quarta-feira, 25 de abril de 2012

segunda-feira, 23 de abril de 2012

Senhor Santo Cristo dos Milagres


Recebi do meu muito querido amigo Daniel de Sá, um texto cujo objectivo é desfazer alguns erros que vão sendo aceites, ao longo do tempo, por deficiente pesquisa/interpretação dos factos. Eu própria repeti a história tradicional, em post anterior, e vou agora retificá-la. Os meus agradecimentos a Daniel de Sá.

Sobre o Senhor Santo Cristo
(A propósito de uma notícia publicada na imprensa)

Com o respeito devido a quem terá dado as informações constantes em notícia deste jornal (08/02/2012), sobre as próximas festas do Senhor Santo Cristo dos Milagres, tento, uma vez mais, chamar a atenção para os erros óbvios que a história tradicional de tão sagrada devoção contém.
Em tal notícia se repete uma evidente impossibilidade, a de que a primeira procissão tenha sido em 1700. Desse cortejo, quase espontâneo, sabe-se que foi a onze de Abril e em dia de trabalho. E, naquele ano de 1700, o dia onze de Abril foi Domingo de Páscoa.
Também é dito que a procissão se repete há mais de três séculos, sempre no quinto Domingo depois da Páscoa. No entanto, a primeira terá sido, provavelmente, na 6ª-feira que se seguiu ao Domingo de Pascoela de 1698, e a segunda no Sábado, 16 de Dezembro (e não 17, como diz o padre José Clemente no livro sobre a vida de Madre Teresa) de 1713, para implorar a Deus o fim de uma crise sísmica em São Miguel. Da terceira e das seguintes nada se sabe. Nem o ano nem o dia. Mas não terão acontecido pelo menos na primeira metade do século XVIII.
A lenda da origem da belíssima imagem continua também a sobrepor-se à razão mais elementar. A versão tradicional é a de haver sido oferta do Papa Paulo III, feita a duas jovens que teriam ido a Roma pedir a bula para fundação do mosteiro de Nossa Senhora da Conceição, em Vale de Cabaços. Eis, sintetizadas, as razões que nos dão a certeza de que tal viagem não se verificou:
Era impensável, naquele tempo, quase impossível, a ida de duas jovens dos Açores a Roma;
Gaspar Frutuoso, que conta em pormenor a criação do convento, não alude a qualquer viagem ao Vaticano, seja delas ou de alguém por elas;
O convento foi fundado durante um terrível período de peste em São Miguel, desgraça que se seguiu à subversão de Vila Franca, tendo terminado apenas em 1530, tempo durante o qual a ilha esteve isolada, só se verificando para o exterior as viagens absolutamente essenciais;
Finalmente, e razão que bastaria para negar a origem atribuída a tão sagrada imagem, o Papa Paulo III foi eleito em 13 de Outubro de 1534, depois, portanto, de construído o convento.

P.S. – É estranho que, sendo os factos que negam a história tradicional tão evidentes, a lenda se tenha mantido até agora, e sabe Deus até quando. Por um lado, têm o muito frágil suporte do livro do padre José Clemente, um bem intencionado que parece que nunca esteve sequer em São Miguel, ilha a respeito da qual estava convencido de que nevava. Por outro lado, há a autoridade muito respeitável de Urbano de Mendonça Dias. Mas o ilustre investigador a quem tanto devemos também se enganou algumas vezes, como é óbvio no caso da data da primeira procissão do Senhor Santo Cristo. Ou, por exemplo, quando escreveu que a Maia não foi elevada a vila por ter sido em grande parte destruída por um incêndio. Ora aquele notável investigador fez, neste ponto, uma grave confusão. Gaspar Frutuoso, usando a linguagem do tempo, tanto se referia a um vulcão como terramoto ou como incêndio. E é assim que explica que a Maia teria sido vila se “não fora o incêndio segundo”, ou seja, a erupção da lagoa do Fogo, em 1563, cujas cinzas destruíram searas e outras culturas, deixando a terra estéril durante alguns anos.

Daniel de Sá

quarta-feira, 18 de abril de 2012

170º Aniversário do Nascimento de Antero de Quental


TENTANDA VIA

I

Com que passo tremente se caminha
Em busca dos destinos encobertos!
Como se estão volvendo olhos incertos!
Como esta geração marcha sozinha!

Fechado, em volta, o céu! o mar, escuro!
A noite, longa! o dia, duvidoso!
Vai o giro dos céus, vem vagaroso...
Vem longe ainda a praia do futuro...

É a grande incerteza, que se estende
Sobre os destinos dum porvir, que é treva...
É o escuro terror de quem nos leva...
O futuro horrível que das almas pende!

A tristeza do tempo! o espectro mudo
Que pela mão conduz... não sei aonde!
– Quanto pode sorrir, tudo se esconde...
Quanto pode pungir, mostra-se tudo. -

Não é a grande luta, braço a braço,
No chão da Pátria, à clara luz da História...
Nem o gládio de César, nem a glória...
É um misto de pavor e de cansaço!

Não é a luta dos trezentos bravos,
Que o solo amado beijam quando caem...
Crentes que traz um Deus, e à guerra saem,
Por não dormir no leito dos escravos...

É a luta sem glória! é ser vencido
Por uma oculta, súbita fraqueza!
Um desalento, uma íntima tristeza
Que à morte leva... sem se ter vivido!

Não há aí pelejar... não há combate...
Nem há já glória no ficar prostrado –
São os tristes suspiros do Passado
Que se erguem desse chão, por toda a parte...

É a saudade, que nos rói e mina
E gasta, como à pedra a gota d'água...
Depois, a compaixão, a íntima mágoa
De olhar essa tristíssima ruína...

Tristíssimas ruínas! Entristece
E causa dó olhá-las – a vontade
Amolece nas águas da piedade,
E, em meio do lutar, treme e falece.

Cada pedra, que cai dos muros lassos
Do trémulo castelo do passado,
Deixa um peito partido, arruinado,
E um coração aberto em dois pedaços!

II

A estrada da vida anda alastrada
De folhas secas e mirradas flores...
Eu não vejo que os céus sejam maiores,
Mas a alma... essa é que eu vejo mais minguada!

Ah! via dolorosa é esta via!
Onde uma Lei terrível nos domina!
Onde é força marchar pela neblina...
Quem só tem olhos para a luz do dia!

Irmãos! irmãos! amemo-nos! é a hora...
É de noite que os tristes se procuram,
E paz e união entre si juram...
Irmãos! irmãos! amemo-nos agora!

E vós, que andais a dores mais afeitos,
Que mais sabeis à Via do Calvário
Os desvios do giro solitário,
E tendes, de sofrer, largos os peitos;

Vós, que ledes na noite... vós, profetas...
Que sois os loucos... porque andais na frente...
Que sabeis o segredo da fremente
Palavra que dá fé – ó vós, poetas!

Estendei vossas almas, como mantos
Sobre a cabeça deles... e do peito
Fazei-lhes um degrau, onde com jeito
Possam subir a ver os astros santos...

Levai-os vós à pátria-misteriosa,
Os que perdidos vão com passo incerto!
Sede vós a coluna de deserto!
Mostrai-lhes vós a Via-dolorosa!

III

Sim! que é preciso caminhar avante!
Andar! passar por cima dos soluços!
Como quem numa mina vai de bruços
Olhar apenas uma luz distante!

É preciso passar sobre ruínas,
Como quem vai pisando um chão de flores!
Ouvir as maldições, ais e clamores,
Como quem ouve músicas divinas!

Beber, em taça túrbida, o veneno,
Sem contrair o lábio palpitante!
Atravessar os círculos do Dante,
E trazer desse inferno o olhar sereno!

Ter um manto da casta luz das crenças,
Para cobrir as trevas da miséria!
Ter a vara, o condão da fada aérea,
Que em ouro torne estas areias densas!

É, quando, tem temor e sem saudade,
Puderdes, dentre o pó dessa ruína,
Erguei o olhar à cúpula divina,
Heis-de então ver a nova-claridade!

Heis-de então ver, ao descerrar do escuro,
Bem como o cumprimento de um agouro,
Abrir-se, como grandes portas de ouro,
As imensas auroras do Futuro!

Antero de Quental
[Ponta Delgada, 18 de Abril de 1842-Ponta Delgada, 11 de Setembro de 1891]

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

Única entre todas, e Mulher

“Preciso dela e do seu bem, para que não mais volte a acontecer-me isto de estar como perante a morte e ter o grande medo de morrer sozinho nesta casa. Ou para que o meu amor não envelheça de novo. Porque a gente gasta-se. A gente encosta-se a esta espécie de muros do acaso, apoia neles um ombro, um simples dedo cansado, e pensa:
- Nunca soube, nunca aprendi a namorar esta mulher para toda a vida. Nunca a levei comigo a ver o mar ou o voo das pombas que atravessam as manhãs e tornam o dia claro e profundo de azul.”
Tudo, no seu amor, se alterara já até ao aspecto próximo das nuvens que habitam as casas silenciosas dos velhos, com móveis de pessoas que eles não tivessem conhecido ou fossem ainda mais antigos do que eles. A gente pensa, sabem?, que a nossa carne se foi transformando aos poucos numa simples forma de estar sem imaginação. Por hábito. Como a caca há tantos anos caída na mesma retrete comum. Como a mesa, a cama, o perfil nocturno das ruas que se avista da janela. Pensa tudo. Pensa por exemplo que todas as coisas, e nós nelas, se foram gastando, esvaziando de si mesmas, e não sabe nunca desde quando nem porquê. Pensa que talvez alguém devesse ter chegado e não veio; alguém se esqueceu para sempre de nós a meio de um areal que se transformou em deserto e tem somente o som da nossa voz. […]
*
O homem estava pois escrevendo,
- Não sei por que raio me casei com ela, não sei como me aconteceu ter ancorado precisamente nesta casa e não noutra, nestes móveis, nos beijos rápidos dos meninos que me chamam papá, no corpo morno da mulher morena, volumosa e cada vez mais ácida, não sei quase nada a respeito dos meus sonhos perdidos, […]
*
Preciso tanto e tão-só de ti, meu Amor, como no dia em que supus a tua chegada à sala dos professores.
Mas, como sabes, existem também os meses que nem sempre regressam, embora os seus nomes se repitam. Talvez – quem sabe? – o mês de Outubro já não esteja longe, e possa juntar-nos a outros animais docentes, aos seus jogos de mesa, ao cão morto no fundo do estômago que são os almoços pobres, secos e envergonhados. Talvez Outubro, se chegar, torne oportuno o dia em que hei-de conhecer-te pela primeira vez.
Por enquanto, permaneço eu, do lado de cá, amando uma e outra, e todas as mulheres, e admirando daqui a graça, o pudor, a beleza doce daquela que dorme, loira branca e pequena. Tanto a adoro e venero e trago comigo, que a sinto em redor de mim, sempre numerosa e minha, tentando eu multiplicá-la para a poder encontrar em todos os lugares e a todos os momentos.
Quanto a ti, meu Amor, sabes que estou escrevendo um livro.
Sempre que me ponho a escrever-te um livro, começo pela absoluta, repetida necessidade de inventar-te. De repetir-te. De voltar sempre e só a ti. Pássaro e anjo.
Não é verdade, meu Amor, que a principal vocação dos pássaros – e também do anjos – é voar?
***
João de Melo, in Entre Pássaro e Anjo

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

A Boneca Muda

Criara seis filhos. Sentavam-se à mesa quase sempre com uma fome já de horas, e raramente se levantavam saciados. O costume, em casa de pobres...
Os cinco mais velhos haviam emigrado, a mais nova fora viver para a grande cidade. Envelhecera mais o seu homem. Sozinhos, como no princípio, diziam-lhe as amigas a confortá-la. Não era nada... Teimou em não deixar a sua casa, quando o marido morreu. Mas a insistência da filha, aliada à doença que lhe enfraquecia os ossos e os fazia doer todos, convenceu-a contra a sua própria vontade. Arrastava as pernas e a vida entre o sofá e a janela. Olhando a loucura buliçosa da rua, era como se ela mesma fosse um daqueles manjericos que imitam a grandeza da planície em meio punhado de terra num vaso de plástico.
No primeiro Natal que passou enclausurada no cimento do progresso apressado, quis oferecer uma prenda à neta. Tinha ainda na ponta dos dedos a recordação da agulha e do dedal, e nas memórias da infância as grandes alegrias das pequenas coisas. Quando a filha percebeu que ela estava a fazer uma boneca de trapos, perguntou-lhe com um desdém agressivo: "Para quem é isso?" Com estranheza, porque a pergunta lhe pareceu desnecessária, respondeu: "É para a nossa menina. Para quem é que havia de ser?..."
Ouviu a habitual enxurrada de palavras do mau humor da filha e da sua impaciência. Que estava cada vez pior, que o juízo não tinha conserto, que não havia paciência para sofrer os seus disparates, que não percebia que os tempos tinham mudado... Que era um trabalho inútil, que a neta não ia ligar a um traste daqueles, que mesmo que gostasse da boneca não a deixaria brincar com ela, porque era uma vergonha pois as amigas só iam ter ofertas caras e a sua pequena também, que não era menos do que as outras. O fim da boneca era o lixo, para onde queria levá-la imediatamente.
Nada podia contra o vendaval dos novos tempos que enchia a cabeça da filha. Pediu apenas, numa súplica de submissão: "Deixa-me primeiro acabá-la. Depois, faz o que quiseres". Ouviu uns resmungos de incompreensão mal-humorada, e viu-a sair do quarto batendo a porta.
A filha cumpriu a promessa com que a ameaçara. A bocarra aberta do contentor deixava à vista a boneca sobre aquele excesso de lixo que anunciava o Natal. Uma das diferenças mais evidentes destes outros tempos eram os desperdícios da festa.
Acabara de se pôr à janela, quando viu uma criança recolher a boneca e sacudir algum lixo que se lhe pegara, apertando-a depois ao peito a embalá-la. Ao passar em frente da janela, perguntou-lhe: “Falas com a tua menina?” A pequena olhou-a surpreendida, e respondeu: “Ela não fala!” Com a satisfação de ver que o seu trabalho não fora inútil, disse-lhe: "Não fala, mas ouve." A criança sorriu-lhe, aconchegou a boneca ao peito, e afastou-se falando-lhe ao ouvido, mas de modo que ainda pôde compreender o que ela disse. "Vês...? A senhora não percebeu que te encontrei no lixo. Não vamos dizer a ninguém, para não fazerem pouco de ti. Está bem?..."
Daniel de Sá, in O Deus dos Últimos
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Nota de Daniel de Sá, a que tiro o chapéu.
Não faço parte dos que se entusiasmaram com o Acordo Ortográfico. Por isso, ao rever estes contos, optei por uma espécie de greve de zelo. Retirei todas as palavras abrangidas pelo dito, substituindo-as por sinónimos ou mudando a frase, porque a Língua Portuguesa é maior do que o Acordo e tem soluções para tudo.
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quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

O Homem Suspenso

Pior do que do sonho ou da evidência da sua casa, um homem pode sentir-se expulso de si mesmo, da sua vida, da certeza de na casa ter vivido uma história verdadeira, o seu caso de amor. Com ele, porém, acontece muito mais do que isso. Um acto de pura e definitiva exclusão; um apagamento dos seus passos, a perda da própria sombra, uma quase solvência do corpo da arte de ser e da sua condição de homem.
O mesmo vento fatídico e acidental o afastou do coração e do desejo de Carminho, assim como do contrato e do tempo daquela que sempre fora uma casa para o entendimento do amor como única salvação. Carminho fora ao tempo de esquecer os ressentimentos que contra ele acumulara ao longo de anos. Para ele, isso significou um recuo ao princípio da memória, até à declaração da sua inexistência. Como se passasse da condição de vivo ao absurdo de nunca ter existido.
Não deve haver pior humilhação do que essa, ver-se um homem excluído de tudo aquilo em que um dia acreditou: a casa, a vida, a certeza daquela suave e descuidada alegria que até então morava no coração da sua mulher. Soube-o com a mesma fria e total evidência: deixara de merecer a atenção e o desejo dela, ia pois começar a morrer.
[…]
Para ela, a única infidelidade seria sempre de outra ordem. Por exemplo, […] O esquecimento de tudo o que entre ambos devia permanecer vivo e essencial. As suas faltas de atenção. […] De resto fora a própria Carminho quem lho dissera vezes sem conta. Saturada das suas íntimas obrigações conjugais. Alegando que ele deixara de ser para ela um marido, para tão-só se refugiar, como um hóspede, na habitação e na ordem da casa. Vivia sob o disfarce de um comportamento em duplo, sem reparar nela, já sem lhe ser afável nem afectuoso […].
Quando na vida de um homem finda a atenção da mulher que durante anos o amou, ele conhece o princípio e o fim do seu próprio mundo, o pânico da morte, o precipício da evidência e da perdição.
Mas não só da casa ela o vinha expulsando. Também do centro convulso e do firmamento turvo e atribulado da sua vida. Saber até que ponto será esse também o apagamento dos seus passos, dos seus longos amados bons sentimentos, de tudo o que aprendeu com o mundo, isso só o tempo o dirá.
João de Melo, O Homem Suspenso [1996]

quinta-feira, 17 de novembro de 2011

Ainda e sempre ANTERO

Finalmente, para os Estados Unidos, tanto tempo passado sobre aquela aventurosa viagem no Carolina, já nos seus quarenta e quatro anos, terá Antero verdadeiramente pensado em ir viver. Desejo corrente habitual em tantos açorianos, quantas vezes tornado realidade, ou apenas um projecto idealizado sem qualquer hipótese prática de concretização?

O certo é que em Fevereiro de 1886, respondendo a João Machado de Faria e Maia que então projectava fixar-se na Califórnia, escrevia-lhe: “Se se realizarem os teus planos californianos, talvez um dia vá lá juntar-me contigo, buscando mais largos horizontes, se não para mim, para aquelas duas crianças que fiz minhas.”

Mas cinco anos mais tarde, os “largos horizontes” tiveram outro nome: Ilha de São Miguel, Ponta Delgada.

“A cada ser o seu destino”, escreveu aos vinte e dois anos em “O Sentimento da Imortalidade”, “a cada destino o seu cumprimento. Aqui, ali, agora ou logo, com esta ou aquela forma, que importa? Se esta hora, chamada vida, nos mentiu, outra virá, por certo, e a mão de luz e bem nos conduzirá no nosso verdadeiro caminho.”
Para ele o seu verdadeiro caminho é sobretudo a sua obra, que, nunca será demais acentuar, tem passado para um plano inferior, enredada em teorias frequentemente precipitadas e quantas vezes incoerentes. E é porque a obra existe (ainda que com vários títulos infelizmente de há muito esgotados), que Antero de Quental permanece de pedra e cal na cultura portuguesa resistindo a tantos absurdos. Aliás, a não ser assim, ter-se-ia já sumido no luso nevoeiro se apenas a sua pessoa estivesse em causa, embora não esquecendo o exemplo de dignidade moral, cívica e intelectual que o elevou a símbolo de uma das nossas mais brilhantes gerações – a Geração de 70.
Ana Maria Almeida Martins, Antero de Quental e a Viagem à América

terça-feira, 27 de setembro de 2011

O Salto

Na solidão de um recanto da costa, agachados entre dois rochedos, Francisco Marroco e João Peixe-Rei olhavam o mar, encolhidos, silenciosos – não fossem lobrigá-los os remadores da Armada. Não conseguiam ver a barca baleeira, que pairava ao largo, não muito longe, enrodilhada no escuro, mas – o capitão o dissera – sabiam que seria naquela noite.

Às vezes era diferente – um assobio, um esganiço, o rouquejo do mar. Francisco Marroco e João Peixe-Rei sentiam no peito os corações batendo mais apressados – não fossem os remadores com as suas carabinas, com as suas baionetas...

Nem uma navalha traziam consigo, Francisco Marroco e João Peixe-Rei. Tinham saído de casa, cada um apenas com a sua saquinha de retalhos e, dentro, as vestimentas pobres de lã de ovelha.

Francisco Marroco, na sua saquinha, trazia mais uns traços de bolo seco. A mãe é que fizera o bolo seco, a saquinha de retalhos, a roupa de lã, que também fiara e também tecera. A Mãe! Quando pedira que o deixassem embarcar, ela chorara, o pai mascarara-se em nuvens de fumo do cigarro que fumava: - Custa-nos os olhos da cara, mas não te vamos quitar um futuro que nunca poderás ter aqui. Vai! Vai, e que Deus te abençoe. - Francisco Marroco não conseguira despedir-se de Maria, tanto o velho Roque lhe apertava a clausura. À porta já, a meter-se à noite no primeiro passo para a sua grande caminhada pelo mundo, confidenciara à mãe… E a mãe compreendera. E no frio e na humidade que lhe enregelavam os ossos, enchia-lhe a alma o calor do último beijo da Mãe.

João Peixe-Rei deixara a mulher esfrangalhada em soluços. E o filho, mãozinhas erguidas para ele, olhos a sorrirem, espantados, sem compreenderem. O filho! E só por ele partia.

E Francisco Marroco e João Peixe-Rei arregalavam os olhos para o mar, no escuro da noite negra. Não falavam, receavam até respirar, medrosos dos remadores. Esganiçavam-se as ondas, arrepiava a aragem, as horas passavam lentas.

À volta da meia-noite, julgaram ver uma sombra no mar. Seria o bote da barca baleeira? Seria o bote dos remadores que os vinha capturar? Não mandava o governo os remadores para a Ilha, senão para vigiarem os rapazes, não os deixarem dar o salto e fugirem da Ilha para o mundo.

- Cães danados! – pensava, com azedume, João Peixe-Rei.

E ele e o companheiro mais se agachavam, mais se encolhiam – o sangue a latejar-lhes nas veias, as mãos a engalfinharem-se nas asperezas das rochas.

…E três vezes brilhou no mar um clarão de luz mortiça. Três vezes! Era o sinal combinado! Era o bote da barca baleeira que os vinha arrancar da Ilha!

Atabalhoadamente sacaram da algibeira o fuzil, feriram lume também três vezes e deixaram-se escorregar de penedo em penedo, de calhau em calhau, até ao pesqueiro, mais em baixo.

E viram-se no meio de seis homens de expressão dura, que os recebiam sem uma palavra, sem um gesto, e puxavam os remos no silêncio da noite.

E além do silêncio, era só o chape-chape dos remos e o ciciar da quilha rasgando suavemente as águas negras.

E na alma de Francisco Marroco – o calor daquele beijo da mãe. E, Maria, quando soubesse… E Francisco Marroco sentia um não sei quê, que não sabia definir, a estoirar-lhe com o peito.

E João Peixe-Rei – via Idalina, o corpo muito branco desaurido em saudades, abandonada na cama de casal. E o filho, o seu menino – que o havia de esperar no dia seguinte, e no outro, e nos outros… E se nunca mais voltasse a ver o seu menino!? Se nunca mais!? Nunca Mais!?

E a Ilha a ficar pela popa, sumida no escuro e no silêncio da noite nua de estrelas e de luar.

E o navio, de velas erguidas, a vislumbrar-se adiante…

E a indiferença dos homens… (real?, aparente?)

E o balanço do bote…

E o fantasma do navio – os faróis de navegação suspensos no escuro – perto, perto, cada vez mais perto…

E um estalido de madeira batendo contra madeira… O costado do bote batendo contra o arcaboiço negro do navio…

Dias de Melo, Pedras Negras

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

O Fernades da perfumaria

Aquela perfumaria não era bem vista por quem vivia por perto. Para além da frequência da loja ser modesta e para além da mercadoria disponível ser precária, o Fernandes pertencia ao grupo das criaturas que jamais se livram das malhas da má fama e da pouca sorte. Era visto com malevolência por muitas pessoas e mordazmente difamado por outras tantas, até mesmo lá para as bandas dos subúrbios onde morava. Conheciam-no como tendo uma incontida aversão ao clero, que nunca perdia oportunidade de denegrir, tanto na pessoa de qualquer prelado, como na generalidade da classe. Apesar disso, o pobre homem gostava de afirmar que acreditava em santos e demonstrava a sua crença, incorporando Wolfgang Amadeus Mozart e Ludwig van Beethoven, entre os altos dignitários da corte celestial.

O objecto mais precioso que o Fernandes possuía era uma velha grafonola His Master Voice, com uma elegante campânula metálica em forma de tulipa. Esse antigo aparelho, assim como alguns livros contendo obras que ele dizia serem da melhor literatura do romantismo, fora herança de antepassados que tinham sido ricos. Porém, o cabedal desses avoengos diluíra-se no tempo até dar lugar à angustiante penúria em que o neto se via obrigado a viver.

Ouvir os concertos e as sinfonias de Mozart e Beethoven equivalia, para o Fernandes, à vivência de momentos de ascese e a um profundo prazer estético, apesar do ruidoso arranhar da agulha nas estrias das antigas gravações.

Nesses momentos, ele encontrava as únicas oportunidades de se evadir da rotina dos dias passados atrás dos quatro coloridos frascos de perfume. Dias de espera, quantas vezes em vão, pela chegada de clientes. Sentado junto à grafonola estava tranquilo, imaginava sonoridades interiores que reflectiam a emoção causada pelas obras dos grandes compositores. Isso fazia-o sentir a vibração da alma que estava viva lá no fundo de si próprio.

Experimentava, então, a leveza de quem vagueia num fluido etéreo como aquele em que o espírito de Deus terá pairado sobre as águas. Daí, dessas alturas do seu interior, via o Belo a querer atrair o Bem, a querer atrair a Justiça e, mais do que tudo, a querer atrair a Paz. Era como a contemplação do sublime, através dos humildes meios de que dispunha. Isso ajudava-o a tolerar a existência.

A forma de pensar e de sentir do dono da perfumaria provinha de ideias absorvidas na leitura dos livros que herdou. Ele concordava com Guerra Junqueiro, quando o escritor afirma na última das suas “Prosas Dispersas”, que: “O génio do Bem e da Beleza teem a mesma essencia de infinito”(1).

Também não lhe terão sido indiferentes outras afirmações do mesmo autor, feitas ao longo dessas “Prosas”, tais como a comparação do perfil do artista com os perfis do herói e do santo: “…um grande artista ou um grande heroe é um taumaturgo. S. Francisco, Joana d’Arc e Beethoven fazem milagres”(2).

De facto, quem compôs sinfonias como as de Mozart e Beethoven, tem de estar no céu. Mais do que isso, entendia o Fernandes, seres como esses dois génios eram o bastante para justificar a existência do paraíso.

Camilo Castelo Branco, com a descrição que fez da perversa personalidade do arcediago, contribuiu bastante para os fundamentos do laicismo do Fernandes. Apesar disso, também ajudou na definição de conceitos que tenham a ver com a vida celestial: “O céo ganha-se com os voos do espírito”(3), afirmava a bela Maria Elisa, companheira da filha do arcediago. Com tal afirmação, essa personagem camiliana mostrava-se irredutível perante a obsessão da beata D. Angélica que lhe recomendava entrar para o Carmelo, por ser “uma ordem muito apertada e ganha-se o céo, com a pobreza e a paciência”(4).

Ideias pouco ortodoxas sobre questões metafísicas, como as que eram oriundas de determinava literatura ou doutrina, uma vez recreadas pelo dono da perfumaria, em nada favoreciam a imagem dele no meio social daquele tempo. Ora era alvo de insultos, ora vítima de manifestações de desprezo, mas isso não o impedia de expressar com desassombro as próprias convicções. Essa postura libertária fez com que sobre ele se fizessem as mais estranhas conjecturas.

Multiplicaram-se desconfianças fundamentadas no facto do Fernandes pensar de forma diferente do vulgo, ou apenas por ele ser dado a pensamentos. A mais perigosa de todas as suspeitas, que então caíram sobre ele, era a de ser simpatizante do bolchevismo, qual agente secreto a soldo de Moscovo…

Não tardou que o dono da perfumaria passasse a ter, confirmada por toda a cidade, a fama de ser bolchevista. Era como se não houvesse qualquer dúvida a esse respeito. Por isso, a polícia política salazarista, de imediato, se convenceu de que o pobre homem era mesmo um militante revolucionário, um perigoso inimigo do Estado. Logo entenderam que se tratava de um energúmeno que convinha ser mantido debaixo d’olho. _________________________________________________________

(1) Guerra Junqueiro, in “Prosas Dispersas”, Ed. Lello & Irmão, L.da, Porto, 1921. (Foi mantida a ortografia original).

(2) Idem.

(3) Camilo Castelo Branco, in “A Filha do Arcediago”, Ed. Parceria António Maria Pereira, Lisboa, 1905. (Foi mantida a ortografia original).

(4) Idem.

Tomaz Borba Vieira, Noites de Moscovo [O Carcereiro da Vila e outras estórias]

Desenhos do autor

sábado, 23 de julho de 2011

Genuíno Madruga: O navegador solitário

Nasci em São João da Ilha do Pico, a 9 de Dezembro de 1950, na casa da Munica, na Companhia de Cima, sítio do Palmo do Gato. Naquele tempo a vida era muito difícil. Debruçado no balcão ou sentado na porta da loja, reparava naquele mar calmo, que me fazia perder o tempo a olhar como se, lá longe, onde o Sol se escondia tivesse coisas que não podia ver. Outras vezes, parecia querer entrar pela terra! Em dias de muito vento podia mesmo lamber os lábios e gostava daquele sabor a sal, a maresia.
A Festa da Senhora de Lourdes, padroeira dos baleeiros e dos homens do mar, que ano após ano se realiza na Vila baleeira das Lajes do Pico e noutras localidades dos Açores, foi o dia escolhido para a partida da segunda viagem do “Hemingway” à volta do mundo. […] Em terra estouraram os foguetes e da rampa junto à fábrica arriaram-se os botes. No mar as lanchas baleeiras, os botes, embarcações de recreio e de pesca, enquanto que no meu veleiro eram içadas as velas e a popa virada para terra. Aos poucos, milha após milha, as pedras negras se confundiam com o mar e o “Hemingway” com o seu único tripulante, transportando a sua carga preciosa de beijos, abraços, afectos, carinhos, saudades e de tantas coisas indescritíveis, seguia, embalado por aquele mar, meu conhecido, que me havia de acompanhar pelos quatro cantos do mundo.
A 3 de Setembro parti de Bali tendo como porto de destino Port Mathurin, na ilha Rodrigues, no Arquipélago das Maurícias. No dia seguinte, navegando com vento ESSE, 15 nós, a 70 milhas de terra, avistei uma embarcação de boca aberta, que se encontrava pescando, com dois tripulantes. Não consegui perceber que género de pescaria estavam fazendo. Com excepção do dia 6 de Setembro, no qual apanhei um bonito pequeno, os outros dias seguiram-se sem pescarias. A temperatura da água por volta dos 26 e do ar 27 graus. O vento em quase todo o percurso esteve entre os 5 e os 25 nós, de E ou ESE. Passaram frentes, acompanhadas de chuva e vento bastante fresco. No dia 15 a Rádio Exterior de Espanha informava que as frotas de pesca Francesa e Espanhola se encontravam nas Seychelles aguardando protecção em relação ao cada vez maior número de piratas que actuavam no Índico, nas proximidades ou em zonas bastante desviadas da costa da Somália. Já haviam sido referenciadas cerca de 45 embarcações com piratas, actuando em águas internacionais, à volta das 400 milhas de terra. A 16 de Setembro o vento, soprando SE com 25 nós, originou mar grosso. O fogão saiu fora dos eixos, tive de aguardar por melhoria do estado do tempo, o que só aconteceu no dia seguinte, para repô-lo novamente no lugar. Passados vários dias comendo conservas ou peixe salgado, ao final da tarde do dia 19 cozi batatas e aguardei pacientemente, sempre olhando para as minhas linhas, que vindo de corrico havia dias que nada apanhavam, na esperança de que um peixe ficasse preso, mesmo que pequeno. Se nada pegasse, teria de abrir novamente uma lata de conservas. Mas, como bem sei, na pesca há sempre que aguardar. Para meu regalo pegou um bonito grande, que puxei para bordo, com todo o cuidado, não fosse ele escapar. Com a ajuda de um peixeiro, meti dentro o meu jantar daquele e de mais dias. Efectivamente, ao contrário da primeira viagem, o peixe não abundava. Fiz filetes, que cozinhei na altura, preparei uma vinha de alhos para outros, destinados ao dia seguinte, e o restante foi devidamente salgado. Nos tempos de abundância (anterior viagem) também usei este método da salga do peixe, embora sem grandes preocupações, devido às boas pescarias que quase todos os dias fazia.
Comecei ainda agora a ler o livro de Genuíno Madruga. Recebi-o hoje pelo correio. Extraí estas passagens um pouco aleatoriamente mas, pelo que já li e vi, aconselho-o vivamente. Não faltam fotografias lindas, lugares exóticos e histórias das suas gentes, aventura. E, sobretudo, não falta coragem, força e amor ao mar e às ilhas por parte deste picoense ilustre, primeiro velejador solitário português a realizar viagens de circum-navegação e de que todos, com toda a certeza, nos orgulhamos muito. É fácil adquirir o livro. Aqui ficam os contactos da Editora. É uma obra que vale a pena ter.
Ver Açores «» Rua da Boa Nova, 80 «» 9500-296 PONTA DELGADA «» Telef. 296 684 926
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domingo, 19 de junho de 2011

O vidrinho de lágrima semi-inventada...

Parto amanhã de manhã para Lisboa. Sábado que será de sol. Voo semidirecto: Pico, Lajes, Lisboa. Sempre que me vou de abalada, sinto uma ponta de tristeza e de saudade do local onde aqueci lugar durante algum tempo. A mala e a pasta do computador já se encontram no chão do alpendre da casa virada ao mar. Contemplo a Ilha de São Jorge: estende-se ao longo do meu olhar numa extensão de cerca de oitenta quilómetros. Hoje, pintou-se de azul arroxeado. Daqui a pouco, já troca de pintura, mas não é troca-tintas! Nunca usa a mesma durante muito tempo. Grande vaidosa, a Ilha em frente de minha casa! O Expresso que liga os portos da Horta, de São Roque e São Jorge, não navega: azula-se de tal maneira que já vai a meio do canal, o de Vitorino Nemésio, rumo à Vila das Velas. Enxergo o casario com nitidez e, à noite, até vislumbro a claridade dos faróis dos automóveis circulando nas estradas. O mar, um espelho. Estanhado. Bom Tempo no Canal! Ainda é muito cedo! Sou ardido no tocante a horários! A boleia só chegará daqui a uma hora, mas gosto de sentir-me em mangas de camisa dentro do tempo que me faço sobejar. Vou ainda percorrer a casa, palmo a palmo. Retiro algum prazer mórbido ao despedir-me das coisas, devagar. Das pessoas, é mais fácil! Entro de novo, subo as escadas que me levam ao sótão, o meu santuário da escrita e dos livros. Acaricio a lombada de um ou outro, endireito algum mais indisciplinado, sem vocação militar para a formatura rígida, deixo cair os olhos nas estantes de criptoméria, aliso a secretária já esvaziada do computador portátil, lanço um lento olhar em redor, na esperança de que ele fique, ali, preenchendo a ausência prestes a desabotoar-se e me dê as boas-vindas quando de novo eu chegar... Como existirão os livros sem mim, neste sótão de silêncio? Desço de novo as escadas, paro uns momentos em cada degrau, capto a sala de cima, e enterneço-me com o vidrinho de lágrima semi-inventada que me embacia os olhos. ********************************************************************************** Cristóvão de Aguiar/Francisco de Aguiar, Catarse

domingo, 12 de junho de 2011

Roberto Ivens

Roberto Ivens nasceu a 12 de Junho de 1850, na freguesia de São Pedro, Ponta Delgada, filho de Margarida Júlia de Medeiros Castelo Branco, de apenas 18 anos de idade, oriunda de uma família de modestos recursos, e de Robert Breakspeare Ivens, de 30 anos, filho do abastado comerciante inglês William Ivens, residente em Ponta Delgada desde 1800. Não sendo os pais casados, e dadas as diferenças sociais e convenções da época, fruto de amores furtivos e proibidos (mas tolerados), o nascimento deu-se numa casa alugada onde o pai havia instalado a amante, que entretanto fora amaldiçoada, deserdada e expulsa de casa pelo pai. A instâncias da mãe, o recém-nascido foi baptizado, às escondidas, como filho de pai incógnito, na igreja da Fajã de Cima. Entregue à parteira do lugar, Ana de Jesus, foi por esta levado à igreja sendo baptizado pelo cura e tendo como padrinho o irmão do vigário. A criança foi entretanto criada na companhia da mãe e da tia, Ana Matilde. Com o aparecimento de uma nova gravidez, Roberto Breakspeare Ivens providencia uma empregada e uma casa na Rua Nova do Passal, Ponta Delgada. Por influência do Dr. Paulo de Medeiros, reconhece a paternidade sobre o pequeno Roberto, mesmo antes do nascimento do segundo filho, Duarte Ivens. Com apenas três anos de idade, perde a mãe vítima da tuberculose. Permanecendo em Ponta Delgada, beneficiando do estatuto social que o reconhecimento por parte da família Ivens lhe conferiu, frequenta a Escola Primária do Convento da Graça, onde desde logo foi apelidado de "Roberto do Diabo" dadas as travessuras em que se envolvia. O pai, que entretanto casara, fixou-se em Faro, no Algarve, para onde leva os filhos em Agosto de 1858. Em 1861 Roberto Ivens é inscrito na Escola da Marinha, em Lisboa, ali fazendo os estudos que o conduziram a uma carreira como oficial de marinha. Foi sempre um estudante inteligente e aplicado, mas igualmente brincalhão. Concluiu o curso de Marinha em 1870, com apenas 20 anos, com as mais elevadas classificações. Inicia a sua carreira de oficial da Marinha, fazendo várias viagens, mas por motivos de saúde, abandona o mar, passando a dedicar-se à cartografia na Sociedade de Geografia de Lisboa e na execução de trabalhos relacionados com África, sobretudo Angola, no Ministério da Marinha e Ultramar. Quando tomou conhecimento do plano do Governo para a exploração científica no interior africano, destinado a explorar os territórios entre as províncias de Angola e Moçambique e, especialmente, a efectuar um reconhecimento geográfico das bacias hidrográficas do Zaire e do Zambeze, foi imediatamente oferecer-se para nela tomar parte. Como a decisão demorasse, pediu para ir servir na estação naval de Angola. Aproveitou esta estadia para fazer vários reconhecimentos, principalmente no rio Zaire, levantando uma planta do rio entre Borud e Nóqui. Por Decreto de 11 de Maio de 1877 foi nomeado para dirigir a expedição aos territórios compreendidos entre as províncias de Angola e Moçambique e estudar as relações entre as bacias hidrográficas do Zaire e do Zambeze. De 1877 a 1880, ocupou-se com Hermenegildo Capelo e, em parte, com Serpa Pinto, na exploração científica de Benguela às Terras de Iaca. No regresso, recebe a Comenda da Ordem Militar de Santiago e é nomeado a 19 de Agosto de 1880 vogal da Comissão Central de Geografia. Por Decreto de 19 de Janeiro de 1882, foram-lhe concedidas honras de oficial às ordens e a 28 de Julho foi nomeado para proceder à organização da carta geográfica de Angola. Roberto Ivens e Hermenegildo Capelo no Cabo da Boa Esperança: 1886 ********************************************************************************** Em 19 de Abril de 1883, é nomeado vogal da comissão encarregada de elaborar e publicar uma colecção de cartas das possessões ultramarinas portuguesas. Por portaria de 28 de Novembro do mesmo ano foi encarregado de proceder a reconhecimentos e explorações necessários para se reunirem os elementos e informações indispensáveis a fim de se reconstruir a carta geográfica de Angola. Face às mais que previsíveis decisões da Conferência de Berlim era preciso demonstrar a presença portuguesa no interior da África austral, como forma de sustentar as reivindicações constantes do mapa cor-de-rosa, entretanto produzido. Para realizar tão grande façanha, são nomeados Hermenegildo Capelo e Roberto Ivens. Feitos os preparativos, a grande viagem inicia-se em Porto Pinda, no sul de Angola, em Março de 1884. Após uma incursão de Roberto Ivens pelo rio Curoca, a comitiva reúne-se, de novo, desta vez em Moçâmedes para a partida definitiva a 29 de Abril daquele ano. Foram 14 meses de inferno no interior africano, durante os quais, a fome, o frio, a natureza agreste, os animais selvagens, a mosca tsé-tsé, puseram em permanente risco a vida dos exploradores e comitiva. As constantes deserções e a doença e morte de carregadores aumentavam o perigo e a incerteza. Só de uma vez, andaram perdidos 42 dias, por terrenos pantanosos, sob condições meteorológicas difíceis, sem caminhos e sem gente por perto. Foram dados como mortos ou perdidos, pois durante quase um ano não houve notícias deles. Ao longo de toda a viagem, Roberto Ivens escreve, desenha, faz croquis, levanta cartas; Hermenegildo Capelo recolhe espécimes de plantas, rochas e animais. A 21 de Junho 1885, a expedição chega finalmente a Quelimane, em Moçambique, cumpridos todos os objectivos definidos pelo governo. Na viagem foram percorridas 4500 milhas geográficas (mais de 8300 km), 1.500 das quais por regiões ignotas, tendo-se feito numerosas determinações geográficas e observações magnéticas e meteorológicas. Estas expedições, para além de terem permitido fazer várias determinações geográficas, colheitas de fósseis, minerais e de várias colecções de história natural, tinham como objectivo essencial afirmar a presença portuguesa nos territórios explorados e reivindicar os respectivos direitos de soberania, já que os mesmos se incluíam no famoso mapa cor-de-rosa que delimitava as pretensões portuguesas na África meridional. (1)
Finda a viagem de exploração, Roberto Ivens e Hermenegildo Capelo foram recebidos como heróis em Lisboa, a 16 de Setembro de 1885. O próprio rei D. Luís se dirigiu ao cais para os receber em pessoa e os condecorar à chegada. O rio Tejo regurgitava de embarcações. Nunca se havia visto tamanho cortejo fluvial. Acompanhados pelo rei foram conduzidos ao Arsenal da Marinha para as boas vindas, com Lisboa a vestir-se das suas melhores galas para os receber. Foram oito dias de festas constantes, com colchas nas varandas, iluminação, fogos de artifício, recepções, almoços, jantares e discursos sobre a heróica viagem. Mais tarde, o Porto não quis ficar atrás, excedendo-se em manifestações de regozijo e recepções. E no estrangeiro, Madrid esmerou-se em festas, conferências, recepções e condecorações; em Paris é-lhes conferida a Grande Medalha de Honra. Em Ponta Delgada, por iniciativa de Ernesto do Canto sucederam-se as manifestações em honra do herói. O dia 6 de Dezembro de 1885 foi o escolhido para as solenidades. As ruas da cidade encheram-se de gente de todas as condições sociais. Cada profissão, cada instituição se incorporou no cortejo cívico com os seus pendões. Não faltaram as bandas de música e os discursos. Expressamente para esse dia foi composto o número único do jornal Ivens e Capelo e foi executado um Hino a Roberto Ivens, com letra de Manuel José Duarte e música de Quintiliano Furtado. Roberto Ivens faleceu no Dafundo (Oeiras), em 28 de Janeiro de 1898, deixando viúva e três filhos. O enterro, a 29 de Janeiro, foi uma grande manifestação de pesar nacional. A urna de mogno estava coberta com a bandeira nacional.
Por todo o país existem dezenas de ruas com o nome de Roberto Ivens. Ponta Delgada prestou-lhe também a devida homenagem, erguendo um busto inicialmente colocado no Relvão e transferido, por decisão camarária de 1950, para a "Avenida Roberto Ivens", que começou a ser aberta com a demolição do muro da cerca do Convento da Esperança em 7 de Abril de 1886. Em Ponta Delgada, bem próximo do lugar do seu nascimento, funciona a Escola Básica Integrada Roberto Ivens. ********************************************************************************** (1) No reinado de D. Luís grandes explorações científicas se efectuaram através do continente africano. A partir de 1880, em face do início da industrialização da Europa, aguçou-se o apetite por colónias em quase todos os países europeus. A Europa precisava de matérias-primas (minérios especialmente) e novos mercados. A África e Ásia ficaram na mira das potências europeias, que começaram a digladiar-se naqueles continentes e nas chancelarias. Foi quando Bismarck convocou a célebre conferência de Berlim (1885) para a partilha de África, segundo moldes ditos civilizados. Portugal foi obrigado a fazer a ocupação efectiva de Angola.

sábado, 21 de maio de 2011

Luís de Figueiredo de Lemos

Luís de Figueiredo de Lemos nasceu em Vila do Porto (Ilha de Santa Maria), a 21 de Agosto de 1544. Era filho de Miguel de Figueiredo de Lemos e de D. Inês Nunes Velho.

O pai, um dos povoadores dos Açores e também o primeiro desta família na ilha de Santa Maria, foi procurador de D. Luís Coutinho (3.º comendador daquela ilha e que morreu na Batalha de Alcácer Quibir), Procurador do Número e Juiz dos Órfãos.

A mãe era da mais antiga raiz mariense, profundamente ligada aos primeiros povoadores, visto que provinda dos Velhos.

Gaspar Frutuoso descreve-o assim:

Os primeiros anos de sua tenra idade foram regulados de uma natural modéstia e discrição. E no tempo em que começam os outros quase conhecer os pais, deixados por ele os risos da inconstante meninice, entrou no rigor do mestre e da escola; com pronta viveza discorrendo a veracidade das letras, em poucos anos aprendeu a ler, passando a maravilhosa invenção do escrever, poderoso e único remédio contra a miserável perda da memória dos mal lembrados homens. De doze anos começou dar obra aos ásperos preceitos da Gramática, na doutrina de um entendido mestre, que com muito louvor aos filhos dos nobres lia as humanas letras, adquirindo quanto dele se podia alcançar, entender, falar e escrever latim.

Antepondo seu pai as certas esperanças que mostrava ao tenro e vivo amor com que o queria, o mandou a Lisboa ao Colégio de Santo Antão, a estudar Retórica e Grego, ornamento e glória da latina língua. Desembarcado nos braços de seus parentes, nos mimos que todos lhe faziam, espantados em tão pequena idade parecerem tantas mostras do que prometia, entrou nas classes, e com incansável zelo da eloquência, passou em poucos meses os mais antigos e graves delas. E no exercício de compor verso e prosa, excedendo com muito louvor a todos, ganhou os melhores lugares e os prémios. Acabados dois anos, julgado no parecer dos padres meretíssimo de qualquer ciência, mandou seu pai que fosse a Coimbra estudar Cânones, presságio da dignidade que havia depois ter. Não bastaram danadas ocasiões daquela imensa cidade de Lisboa a profanar o casto recolhimento de seu peito, antes, avisado com as mostras da perdição que via, realçou em maior altura de virtude. E metido no meio de tantos males, vivia solitário com só Deus e com os livros.”

Recebeu as primeiras ordens em Portalegre, continuou a vida religiosa em Lisboa. Foi, depois, nomeado vigário da freguesia de São Pedro, em Ponta Delgada, e, ao mesmo tempo, ouvidor eclesiástico em toda a ilha de São Miguel.

Foi, depois, nomeado deão do Cabido da Sé de Angra e, nessa qualidade, incumbido pelo bispo de organizar o processo da vida e das virtudes da venerável Margarida de Chaves. Passou, com o bispo D. Pedro de Castilho, à ilha de São Miguel, como visitador, acabando por fazer o mesmo serviço na ilha de Santa Maria. Esteve, depois, impedido de voltar à Terceira onde D. Pedro de Castilho, devido às tendências políticas a favor de Filipe II de Espanha, não seria bem recebido.

Quando o bispo se viu na necessidade de regressar ao reino na armada de Álvaro de Bazán, que finalmente submetera a Terceira à obediência de Filipe II, foi deixado pelo prelado como governador do bispado de Angra.

Em Março de 1585, Filipe I de Portugal apresentou-o para bispo do Funchal. Foi sagrado em Lisboa, com 41 anos, no Mosteiro da Trindade.

Partiu de Lisboa no dia 27 de Julho de 1586, chegou à ilha da Madeira no dia 4 de Agosto de 1586, tendo passado algum perigo na viagem principalmente devido à pirataria nos mares da Madeira.

Esteve no cargo durante 22 anos e foi um grande reformador do clero madeirense, restaurando igrejas arruinadas, interessando-se pela administração das paróquias, criou ouvidorias e revitalizou as visitações. Elevou a igreja de S. Pedro (Funchal) a colegiada, mandou fazer o Seminário da Diocese, o Paço Episcopal do Funchal (antigo) e a capela anexa de São Luís, onde depois foi sepultado.

Morreu a 26 de Novembro de 1608.

Os seus restos mortais foram exumados e trasladados, aquando da profanação da Capela de São Luís em 1906, para a Sé Catedral, onde foram depositados junto às portas do guarda-vento e recobertos com a lápide de mármore lavrado que ornamentava a sua sepultura primitiva.

Fontes: Wikipédia e Saudades da Terra (Gaspar Frutuoso)

sábado, 14 de maio de 2011

JOSÉ DO CANTO: um homem a conhecer

José do Canto nasceu a 20 de Dezembro de 1820, em Ponta Delgada. Era filho do morgado José Caetano Dias do Canto Medeiros (1786-1858) e de sua primeira mulher, Margarida Isabel Botelho (1793-1827).
Casou a 17 de Agosto de 1842, com Maria Guilhermina Taveira de Neiva Frias Brum da Silveira, senhora da poderosa casa dos Bruns, tornando-se, assim, um dos maiores proprietários açorianos. Deste casamento nasceram 5 filhos, sendo dois do sexo masculino.
Tendo tido uma educação esmerada, era um homem culto, amante de Camões e de Garrett. Bibliófilo apaixonado, coleccionou toda a obra de Camões e o que sobre ele se tinha escrito, deixando uma biblioteca de milhares de títulos, recheada de preciosidades, que constitui, desde Maio de 1942, um dos fundos integrados na Biblioteca Pública e Arquivo Regional de Ponta Delgada.
Apaixonado, também, pela Botânica, José do Canto embelezou a sua ilha amada com magníficos jardins. Contratava jardineiros e comprava plantas, no estrangeiro, quase obsessivamente. Em 1856, o seu jardim de Ponta Delgada, com cerca de 6 hectares, possuía já 1028 géneros e, aproximadamente, 6000 espécies. Contíguo ao Palácio de Santana, hoje residência oficial do presidente do Governo dos Açores, o jardim contém no seu interior e periferia diversas construções de interesse, nomeadamente o monumento a José do Canto, o solar (século XVIII), uma antiga estufa de traça vitoriana adaptada a pavilhão, e a ermida de Santana (século XVII). O conjunto do jardim, palácio e estufa foi classificado como Imóvel de Interesse Público.
Se o seu grande amor era a Ilha de S. Miguel, a sua grande preocupação era desenvolvê-la. “Influenciado pelos iluministas, José do Canto queria reformar a terra onde nascera. Acreditava no progresso, como só nesse período, entre 1850 e 1890, se acreditou. Assinava revistas estrangeiras sobre como reformar a agricultura, lia manuais agrícolas pela noite dentro e sonhava com campos férteis povoados por camponeses felizes. Em 1843 fundou a «Sociedade Promotora da Agricultura Micaelense», a primeira associação do tipo existente em Portugal. Acreditava que a educação era a chave para ultrapassar os problemas que via pelos campos. Introduziu na ilha o método de ensinar a ler preconizado por António Feliciano de Castilho, cuja vinda para São Miguel patrocinou. Entre 1847 e 1850, Canto e Castilho colaboraram intimamente no jornal Agricultor Michaelense.
O «desenvolvimento» era, em José do Canto, uma obsessão. Isto levou-o a afastar-se da política. Em 1852 recusou apresentar-se a candidato como deputado por Ponta Delgada, explicando as razões numa carta, que depois tornou pública, «Aos micaelenses que pretendiam eleger-me para deputado». No seu entender, não seria através da sua participação nos debates parlamentares que mais útil poderia ser à sua terra, mas através do empenhamento na construção de uma doca. Nem o advento ao poder dos regeneradores, com os quais partilhava muitas ideias, o fez mudar de opinião.
Se a política o não atraía, o «desenvolvimento» pela via da educação dos povos iria revelar-se mais árduo do que imaginara. Os rendeiros ofereciam resistências às suas inovações, os camponeses pretendiam continuar a cultivar as terras seguindo as rotinas e até os proprietários que com ele se cruzavam nos salões desconfiavam das suas ideias. José do Canto escolheu então outra via: a criação de uma elite. Em 1853 partiu para Paris, onde permaneceria ao longo de quinze anos. A estada era dispendiosa, mas as rendas que recebia das suas terras davam para isso e para muito mais. A sua ideia era educar os filhos segundo os modernos métodos de ensino, após o que eles propagariam pela ilha o que tinham aprendido.
O ar que os Cantos respiravam na sua casa de Auteil era doce. José do Canto discutiu a guerra da Crimeia, passeou pelo Bois de Boulogne, analisou a política de Bismarck, deplorou as acções de Napoleão III, foi às corridas a Longchamps e conheceu Lamartine. Mas isso jamais o fez esquecer São Miguel. Por muito agradável que fosse, a sua estada em Paris era apenas uma passagem numa viagem que iria terminar na ilha, que, mesmo de longe, o impedia de dormir.
Nas férias passadas nos Açores, José do Canto nunca parou de trabalhar pela construção da doca. Estava farto de marés imprevisíveis, barcos parados, acidentes à vista. Em 1861 colocara-se a primeira pedra, mas os trabalhos arrastavam-se. Onde outros encolhiam os ombros, ele prosseguia. O atraso dos Açores nunca deixou de o indignar. Veja-se a sua reacção aos motins populares ocorridos aquando da introdução do novo sistema métrico, que Fontes Pereira de Melo decretara no longínquo ano de 1852, com um prazo de aplicação dilatado. Para José do Canto, aqueles gritos, «Abaixo os novos pesos» e «Viva o Sr. D. Miguel», faziam-no duvidar da sanidade mental dos conterrâneos. Lógicas dentro do mundo em que estes se moviam, as reacções dos camponeses eram, para ele, incompreensíveis.” [1]
Promovendo a introdução de novas tecnologias agrícolas nos Açores, alertou para os perigos da monocultura, ainda no período áureo da laranja, e ensaiou novas culturas como o ananás, o chá e o tabaco.
Os dois filhos, António e José, essencialmente por motivos de doença, não lhe seguiram as pisadas. Morreu viúvo e triste. Assim o diz em carta à neta, Emília, em 20 de Janeiro de 1897: “Não te faça peso dizer-te que estou velho e triste; a primeira qualidade é inerente ao progresso da idade; ninguém vive mais anos sem envelhecer; a tristeza é própria da idade avançada e, para mim, das circunstâncias muito particulares em que vivo. Perdi a minha querida mulher, os meus filhos todos se estabeleceram fora do tecto paterno, fiquei eu sozinho, a ruminar as recordações do lar doméstico. Enfim, vivo e procuro cumprir todos os meus deveres; mas para que te hei-de enganar? Não sou feliz.”
Morreu a 10 de Junho de 1898, deixando expressa a vontade de um enterro “sem pompa nem ostentação” e repousa, ao lado da esposa, na Capela de Nossa Senhora das Vitórias, junto à Lagoa das Furnas e de um dos seus “gloriosos jardins”.
Fonte principal: Maria Filomena Mónica, “Os Cantos”

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[1] Maria Filomena Mónica, Análise Social, vol. XXXVI (Outono), 2001

sexta-feira, 6 de maio de 2011

Ilha de Santa Maria

Aspecto do barreiro da Faneca

Como na alta mente do Infante estava posta e entendida outra coisa que os seus não entendiam nem cuidavam, recebendo-os ele com alegre rosto e fazendo as mercês costumadas a semelhantes serviços, confirmou […] estar ali perto daquele baixo de penedia a ilha que ele mandava buscar, e sabendo muito bem que quem porfia mata caça e a lebre que uma vez se esconde outro dia se descobre, determinou provar outra vez a ventura e aventurar o pouco que gastava pelo muito que disso esperava cobrar; e, como foi tempo disposto para o descobrimento, no ano seguinte tornou, com rogos e com promessas […], a mandar o mesmo Frei Gonçalo Velho a descobrir o que dantes não achara, dando-lhe por regimento que passasse avante das Formigas. O qual Gonçalo Velho, tornando a fazer esta viagem, como lhe era mandado, vindo com próspero tempo, querendo Deus já fazer esta tão alta mercê ao Infante e a ele, houve vista da ilha em dia da Assunção de Nossa Senhora, quinze dias de Agosto do ano do Senhor, uns dizem de 1430, outros de 1458. Mas isto não pode ser, porque comummente se disse e afirmou sempre, e assim se acha em algumas lembranças de homens graves desta ilha de São Miguel, que foi achada depois da ilha de Santa Maria ser descoberta doze anos, e se achou na era de 1444, […] e se a ilha de Santa Maria foi achada primeiro que ela doze anos, como todos dizem, e nunca caiu isto da memória dos homens, quem de 1444 tira doze ficam 1432, que é o ano em que se achou a ilha de Santa Maria. Assim que a mais verdade que pude saber é que foi achada e houve vista dela Frei Gonçalo Velho e seus companheiros, que com ele iam, no ano de mil e quatrocentos e trinta e dois (1), reinando ainda em Portugal El-Rei D. João, de Boa Memória, décimo rei em número e primeiro do nome, no penúltimo ano de seu reinado, pois ele foi coroado por Rei de Portugal na cidade de Coimbra na era de 1385 anos, e no mesmo ano, véspera de Nossa Senhora da Assunção, que é em Agosto, venceu este Rei a El-Rei de Castela com todo o seu poder, em batalha campal, no Campo de São Jorge, acima de onde ora está edificado o mosteiro da Batalha, sendo de idade de trinta e oito anos, e viveu setenta e seis, dos quais reinou cinquenta, e faleceu véspera de Nossa Senhora de Agosto, na era de 1433 anos, que é um ano depois de se achar a ilha. E neste mesmo ano em que foi achada a dita ilha de Santa Maria (que se chamou assim, e lhe puseram este nome os descobridores dela, porque a acharam em seu dia), nasceu em Santarém o Príncipe D. Afonso, filho de El-Rei D. Duarte, o qual D. Afonso foi o quinto deste nome e duodécimo rei de Portugal. Com grande contentamento de Gonçalo Velho e de sua companhia foi celebrado aquele dia da Assunção de Nossa Senhora com duas alegres festas, uma por entrar a Senhora no Céu a gozar dos bens da glória, outra por entrarem eles naquela ilha nova a lograr os frutos da terra. […] e a primeira terra […] onde saíram, foi, da banda de Oeste, numa curta praia de uma abra que se faz entre a ponta da terra, que se chama a Praia dos Lobos, e outra ponta, que se chama o Cabrestante, onde vai sair ao mar uma pequena ribeira que corre todo o ano, chamada a ribeira do Capitão, por correr pelas suas terras, que naquela parte depois tomou para si, que são a Faneca, Monte Gordo, Flor da Rosa, Paúl, Roça das Canas, onde nasce aquela ribeira que vai ter ali ao mar, junto do Cabrestante; onde se fez pelo tempo adiante o primeiro coval, junto da mesma ribeira, em uma pedra mole, como tufo, e amarela, como barro, que se corta à enxada, a que chamam saibro, no qual saibro, onde quer que o há na ilha, se dá o melhor vinho dela; onde se encovou o primeiro trigo que deu a terra. E assim são os granéis de toda a ilha, que depois fizeram em covas onde acham aquele tufo. E cada cova leva de dois até dez moios de trigo, conforme a como as querem fazer, em que o têm todo o ano, e quem o não encovar põe-se a risco de o perder, como muitas vezes se perde; nas quais covas só se guarda o que se há-de comer e não o que fica para semear, por se não danar, o qual têm fora em granéis, ou em sacos, até o tempo da sementeira. E a terra do Capitão, que ali teve, chega aos seus Covões, que são umas terras que têm uns vales como covas, e por isso lhe chamaram Covões, que estão ao pé da serra e do mato, as quais agora possuem seus herdeiros.

Assim que os primeiros que saíram em terra, ali junto do mar, ao longo daquela ribeira do Capitão, ou desta vez, ou da segunda, fizeram a primeira casa que na ilha se fez, e, depois, pelo tempo adiante fizeram outras pela ribeira acima, e esta foi a primeira povoação da ilha, e por isso escolheu depois ali o Capitão suas terras, que são as melhores da ilha, e dão mais e melhor fruto e trigo, quase como o de Alentejo, quando o ano é temperado e bom.

Andou Gonçalo Velho correndo a costa da banda do Sul, ora no navio, ora na bateira, saindo em terra onde achava lugar para isso, vendo-a coberta de muito e espesso arvoredo de cedros, ginjas, pau branco, faias, louros, urzes e outras plantas, notando as baías e pontas, [ao longo] da ilha, e tomando em vasilhas água de fontes e ribeiras e, da terra, alguns ramos de diversas árvores, que nela havia, para mostrar ao Infante.

Fazendo ali pouca detença, como viu tempo conveniente, se partiu para o Reino, onde, chegado ao lugar donde partira, disse ao Infante como achara a ilha, dizendo o que dela entendera e mostrando-lhe as coisas que levava da terra, com a qual nova o Infante, dando graças a Deus, que lha manifestara, e ficando muito contente, recebeu com bom gasalhado e cortesia a Gonçalo Velho e aos mais que lá em sua companhia mandara, fazendo mercês a todos, segundo a qualidade das pessoas e serviços e ofícios de cada um deles, porque, como os bons servos mostram sua virtude e fidelidade em servir com amor e diligência a seus senhores, assim os príncipes e grandes senhores manifestam sua grandeza e magnificência em fazer mercês a seus obedientes súbditos e galardoar com superabundância de amor e obras os serviços de seus fiéis criados.

Baía de S. Lourenço

Não se sabe a certeza se no ano seguinte, depois de achada esta ilha de Santa Maria, se depois algum tempo mais adiante, mandou o Infante deitar gado nela, e se logo a vieram povoar, se dali a alguns anos depois de deitado o gado; mas de crer é que, ou no mesmo ano, ou logo no outro seguinte, mandaria o Infante, solícito nestes descobrimentos, deitar gado vacum, e ovelhum, e cabras, e coelhos, e outras coisas, e aves domésticas para se criarem e multiplicarem na terra, entretanto que a não mandava povoar, e, pelo tempo adiante, pela boa informação que Gonçalo Velho deu da qualidade e fresquidão da terra, determinou o Infante, com aprazimento de El-Rei, de o mandar lá outra vez; mas não se sabe em que era, mais que conjecturar que dali a um, dois ou três anos, faria, como fez, mercê dela ao dito Frei Gonçalo Velho, que a achara, e o mandaria com gente nobre de sua casa e outra de serviço para a povoar, cultivar e beneficiar, e colher nela os frutos de seus trabalhos. Os quais, chegando a ela nos barcos dos navios, descobriram a costa de toda a ilha em torno, pouco a pouco, e, então, pelo tempo em diante iriam pondo os nomes a seu beneplácito às pontas, angras, e ribeiras, e lugares que povoaram, e, principalmente, à Vila do Porto, no bom que acharam em uma formosa baía, onde agora está a principal e mais nobre povoação de toda a ilha; […]

Afirmam todos, […] que os primeiros e mais antigos habitadores, que à ilha de Santa Maria vieram, foram […] o primeiro Capitão e descobridor dela, Frei Gonçalo Velho das Pias, comendador de Almourol, o qual, […] descobriu depois esta ilha de São Miguel, por mandado do dito Infante D. Henrique, e foi também Capitão dela; Nuno Velho e Pedro Velho, que passaram depois a esta ilha de São Miguel, ambos irmãos, e sobrinhos do dito Capitão, […] e João Soares de Albergaria, [também] seu sobrinho, […] que também foi Capitão, depois de seu tio, de ambas estas duas ilhas […].

[…] para fazer plantar canas-de-açúcar na ilha, e fazê-lo como na da Madeira, mandou o Infante D. Henrique a ela um mestre António Catalão, o qual as plantou e fez plantar logo no princípio, e deram-se muito boas, que trouxeram a moer nesta ilha de São Miguel, em Vila Franca, e fez-se delas muito bom açúcar; mas, pela pouca curiosidade dos homens, ou por não haver regadias, ou pelo pouco poder, cessou a granjearia delas. Este mestre António veio casado à ilha […] e faleceu de mais de cento e dez anos, deixando dois nobres filhos, Genes Curvelo e Francisco Curvelo, homens de muita maneira, honrados e generosos, de magnífica condição e grande esforço.

O Genes Curvelo trouxe os princípios todos da ilha, como foi provisão para se fazer a igreja, e ornamentos e sinos, e as coisas da Câmara, e vivia no cabo da ilha, da banda de Leste, onde se chama Santo Espírito; o qual houve cinco filhos e cinco filhas, com os quais vinha à Vila, à missa, todos a cavalo, com muita prosperidade; sua mulher, chamada Maria de Lordelo, era muito honrada, natural da ilha da Madeira. O Francisco Curvelo casou na ilha com Guiomar Gardeza, mulher nobre, de que houve nobres filhos e filhas. E, assim, de mestre António procedeu a geração dos Curvelos, que é a maior parte da terra. […]

Dizem também alguns que Pedro Álvares foi dos primeiros habitadores da dita ilha de Santa Maria e foi lugar-tenente do Capitão, e um seu filho, chamado João Pires, foi o primeiro homem que nela nasceu, e logo depois dele um Álvaro da Fonte. Mas, primeiro que estes ambos, a primeira pessoa que nasceu na dita ilha de Santa Maria foi uma Margarida Afonso, filha de Afonso Lourenço, do Paúl, que foi mulher de Diogo Fernandes Lutador, que depois morou na freguesia de Nossa Senhora da Luz do lugar dos Fenais, termo da Ponta Delgada, desta ilha de São Miguel.

Gaspar Frutuoso, Saudades da Terra [Livro III]

(1) Aceita-se, hoje, que teria sido descoberta em 1427 por Diogo de Silves.

terça-feira, 3 de maio de 2011

Fonte Bastardo: campeão nacional de voleibol

A equipa da Associação de Jovens da Fonte do Bastardo (Praia da Vitória, Ilha Terceira) venceu, pela primeira vez, o campeonato nacioal de voleivol.
Uma grande vitória destes jovens e dos Açores.
Parabéns!

sábado, 26 de março de 2011

Revelação

[…]
Fixou um ponto vago entre o sofá e a lareira e as palavras que se seguiram foram pronunciadas com um enorme desalento.
- Tenho tanto medo de me vir a prosternar diante de qualquer religião. E tenho também medo de não ter coragem para isso.
Nos seus lábios passou um sorriso de acre ironia.
- Como vês, tens na tua frente um sentimento de ruína dessa brilhante segurança que tantas vezes te irritou.
Dito isto, pôs-se a devorar-me o rosto com um olhar terrivelmente angustiado. Aguardava uma palavra minha e todas as frases que me acudiam pareciam-me estupidamente destituídas de qualquer oportunidade. No meio da minha aflição mental, sentia que a única atitude adequada era tomá-lo arrebatadamente nos meus braços. Foi o que fiz. Agarrou-se a mim com frenesi e durante minutos soluçou convulsivamente.
0 contacto do seu corpo sacudido pela efusão das lágrimas amargamente recalcadas, produziu-me um frémito ao qual se seguiu uma lânguida sensação de doçura. Bruscamente, todos os meus problemas recuavam até se perderem num horizonte de inverosimilhança. Toda eu era um espaço disponível para ser ocupado por uma infinita piedade que o não humilhava mas antes o enobrecia como objecto desse desmedido sentimento que me abrasava. Instantaneamente, revi as gradações do amor que em tempos sentira por ele e nenhuma delas se comparava à intensidade desta nova sensação. Começara por me apaixonar e reconhecia nessa experiência a intervenção de um elemento magnético, algo de exacerbante para os meus sentidos e para a minha imaginação mas que jamais perfurara a placenta que envolvia o meu misterioso núcleo de mulher. Depois admirara-o. O que me mantinha numa tensão de temor e revolta. Era um amor cheio de dúvidas e sobretudo assombrado pelo medo de que ele desmentisse a minha admiração. Mas era precisamente esse receio que em última análise me fascinava, atraindo-me para um exame frio do qual acabou por resultar a incomplacência que acompanha o acordar das admirações veementes. Agora era verdadeiramente a loucura que enlaça as almas e o meu embrião feminino abria-se por fim, transmitindo-me um tumulto de vibrações luminosas.
Com suavidade, ergui-lhe o queixo para que ele visse a luz do sorriso que bondosamente eu sentia amaciar-me a boca.
- Amo-te – murmurei, saboreando pela primeira vez o gosto concreto desta palavra. – Oh, Miguel… Nunca te amei tanto.
Fitou-me numa comoção em que era difícil discernir a alegria do medo. Depois, envergonhado da desvairada esperança que instantaneamente o arrebatara, baixou a cabeça e disse:
- O que tu sentes é compaixão.
- É possível – respondi num ímpeto. – Mas se é isso nunca senti nada tão intenso.
Ficou atónito como se tivesse ouvido a mais inacreditável das revelações. Repentinamente, o rosto iluminou-se. Na sua expressão lia-se o alvoroço de ter decifrado uma palavra de oráculo.
Estendi-lhe os braços. E enquanto se enfronhava neles numa comovida lassidão, pensei:
“Talvez as mulheres sejam monstruosas porque no fundo só podem amar aqueles que sofrem. Mas é nisso que elas são sublimes.”
Natália Correia, A Madona

quarta-feira, 23 de março de 2011

Lenda de Angra do Heroísmo

Segundo a tradição, o príncipe dos mares vivia apaixonado por uma linda princesa de cabelos louros que vivia próximo aos seus domínios. A princesa, entretanto, não correspondia aos seus amores por já se encontrar apaixonada por outro príncipe. O senhor dos mares vivia consumido por ciúmes que muitas vezes o levavam à violência, e decidiu chamar uma fada ao seu reino marinho, com o objectivo de mudar o rumo aos acontecimentos.
A fada veio e tentou durante bastante tempo que a princesa desistisse do seu amor e se apaixonasse pelo Senhor do Mar. Fez magias e quebrantos e exerceu todas as suas influências, mas sem nada conseguir devido ao profundo amor da princesa pelo seu príncipe. Furioso, o senhor dos mares acabou por expulsar a fada dos seus domínios.
Um dia, os dois apaixonados, que até ali tinham vivido só da troca de olhares e de suaves devaneios, trocaram o primeiro beijo. Foi um beijo rápido, mas o sussurro dos apaixonados foi escutado pelo senhor e príncipe dos mares, que acordou do leito de rocha de basalto negro e areia vulcânica onde dormia.
A fada também ouviu e atravessou apressadamente os céus em direcção ao reino do príncipe dos mares, pois via a oportunidade de se vingar do príncipe, por quem entretanto se tinha apaixonado, e da princesa que lhe roubava a felicidade.
Quando chegou perto do Senhor do Mar, viu-o furioso a bater-se contra a terra com furiosas e encapeladas ondas cobertas de espuma branca e disse-lhe baixinho: "Príncipe do mar, chegou a hora da vossa vingança. Aqui estou para fazer o que mandardes." Cego pelo ciúme e pela raiva, este ordenou-lhe em tom de ódio: "Correi, fada, fulminai o príncipe que roubou minha amada. Mas... lembrai-vos, só a ele!"
Aceitando o desafio com a cabeça e convidando o Senhor do Mar a assistir à vingança que ia preparar, a fada levou-o pela mão em direcção à praia onde estavam os dois apaixonados. Lá foram encontrar a princesa de cabelos soltos, dourados ao sol poente, levemente reclinada sobre o seu apaixonado.
Rapidamente, a fada soltou a mão do Senhor do Mar e se precipitou sobre o par enamorado, fazendo um encanto: o príncipe ficou transformado num grande monte (o Monte Brasil) coberto de denso arvoredo, levantando-se altivo de frente para o mar. A princesa recusou-se a abandonar o seu apaixonado e ficou para sempre reclinada na posição em que se encontrava. Com o passar os milénios, transformou-se na baía e na cidade de Angra do Heroísmo. Encontram-se os dois unidos e embalados para sempre pelas noites e pelos dias, pelo eterno soluçar angustiado do Atlântico, príncipe e senhor dos mares.
Fonte: Wikipédia