quarta-feira, 20 de agosto de 2008

A Carta de América

Mestre João Bernardo era sapateiro e ferrador. Calçar apenas criaturas humanas ou irracionais não seria suficiente para garantir o seu sustento e o da família, e por isso aprendeu as duas artes. Mas, para não ofender as pessoas, definia-se como um sapateiro que também calçava animais, porque, se dissesse de si mesmo que era um ferrador que também calçava gente, isto seria decerto tomado como ofensa à sensível dignidade dos bípedes pensantes.
Foi-se embora deixando a oficina dupla sem nada levar dela. A fornalha estava tão pronta a acender como todo o material em condições de ser usado. Qualquer um que o soubesse fazer reanimá-la-ia em momentos.
Foi em sua casa que se jogou o último desafio de sueca na serra. Ainda lá estavam a mesa, as cadeiras e até a garrafa com o resto da aguardente.
Com a partida de mestre João Bernardo, no dia seguinte, não ficariam na aldeia mais do que três homens: o tio Amadeu, o Joaquim Torre Velha e Manuel Cordovão. Por isso aquele serão de sueca e despedida teve honras de mutismo em velório que nem os cálices de aguardente animaram.
Os parceiros haviam sido sorteados dando uma carta a cada um. Manuel e o Joaquim Torre Velha ficaram com as duas mais baixas, e por isso formaram equipa.
Manuel preferia tê-lo como adversário, porque, se ganhasse, isso seria uma pequena vingança, embora insignificante pelo muito que o outro lhe devia de uma vida inteira vivida ao contrário do que tanto desejara. Qualquer último dia é sempre inesquecível, talvez mais do que o primeiro, nem que seja o de um simples jogo de sueca.
Para evitar uma indefinida sucessão de partidas em que os que estivessem em desvantagem invocassem o seu direito à desforra, foi combinado que a disputa terminaria quando uma das equipas alcançasse seis vitórias.
Partida a partida, a sequência de vitórias e derrotas não deu a nenhum dos pares uma vantagem superior a uma até ao quatro igual. Depois, Manuel e o Torre Velha ganharam as últimas duas com facilidade.
Ao jogar a derradeira carta, sabendo que a vitória estava assegurada, Manuel sentiu uma tristeza tão grande como se aquela fosse a maior derrota da sua vida. De cada vez que partia alguém, a tristeza era tanto maior quanto menos gente restava na aldeia. E parecia que os que se despediam, indo, sentiam o mesmo e na mesma proporção que os que diziam adeus, ficando.
Os outros dois passaram a recordar aquele último serão como se tivesse sido uma das noites mais importantes da sua vida. O velho Amadeu garantia que fora sorte apenas, a do Manuel e do Torre Velha, que se apanhasse outra vez mestre João Bernardo à sua frente e com um baralho de cartas no meio dos quatro, eles haveriam de ver como perdiam num ai.
Num fim de dia, em que conversavam à porta da casa do Torre Velha, Manuel tirou um baralho da algibeira, embaralhou bem, disse àquele que partisse e mandou que o tio Amadeu desse cartas como se mestre João Bernardo estivesse ali. “És maluco”, disse o velho, no entanto obedecendo. Manuel pegou num envelope, meteu-lhe dentro as dez cartas restantes e explicou: “Vou mandar estas cartas ao mestre João Bernardo. O senhor Joaquim jogue uma, para eu lhe dizer e ele decidir qual a carta que há-de jogar.”
Perante o pasmo deles, explicou. Cada um guardaria as suas cartas, esperando a resposta do companheiro distante. Quando ela chegasse, juntar-se-iam os três e completariam a vaza. Depois, começariam outra e Manuel Cordovão escreveria novamente a dizer como fora. “Isso nunca mais acaba!” disse o velho Amadeu, mas mais em jeito de satisfação que de censura.
Cada resposta vinda da América demorava pelo menos duas semanas a chegar. Então os três homens juntavam-se em casa do Joaquim Torre Velha, com a mulher do tio Amadeu a fazer companhia a Maria da Graça, e esperavam com ansiedade a revelação da carta devolvida. Às vezes o serão de sueca não passava disso mesmo: Manuel abria o envelope, punha na mesa, em cima das outras três, a carta enviada por mestre João Bernardo, e, se era este que ganhava a vaza, arrumavam as suas e esperavam mais duas semanas. Quando era a vez de ele dar cartas, prevenia com antecedência se queria virar trunfo por baixo ou por cima, e o velho Amadeu dava por ele. Mas ficavam felizes como se não faltasse ninguém.
O velho Amadeu adoeceu quando estavam empatados a duas partidas, mas ele ia ganhando a quinta por três a um. Ainda aguentou o suficiente para viver até à penúltima vaza, que ganharia, e o jogo também, se mestre João mandasse um trunfo para cortar um rei jogado pelo Torre Velha. Não veio o trunfo. Mas Manuel trocou uma carta sua e mostrou-a ao quase moribundo como sendo a do companheiro. “Vocês ganharam, tio Amadeu.” O velho sorriu, feliz. Pela última vez, o velho Amadeu sorriu. Para que ele sorrisse durante mais uma partida, Manuel seria capaz até de roubar ouro.
Daniel de Sá, in "O Pastor das Casas Mortas

10 comentários:

Cris disse...

Sou fascinada por este capítulo, além dos significados que povoam as entrelinhas, levam-me a crer que esta cena deu início num serão lá na Maia, onde três figuras posso dizer que conheço.Quem ganhou na Maia neste dia?Bom, não importa muito agora , porque por fim ganhamos nós leitores.
Um montão de beijos para Daniel e Elisabete.
Cristina

Daniel de Sá disse...

Cristina, eu perdi por oito partidas a seis, porque fiz duas asneiras em que cada uma valeu uma partida.
UM beijo.
Daniel

Cris disse...

Elisabete

Vim aqui agradecer a visita, e dizer que é sempre bom estar em tua companhia. E junto a Daniel, é perfeito.
Beijo o coração dos dois.

Elisabete disse...

Que bom ter-vos cá!
Texto do Daniel, é sucesso assegurado.
Uma abraço para o Brasil e outro para a Maia (de S. Miguel, claro!)

Maria Isabel disse...

Esse Cordovão é um espanto.

Priola disse...

E o Daniel de Sá um criador espantoso!

joão coelho disse...

A carta trazia remetente do Canadá, mais precisamente Winnipeg, Manitoba, terra de frios e de índios, noutros tempos. Asssinava Amadeu Reis, compadre dos meus pais, emigrado há pouco tempo no Canadá. Abro o envelope e sai-me de lá uma nota de 5 dólares..que era a primeira coisa que eu recebia das bandas do Novo Mundo..
Primeiro, comovi-me com a atitude, o velho amigo Amadeu a lembrar-se de mim, e depois tirei uma conclusão práctica; aquela nota, trocadita por escudos dar-me-ia para quase cinco refeições no restaurante "Palmeira", ali à rua do Crucifixo, nas traseiras dos Armazéns do Chiado, em Lisboa; o dólar norte-americano valia 28 escudos, o canadiano um pouco menos, mas, para mim, menino-soldado incorporado voluntáriamente na Força Aérea, ainda com 17 anos (para tentar escapar à guerra em África) aquela notinha era uma pequena benção dos céus e, vinda de quem vinha, tinha ainda mais valor..
Amadeu Reis era um continental que nascera na raia com Espanha e que, para procurar melhor vida,emigrara até às Astúrias, para trabalhar nas minas de carvão.
Apanhado pela Guerra Civil, fica com os Republicanos e chega a Tenente das Mílicias; terminado o conflito, volta a Portugal, mas, com medo de que as autoridades portuguesas o fizessem regressar à Espanha franquista, viaja até S.Miguel. Casa lá e arranja trabalho nos iates do Parece, nas ligações com Vila do Porto, até mudar para guarda do Clube Naval de P.Delgada..e é aí que eu o conheço. O C.Naval era, na altura, constituído por um barracão à entrada da Doca, onde se guardavam as embarcações, e por um pequeno espaço, junto à Avenida Marginal e em frente ao Cais da Sardinha, onde se apanhava sol, se nadava, ou se embarcava num dos barcos à vela que o Clube tinha. O sr. Amadeu (como o tratávamos) geria instalações e barcos, e zelava pela segurança dos utentes; destes, eu, o Tibério, o Álvaro e o Viana, éramos fregueses com assinatura de ponto diária no Verão, ganhando bronze, dando una mergulhos e umas braçadas, inspeccionando e convivendo com s pequenas e alugando um " Vouga " (classe de barco à vela, com cerca de 4 metros ) quando estávamos abonados de escudos. E era nestas pequenas embarcações que fazíamos belos percursos no mar, um pão com chouriço ou atum, ou ovos mexidos, mais umas garrafas com água, e lá íamos, Doca abaixo, até sairmos para o mar exterior, em longas viagens, de manhã até ao fim da tarde, afastando-nos por vezes tanto que a cidade ficava uma mancha branca lá ao longe, indefinida..Na altura eram passeios prazenteiros, ali, sózinhos, no Atlântico, ao sabor do vento, de vez em quando na companhia de golfinhos, numa ocasião com um tubarão a rondar, lentamente, curioso, mas pacífico..mas hoje, sabendo como é instável o clima nos Açores, dá para pensar no que faríamos numa falha de vento que nos trouxesse de volta, ou numa alteração das condições do mar..
Quando o Verão chegava ao fim, ajudávamos o Amadeu a por os barcos em terra e tínhamos recompensa - um cálice de aguardente com mel, para recuperar do frio, e com o Clube já sem utentes, ficávamos na conversa. Aí, víamos que o Amadeu não se sentava, punha-se de cócoras, e que cantarolava umas canções em castelhano, que não compreendíamos; fazia impressão, mas não perguntávamos nada..
Anos depois, feito o compadrio com os meus pais, e com mais à-vontade, perguntei-lhe; porque se punha de cócoras, em lugar de se sentar como nós? E a resposta veio, tinha-se habituado a estar assim, depois de ter passado pelas prisões franquistas ( e ser quase fuzilado ) durante a guerra, já que obrigavam os prisioneiros a estar naquela posição..e as canções eram da Mílicia Republicana..
Em S.Miguel, casado e com filhos, o sr.Amadeu vivia com dificuldades, que eu conhecia. Um dia, através de familiares da mulher, conseguiu emigrar para o Canadá, lá para os gelos do Winnipeg, trabalhava no Verão, como pintor de casas, descansava no Inverno; mandou-nos fotos, Amadeu ao lado de um "espada", Amadeu em casa - grande, desafogada - frigorífico de porta aberta, para se ver que comida não faltava..
Pouco anos depois, veio a noticia: o sr.Amadeu morrera, com ataque cardíaco..E ainda hoje estou convencido de que morreu por abastança, por ter, finalmente, uma vida sem problemas, com casa, comida e automóvel..
E por isso lamento, hoje, não ter guardado aquela carta do Candá, com a nota de 5 dólares, e de não ter procurado saber mais das suas histórias de vida, em Portugal e em Espanha.
Faltou-me o discernimento que só a maturidade traz..

Saudações atlânticas

João Coelho

Elisabete disse...

Como eu o compreendo, João. Eu também tenho lamentado o facto de ter deixado morrer pessoas de família sem fazer as perguntas que, agora, gostaria de ver respondidas. Quando se é muito novo, não se percebe a importância dessa passagem de testemunho.
Mais vez, muito obrigada pela colaboração.
Um abraço

Dica disse...

Para o João Coelho:
Interessantes as suas estórias,João,muito interessantes.
Sabe que consegue prender o auditório?
Tocou-me particularmente a passagem:«(...)e lá íamos,Doca abaixo,até sairmos para o mar exterior,em longas viagens» e o que vem imediatamente a seguir.
Nunca provei aguardente com mel,mas acredito que a junção do amargo com o doce não deve ser má.As «Ilhas Encantadas» ficaram(ainda) mais enriquecidas com a presença do João.
Abraços continentais
Eduarda(Dica)

Dica disse...

Daniel,
Obrigada por esta carta.Respira sentimento,reconhecimento,saudade,nostalgia.
Sabes, às vezes ponho-me a pensar como serão «As Cartas de América» dos tempos que correm...
Abraço do lado de cá.