domingo, 19 de junho de 2011

O vidrinho de lágrima semi-inventada...

Parto amanhã de manhã para Lisboa. Sábado que será de sol. Voo semidirecto: Pico, Lajes, Lisboa. Sempre que me vou de abalada, sinto uma ponta de tristeza e de saudade do local onde aqueci lugar durante algum tempo. A mala e a pasta do computador já se encontram no chão do alpendre da casa virada ao mar. Contemplo a Ilha de São Jorge: estende-se ao longo do meu olhar numa extensão de cerca de oitenta quilómetros. Hoje, pintou-se de azul arroxeado. Daqui a pouco, já troca de pintura, mas não é troca-tintas! Nunca usa a mesma durante muito tempo. Grande vaidosa, a Ilha em frente de minha casa! O Expresso que liga os portos da Horta, de São Roque e São Jorge, não navega: azula-se de tal maneira que já vai a meio do canal, o de Vitorino Nemésio, rumo à Vila das Velas. Enxergo o casario com nitidez e, à noite, até vislumbro a claridade dos faróis dos automóveis circulando nas estradas. O mar, um espelho. Estanhado. Bom Tempo no Canal! Ainda é muito cedo! Sou ardido no tocante a horários! A boleia só chegará daqui a uma hora, mas gosto de sentir-me em mangas de camisa dentro do tempo que me faço sobejar. Vou ainda percorrer a casa, palmo a palmo. Retiro algum prazer mórbido ao despedir-me das coisas, devagar. Das pessoas, é mais fácil! Entro de novo, subo as escadas que me levam ao sótão, o meu santuário da escrita e dos livros. Acaricio a lombada de um ou outro, endireito algum mais indisciplinado, sem vocação militar para a formatura rígida, deixo cair os olhos nas estantes de criptoméria, aliso a secretária já esvaziada do computador portátil, lanço um lento olhar em redor, na esperança de que ele fique, ali, preenchendo a ausência prestes a desabotoar-se e me dê as boas-vindas quando de novo eu chegar... Como existirão os livros sem mim, neste sótão de silêncio? Desço de novo as escadas, paro uns momentos em cada degrau, capto a sala de cima, e enterneço-me com o vidrinho de lágrima semi-inventada que me embacia os olhos. ********************************************************************************** Cristóvão de Aguiar/Francisco de Aguiar, Catarse

4 comentários:

carol disse...

Que lindíssimo texto!
Trata-se de uma ida sem volta?

Odeio despedidas e o fim das coisas. Todas. Mas gostei muito deste texto.

Obrigada.

Lúcia Bezerra de Paiva disse...

Olá, Elisabete
De Portugal, conheço um pouco Lisboa e Poto. Sendo bisneta de açoriano, de São Miguel, vivo "viajando" na net.
Já sigo um blog da Ilha das Flores.
Sou apaixonada pelos açores. Papai passou aos filhos este amor pelos nossos ascendentes. "Passeei" bastante n'AS ILHAS ENCANTADAS"...
gosto de história, de genealogia...
Meus escritos, no Da Cadeirinha de Arruar", um blog que criei há 4 meses, escrevo sobre fatos passados, de minha família materna e paterna.
Gostei, daqui, e volto <<<<<<
Um abraço
Lúcia

Lúcia Bezerra de Paiva disse...

Perdão, Elisabete, "engoli" o "r" do querido e lindo Porto...
Beijo

Elisabete disse...

Carol,
Com o desenrolar do livro, vi que a ida teve volta. Mas o texto é realmente bonito.
Eu é que agradeço a sua fidelidade a este blogue.

Lúcia,
Gostei da sua visita. Na verdade eu vivo no Porto, mas estive 5 anos em S. Miguel, vou lá sempre que posso e os Açores ficaram, simplesmente, dentro de mim.
Não há outro lugar onde eu mais gostasse de viver.
Apareça sempre!

Um abraço às duas