segunda-feira, 22 de junho de 2009

O homem dos 7 instrumentos

Eu nunca estivera antes na casa do padre, compreende o senhor? Não tinha vida nem estômago para isso. Era, nesse tempo, um homem de mil ofícios e caminhos. O mundo sobrevivia, sabe como e porquê? Ora, porque eu o desratizava. Subindo e descendo, por ladeiras e estradas, essas aldeias todas do Nordeste, tocava o meu realejo à entrada da rua principal, vinham logo bandos de homens e mulheres a correr ao encontro dos meus serviços. Via-se-lhes nos olhos as vidas carregadas de pobreza e de uma tristeza sem remédio. Ou tinham tulhas cheias dessas pragas de murganhos que eu devia exterminar, ou traziam facas e tesouras e alfaias agrícolas a afiar à lima, ao esmeril, até à lixa grossa; ou então apresentavam-me guarda-chuvas com varetas e molas partidas, e outras ferramentas a precisarem de um conserto destas minhas mãos de mecânico de tudo e mais alguma coisa. Amolava enxós, serras, serrotes, ferros de arado, foices de ceifar trigo ou roçar silvas, o inferno em peso a passar-me pelos dedos. As pessoas pediam-me que lhes fizesse recados e chamadas telefónicas intercontinentais, que lhes levasse cartas para o correio e desse voltas e voltinhas por elas na Vila, à cata de papéis e encomendas, em diligências e estúpidas demandas junto da câmara municipal e do notário. Pagavam-me por isso o que entendiam ou bem podiam. Mas nunca me faltou trabalho, porque a verdade é que não havia em todo o concelho do Nordeste um desratizador como eu. Armava ratoeiras em tudo quanto fosse sítio de ratos: arribanas, cafuões de milho, armazéns de frutas, sótãos onde se vazavam o trigo, a fava, a batata-doce e a comida de Inverno para o gado. As casas ficavam presas e reféns das minhas armadilhas, tal qual o peixe miúdo numa malha entre rochas ou os pássaros nas redes que eu lançava entre o canavial – enquanto ia amolando tesouras de costura, limando facas de cozinha ou rachando lenha para o lume. Depois ia ver as minhas ratoeiras. Os bichos agonizavam às centenas, espichados pelas duras molas desses meus engenhos, dando à cauda e às patas no ar, os olhos alucinados e as línguas de fora. Abria-lhes então uma boa cova no quintal, ajudava-os a morrer por misericórdia e enterrava-os às pilhas e mais pilhas, para que o mundo ficasse limpo e salvo de semelhantes pragas. À boca de Outubro e de Novembro, consoante o tempo se anunciasse para a próxima estação, tornava-me carvoeiro. Trabalhava numa furna inventada por mim, espécie de forno abafado, com controlo de fumos e calores, onde a lenha ardia da noite para o dia por sua conta e risco, até o fogo se extinguir por si e as achas se converterem em grandes troços de carvão que eu vendia a peso ou a saco para o tempo frio. Já por aqui se vê, senhor: com uma vida destas, como ia eu ter tempo e paciência para padres e missas? Agora! Razão por que, como lhe disse, nunca tinha estado antes naquela casa.
João de Melo, A Divina Miséria

4 comentários:

Eduarda disse...

«Divina» miséria,essa,Deus meu!
Porque é que o pão nunca foi saboreado por todos e continua a estar mal repartido?Porquê?!

Elisabete disse...

Eduarda,
Somos egoístas, tão imperfeitos...
Gosto de a ver aqui. Um beijinho

joão coelho disse...

Conheci o João de Melo em finais dos anos 70, andava ele a iniciar-se nas letras, tentando "abrir" espaço para a sua prosa no fechado meio intelectual do continente. Tinha publicado "A memória de ver matar e morrer" que, como "Autópsia de um mar em ruínas", (1984) tem a guerra colonial como tema - guerra na qual participou como enfermeiro.
Na altura o João era funcionário da secretaria do Sindicato dos Electricistas, com sede na Av.Almirante Reis, em Lisboa. Trabalhava de dia, estudava à noite, escrevia pelo meio..
O reconhecimento da qualidade da sua escrita demorou, mas com a publicação de "Gente feliz com lágrimas" chegou, finalmente, a consagração, com prémios nacionais e internacionais.
Gosto muito do "Gente feliz com lágrimas" que julgo ser o mais belo livro escrito sobre os açorianos e os seus dramas - a vivência na ilha, os sonhos, a emigração, para o velho e novo mundo, está lá tudo.
Beijinhos

Elisabete disse...

Também gosto muito do GENTE FELIZ COM LÁGRIMAS e de O MEU MUNDO NÃO É DESTE REINO. Como gosto do João de Melo e de outras obras dele que tenho.
Não compreendo como só agora me dispus a falar dele...
Mas mais vale tarde do que nunca, não é?