sexta-feira, 18 de março de 2011

A Nau Catrineta

Lá vem a Nau Catrineta,
Que traz muito que contar,
Há sete anos e um dia
Que andam na volta do mar!
Não tinham já que comer,
Nem tampouco que manjar.
Já mataram o seu galo
Que tinham para cantar.
Já mataram o seu cão
Que tinham para ladrar.
Não tinham mais que comer,
Nem tampouco que manjar.
Botaram sola de molho
Para no outro dia jantar.
A sola era muito dura
Não a puderam rilhar.
Botaram sortes ao fundo
A qual haviam de matar,
A primeira que caiu
Foi ao capitão general.
***
- Arriba, gageiro, arriba,
Arriba ao mastro real!
Olha se vês minhas terras,
Ou reinos de Portugal?
“Eu não vejo tuas terras,
Nem reinos de Portugal,
Vejo três espadas nuas
Todas para te matar.
***
- Arriba, Pedro, arriba,
Meu marinheiro leal;
Olha se vês minhas terras,
Ou reinos de Portugal.
***
O gageiro lá em riba
Em altas vozes gritara:
***
“Alvíssaras, senhor, alvíssaras
Meu Capitão general!
Que eu já vejo as tuas terras
E reinos de Portugal.
Se não nos faltar o vento
A terra iremos jantar.
Lá vejo muitas ribeiras,
Lavadeiras a lavar;
Vejo muito forno aceso,
Padeiras a padejar.
E vejo muitos açougues,
Carniceiros a matar.
Também vejo três meninas
Debaixo de um laranjal.
Uma lavrando ouro,
Outra a prata real;
A mais bonitinha delas
Em procura do dedal.
- Essas três são minhas filhas,
Todas três te eu hei-de dar.
Uma para te vestir,
Outra para te calçar,
A mais bonitinha delas
Para contigo casar.
“Não quero as tuas filhas,
Que Deus tas deixe gozar;
Que eu tenho mulher em França,
Filhinhos de sustentar:
Quero a Nau Catrineta
Para nela navegar.
- A Nau Catrineta, amigo,
Eu te não posso dar.
Assim que chegar a terra
Pois ela vai a queimar.
Dar-te-ei tanto dinheiro
Que o não saibas contar.
“Não quero os teus dinheiros
Pois te custam a ganhar;
Quero a Nau Catrineta
Para nela navegar,
Que assim como escapou desta
Doutra ainda há-de escapar. [1]
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in Romances Marítimos, Romanceiro das Aravias
[Cantos Populares do Arquipélago Açoriano,
publicados e anotados por Teófilo Braga]
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[1] Uma das muitas versões existentes na Ilha de S. Jorge.

2 comentários:

carol disse...

Somos um povo de poetas! Muito linda esta "cançoneta! Muito bem escolhido.

Elisabete disse...

Ainda bem que gostou.
Ando a tentar divulgar estas "coisas" do passado.