sábado, 23 de julho de 2011

Genuíno Madruga: O navegador solitário

Nasci em São João da Ilha do Pico, a 9 de Dezembro de 1950, na casa da Munica, na Companhia de Cima, sítio do Palmo do Gato. Naquele tempo a vida era muito difícil. Debruçado no balcão ou sentado na porta da loja, reparava naquele mar calmo, que me fazia perder o tempo a olhar como se, lá longe, onde o Sol se escondia tivesse coisas que não podia ver. Outras vezes, parecia querer entrar pela terra! Em dias de muito vento podia mesmo lamber os lábios e gostava daquele sabor a sal, a maresia.
A Festa da Senhora de Lourdes, padroeira dos baleeiros e dos homens do mar, que ano após ano se realiza na Vila baleeira das Lajes do Pico e noutras localidades dos Açores, foi o dia escolhido para a partida da segunda viagem do “Hemingway” à volta do mundo. […] Em terra estouraram os foguetes e da rampa junto à fábrica arriaram-se os botes. No mar as lanchas baleeiras, os botes, embarcações de recreio e de pesca, enquanto que no meu veleiro eram içadas as velas e a popa virada para terra. Aos poucos, milha após milha, as pedras negras se confundiam com o mar e o “Hemingway” com o seu único tripulante, transportando a sua carga preciosa de beijos, abraços, afectos, carinhos, saudades e de tantas coisas indescritíveis, seguia, embalado por aquele mar, meu conhecido, que me havia de acompanhar pelos quatro cantos do mundo.
A 3 de Setembro parti de Bali tendo como porto de destino Port Mathurin, na ilha Rodrigues, no Arquipélago das Maurícias. No dia seguinte, navegando com vento ESSE, 15 nós, a 70 milhas de terra, avistei uma embarcação de boca aberta, que se encontrava pescando, com dois tripulantes. Não consegui perceber que género de pescaria estavam fazendo. Com excepção do dia 6 de Setembro, no qual apanhei um bonito pequeno, os outros dias seguiram-se sem pescarias. A temperatura da água por volta dos 26 e do ar 27 graus. O vento em quase todo o percurso esteve entre os 5 e os 25 nós, de E ou ESE. Passaram frentes, acompanhadas de chuva e vento bastante fresco. No dia 15 a Rádio Exterior de Espanha informava que as frotas de pesca Francesa e Espanhola se encontravam nas Seychelles aguardando protecção em relação ao cada vez maior número de piratas que actuavam no Índico, nas proximidades ou em zonas bastante desviadas da costa da Somália. Já haviam sido referenciadas cerca de 45 embarcações com piratas, actuando em águas internacionais, à volta das 400 milhas de terra. A 16 de Setembro o vento, soprando SE com 25 nós, originou mar grosso. O fogão saiu fora dos eixos, tive de aguardar por melhoria do estado do tempo, o que só aconteceu no dia seguinte, para repô-lo novamente no lugar. Passados vários dias comendo conservas ou peixe salgado, ao final da tarde do dia 19 cozi batatas e aguardei pacientemente, sempre olhando para as minhas linhas, que vindo de corrico havia dias que nada apanhavam, na esperança de que um peixe ficasse preso, mesmo que pequeno. Se nada pegasse, teria de abrir novamente uma lata de conservas. Mas, como bem sei, na pesca há sempre que aguardar. Para meu regalo pegou um bonito grande, que puxei para bordo, com todo o cuidado, não fosse ele escapar. Com a ajuda de um peixeiro, meti dentro o meu jantar daquele e de mais dias. Efectivamente, ao contrário da primeira viagem, o peixe não abundava. Fiz filetes, que cozinhei na altura, preparei uma vinha de alhos para outros, destinados ao dia seguinte, e o restante foi devidamente salgado. Nos tempos de abundância (anterior viagem) também usei este método da salga do peixe, embora sem grandes preocupações, devido às boas pescarias que quase todos os dias fazia.
Comecei ainda agora a ler o livro de Genuíno Madruga. Recebi-o hoje pelo correio. Extraí estas passagens um pouco aleatoriamente mas, pelo que já li e vi, aconselho-o vivamente. Não faltam fotografias lindas, lugares exóticos e histórias das suas gentes, aventura. E, sobretudo, não falta coragem, força e amor ao mar e às ilhas por parte deste picoense ilustre, primeiro velejador solitário português a realizar viagens de circum-navegação e de que todos, com toda a certeza, nos orgulhamos muito. É fácil adquirir o livro. Aqui ficam os contactos da Editora. É uma obra que vale a pena ter.
Ver Açores «» Rua da Boa Nova, 80 «» 9500-296 PONTA DELGADA «» Telef. 296 684 926
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6 comentários:

cduxa disse...

Já está encomendado...e vim ter aqui pelo facebook. Ainda bem!

carol disse...

Texto muito bem escrito e muito bonito. Além de que está muto bem ilustrado.

Parabéns pelas suas escolhas que semre dão a conhecer essas ilhas maravilhosas!

Beijinhos

joão coelho disse...

Olá Elisabete

Ausente nos comentários, mas sempre visitando estas ilhas encantadas, hoje não resisti. A entrada do livro de G.Madruga, faz-me lembrar uma frase de um dos protagonistas do "Gente feliz com lágrimas" do João de Melo, quando, vindo das bandas do Nordeste pela primeira vez à cidade (como se dizia no meu tempo, só havia uma e era Ponta Delgada)vai parar à Avenida Marginal e exclama "Ah mar da minha vida!". Uma frase singela mas que julgo significar a relação dos açorianos - e, permitam-me, dos picoenses em especial - com o oceano.
Tenho uma grande admiração pelo Genuíno Madruga. E tenho muito pena de nunca o ter encontrado em tantas vezes que fui à Horta. Ele não foi o primeiro a fazer a volta ao mundo em solitário, em Portugal; essa distinção cabe a Manuel Martins, um comissário da TAP (já deve estar aposentado..), que a efectuou utilizando a Canal do Panamá, no seu iate "Casvic" (de Cabo de S. Vicente).
Mas ao Genuíno toca um feito maior: foi o primeiro português a fazer a viagem à roda do globo com passagem pelo Cabo Horn, a mais dificil, a "genuína", passe o trocadilho. Aliás, julgo que ele sentia que tinha essa "obrigação", depois de ter realizado uma primeira circum-navegação, também via Canal do Panamá.
Beijinhos com saudações marinheiras.

João Coelho

Elisabete disse...

Obrigada pela visita, amigas. É sempre bom partilhar aquilo de que gostamos.

João,
As suas achegas são sempre bem vindas. E preciosas para este blogue.
Lembro-me muitas vezes de si. Vá dizendo.
Abraço

joão coelho disse...

Obrigado Elisabete, agradeço o (renovado) acolhimento.
Já agora, e de acordo com a tradição, o G.Madruga poderá usar argola na orelha direita, uma vez que cruzou o Cabo Horn, de Leste (Atlântico)para Oeste (Pacifico), ou seja deu a direita ao Cabo. Sei que já escrevi algures isto, não sei se aqui..
Dizia-se também que quem passava o Horn podia fazer "xixi" contra o vento (ou seja, fazer disparate) e a por os pés em cima da secretária de um Almirante. Mas também há quem diga que o uso da argola de ouro na orelha era uma forma de piratas e corsários garantirem que, morrendo, sempre tinham algo de valor para pagar o enterro..se fosse em terra.

Saudações atlânticas, com bjs

J.Coelho

Elisabete disse...

Gostei dessa da argola dos piratas, João!