sábado, 30 de julho de 2011
sábado, 23 de julho de 2011
Genuíno Madruga: O navegador solitário
Nasci em São João da Ilha do Pico, a 9 de Dezembro de 1950, na casa da Munica, na Companhia de Cima, sítio do Palmo do Gato. Naquele tempo a vida era muito difícil. Debruçado no balcão ou sentado na porta da loja, reparava naquele mar calmo, que me fazia perder o tempo a olhar como se, lá longe, onde o Sol se escondia tivesse coisas que não podia ver. Outras vezes, parecia querer entrar pela terra! Em dias de muito vento podia mesmo lamber os lábios e gostava daquele sabor a sal, a maresia.
A Festa da Senhora de Lourdes, padroeira dos baleeiros e dos homens do mar, que ano após ano se realiza na Vila baleeira das Lajes do Pico e noutras localidades dos Açores, foi o dia escolhido para a partida da segunda viagem do “Hemingway” à volta do mundo. […]
Em terra estouraram os foguetes e da rampa junto à fábrica arriaram-se os botes. No mar as lanchas baleeiras, os botes, embarcações de recreio e de pesca, enquanto que no meu veleiro eram içadas as velas e a popa virada para terra. Aos poucos, milha após milha, as pedras negras se confundiam com o mar e o “Hemingway” com o seu único tripulante, transportando a sua carga preciosa de beijos, abraços, afectos, carinhos, saudades e de tantas coisas indescritíveis, seguia, embalado por aquele mar, meu conhecido, que me havia de acompanhar pelos quatro cantos do mundo.
A 3 de Setembro parti de Bali tendo como porto de destino Port Mathurin, na ilha Rodrigues, no Arquipélago das Maurícias. No dia seguinte, navegando com vento ESSE, 15 nós, a 70 milhas de terra, avistei uma embarcação de boca aberta, que se encontrava pescando, com dois tripulantes. Não consegui perceber que género de pescaria estavam fazendo. Com excepção do dia 6 de Setembro, no qual apanhei um bonito pequeno, os outros dias seguiram-se sem pescarias. A temperatura da água por volta dos 26 e do ar 27 graus.
O vento em quase todo o percurso esteve entre os 5 e os 25 nós, de E ou ESE. Passaram frentes, acompanhadas de chuva e vento bastante fresco. No dia 15 a Rádio Exterior de Espanha informava que as frotas de pesca Francesa e Espanhola se encontravam nas Seychelles aguardando protecção em relação ao cada vez maior número de piratas que actuavam no Índico, nas proximidades ou em zonas bastante desviadas da costa da Somália. Já haviam sido referenciadas cerca de 45 embarcações com piratas, actuando em águas internacionais, à volta das 400 milhas de terra.
A 16 de Setembro o vento, soprando SE com 25 nós, originou mar grosso. O fogão saiu fora dos eixos, tive de aguardar por melhoria do estado do tempo, o que só aconteceu no dia seguinte, para repô-lo novamente no lugar. Passados vários dias comendo conservas ou peixe salgado, ao final da tarde do dia 19 cozi batatas e aguardei pacientemente, sempre olhando para as minhas linhas, que vindo de corrico havia dias que nada apanhavam, na esperança de que um peixe ficasse preso, mesmo que pequeno. Se nada pegasse, teria de abrir novamente uma lata de conservas. Mas, como bem sei, na pesca há sempre que aguardar. Para meu regalo pegou um bonito grande, que puxei para bordo, com todo o cuidado, não fosse ele escapar. Com a ajuda de um peixeiro, meti dentro o meu jantar daquele e de mais dias. Efectivamente, ao contrário da primeira viagem, o peixe não abundava.
Fiz filetes, que cozinhei na altura, preparei uma vinha de alhos para outros, destinados ao dia seguinte, e o restante foi devidamente salgado. Nos tempos de abundância (anterior viagem) também usei este método da salga do peixe, embora sem grandes preocupações, devido às boas pescarias que quase todos os dias fazia.
Comecei ainda agora a ler o livro de Genuíno Madruga. Recebi-o hoje pelo correio. Extraí estas passagens um pouco aleatoriamente mas, pelo que já li e vi, aconselho-o vivamente. Não faltam fotografias lindas, lugares exóticos e histórias das suas gentes, aventura. E, sobretudo, não falta coragem, força e amor ao mar e às ilhas por parte deste picoense ilustre, primeiro velejador solitário português a realizar viagens de circum-navegação e de que todos, com toda a certeza, nos orgulhamos muito.
É fácil adquirir o livro. Aqui ficam os contactos da Editora. É uma obra que vale a pena ter.domingo, 19 de junho de 2011
O vidrinho de lágrima semi-inventada...
Parto amanhã de manhã para Lisboa. Sábado que será de sol. Voo semidirecto: Pico, Lajes, Lisboa. Sempre que me vou de abalada, sinto uma ponta de tristeza e de saudade do local onde aqueci lugar durante algum tempo. A mala e a pasta do computador já se encontram no chão do alpendre da casa virada ao mar. Contemplo a Ilha de São Jorge: estende-se ao longo do meu olhar numa extensão de cerca de oitenta quilómetros. Hoje, pintou-se de azul arroxeado. Daqui a pouco, já troca de pintura, mas não é troca-tintas! Nunca usa a mesma durante muito tempo. Grande vaidosa, a Ilha em frente de minha casa! O Expresso que liga os portos da Horta, de São Roque e São Jorge, não navega: azula-se de tal maneira que já vai a meio do canal, o de Vitorino Nemésio, rumo à Vila das Velas. Enxergo o casario com nitidez e, à noite, até vislumbro a claridade dos faróis dos automóveis circulando nas estradas. O mar, um espelho. Estanhado. Bom Tempo no Canal! Ainda é muito cedo! Sou ardido no tocante a horários! A boleia só chegará daqui a uma hora, mas gosto de sentir-me em mangas de camisa dentro do tempo que me faço sobejar. Vou ainda percorrer a casa, palmo a palmo. Retiro algum prazer mórbido ao despedir-me das coisas, devagar. Das pessoas, é mais fácil! Entro de novo, subo as escadas que me levam ao sótão, o meu santuário da escrita e dos livros. Acaricio a lombada de um ou outro, endireito algum mais indisciplinado, sem vocação militar para a formatura rígida, deixo cair os olhos nas estantes de criptoméria, aliso a secretária já esvaziada do computador portátil, lanço um lento olhar em redor, na esperança de que ele fique, ali, preenchendo a ausência prestes a desabotoar-se e me dê as boas-vindas quando de novo eu chegar... Como existirão os livros sem mim, neste sótão de silêncio? Desço de novo as escadas, paro uns momentos em cada degrau, capto a sala de cima, e enterneço-me com o vidrinho de lágrima semi-inventada que me embacia os olhos.
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Cristóvão de Aguiar/Francisco de Aguiar, Catarse
domingo, 12 de junho de 2011
Roberto Ivens
Roberto Ivens nasceu a 12 de Junho de 1850, na freguesia de São Pedro, Ponta Delgada, filho de Margarida Júlia de Medeiros Castelo Branco, de apenas 18 anos de idade, oriunda de uma família de modestos recursos, e de Robert Breakspeare Ivens, de 30 anos, filho do abastado comerciante inglês William Ivens, residente em Ponta Delgada desde 1800.
Não sendo os pais casados, e dadas as diferenças sociais e convenções da época, fruto de amores furtivos e proibidos (mas tolerados), o nascimento deu-se numa casa alugada onde o pai havia instalado a amante, que entretanto fora amaldiçoada, deserdada e expulsa de casa pelo pai. A instâncias da mãe, o recém-nascido foi baptizado, às escondidas, como filho de pai incógnito, na igreja da Fajã de Cima. Entregue à parteira do lugar, Ana de Jesus, foi por esta levado à igreja sendo baptizado pelo cura e tendo como padrinho o irmão do vigário.
A criança foi entretanto criada na companhia da mãe e da tia, Ana Matilde. Com o aparecimento de uma nova gravidez, Roberto Breakspeare Ivens providencia uma empregada e uma casa na Rua Nova do Passal, Ponta Delgada. Por influência do Dr. Paulo de Medeiros, reconhece a paternidade sobre o pequeno Roberto, mesmo antes do nascimento do segundo filho, Duarte Ivens. Com apenas três anos de idade, perde a mãe vítima da tuberculose.
Permanecendo em Ponta Delgada, beneficiando do estatuto social que o reconhecimento por parte da família Ivens lhe conferiu, frequenta a Escola Primária do Convento da Graça, onde desde logo foi apelidado de "Roberto do Diabo" dadas as travessuras em que se envolvia.
O pai, que entretanto casara, fixou-se em Faro, no Algarve, para onde leva os filhos em Agosto de 1858.
Em 1861 Roberto Ivens é inscrito na Escola da Marinha, em Lisboa, ali fazendo os estudos que o conduziram a uma carreira como oficial de marinha. Foi sempre um estudante inteligente e aplicado, mas igualmente brincalhão.
Concluiu o curso de Marinha em 1870, com apenas 20 anos, com as mais elevadas classificações. Inicia a sua carreira de oficial da Marinha, fazendo várias viagens, mas por motivos de saúde, abandona o mar, passando a dedicar-se à cartografia na Sociedade de Geografia de Lisboa e na execução de trabalhos relacionados com África, sobretudo Angola, no Ministério da Marinha e Ultramar.
Quando tomou conhecimento do plano do Governo para a exploração científica no interior africano, destinado a explorar os territórios entre as províncias de Angola e Moçambique e, especialmente, a efectuar um reconhecimento geográfico das bacias hidrográficas do Zaire e do Zambeze, foi imediatamente oferecer-se para nela tomar parte. Como a decisão demorasse, pediu para ir servir na estação naval de Angola. Aproveitou esta estadia para fazer vários reconhecimentos, principalmente no rio Zaire, levantando uma planta do rio entre Borud e Nóqui.
Por Decreto de 11 de Maio de 1877 foi nomeado para dirigir a expedição aos territórios compreendidos entre as províncias de Angola e Moçambique e estudar as relações entre as bacias hidrográficas do Zaire e do Zambeze.
De 1877 a 1880, ocupou-se com Hermenegildo Capelo e, em parte, com Serpa Pinto, na exploração científica de Benguela às Terras de Iaca. No regresso, recebe a Comenda da Ordem Militar de Santiago e é nomeado a 19 de Agosto de 1880 vogal da Comissão Central de Geografia. Por Decreto de 19 de Janeiro de 1882, foram-lhe concedidas honras de oficial às ordens e a 28 de Julho foi nomeado para proceder à organização da carta geográfica de Angola.
Finda a viagem de exploração, Roberto Ivens e Hermenegildo Capelo foram recebidos como heróis em Lisboa, a 16 de Setembro de 1885. O próprio rei D. Luís se dirigiu ao cais para os receber em pessoa e os condecorar à chegada. O rio Tejo regurgitava de embarcações. Nunca se havia visto tamanho cortejo fluvial. Acompanhados pelo rei foram conduzidos ao Arsenal da Marinha para as boas vindas, com Lisboa a vestir-se das suas melhores galas para os receber. Foram oito dias de festas constantes, com colchas nas varandas, iluminação, fogos de artifício, recepções, almoços, jantares e discursos sobre a heróica viagem.
Mais tarde, o Porto não quis ficar atrás, excedendo-se em manifestações de regozijo e recepções. E no estrangeiro, Madrid esmerou-se em festas, conferências, recepções e condecorações; em Paris é-lhes conferida a Grande Medalha de Honra.
Em Ponta Delgada, por iniciativa de Ernesto do Canto sucederam-se as manifestações em honra do herói. O dia 6 de Dezembro de 1885 foi o escolhido para as solenidades. As ruas da cidade encheram-se de gente de todas as condições sociais. Cada profissão, cada instituição se incorporou no cortejo cívico com os seus pendões. Não faltaram as bandas de música e os discursos. Expressamente para esse dia foi composto o número único do jornal Ivens e Capelo e foi executado um Hino a Roberto Ivens, com letra de Manuel José Duarte e música de Quintiliano Furtado.
Roberto Ivens faleceu no Dafundo (Oeiras), em 28 de Janeiro de 1898, deixando viúva e três filhos. O enterro, a 29 de Janeiro, foi uma grande manifestação de pesar nacional. A urna de mogno estava coberta com a bandeira nacional.
sábado, 21 de maio de 2011
Luís de Figueiredo de Lemos
Luís de Figueiredo de Lemos nasceu em Vila do Porto (Ilha de Santa Maria), a 21 de Agosto de 1544. Era filho de Miguel de Figueiredo de Lemos e de D. Inês Nunes Velho.
O pai, um dos povoadores dos Açores e também o primeiro desta família na ilha de Santa Maria, foi procurador de D. Luís Coutinho (3.º comendador daquela ilha e que morreu na Batalha de Alcácer Quibir), Procurador do Número e Juiz dos Órfãos.
A mãe era da mais antiga raiz mariense, profundamente ligada aos primeiros povoadores, visto que provinda dos Velhos.
Gaspar Frutuoso descreve-o assim:
“Os primeiros anos de sua tenra idade foram regulados de uma natural modéstia e discrição. E no tempo em que começam os outros quase conhecer os pais, deixados por ele os risos da inconstante meninice, entrou no rigor do mestre e da escola; com pronta viveza discorrendo a veracidade das letras, em poucos anos aprendeu a ler, passando a maravilhosa invenção do escrever, poderoso e único remédio contra a miserável perda da memória dos mal lembrados homens. De doze anos começou dar obra aos ásperos preceitos da Gramática, na doutrina de um entendido mestre, que com muito louvor aos filhos dos nobres lia as humanas letras, adquirindo quanto dele se podia alcançar, entender, falar e escrever latim.
Antepondo seu pai as certas esperanças que mostrava ao tenro e vivo amor com que o queria, o mandou a Lisboa ao Colégio de Santo Antão, a estudar Retórica e Grego, ornamento e glória da latina língua. Desembarcado nos braços de seus parentes, nos mimos que todos lhe faziam, espantados em tão pequena idade parecerem tantas mostras do que prometia, entrou nas classes, e com incansável zelo da eloquência, passou em poucos meses os mais antigos e graves delas. E no exercício de compor verso e prosa, excedendo com muito louvor a todos, ganhou os melhores lugares e os prémios. Acabados dois anos, julgado no parecer dos padres meretíssimo de qualquer ciência, mandou seu pai que fosse a Coimbra estudar Cânones, presságio da dignidade que havia depois ter. Não bastaram danadas ocasiões daquela imensa cidade de Lisboa a profanar o casto recolhimento de seu peito, antes, avisado com as mostras da perdição que via, realçou em maior altura de virtude. E metido no meio de tantos males, vivia solitário com só Deus e com os livros.”
Recebeu as primeiras ordens em Portalegre, continuou a vida religiosa em Lisboa. Foi, depois, nomeado vigário da freguesia de São Pedro, em Ponta Delgada, e, ao mesmo tempo, ouvidor eclesiástico em toda a ilha de São Miguel.
Foi, depois, nomeado deão do Cabido da Sé de Angra e, nessa qualidade, incumbido pelo bispo de organizar o processo da vida e das virtudes da venerável Margarida de Chaves. Passou, com o bispo D. Pedro de Castilho, à ilha de São Miguel, como visitador, acabando por fazer o mesmo serviço na ilha de Santa Maria. Esteve, depois, impedido de voltar à Terceira onde D. Pedro de Castilho, devido às tendências políticas a favor de Filipe II de Espanha, não seria bem recebido.
Quando o bispo se viu na necessidade de regressar ao reino na armada de Álvaro de Bazán, que finalmente submetera a Terceira à obediência de Filipe II, foi deixado pelo prelado como governador do bispado de Angra.
Em Março de 1585, Filipe I de Portugal apresentou-o para bispo do Funchal. Foi sagrado em Lisboa, com 41 anos, no Mosteiro da Trindade.
Partiu de Lisboa no dia 27 de Julho de 1586, chegou à ilha da Madeira no dia 4 de Agosto de 1586, tendo passado algum perigo na viagem principalmente devido à pirataria nos mares da Madeira.
Esteve no cargo durante 22 anos e foi um grande reformador do clero madeirense, restaurando igrejas arruinadas, interessando-se pela administração das paróquias, criou ouvidorias e revitalizou as visitações. Elevou a igreja de S. Pedro (Funchal) a colegiada, mandou fazer o Seminário da Diocese, o Paço Episcopal do Funchal (antigo) e a capela anexa de São Luís, onde depois foi sepultado.
Morreu a 26 de Novembro de 1608.
Os seus restos mortais foram exumados e trasladados, aquando da profanação da Capela de São Luís em 1906, para a Sé Catedral, onde foram depositados junto às portas do guarda-vento e recobertos com a lápide de mármore lavrado que ornamentava a sua sepultura primitiva.
Fontes: Wikipédia e Saudades da Terra (Gaspar Frutuoso)
sábado, 14 de maio de 2011
JOSÉ DO CANTO: um homem a conhecer
José do Canto nasceu a 20 de Dezembro de 1820, em Ponta Delgada. Era filho do morgado José Caetano Dias do Canto Medeiros (1786-1858) e de sua primeira mulher, Margarida Isabel Botelho (1793-1827).
Casou a 17 de Agosto de 1842, com Maria Guilhermina Taveira de Neiva Frias Brum da Silveira, senhora da poderosa casa dos Bruns, tornando-se, assim, um dos maiores proprietários açorianos. Deste casamento nasceram 5 filhos, sendo dois do sexo masculino.
Tendo tido uma educação esmerada, era um homem culto, amante de Camões e de Garrett. Bibliófilo apaixonado, coleccionou toda a obra de Camões e o que sobre ele se tinha escrito, deixando uma biblioteca de milhares de títulos, recheada de preciosidades, que constitui, desde Maio de 1942, um dos fundos integrados na Biblioteca Pública e Arquivo Regional de Ponta Delgada.
Se o seu grande amor era a Ilha de S. Miguel, a sua grande preocupação era desenvolvê-la.
“Influenciado pelos iluministas, José do Canto queria reformar a terra onde nascera. Acreditava no progresso, como só nesse período, entre 1850 e 1890, se acreditou. Assinava revistas estrangeiras sobre como reformar a agricultura, lia manuais agrícolas pela noite dentro e sonhava com campos férteis povoados por camponeses felizes. Em 1843 fundou a «Sociedade Promotora da Agricultura Micaelense», a primeira associação do tipo existente em Portugal. Acreditava que a educação era a chave para ultrapassar os problemas que via pelos campos. Introduziu na ilha o método de ensinar a ler preconizado por António Feliciano de Castilho, cuja vinda para São Miguel patrocinou. Entre 1847 e 1850, Canto e Castilho colaboraram intimamente no jornal Agricultor Michaelense.
Morreu a 10 de Junho de 1898, deixando expressa a vontade de um enterro “sem pompa nem ostentação” e repousa, ao lado da esposa, na Capela de Nossa Senhora das Vitórias, junto à Lagoa das Furnas e de um dos seus “gloriosos jardins”. sexta-feira, 6 de maio de 2011
Ilha de Santa Maria
Como na alta mente do Infante estava posta e entendida outra coisa que os seus não entendiam nem cuidavam, recebendo-os ele com alegre rosto e fazendo as mercês costumadas a semelhantes serviços, confirmou […] estar ali perto daquele baixo de penedia a ilha que ele mandava buscar, e sabendo muito bem que quem porfia mata caça e a lebre que uma vez se esconde outro dia se descobre, determinou provar outra vez a ventura e aventurar o pouco que gastava pelo muito que disso esperava cobrar; e, como foi tempo disposto para o descobrimento, no ano seguinte tornou, com rogos e com promessas […], a mandar o mesmo Frei Gonçalo Velho a descobrir o que dantes não achara, dando-lhe por regimento que passasse avante das Formigas. O qual Gonçalo Velho, tornando a fazer esta viagem, como lhe era mandado, vindo com próspero tempo, querendo Deus já fazer esta tão alta mercê ao Infante e a ele, houve vista da ilha em dia da Assunção de Nossa Senhora, quinze dias de Agosto do ano do Senhor, uns dizem de 1430, outros de 1458. Mas isto não pode ser, porque comummente se disse e afirmou sempre, e assim se acha em algumas lembranças de homens graves desta ilha de São Miguel, que foi achada depois da ilha de Santa Maria ser descoberta doze anos, e se achou na era de 1444, […] e se a ilha de Santa Maria foi achada primeiro que ela doze anos, como todos dizem, e nunca caiu isto da memória dos homens, quem de 1444 tira doze ficam 1432, que é o ano em que se achou a ilha de Santa Maria.
Assim que a mais verdade que pude saber é que foi achada e houve vista dela Frei Gonçalo Velho e seus companheiros, que com ele iam, no ano de mil e quatrocentos e trinta e dois (1), reinando ainda em Portugal El-Rei D. João, de Boa Memória, décimo rei em número e primeiro do nome, no penúltimo ano de seu reinado, pois ele foi coroado por Rei de Portugal na cidade de Coimbra na era de 1385 anos, e no mesmo ano, véspera de Nossa Senhora da Assunção, que é em Agosto, venceu este Rei a El-Rei de Castela com todo o seu poder, em batalha campal, no Campo de São Jorge, acima de onde ora está edificado o mosteiro da Batalha, sendo de idade de trinta e oito anos, e viveu setenta e seis, dos quais reinou cinquenta, e faleceu véspera de Nossa Senhora de Agosto, na era de 1433 anos, que é um ano depois de se achar a ilha. E neste mesmo ano em que foi achada a dita ilha de Santa Maria (que se chamou assim, e lhe puseram este nome os descobridores dela, porque a acharam em seu dia), nasceu em Santarém o Príncipe D. Afonso, filho de El-Rei D. Duarte, o qual D. Afonso foi o quinto deste nome e duodécimo rei de Portugal.
Com grande contentamento de Gonçalo Velho e de sua companhia foi celebrado aquele dia da Assunção de Nossa Senhora com duas alegres festas, uma por entrar a Senhora no Céu a gozar dos bens da glória, outra por entrarem eles naquela ilha nova a lograr os frutos da terra.
[…] e a primeira terra […] onde saíram, foi, da banda de Oeste, numa curta praia de uma abra que se faz entre a ponta da terra, que se chama a Praia dos Lobos, e outra ponta, que se chama o Cabrestante, onde vai sair ao mar uma pequena ribeira que corre todo o ano, chamada a ribeira do Capitão, por correr pelas suas terras, que naquela parte depois tomou para si, que são a Faneca, Monte Gordo, Flor da Rosa, Paúl, Roça das Canas, onde nasce aquela ribeira que vai ter ali ao mar, junto do Cabrestante; onde se fez pelo tempo adiante o primeiro coval, junto da mesma ribeira, em uma pedra mole, como tufo, e amarela, como barro, que se corta à enxada, a que chamam saibro, no qual saibro, onde quer que o há na ilha, se dá o melhor vinho dela; onde se encovou o primeiro trigo que deu a terra. E assim são os granéis de toda a ilha, que depois fizeram em covas onde acham aquele tufo. E cada cova leva de dois até dez moios de trigo, conforme a como as querem fazer, em que o têm todo o ano, e quem o não encovar põe-se a risco de o perder, como muitas vezes se perde; nas quais covas só se guarda o que se há-de comer e não o que fica para semear, por se não danar, o qual têm fora em granéis, ou em sacos, até o tempo da sementeira. E a terra do Capitão, que ali teve, chega aos seus Covões, que são umas terras que têm uns vales como covas, e por isso lhe chamaram Covões, que estão ao pé da serra e do mato, as quais agora possuem seus herdeiros.
Assim que os primeiros que saíram em terra, ali junto do mar, ao longo daquela ribeira do Capitão, ou desta vez, ou da segunda, fizeram a primeira casa que na ilha se fez, e, depois, pelo tempo adiante fizeram outras pela ribeira acima, e esta foi a primeira povoação da ilha, e por isso escolheu depois ali o Capitão suas terras, que são as melhores da ilha, e dão mais e melhor fruto e trigo, quase como o de Alentejo, quando o ano é temperado e bom.
Andou Gonçalo Velho correndo a costa da banda do Sul, ora no navio, ora na bateira, saindo em terra onde achava lugar para isso, vendo-a coberta de muito e espesso arvoredo de cedros, ginjas, pau branco, faias, louros, urzes e outras plantas, notando as baías e pontas, [ao longo] da ilha, e tomando em vasilhas água de fontes e ribeiras e, da terra, alguns ramos de diversas árvores, que nela havia, para mostrar ao Infante.
Fazendo ali pouca detença, como viu tempo conveniente, se partiu para o Reino, onde, chegado ao lugar donde partira, disse ao Infante como achara a ilha, dizendo o que dela entendera e mostrando-lhe as coisas que levava da terra, com a qual nova o Infante, dando graças a Deus, que lha manifestara, e ficando muito contente, recebeu com bom gasalhado e cortesia a Gonçalo Velho e aos mais que lá em sua companhia mandara, fazendo mercês a todos, segundo a qualidade das pessoas e serviços e ofícios de cada um deles, porque, como os bons servos mostram sua virtude e fidelidade em servir com amor e diligência a seus senhores, assim os príncipes e grandes senhores manifestam sua grandeza e magnificência em fazer mercês a seus obedientes súbditos e galardoar com superabundância de amor e obras os serviços de seus fiéis criados.
Baía de S. Lourenço
Não se sabe a certeza se no ano seguinte, depois de achada esta ilha de Santa Maria, se depois algum tempo mais adiante, mandou o Infante deitar gado nela, e se logo a vieram povoar, se dali a alguns anos depois de deitado o gado; mas de crer é que, ou no mesmo ano, ou logo no outro seguinte, mandaria o Infante, solícito nestes descobrimentos, deitar gado vacum, e ovelhum, e cabras, e coelhos, e outras coisas, e aves domésticas para se criarem e multiplicarem na terra, entretanto que a não mandava povoar, e, pelo tempo adiante, pela boa informação que Gonçalo Velho deu da qualidade e fresquidão da terra, determinou o Infante, com aprazimento de El-Rei, de o mandar lá outra vez; mas não se sabe em que era, mais que conjecturar que dali a um, dois ou três anos, faria, como fez, mercê dela ao dito Frei Gonçalo Velho, que a achara, e o mandaria com gente nobre de sua casa e outra de serviço para a povoar, cultivar e beneficiar, e colher nela os frutos de seus trabalhos. Os quais, chegando a ela nos barcos dos navios, descobriram a costa de toda a ilha em torno, pouco a pouco, e, então, pelo tempo em diante iriam pondo os nomes a seu beneplácito às pontas, angras, e ribeiras, e lugares que povoaram, e, principalmente, à Vila do Porto, no bom que acharam em uma formosa baía, onde agora está a principal e mais nobre povoação de toda a ilha; […]
Afirmam todos, […] que os primeiros e mais antigos habitadores, que à ilha de Santa Maria vieram, foram […] o primeiro Capitão e descobridor dela, Frei Gonçalo Velho das Pias, comendador de Almourol, o qual, […] descobriu depois esta ilha de São Miguel, por mandado do dito Infante D. Henrique, e foi também Capitão dela; Nuno Velho e Pedro Velho, que passaram depois a esta ilha de São Miguel, ambos irmãos, e sobrinhos do dito Capitão, […] e João Soares de Albergaria, [também] seu sobrinho, […] que também foi Capitão, depois de seu tio, de ambas estas duas ilhas […].
[…] para fazer plantar canas-de-açúcar na ilha, e fazê-lo como na da Madeira, mandou o Infante D. Henrique a ela um mestre António Catalão, o qual as plantou e fez plantar logo no princípio, e deram-se muito boas, que trouxeram a moer nesta ilha de São Miguel, em Vila Franca, e fez-se delas muito bom açúcar; mas, pela pouca curiosidade dos homens, ou por não haver regadias, ou pelo pouco poder, cessou a granjearia delas. Este mestre António veio casado à ilha […] e faleceu de mais de cento e dez anos, deixando dois nobres filhos, Genes Curvelo e Francisco Curvelo, homens de muita maneira, honrados e generosos, de magnífica condição e grande esforço.
O Genes Curvelo trouxe os princípios todos da ilha, como foi provisão para se fazer a igreja, e ornamentos e sinos, e as coisas da Câmara, e vivia no cabo da ilha, da banda de Leste, onde se chama Santo Espírito; o qual houve cinco filhos e cinco filhas, com os quais vinha à Vila, à missa, todos a cavalo, com muita prosperidade; sua mulher, chamada Maria de Lordelo, era muito honrada, natural da ilha da Madeira. O Francisco Curvelo casou na ilha com Guiomar Gardeza, mulher nobre, de que houve nobres filhos e filhas. E, assim, de mestre António procedeu a geração dos Curvelos, que é a maior parte da terra. […]
Dizem também alguns que Pedro Álvares foi dos primeiros habitadores da dita ilha de Santa Maria e foi lugar-tenente do Capitão, e um seu filho, chamado João Pires, foi o primeiro homem que nela nasceu, e logo depois dele um Álvaro da Fonte. Mas, primeiro que estes ambos, a primeira pessoa que nasceu na dita ilha de Santa Maria foi uma Margarida Afonso, filha de Afonso Lourenço, do Paúl, que foi mulher de Diogo Fernandes Lutador, que depois morou na freguesia de Nossa Senhora da Luz do lugar dos Fenais, termo da Ponta Delgada, desta ilha de São Miguel.
Gaspar Frutuoso, Saudades da Terra [Livro III](1) Aceita-se, hoje, que teria sido descoberta em 1427 por Diogo de Silves.
terça-feira, 3 de maio de 2011
Fonte Bastardo: campeão nacional de voleibol
A equipa da Associação de Jovens da Fonte do Bastardo (Praia da Vitória, Ilha Terceira) venceu, pela primeira vez, o campeonato nacioal de voleivol.sábado, 26 de março de 2011
Revelação
quarta-feira, 23 de março de 2011
Lenda de Angra do Heroísmo
segunda-feira, 21 de março de 2011
Poesia
sábado, 19 de março de 2011
sexta-feira, 18 de março de 2011
A Nau Catrineta
quarta-feira, 16 de março de 2011
Será possível?
quarta-feira, 9 de março de 2011
Ilhéus das Formigas
O que destes baixos aparece sobre a água do mar tem no princípio um grande e alto penedo, e na outra ponta outro mais baixo e pequeno, e, do alto até o mais baixo, corre a compridão delas como do Nordeste a Su-sudoeste, e a ponta mais delgada delas, que é o penedo mais baixo, vai direita à ilha de Santa Maria, esvarando pela banda do Norte da mesma ilha. Têm estas Formigas, do penedo grande à outra ponta do outro penedo mais pequeno […], tanto como um bom tiro de besta. O penedo maior, que é a cabeça deste baixo, é de altura de uma casa sobradada, e, deste penedo para a ponta, que é outro penedo um pouco mais baixo, corre em altura de casa térrea. Assim que são três alturas diferentes, porquanto têm os meios mais baixos. E há um canal entre o penedo grande e o outro baixo mais baixo, por onde passam barcos de banda à banda, e aqui, neste canal, morre muito peixe de muitas maneiras nas bocas dele, e morrem também escolares. E da banda de Leste se abrigam os barcos a este penedo grande de todo o temporal que corre contrário de rosto ao Leste. A largura deste baixo será tanto como vinte côvados, de três palmos cada côvado, a lugares mais e a lugares menos. E da banda do Sul está outro baixo arredado, que é o penedo mais pequeno da outra ponta, por entre o qual e o baixo do meio pode passar um barco. E estes penedos dos cabos, assim o grande como o pequeno, chamam os mareantes Cuadas, porque são os extremos e pontas de todo este baixo, que está sobre o mar. […] Nestes baixos há muitos caranguejos, lapas, cracas e búzios, em tanta quantidade, que é coisa de espanto ver a multidão deste marisco. […] Da Cuada, ou cabo deste grande e mais alto penedo, direito ao Sueste, espaço de uma légua, demora outro baixo debaixo do mar, ficando-lhe o outro alto ao Noroeste, de maneira que estão ambos Noroeste Sueste. Este baixo, que chamam o Raso, é muito mais perigoso que o outro alto, de que mais se temem os mareantes, e onde os navios se perdem; e são três baixas debaixo do mar, com três eiras entrempadas como em triângulo, que farão todas três estendidas e o mar, que no meio se mete, quantidade de três alqueires de terra. Por muito manso e chão que esteja o mar, receia qualquer barco, por pequeno que seja, de se meter entre elas, pelo grande fervor que a água ali trás. Com baixa-mar, podem ser sobre estas baixas sete ou oito palmos de água, e com mar grosso (porque cava, então, muito), tudo aparece branco e quase se descobrem. Dizia um Álvaro Gonçalves Maranhão, mareante da cidade da Ponta Delgada, que já vira nestas baixas calhaus como de lastro de navio, que parece que ali em algum tempo de tormenta se perdera.
Neste baixo, e ao redor dele, em barcos, se faz a pescaria principal, onde morre peixe escolar e de toda sorte. Mas os barcos que pescam nele, por ser tão perigoso para de noite dormirem no mar, que é ali roleiro, logo se acolhem dele ao penedo grande, onde estão mais seguros.
[…]
Vindo a estas Formigas Frei Gonçalo Velho no novo descobrimento […], não achando ilha frutuosa e fresca, senão estéreis e feios penedos, e, em lugar de terras altas e seguras, vendo somente baixas pedras, tão baixas e perigosas, cuidando e suspeitando ele e os da sua companhia que o Infante seu senhor se enganara, julgando aquela pobre penedia por uma rica ilha, não entendendo todos eles com esta suspeita que havia mais que descobrir, se tornaram desgostosos ao Algarve, donde partiram, sem mais ver outra coisa que terra parecesse, e dando esta nova ao Infante D. Henrique, juntamente dizendo seu parecer, que não havia por este mar outras terras senão aquelas duras pedras que nele somente acharam.
Gaspar Frutuoso, Saudades da Terra [Livro III, Capítulo Primeiro]
sábado, 5 de março de 2011
Lenda dos nove irmãos
sexta-feira, 4 de março de 2011
Cancioneiro das Ilhas
quarta-feira, 2 de março de 2011
Açores e Atlântida
Mapa de Athanasius Kircher mostrando a Atlântida no meio do Oceano Atlântico. De Mundus Subterraneus, de 1669, publicado em Amesterdão. O mapa é orientado com o sul para cima (Wikipédia)
[…] se tornaram à cidade de Roma, sem achar estas ilhas dos Açores pegadas com a costa de Portugal ou de Europa, rodeando-a toda até ao cabo de Finisterra, sem fazer tão longo rodeio como fora, se pelas ditas ilhas dos Açores foram. Pelo que, do que tenho contado, se segue que nunca estas ilhas dos Açores foram pegadas com Portugal, como tem a primeira opinião, nem com ilha Atlântida, que não houve antes nem depois de Platão […], que é a segunda opinião, como, pelas histórias contadas atrás e pela experiência que dos mais tempos já tão conhecidos e lembrados temos, tão claro parece.[…]
Ainda se Platão não tivera que o Mundo teve princípio e cuidara, como cuidou Aristóteles, que era ab eterno, deste erro pudera persuadir que houvera em algum tempo atrás (de que não houve memória de homens) a ilha Atlântida, porque ninguém, então, lho pudera nem soubera contrariar, pela infinidade de anos em que atrás pudera haver sido o que contara ele e qualquer outro que quisera fingir histórias muito antigas. Mas ele tem que o Mundo teve princípio e a Igreja Católica, que é mais verdadeira e certa mestra que as escolas de Atenas, assim o afirma; e é verdade infalível de fé que teve o Mundo princípio, como se vê e prova no primeiro capítulo do Génesis, onde a Sagrada Escritura começa que no princípio criou Deus o Céu e a Terra. E temos anos contados no Mundo, desde o princípio dele até agora.
E os reis e governadores de Espanha que de Tubal, primeiro rei dela, começaram até os que em tempo de Platão e Aristóteles, seu discípulo, reinaram e governaram, e claramente vimos que, no tempo que eles reinaram e governaram, nem setecentos e cinquenta anos antes que Platão escrevesse […] haver tal Atlântida, nem rei dela, que aos de Espanha em algum tempo depois, nem dantes, vencesse, como tenho contado, os que a Tubal sucederam até os anos em que Platão e Aristóteles floresceram, e até os tempos claros e conhecidos em que notoriamente experimentamos e sabemos não haver tal Atlântida, por onde, nestes nossos tempos acordados, parece ficar ar e nada o sonho da Atlântida que Platão, como dormindo, sonhou e contou. […]
Não quero nisto dizer que Platão quisesse fingir esta história da Atlântida, senão que a contou como a ouviu a alguns, a que deu mais crédito do que o necessário […]
Também diz Platão que dos egípcios ouvira o que da Atlântida conta […]
Platão, como coisa nova, conta aos atenienses esta história da Atlântida e dos reis dela, como, sendo tão belicosos, foram vencidos pelos mesmos atenienses, como a eles nova e deles nunca sabida, nem ouvida. Eu não sei como possa ser que uma coisa tão grande, como diz que era a Atlântida, e tão poderosos reis dela e vencedores dos reis de Espanha, ou a subversão dela, ou a vitória que dela houveram os atenienses [...], sendo cada uma destas coisas tão grande e de tanto nome, que a menor delas era digna de memória perpétua, fosse ignorada e esquecida no Mundo todo, e especialmente em Espanha e em Atenas, pois de muito menores coisas e acontecimentos há tantas memórias e estão as escrituras cheias […]
Mais claro que o meio-dia fica e parece que nem reis de Atlântida venceram reis de Espanha, nem atenienses venceram reis de ilha Atlântida nem tal Atlântida no Mundo houve em algum tempo, pois tenho contado os tempos e as mais notáveis coisas e guerras deles (em que Platão diz que foi), sem neles, dantes nem depois, disso se achar nem em escritura, nem tradição, nem memória de homens lembrança, faro, parte, nem mandado.
[…] sem haver em tempo de nenhum deles memória de vitória que os atenienses tivessem de reis de Atlântida, pelo que claro parece nunca haver sido tal ilha. E não a havendo, mal podem ser estas ilhas dos Açores partes dela.
[…]
Se, para prova de não serem estas ilhas parte de Europa, nem da ilha Atlântida, não são suficientes as razões que atrás tenho ditas, digo que elas e outras, que por brevidade deixo de dizer, são bastantes para me persuadir e concluir, a mim, a ter o contrário das duas opiniões e me convencem meu entendimento para afirmar que entendo e não posso entender outra cousa, senão que parece claro que nunca estas ilhas dos Açores foram pegadas com Portugal ou Europa, como tem a primeira opinião. Nem houve em algum tempo ilha Atlântida, nem estas ilhas são parte sua, como a segunda opinião afirma. Mas nem com isso quero obrigar os entendimentos doutros (pois Deus os fez livres) a que entendam o mesmo e digam o que eu digo. Entenda e diga cada um o que quiser, que eu isto entendo e afirmo, enquanto não vejo outras melhores razões que me convençam meu entendimento no que agora disto alcanço saber.
Gaspar Frutuoso, Saudades da Terra, Livro I, (retirado dos capítulos 27º, 28º, 29º, 30º, 31º e 32º)
NOTA: Quero esclarecer que, devido à extensão do texto, me atrevi a retirar dele pequenos trechos que, no seu conjunto, pudessem dar uma ideia, ainda que imperfeita, do pensamento e da posição de Frutuoso face a este assunto.
Para tornar a leitura mais fácil e inteligível, procurei dentro do possível “modernizar” a grafia de certas palavras. Que me sejam perdoadas estas "liberdades".








