sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

A propósito dos Alfenins...

Alfenins
Ex-votos & alfenim
Quando a cabeça dói e o clínico não encontra solução para o problema, mesmo depois do recurso exaustivo a todos os exames subsidiários que a imaginação lhe dita, sempre se pode invocar o santo da devoção prometendo-lhe, no mínimo, uma cabecinha de cera para lhe agradecer o serviço. Caso ele atenda o pedido, o beneficiado deve levar ao local de culto o objecto prometido e, se possível, colocá-lo em lugar de destaque no altar do invocado para que dê testemunho público, não só da gratidão pelo serviço prestado, mas também para que fique como prova do seu poder de intercessão nas altas esferas do poder celestial. Como alternativa caída em desuso pode mandar pintar um quadro onde de modo mais ou menos explícito figurem os pormenores da ocorrência. A estas dádivas de reconhecimento costuma dar-se o nome de ex-votos.
O alfenim é um doce feito com água, açúcar, uma colher de vinagre de vinho branco e manteiga que permitem a obtenção de uma massa branca moldável e que, como a palavra sugere, tem origem árabe. Com efeito, a receita terá sido conhecida na Península Ibérica durante a ocupação muçulmana a partir do século VIII e, com o correr do tempo, acabou por radicar-se em território nacional e influenciar a doçaria portuguesa, muito particularmente a do Algarve.
A sua divulgação nas ilhas adjacentes pensa-se que terá ocorrido no ano de 1465 quando partiram para os Açores, com a finalidade de povoar a ilha Terceira, algumas famílias algarvias de origem mourisca que, afeitas ao uso do manjar, terão difundido no arquipélago a arte de confeccionar a preceito.
A fórmula também viajou para a Madeira. Sabemo-lo porque do Funchal partiram para Roma, em 1516, como oferta ao papa Leão X, o sacro palácio e os cardeais, estes em tamanho natural, feitos de alfenim dourados a partes, que lhe davam muita graça.
Nos Açores a sua popularidade mantém-se. Devido à sua brancura, que se pode associar a pureza ou purificação, o alfenim foi integrado no culto religioso cristão e tornou-se um doce característico das festas do Espírito Santo.
O facto de se poder moldar a gosto a massa obtida possibilita que se criem ao sabor da imaginação as mais diversas formas decorativas, entre as quais avulta a da pomba representativa do Espírito Santo. Porém, a criatividade não se fica pela invocação, pela decoração e pelo consumo. Também é possível ver surgir durante os festejos representações variadas de partes do corpo humano, como forma de agradecimento pelas mercês obtidas. Neste caso, são encomendadas à doceira, com a antecedência necessária, as peças da anatomia sobre as quais incidiu a cura pedida com a indicação explícita do peso de açúcar que deve empregar na sua confecção para deixar bem clara não só a natureza do alvo, mas ainda a grandeza da intervenção da terceira pessoa da Santíssima Trindade.
Foi assim que, passados alguns séculos, concebido pelos árabes para regalo sensorial, se veio a converter ao Cristianismo e a transformar num ex-voto comestível. Bem pode dizer-se que as voltas que o doce deu são as voltas que o mundo dá.
Lima-Reis (médico), in Notícias Magazine

2 comentários:

carol disse...

Que ignorância a minha: nunca tinha ouvido falar em semelhantes bolos! O Dr. Lima Reis é exímio em desencantar estas tradições muito antigas da nossa doçaria e cozinha. Também costumo lê-lo. Até porque é de Barcelos, terra de meu pai.

Elisabete disse...

O seu pai é de Barcelos? Eu também, apesar de me considerar um pouco mais portuense.
Como o mundo é pequeno!!!