domingo, 17 de agosto de 2008

TABACARIA AÇORIANA

A Tabacaria Açoriana, quando o Gil ainda não tinha aberto, primeiro, o seu café, e depois a livraria, era ponto de encontro e local de tertúlia, principalmente aos domingos de manhã, para alguns especialistas de tudo e coisa nenhuma. À volta de um café e folheando jornais da terra, formavam-se grupos cujos elementos iam trazendo à baila acontecimentos locais, merecedores de comentário mexeriqueiro, no geral tudo gente aspirante a classe média.

Pontificava nessas manhãs, o Sargento Carradas, músico na Banda regimental, assim conhecido por ter sempre "carradas de razão", em tudo o que discutia. Era um homem dos mais prolixos que conheci, falava de tudo: de astronomia, navegação, invenções, e de… siderurgia.
Um dia, dissertando o Carradas sobre a produção de aço em Portugal (que não existia na época, a Siderurgia do Seixal só foi criada mais tarde) entusiasmado pela sua imaginação, e partindo de alguns elementos que conhecia sobre a matéria, começou a descrever como eram os "altos fornos" portugueses:
- Diz-se altos, pelas elevadas temperaturas necessárias à produção do aço.
Estava presente o meu pai, mestre do Ensino Técnico, homem circunspecto, de ouvir mais do que falar, mas que, na ocasião, não se conteve, e disse:
- Ó sargento, olhe que em Portugal não temos altos fornos, o ferro e aço com que trabalhamos é importado.O nosso músico não se atrapalhou, e retorquiu:
- Mestre Leonel, os nossos não são, de facto, muito altos, são mais baixos, mas existem!..
Era assim o Carradas.
A Açoriana tinha outra virtude, essencial para alguns dos jovens da minha geração: era um local de compra de livros e jornais do Continente; lá comprei, entre outros, o livro de Homem de Mello que, antes de Spínola, criticava a política africana. E lá passava, sempre expectante, para ver se já tinham chegado os jornais. O dono da Tabacaria era o Sr. Fernando que, felizmente, deixou o bichinho cultural aos filhos, seus sucessores no negócio, e anos mais tarde, organizadores de uma Feira do Livro, nas instalações da Tabacaria, que julgo ter sido pioneira em S. Miguel.
João Coelho [1]
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[1] Os meus agradecimentos a João Coelho por este precioso texto, que teve a gentileza de me autorizar a publicar aqui.

7 comentários:

Elisabete disse...

O Daniel de Sá pediu-me para publicar o seguinte comentário:

"Bela evocação esta que o João Coelho faz daquele lugar de tertúlia onde todos eram sábios, como se prova pela famosa figura do sargento Carradas. Também apareci pela Tabacaria muitas vezes, mas num tempo em que já havia siderurgia em Portugal.
Obrigado ao João e à Elisabete por me terem proporcionado uns momentos de nostálgico contentamento.
Um abraço.
Daniel"

*****
Eu é que agradeço.Prezo muito a vossa colaboração.Com amigos destes não é difícil manter blogues interessantes.

ALMARIADA disse...

"Mas um homem entrou na Tabacaria (para comprar tabaco?)
E a realidade plausível cai de repente em cima de mim.
Semiergo-me enérgico, convencido, humano,
E vou tencionar escrever estes versos em que digo o contrário.


Acendo um cigarro ao pensar em escrevê-los
E saboreio no cigarro a libertação de todos os pensamentos.
Sigo o fumo como uma rota própria,
E gozo, num momento sensitivo e competente,
A libertação de todas as especulações
E a consciência de que a metafísica é uma consequência de estar mal disposto.


Depois deito-me para trás na cadeira
E continuo fumando.
Enquanto o Destino mo conceder, continuarei fumando."

Excerto da "Tabacaria" de Álvaro de Campos por causa da relação entre tabaco e cultura ;)

Gostei muito deste post. Obrigada!

Elisabete disse...

Almariada,
Muito obrigada pela sua participação.
Volte sempre!

ALMARIADA disse...

Vou pôr este blog nos blogs amigos do meu... espero que não se importe! :)

joão coelho disse...

No Largo 2 de Março tínhamos um Café, o do sr.Figueiredo, coisa antiga, com porta principal dando para um balcão de mármore e, atrás, um belo armário em madeira escura, com talha. O proprietário, homem de idade, careca e com óculos, não era de muitas falas, mas simpático. Nas zonas laterais, duas salas, uma ampla, a outra mais pequena. No espaço maior, jogava-se às damas e ao xadrez, coisa que, miúdo, me impressionava, pela imobilidade e ar reflexivo dos jogadores envolvidos na luta entre peões, bispos e torres; fazia-me confusão como se fazia um jogo que, aparentemente, não se jogava...A sala mais pequena servia para os fregueses mais amigos do café acompanhado a conversa. Estando perto da minha casa, ia com frequência ao Café Figueiredo "fazer recados", normalmente a mando do meu pai: "João, vai ali ao café e compra-me 5 tostôes de Sta. Justa, de rolo.." Lá ia eu, aviar o recado - naquele tempo os cigarros vendiam-se avulso - aproveitando para espreitar os xadrezistas, a ver se mexiam aqueles bonecos, finalmente - e, esperando, secretamente, encontrar alguma das meninas da Rua do Beco ( a rua da prostituição ) ou, melhor dito, uma delas, que me fascinava..Mulher alta, elegante, com meias de nylon com risca perna acima, sempre maquilhada, com um aspecto que me fazia lembrar uma mistura de Katherine Hepburn com Jane Russel (influência das "matinées" do Coliseu) e que, vendo o meu ar de miúdo desvanecido, me sorria, sorriso leve, mas sorriso..
O sr.Figueiredo consentia que as meninas frequentassem o café, para comprar tabaco ou perfume "Tabu", e até permitia que tomassem um café na sala mais pequena, com duas condições: que não demorassem e que não abrissem perspectivas de trabalho com os circundantes..regras que elas cumpriam escrupulosamente. Era uma atitude do proprietário pouco comum, num tempo de moral pesada, asfixiante, marcada pela enorme influência da Igreja de Roma..e com ela o sr. Figueiredo ficou, para sempre, na minha memória, como um exemplo de tolerância.
Chegados os anos 60, mudando de mãos o café, veio a "modernidade"..obras, paredes abaixo, espaço corrido, plásticos e expositores, acabou o xadrez, mantiveram-se as tertúlias,já mais sérias e politizadas.. que o salazarismo, por muito que quizesse, não conseguia tapar os "ares" trazidos por esses anos em que tudo aconteceu; o tabaco avulso desapareceu, chegou o de filtro - os primeiros foram os "Clipper" - e as meninas da Rua do Beco deixaram de frequentar o Café Figueiredo..que também já não vendia o "Tabú "...E eu deixei de lavar os olhos naquela senhora alta, elegante, que me parecia saída do "ecran" do Coliseu e que me sorria, discretamente, com uma subtileza que punha o meu coração quase adolescente a flamejar..
Nunca soube o nome dela, mas, para mim, estaria bem Jane Hepburn.

Saudações marinheiras

João Coelho

LuCe disse...

Ainda hoje a Tabacaria Açoriana tem o seu ambiente característico. Desde pequeno que lá vou e é sempre um sítio onde me sinto bem.

tiago disse...

caros....

gostaria de saber se vendem charutos na tabacaria...


comprimentos...