segunda-feira, 17 de novembro de 2008

Lendas dos Açores 5

Ali, Faquir e o Pirata Corvino
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Um olhar para os Açores, exactamente à ilha do Corvo, em pleno século XV.
Havia ali uma mulher solteira que tinha um filho, o que, para a sociedade local de então, era motivo para ser rejeitada. Às vezes, chegava-se ao ponto de obrigarem as mães solteiras a abandonarem a ilha. E no caso desta, atribuíam-lhe mesmo poderes maléficos, chamavam-lhe bruxa. Com tudo isto, se ela sofria, a criança, conforme crescia e ganhava consciência da situação, tornava-se um ser amargo e revoltado. O moço padecia dolorosamente as humilhações por que passava a mãe e sempre também sobravam para ele.
Também, coisa natural naqueles tempos, numa dada altura, a ilha do Corvo foi assaltada por piratas argelinos, que ali iam abastecer-se. O rapaz não quis saber de mais nada, logo aproveitou para se oferecer a acompanhá-los. Era a maneira que encontrava para se livrar da ilha que tão mal o tratara. E depois, como a mãe já morrera, que ficava ali a fazer?
Ilustração: Maurício Abreu
Os piratas argelinos levaram-no e fizeram uma grande viagem, indo depois dar a Tunes, onde o moço corvino foi oferecido a um faquir, mudando-lhe este o nome de Alípio para Ali. O rapaz, com o seu amo e mestre, aprendeu tudo o que pôde, que lá esperto era ele. Não tardou a ter poderes de faquir: via a distâncias incalculáveis, deixava-se cortar pelas finas lâminas sarracenas e, num ápice, ficava curado. No peito, ostentava a tatuagem do pentagrama, demonstrativa da sua autoridade como faquir.
Mas há sempre um mas nestas lendas. E o mas de Ali era que, mesmo sendo um faquir, lhe aborrecia a penitência e o voto de pobreza que lhe cabia cumprir. Por outro lado, bailavam-lhe na cabeça os vexames que com a mãe suportara na ilha do Corvo e queria vingar-se. Como ouvia a voz da mãe dizer-lhe sempre:
- Pobreza não é vileza, mas é um ramo da picardia.
Assim, atingindo a idade adulta, dotado de saberes e poderes invulgares, não hesitou em arranjar tripulação para dois barcos de piratas que passou a comandar. De Larache, onde armara a sua pequena esquadra, Ali saiu para o Corvo. Aí chegado, fundeou perto da baía da praia para os barcos não serem vistos do Corvo, mas reparou neles uma corvina que por ali andava às lapas. E a mulher deu o alarme. E quando os piratas desembarcaram de uma chalupa à entrada da ilha, esta estava tomada pelos corvinos, que lhes lançaram pedras, obrigando-os a fugir para a chalupa. Porém, como se levantasse forte ventania, a embarcação voltou-se, e os piratas, entre os quais Ali, não conseguiram nadar para os barcos, que era difícil e longe, nem regressar à praia, onde os matariam. Desconfiaram de que o comandante os queria entregar aos corvinos e cortaram-lhe o pescoço. Depois, conseguiram salvar-se.A cabeça de Ali foi dar à praia, onde a reconheceram. Enterraram-na na areia, mas todas as noites ela se desenterrava e ululava pelos rochedos. Até que um dia ficou sob a areia para sempre.

José Viale Moutinho, Lendas dos Açores

10 comentários:

Ibel disse...

Ele há cabeças que só mesmo enterradas na areia!!!!
Mas a lenda é interessante.

Elisabete disse...

Estas lendas, à primeira vista, parecem um pouco tontas. A verdade é que nos falam, como neste caso, das crenças, dos medos, dos costumes de comunidades do passado.
Beijinhos

Aurora disse...

acho que nunca parecem tontas.

Jose Augusto Soares disse...

Dificilmente apelidaria a Cultura popular de "tonta"...

Gostei muito.
aliás, O autor de há muito nos habituou a qualidade.

Elisabete disse...

Aurora e José Augusto,
Retiro o "tontas". Foi, talvez, o termo errado para expressar uma certa estranheza face à mentalidade actual.
Aliás, se não lhes reconhecesse valor, não as publicaria aqui.
Gosto muito de lendas e acho importante divulgá-las, porque são parte importante do nosso imaginário colectivo.
Por outro lado, disse "parecem" (ou podem parecer, à primeira vista) e não "são".
Obrigada por aparecerem, comentarem e possibilitarem este esclarecimento.
Abraço para os dois

Aurora disse...

:)

Ibel disse...

Eu quando falei em cabeças enterradas na areia, fi-lo por jogo de associações.É que há cabeças que apetece enterrar...
Adoro lendas.

Elisabete disse...

Não se preocupe, Ibel!
Todos percebemos o que quis dizer.
Ambas gostamos de lendas e conhecemos a sua importância.
Um beijo

Daniel disse...

Bem contada esta lenda, como sempre quando se trata do José Viale Moutinho. E oportuna e cheia de interesse a sua punlicação.
As lendas não fazem mal a ninguém. O pior é quando se quer fazer passar por verdade histórica o fantasioso descobrimento dos Açores pelos fenícios, há vinte e três séculos!

Elisabete disse...

Tem toda a razão! Mesmo que, por mero acaso, para aí tivessem sido arrastados alguns marinheiros fenícios, que importância é que isso teria?
As ilhas continuaram silenciosas e calmas à espera...
Um grande abraço