sábado, 26 de março de 2011

Revelação

[…]
Fixou um ponto vago entre o sofá e a lareira e as palavras que se seguiram foram pronunciadas com um enorme desalento.
- Tenho tanto medo de me vir a prosternar diante de qualquer religião. E tenho também medo de não ter coragem para isso.
Nos seus lábios passou um sorriso de acre ironia.
- Como vês, tens na tua frente um sentimento de ruína dessa brilhante segurança que tantas vezes te irritou.
Dito isto, pôs-se a devorar-me o rosto com um olhar terrivelmente angustiado. Aguardava uma palavra minha e todas as frases que me acudiam pareciam-me estupidamente destituídas de qualquer oportunidade. No meio da minha aflição mental, sentia que a única atitude adequada era tomá-lo arrebatadamente nos meus braços. Foi o que fiz. Agarrou-se a mim com frenesi e durante minutos soluçou convulsivamente.
0 contacto do seu corpo sacudido pela efusão das lágrimas amargamente recalcadas, produziu-me um frémito ao qual se seguiu uma lânguida sensação de doçura. Bruscamente, todos os meus problemas recuavam até se perderem num horizonte de inverosimilhança. Toda eu era um espaço disponível para ser ocupado por uma infinita piedade que o não humilhava mas antes o enobrecia como objecto desse desmedido sentimento que me abrasava. Instantaneamente, revi as gradações do amor que em tempos sentira por ele e nenhuma delas se comparava à intensidade desta nova sensação. Começara por me apaixonar e reconhecia nessa experiência a intervenção de um elemento magnético, algo de exacerbante para os meus sentidos e para a minha imaginação mas que jamais perfurara a placenta que envolvia o meu misterioso núcleo de mulher. Depois admirara-o. O que me mantinha numa tensão de temor e revolta. Era um amor cheio de dúvidas e sobretudo assombrado pelo medo de que ele desmentisse a minha admiração. Mas era precisamente esse receio que em última análise me fascinava, atraindo-me para um exame frio do qual acabou por resultar a incomplacência que acompanha o acordar das admirações veementes. Agora era verdadeiramente a loucura que enlaça as almas e o meu embrião feminino abria-se por fim, transmitindo-me um tumulto de vibrações luminosas.
Com suavidade, ergui-lhe o queixo para que ele visse a luz do sorriso que bondosamente eu sentia amaciar-me a boca.
- Amo-te – murmurei, saboreando pela primeira vez o gosto concreto desta palavra. – Oh, Miguel… Nunca te amei tanto.
Fitou-me numa comoção em que era difícil discernir a alegria do medo. Depois, envergonhado da desvairada esperança que instantaneamente o arrebatara, baixou a cabeça e disse:
- O que tu sentes é compaixão.
- É possível – respondi num ímpeto. – Mas se é isso nunca senti nada tão intenso.
Ficou atónito como se tivesse ouvido a mais inacreditável das revelações. Repentinamente, o rosto iluminou-se. Na sua expressão lia-se o alvoroço de ter decifrado uma palavra de oráculo.
Estendi-lhe os braços. E enquanto se enfronhava neles numa comovida lassidão, pensei:
“Talvez as mulheres sejam monstruosas porque no fundo só podem amar aqueles que sofrem. Mas é nisso que elas são sublimes.”
Natália Correia, A Madona

4 comentários:

carol disse...

Que belo texto! Natália, a grande escritota das emoções fortes, da paixão, do amor que tem a força do Mar que a viu nascer!

Elisabete disse...

É realmente notável este texto, Carol!

carol disse...

Querida "hortense azul", há um selo para o teu blog lá no meu espaço. Se quiseres ir buscá-lo, terei muito gosto.
Gosto muito das tua ilhas e dos teus textos.
Beijo

Ibel disse...

Texto arrepiante, Elisabete, com uma conclusão fantástica.

Páscoa Feliz!