que cai dos muros lassos
Do trémulo castelo do passado,
Deixa um peito partido, arruinado,
E um coração aberto em dois pedaços!
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II
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A estrada da vida anda alastrada
De folhas secas e mirradas flores...
Eu não vejo que os céus sejam maiores,
Mas a alma... essa é que eu vejo mais minguada!
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Ah! via dolorosa é esta via!
Onde uma Lei terrível nos domina!
Onde é força marchar pela neblina...
Quem só tem olhos para a luz do dia!
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Irmãos! irmãos! amemo-nos! é a hora...
É de noite que os tristes se procuram,
E paz e união entre si juram...
Irmãos! irmãos! amemo-nos agora!
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E vós, que andais a dores mais afeitos,
Que mais sabeis à Via do Calvário
Os desvios do giro solitário,
E tendes, de sofrer, largos os peitos;
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Vós, que ledes na noite... vós, profetas...
Que sois os loucos... porque andais na frente...
Que sabeis o segredo da fremente
Palavra que dá fé – ó vós, poetas!
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Estendei vossas almas, como mantos
Sobre a cabeça deles... e do peito
Fazei-lhes um degrau, onde com jeito
Possam subir a ver os astros santos...
***
Levai-os vós à pátria-misteriosa,
Os que perdidos vão com passo incerto!
Sede vós a coluna de deserto!
Mostrai-lhes vós a Via-dolorosa!
***
III
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Sim! que é preciso caminhar avante!
Andar! passar por cima dos soluços!
Como quem numa mina vai de bruços
Olhar apenas uma luz distante!
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É preciso passar sobre ruínas,
Como quem vai pisando um chão de flores!
Ouvir as maldições, ais e clamores,
Como quem ouve músicas divinas!
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Beber, em taça túrbida, o veneno,
Sem contrair o lábio palpitante!
Atravessar os círculos do Dante,
E trazer desse inferno o olhar sereno!
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Ter um manto da casta luz das crenças,
Para cobrir as trevas da miséria!
Ter a vara, o condão da fada aérea,
Que em ouro torne estas areias densas!
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É, quando, tem temor e sem saudade,
Puderdes, dentre o pó dessa ruína,
Erguei o olhar à cúpula divina,
Heis-de então ver a nova-claridade!
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Heis-de então ver, ao descerrar do escuro,
Bem como o cumprimento de um agouro,
Abrir-se, como grandes portas de ouro,
As imensas auroras do Futuro!
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Aconselho ouvir "A NOITE", de
José Mário Branco, com base neste
poema do meu "enorme" e amado Antero

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2008

PORQUE OS AFECTOS SÃO O MAIS IMPORTANTE DA VIDA...

Para todos os meus amigos
e amigas, desejo o que há
de melhor no mundo:
O AMOR PERFEITO!

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2008

Porque tudo na vida é política...

Carta Aberta ao Presidente Carlos César
Vivi alguns anos em S. Miguel e apaixonei-me, sem remédio pelas “Ilhas”. Os Açores são, para mim, uma espécie de Paraíso que eu gostaria de ver como símbolo do que é bom e belo no Planeta. Infelizmente, não restam muitos lugares assim.
Os Açorianos, por vezes, pensam que vivem mal, que precisam de se tornar iguais aos outros para serem felizes. Como se enganam! A qualidade da vida que têm é um bem que muitos gostariam de ter. É evidente que há coisas a melhorar e que todas as pessoas têm direito aos bens essenciais e a viver com dignidade.
As notícias que me têm chegado nos últimos dias, contudo, fazem-me temer o futuro das minhas “Ilhas Encantadas”.
Transcrevo apenas excertos de artigos de dois jornais. Quero esclarecer que, nomeadamente no caso do artigo (completo) do Tomaz Dentinho, não me liga ao seu autor qualquer afinidade política. Pelo contrário, faz afirmações e tem opiniões com as quais estou em absoluto desacordo. No entanto, tenho de reconhecer que tem razão nos dois ou três aspectos que cito.
Dirijo-me ao Senhor Presidente porque, apesar de me situar à esquerda do Partido a que pertence, reconheço no senhor um homem de bem, digno e sério. Sobretudo, acredito que quer o melhor para a sua região. No entanto, nem sempre o melhor é o dinheiro (“Ah! Mònim dum corisco!) ou a subserviência.
Por favor, proteja as nossas ilhas da cobiça e dos interesses estrangeiros e da incompetência nacional! Não queira ficar na História por colaborar em verdadeiros atentados, esses sim, contra a Humanidade.
Terá, com certeza, muita gente a apoiá-lo na luta para travar os disparates do Governo Central e a ganância prepotente dos que se julgam senhores do Mundo.
Quero dizer-lhe que uma das coisas que, ainda hoje, mais me magoa é ver o nome dos Açores associado à Invasão do Iraque.
As ilhas dos Açores transmitem harmonia, paz, serenidade, bem-estar. É esse o papel de que a Natureza as incumbiu: o de transmitir aos Homens a esperança de que ainda é possível ser feliz na Terra.
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Face à possibilidade de ser criada nos Açores uma base de treino para os novos caças norte-americanos e para o sistema de armamento de mísseis hipersónicos, “a região está disponível para aceitar que a Base das Lajes tenha novas funcionalidades de futuro, no âmbito da relação bilateral que já existe entre os EUA e Portugal”. Quem o diz ao Destak é o representante do Governo Regional na Comissão Bilateral Permanente do Acordo das Lajes.
André Bradfort acrescenta, no entanto, que “esta hipótese terá de ser avaliada na presença de um projecto concreto” e que ainda é muito cedo para se falar disso. […]
As conversações entre os dois países foram ontem confirmadas pela embaixada dos EUA em Lisboa. Em declarações à TSF, coube ao conselheiro para a imprensa e cultura da Embaixada dos EUA, Wesley Carrington, garantir que “tem havido conversações”, mas não “negociações” sobre esta ideia, que também tem sido explorada com outros parceiros da NATO. […]
No entanto, o Ministério da Defesa, contactado pelo Destak, negou a existência de “conversações directas ou indirectas” sobre a criação de uma base de treinos militares dos EUA nos Açores. Este ministério sublinha ainda que, até ao momento, não chegou ao gabinete qualquer pedido sobre esta matéria.
Patrícia Susano Ferreira (jornal Destak)
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As notícias são recentes e angustiantes: a condescendência ao Tratado Europeu que transfere para a competência comunitária a gestão exclusiva da biodiversidade marinha; o último acordo Luso-espanhol que permite a invasão de atuneiros espanhóis nos mares dos Açores; e, para finalizar, a perspectiva de criar nos Açores uma base americana para testes de armas com óbvios impactos nos recursos marinhos, na potencialidade logística e na atractividade turística. […]
Mas se o mar está a ser alienado para os Europeus, a posição estratégica e a potencialidade turística está a ser dada aos americanos. Venham os testes de armas para os mares dos Açores para que o ruído dos jactos americanos perturbe os passeios pedestres dos turistas europeus e se demonstre que a biodiversidade marinha, vendida aos europeus, pode ser perturbada pelos americanos em retirada do Médio Oriente. Os estrategas nacionais querem assim balancear as forças de um lado e de outro do Atlântico. Ficam contentinhos com um passeio a Washington e com alguma sucata que nos chegue do desastre iraquiano. Porventura o que nos resta é sair da Europa para salvar Portugal.
Tomaz Dentinho (jornal A União)